Seis semifinais inesquecíveis dos times que seguem sonhando na Liga Europa e na Conference
Rangers, Frankfurt, West Ham, Feyenoord, Olympique e Roma têm classificações memoráveis em semifinais europeias no passado

As semifinais da Liga Europa e da Conference League reúnem um bom número de equipes tradicionais. Dos oito sobreviventes, seis já conquistaram títulos continentais e acumulam finais em seu passado. Pela Liga Europa, troféus das copas secundárias estão nos museus de Rangers, Eintracht Frankfurt e West Ham. Somente o RB Leipzig fica de fora do grupo, com seu ápice na recente semifinal de Champions League perdida diante do PSG. A Conference, por sua vez, tem em Feyenoord e Olympique de Marseille antigos vencedores da Champions, enquanto a Roma foi vice do principal torneio e levou uma Taça das Cidades com Feiras. A exceção fica por conta do Leicester, que nunca tinha chegado tão longe numa competição da Uefa.
Aproveitando o início das semifinais nesta quinta, relembramos jogos marcantes a esses seis clubes em semifinais europeias passadas. Recontamos brevemente as histórias de duelos vencidos por cada um. Não seriam campanhas que culminariam necessariamente no título, mas em todas elas as classificações nas semifinais guardam ainda motivos para que suas torcidas se encham de orgulho.
Rangers (1972)
O Rangers experimentou sua grande glória nos torneios continentais em 1971/72. Em tempos nos quais o Celtic dominava as competições nacionais e também impunha respeito internacionalmente, os Teddy Bears herdaram a vaga na Recopa Europeia como vice-campeões da Copa da Escócia. Fizeram bonito, com o título, depois de dois vices anteriores no mesmo torneio. O grande momento aconteceu nas semifinais, diante do Bayern de Munique. Aquele duelo tinha ares de revanche, já que os alemães venceram os escoceses na decisão da própria Recopa em 1967. Mas o nível dos bávaros naquele momento era ainda maior, com a geração de ouro iniciando um tricampeonato nacional antes do tri na Champions.
O Rangers era treinado por Willie Waddell, lenda do clube. Colin Stein e Willie Johnston estrelavam o ataque, Dave Smith vivia fase exuberante no meio, John Greig liderava com a braçadeira de capitão na zaga. Ainda assim, os bons nomes dos Gers não chegavam próximos da fama de Franz Beckenbauer, Gerd Müller, Paul Breitner, Sepp Maier e os demais craques do outro lado. Até por isso, o empate por 1 a 1 em Munique soou como lucro aos escoceses. Os bávaros amassaram os visitantes ao longo do primeiro tempo, mas só marcaram um gol, com Breitner. Um tento contra de Rainer Zobel no início da segunda etapa salvou a pele dos Teddy Bears. Os azarões cresceram depois do gol, muito graças ao excelente preparo físico.
Já a volta ocorreria numa noite histórica de futebol em Glasgow. Enquanto o Rangers pegava o Bayern em Ibrox pela Recopa, o Celtic fazia a semifinal da Champions diante da Internazionale em Parkhead. Só o lado azul da cidade comemorou. Os Gers buscaram uma surpreendente classificação, com a vitória por 2 a 0. Sandy Jardine acertou um chutaço de fora da área e surpreendeu Maier para abrir o placar com menos de um minuto. Já aos 24, o herói seria o garoto Derek Parlane, que fazia apenas seu terceiro jogo como profissional e marcou na sobra de um escanteio. Depois disso, os bávaros se perderam. As discussões se tornaram constantes, com direito a Maier e Beckenbauer se desentendendo na área. Os Teddy Bears venceram na bola e na mente. O inédito título do Rangers viria semanas depois, numa tumultuada final contra o Dínamo Moscou no Camp Nou.
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Eintracht Frankfurt (1980)
A primeira semifinal europeia do Eintracht Frankfurt certamente foi inesquecível: as Águias ganharam os dois jogos do Rangers, por acachapantes 6 a 1 e 6 a 3, antes da lendária final da Champions de 1959/60 contra o Real Madrid. No entanto, 20 anos depois, o clube também foi capaz de um feito respeitabilíssimo na Copa da Uefa, em campanha rumo ao título. O Frankfurt despachou ninguém menos que o Bayern de Munique, revertendo uma situação bastante difícil e goleando no Waldstadion. Foi um momento especial, antes que o troféu viesse em outro duelo doméstico, em decisão vencida contra o Borussia Mönchengladbach.
Friedel Rausch estava à frente do Eintracht Frankfurt, que reunia uma série de ídolos históricos naquele momento. O meia Bernd Hölzenbein era a grande figura em campo, já que o ponta Jürgen Grabowski tinha sido forçado a se aposentar pouco antes por lesão. Outros como o zagueiro Karl-Heinz Körbel, o volante Norbert Nachtweih e o atacante Cha Bum-kun engrandeciam as Águias. O Bayern, por sua vez, vivia um período de transição e naquela temporada reconquistaria a Bundesliga depois de seis anos. Mesmo assim, tinha craques do calibre de Karl-Heinz Rummenigge (o Bola de Ouro daquele ano), Paul Breitner e Klaus Augenthaler.
O Bayern de Munique parecia encaminhar a classificação na ida dentro do Estádio Olímpico de Munique. Dieter Hoeness e Breitner marcaram os gols no triunfo por 2 a 0. A resposta seria necessária no Waldstadion. E o Eintracht Frankfurt conseguiu emplacar uma histórica goleada por 5 a 1, que não deixou de ter sua dose de drama antes da prorrogação. O líbero Bruno Pezzey foi o herói no tempo normal, ao abrir o placar aos 31 minutos do primeiro tempo e ampliar já aos 42 do segundo, com uma cabeçada. O placar revertido levava à prorrogação e Harald Karger anotou o terceiro com uma pancada na área. Ainda no primeiro tempo extra, Wolfgang Dremmler até descontou ao Bayern num chute de longe que o goleiro Jürgen Pahl aceitou. Mas Karger anotou o quarto depois do intervalo e o golpe de misericórdia veio num pênalti convertido por Werner Lorant. A reviravolta estava completa e o Frankfurt só pararia com a taça. Karger, curiosamente, teria uma curta carreira depois disso. O centroavante de 23 anos se aposentou por conta de uma lesão sofrida na ida da final.
West Ham (1976)
O maior orgulho do West Ham é a sua geração dos anos 1960, que serviu de base à seleção inglesa campeã do mundo e também fez bonito além das fronteiras. Em 1964/65, os Hammers conquistaram a Recopa Europeia e superaram um forte Zaragoza na semifinal. Porém, a história mais viva na memória nesta semana é a vivida por outra geração muito celebrada, a dos anos 1970, que disputou a final continental mais recente dos londrinos, na Recopa de 1975/76 – perdida para o Anderlecht. Aquele time, afinal, seria capaz de superar na semifinal exatamente o Eintracht Frankfurt, que de novo cruza o caminho dos ingleses nesta edição da Liga Europa. Será um encontro cheio de lembranças, mais doces em Londres.
Aqueles eram os primeiros dos 15 anos de John Lyall à frente da equipe, um verdadeiro ícone do West Ham. Dentro de campo, os Hammers estavam também cheios de nomes célebres. Sir Trevor Brooking era o maestro no meio-campo, enquanto Billy Bonds garantia a proteção e Frank Lampard (o pai) ocupava a lateral esquerda. Não que o Frankfurt fosse menor, com a presença de Grabowski, Hölzenbein, Körbel e Bernd Nickel entre suas estrelas. As Águias apresentaram essa capacidade com o triunfo por 2 a 1 no Waldstadion, de virada. Graham Paddon abriu o placar para os ingleses numa bomba de fora da área. Willi Neuberger e Wolfgang Kraus, no entanto, buscaram o triunfo dos alemães. O goleiro Mervyn Day realizou importantes defesas naquela noite, enquanto, do outro lado, dois gols ingleses foram anulados. A situação favorecia os germânicos rumo a Londres.
O campo de Upton Park era um lamaçal só e a arbitragem até hesitou em realizar o jogo nestas circunstâncias, mas a bola “rolou” e o West Ham conseguiu uma histórica vitória por 3 a 1. Sir Trevor Brooking assumiu a responsabilidade e resolveu. O placar foi inaugurado já no início do segundo tempo. Frank Lampard cruzou para Brooking anotar de cabeça. O segundo seria um verdadeiro golaço de Keith Robson, num pombo sem asa que entrou diretamente no ângulo. Já no terceiro, seria a vez de Tommy Taylor acertar um lançamento primoroso e Brooking dar um drible desconcertante no marcador, mesmo com a lama, antes de ampliar. Restavam 20 minutos no relógio, mas o Frankfurt só descontou aos 42, com Klaus Beverungen. Uma grande chance perdida por Roland Weidle também custou caríssimo aos germânicos. Mesmo que o desfecho daquela campanha não seja feliz, é o espírito de luta daquela ocasião que os Hammers esperam rever numa semifinal.
Feyenoord (2002)
O Feyenoord conquistou a Champions de 1969/70 deixando o Legia Varsóvia pelo caminho na semifinal e a Copa da Uefa de 1973/74 com a classificação sobre o Stuttgart na mesma fase. Mais presente é a lembrança da semifinal mais recente, diante da Internazionale, na Copa da Uefa de 2001/02. Aquela competição possui um grande simbolismo para o Stadionclub, já que rendeu também um comemorado título da Copa da Uefa após quase três décadas sem conquistas continentais dos holandeses. Melhor ainda, a final previamente estava assinalada para o Estádio De Kuip e o time de Roterdã pôde erguer a taça em casa, numa emocionante vitória por 3 a 2 diante do Borussia Dortmund.
Aquele Feyenoord era dirigido por Bert van Marwijk, que depois levou a seleção holandesa a um vice-campeonato mundial. Dentro de campo, a equipe reunia talentos locais e estrangeiros. Robin van Persie eclodia no nível profissional, enquanto Paul Bosvelt e Pierre van Hooijdonk eram outras duas figuras com nível de seleção. Já entre os forasteiros, Jon Dahl Tomasson estrelava o ataque, com a companhia de talentos como Shinji Ono e Bonaventure Kalou. Um bom time que não se comparava à potência da Inter de Javier Zanetti, Iván Córdoba, Clarence Seedorf, Christian Vieri, Álvaro Recoba, Francesco Toldo e um Ronaldo que acabara de voltar de lesão. Existia uma expectativa, aliás, de que pudesse ocorrer uma decisão milanesa, com o Milan encarando o Borussia Dortmund na outra semifinal.
Não foi o que aconteceu, em nenhum dos confrontos. E o Feyenoord tem méritos por abrir vantagem dentro do San Siro, contra uma Inter recheada de reservas por Héctor Cúper. A vitória por 1 a 0 saiu no início do segundo tempo, num cruzamento de Van Hooijdonk que Iván Córdoba desviou contra as próprias redes. Quando os times se reencontraram no De Kuip, os nerazzurri levaram uma equipe bem mais qualificada a campo, mas de novo o Stadionclub lidou melhor com a situação e se valeu do empate por 2 a 2, após abrir dois gols de vantagem. Numa linda jogada de Van Persie, Van Hooijdonk marcou o primeiro de cabeça aos 17 minutos. Aos 34, a conta também estava dobrada num contra-ataque em que Tomasson anotou no rebote. A reação da Inter viria apenas depois dos 38 do segundo tempo, com Cristiano Zanetti e Mohamed Kallon, mas era tarde para virar. O Feyenoord jogaria a final junto dos seus – e ganharia.
Olympique de Marseille (2004)
O Olympique de Marseille é o único time francês que já conquistou a Champions League, mas aquele troféu continental também é o único dos celestes. Os marselheses disputaram três finais de Copa da Uefa / Liga Europa desde os anos 1990 e perderam todas elas. Não quer dizer, porém, que não existam boas lembranças nessas caminhadas. Talvez a derrota mais lamentada tenha sido a ocorrida na Copa da Uefa de 2003/04, quando o OM derrotou Liverpool e Internazionale nos mata-matas, antes de superar uma endinheirada equipe do Newcastle (não tanto quanto a atual) na semifinal. Porém, o troféu escaparia por entre os dedos na decisão diante de um igualmente forte Valencia.
José Anigo dirigia um Olympique de Marseille com boas figurinhas carimbadas. A grande sensação daquela temporada era um jovem Didier Drogba empilhando gols no ataque. Aquele time ainda possuía Fabien Barthez no gol, Mathieu Flamini fechando o meio e Steve Marlet dando mobilidade no ataque. No papel, o Newcastle de Sir Bobby Robson ainda assim parecia favorito. Tinha estrelas do porte de Alan Shearer, Shay Given, Gary Speed e Laurent Robert. Dentro de campo, porém, os marselheses se valeram da fase estelar de Drogba para avançar. O centroavante fazia seu nome ser conhecido pelos ingleses, pouco antes de se mudar ao país para fazer história pelo Chelsea.
A ida aconteceu em St. James’ Park e as duas equipes não saíram do 0 a 0. Drogba chegou a carimbar a trave, mas o Olympique de Marseille também deu sorte quando Shearer perdeu grande chance diante de Barthez. O OM prevaleceu na volta, diante de uma atmosfera incrível no Estádio Vélodrome, e ganhou por 2 a 0. Drogba abriu a contagem aos 18 minutos, num contra-ataque em que recebeu na intermediária e desnorteou Aaron Hughes com seu drible, antes de tocar na saída de Given. Os marselheses permaneceram melhores, até que o segundo viesse aos 36 do segundo tempo. A defesa cometeu o erro de não acompanhar Drogba numa cobrança de falta lateral e o artilheiro surgiu sozinho na marca do pênalti, ficando fácil para fuzilar. Uma pena que o marfinense tenha se despedido da torcida sem o troféu continental.
Roma (1991)
A Roma persegue um título continental que não vem desde o início dos anos 1960, quando os giallorossi faturaram a Taça das Cidades com Feiras. Antes disso, os romanistas também precisam quebrar a barreira das semifinais, o que não acontece há três décadas, com duas quedas recentes por Champions e Liga Europa desde 2018. Para mirar aos sucessos, os torcedores italianos precisam olhar um pouco mais ao passado. Durante a “era de ouro do Calcio”, a Loba disputou finais de Copa dos Campeões e de Copa da Uefa. A mais recente aconteceu na Copa da Uefa de 1990/91, quando a Roma encarou uma surpreendente equipe do Brondby e prevaleceu para disputar a final contra a Internazionale – que, mais badalada, acabou sendo campeã.
Aquele time da Roma dirigido por Ottavio Bianchi, dono do Scudetto com o Napoli em 1986/87, pode não ter registrado grandes feitos na Serie A, mas merecia respeito. A grande estrela era o capitão Giuseppe Giannini. Entre os estrangeiros, os campeões do mundo Rudi Völler e Thomas Berthold garantiam mais força, enquanto Aldair despontava como lenda. Outros como Ruggiero Rizzitelli, Amedeo Carboni e Giovanni Cervoni completavam a boa equipe. O Brondby era dirigido por Morten Olsen e formava ali a base da Dinamarca que seria campeã europeia na temporada seguinte. Peter Schmeichel, John Jensen e Kim Vilfort seriam figuras fundamentais no inesperado título da Euro 1992, com sete titulares da equipe nacional nos auriazuis. Apesar disso, deu a Loba.
A primeira partida aconteceu na Dinamarca e o empate por 0 a 0 não parecia mau negócio para a Roma. Os italianos armaram uma forte marcação e anularam as virtudes do Brondby. A comemoração dos giallorossi, de qualquer forma, aconteceu mesmo no Estádio Olímpico. A emocionante classificação seria arrancada nos minutos finais, com a vitória por 2 a 1. Empurrada pela torcida que lotava o estádio, a Loba até saiu em vantagem no primeiro tempo, numa cabeçada de Rizzitelli. O Brondby empatou aos 17 do segundo tempo, num gol contra de Sebastiano Nela, e o tento fora classificava os dinamarqueses. Os romanistas precisaram insistir muito na segunda etapa, e a bola não entrava. Quando Schmeichel não salvava a pátria, a zaga conseguia salvar em cima da linha. Somente aos 42 é que o triunfo viria. Schmeichel rebateu para frente o chute de Stefano Desideri e Völler se esticou no carrinho para mandar para dentro. Era um triunfo heroico, que valia a decisão.
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