Champions League

Yaremchuk mudou o jogo para o Benfica e levou o debate sobre a Ucrânia para o gramado da Champions

Yaremchuk marcou o gol de empate no segundo tempo e exibiu uma camiseta com o Tryzub, símbolo nacional da Ucrânia

Roman Yaremchuk saiu do banco de reservas para mudar a cara do Benfica 2×2 Ajax. Num momento em que os encarnados já pressionavam pelo empate, o ucraniano deu mais presença ofensiva à equipe e garantiu momentos de perigo. O gol anotado pelo atacante, no fim das contas, também acaba enfatizando uma manifestação política. Durante a comemoração, ele tirou a camisa do clube e exibiu uma camiseta com o Tryzub – símbolo nacional da Ucrânia. O posicionamento acontece em meio à enorme tensão com a Rússia e o conflito no país, com a iminente invasão.

Yaremchuk foi um dos principais negócios do Benfica para a atual temporada. O atacante chegou valorizado pela participação na Euro 2020, além de ter vivido uma ótima temporada com o Gent em 2020/21. Formado pelo Dynamo Kiev, o ucraniano não chegou a estourar no clube e ascenderia mesmo no futebol belga. Foram 61 gols e 18 assistências em quatro anos pelo Gent, afirmando-se como um atacante com presença de área, mas também inteligência para construir. Os encarnados desembolsaram €17 milhões pela transferência.

A temporada de Yaremchuk pode não ser tão estrondosa quanto a aposta indicava, mas o Benfica também atravessa claros problemas. Ofuscado por Darwin Núñez, Yaremchuk por vezes sai do banco de reservas. Marcou seis gols pelo Campeonato Português, embora sua maior contribuição tenha ocorrido mesmo na Champions. Já tinha garantido três assistências nas preliminares (uma delas contra o Spartak Moscou) e marcou seu gol na fase de grupos para garantir a classificação justo contra o Dynamo Kiev.

O duelo contra o Ajax começou duro para o Benfica, que não conectou tanto o seu ataque durante o primeiro tempo. Os encarnados precisavam de mais aceleração na segunda etapa, e isso veio com os elétricos Rafa Silva e Darwin Núñez. Sem que Cebolinha jogasse tão bem assim, apesar de quase conseguir o empate, a entrada de Yaremchuk foi essencial. O ucraniano liberou Darwin para flutuar mais e garantiu referência na área. Foi a campo ligadíssimo. Poderia ter marcado o gol num lance salvo por Jurriën Timber, quando já tinha passado pelo goleiro. Isso até assinalar o empate com oportunismo, conferindo de cabeça um rebote de Remko Pasveer.

Durante a comemoração, Yaremchuk logo tirou a camisa do Benfica e exibiu a camiseta preta com o brasão de armas prateado. O Tryzub é um símbolo existente desde o Século X, ligado à identidade nacional dos ucranianos. Está presente em várias referências ao país, incluindo o brasão de armas atual e o escudo da própria federação de futebol, embora também seja usado por movimentos ultranacionalistas e extremistas. No caso do atacante, a princípio, o posicionamento é mesmo sobre os conflitos com a Rússia em relação ao leste do território ucraniano. Yaremchuk recebeu o cartão amarelo e tende a ser enquadrado pelo comitê disciplinar da Uefa.

Depois da partida, Yaremchuk comentou sua celebração: “Queria apoiar o meu país. Tenho pensado muito nisto e tenho medo desta situação. Quero apoiar um bocadinho o meu país. O clube está a me apoiar, falou comigo e quis fazer de tudo para me ajudar. Agradeci, mas já está tudo bem”, afirmou o ucraniano, à CNN Portugal. “Estou feliz. Quer jogue cinco ou dez minutos, vou lutar sempre pela minha equipe, pelos meus colegas e pelos torcedores. Estou aqui para marcar gols, é o que tenho de fazer”.

A imagem de Yaremchuk repercutiu de imediato. E pela maneira como seu posicionamento aconteceu num jogo de mata-mata de Champions League, é bem possível que ele seja alçado como um símbolo de resistência para a Ucrânia neste momento. Em termos futebolísticos, seu peso também foi enorme. Recolocou o Benfica no confronto e mantém o caminho aberto para buscar a classificação em Amsterdã.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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