Champions League

Valverde exalta raízes uruguaias e brinca com garrafada no ônibus do Real: “Eu vim do Peñarol”

Meio-campista falou com bom humor após a classificação contra o Liverpool e também deu uma baita entrevista ao Guardian

Federico Valverde foi um nome fundamental na semana do Real Madrid. O uruguaio saiu como um dos melhores em campo no clássico contra o Barcelona, ao participar da construção do primeiro gol e fechar a marcação sobre Jordi Alba no lado direito da defesa madridista. O jovem estava lesionado e precisou tomar infiltrações, mas não deixou os merengues na mão e também se empenhou no reencontro com o Liverpool, para selar a classificação às semifinais da Champions League. E o charrua não se intimidou nem com a chegada tumultuada a Anfield.

Quando o ônibus do Real Madrid se aproximava do estádio, foi atingido por objetos, incluindo garrafas. A proteção de uma das janelas se quebrou, embora nenhum vidro tenha estourado e ninguém tenha se machucado. Valverde, no entanto, preferiu levar o episódio numa boa. Depois da partida, lembrou que veio do futebol uruguaio e até brincou com a situação.

“A garrafada no ônibus é coisa que acontece no futebol, não tem nada de mais. Eu venho do Peñarol (risos). Isso te dá uma motivação a mais. Você entra em campo para matar, para dar seu máximo”, declarou Valverde, na saída de campo. “Quando você coloca a camisa do Real Madrid, tem que lutar por tudo. Temos lesões, é difícil, mas sabemos que o time está buscando seus objetivos e vamos nos entregar”.

Valverde também comentou o trabalho em marcar Sadio Mané: “O Liverpool é uma grande equipe. Mané arranca por muitos metros, é ótimo, me custou marcá-lo, mas tratei de dar meu melhor e ajudar a classificação da minha equipe. Eles atacaram pelos lados, entrava muita gente na área para os cruzamentos. Corrigimos isso e ficamos atentos nas marcações. Creio que tivemos chances claras, não aproveitamos, mas nos classificamos mesmo sem ganhar e isso é o mais importante”.

Durante a semana, Valverde também tinha concedido uma boa entrevista ao jornal The Guardian. Relembrou suas raízes no Uruguai e confessou que segue assistindo o campeonato local. Inclusive, lembrou dos tempos em que enfrentou outro Liverpool, o de Montevidéu.

“O Liverpool de Montevidéu é preto e azul, azul como o Everton. Também há uma diferença na maneira como se pronuncia o nome. Eu os enfrentei e ganhamos por 1 a 0. Eles jogaram muito bem o último Clausura. É um bom clube, que promove sua base. O campo deles é ótimo, com um belo gramado”, comentou. “No Uruguai, nem todo campo tem grama, mesmo na primeira divisão. Então imagine na base. Há campos de terra, de cascalho. Você bate um escanteio e tem um animal perto de você”.

“Isso te faz crescer, lutar, ser mais forte. É lindo voltar de um jogo com o rosto coberto de sujeira, o cabelo duro pela lama, as chuteiras cheias de pedras. A coisa mais bonita que uma criança pode vivenciar é entrar no ônibus todo final de semana com seu uniforme, compartilhar esse sentimento com seus amigos e sua família”, romantizou. “O futebol é uma essência do Uruguai, as pessoas morrem por seus times, eles são malucos pelo clube. E quando você é criança, a primeira coisa que jogam a você é uma bola. Temos uma população pequena, então produzir tantos jogadores enche você de orgulho”.

Valverde confirma como a cultura do futebol, e de um futebol raçudo, está enraizada entre os uruguaios mesmo nas conversas com amigos e na vivência com a família: “Às vezes, deixamos o futebol de lado, porque é bom apenas curtir a família, as crianças. Mas mesmo que estejamos brincando com as crianças, dando risada, o futebol sempre está como pano de fundo. Sempre há comentários, brincadeiras. Se você não ganha, fica chateado. Meu filho Benício é muito pequeno, a bola é grande. Mas quando jogo com minha esposa, eu não me seguro: dou carrinho nela. Ou ela passa ou a bola passa, nunca as duas”.

Casado com uma jornalista argentina, torcedora do River Plate, Valverde garante que Benício será aurinegro desde cedo: “Meu filho vai ser torcedor do Peñarol e eu sempre defenderei o Uruguai em casa. Comecei aos três anos no Estudiantes de la Unión, no meu bairro, um lugar humilde, de classe trabalhadora”. Filho de um segurança e de uma vendedora, Federico recebeu uma proposta do Peñarol ainda na infância. Segundo ele, um olheiro do clube chegou à barraca onde a mãe vendia roupas e brinquedos, perguntando se ela era mãe ‘daquele garoto magrelo que voa’. Então, começou sua história carbonera. “Só a bola fazia meus olhos brilharem. Meus pais lutaram por mim, com aquele suor, trabalho e lágrimas. Tê-los aqui agora, vê-los bem, curtindo meu filho, me dá uma força que não consigo descrever”.

Apesar do apoio em casa, Valverde chegou a largar os estudos para seguir seu sonho, numa decisão bastante arriscada: “Houve um momento de mudança na minha vida – um momento do qual também me arrependo, porque gostaria de ter ficado na escola – que eu tive que decidir entre os estudos ou o futebol, porque estava faltando muito. Tive que sair, com 14 ou 15 anos, já jogava na base da seleção. Viajava muito, faltava nas aulas, ficava atrasado no conteúdo, era duro. Meus pais não queriam, mas não conseguia conciliar. Então decidi me dedicar só ao futebol. Felizmente, deu certo”.

Além dos pais, o meio-campista exalta a ajuda que teve de um ídolo, Diego Forlán, assim que se profissionalizou no Peñarol: “Tive a grande sorte de que, quando estreei no Peñarol, o clube que amo, Forlán chegou. Não sabia o que pensar, o que dizer. Mas ele foi incrível, e não apenas no futebol. Ele me ajudou a entender, a não perder minha cabeça. Quando grandes clubes apareceram, ele disse: ‘Mantenha a calma, você é jovem, aproveite cada dia. Se eles vieram atrás de você, é porque você tem algo. Deixe isso te motivar’. Não sei se a palavra é medo. Quando você corre atrás de seu sonho, não há nada que pode te atrapalhar, mas existem obstáculos. Talvez para alguns sair de casa aos 18 anos não seja problema, mas para mim não era fácil. Em Madri te dão tudo, há milhares de pessoas para ajudar, mas o amor de mãe e pai é diferente. No entanto, quando você tem um objetivo, não existe barreira”.

O uruguaio também reconhece a sorte de, no Real Madrid, compartilhar o meio-campo com Casemiro, Toni Kroos e Luka Modric: “Eles ganharam tudo na Espanha e internacionalmente, cheios de Champions League. Juntá-los seria criar o jogador perfeito. Casemiro está sempre vivo em tudo: forte, rápido, vê os espaços se abrindo, os jogadores chegando para pressionar. Luka é dinâmico, com os passes entre linhas. E Toni tem a paciência e a habilidade para jogar sem pressão, como se estivesse no quintal de casa. O que seria melhor pra mim do que compartilhar os vestiários com eles? Você apenas tem que assistir e aprender, e ouvir se eles te derem conselhos”.

“Casemiro me ajudou bastante, facilitando minha adaptação, em cima de mim o tempo todo. Quando há uma rivalidade saudável, o time se torna melhor, e amo ter essa competição, três jogadores que tornam quase impossível ser titular. Gosto do desafio, de lutar para jogar. E, quando você começa a jogar ao lado deles, você aproveita ainda mais”, complementou.

Sobre as quartas de final da Champions, Valverde contou como nutria uma simpatia pelo Liverpool (o inglês) graças a um ídolo que agora é seu companheiro na seleção: “A maioria dos uruguaios torce pelos times uruguaios. Quando Suárez estava no Liverpool, eu torcia por Luis. Isso acontece com Cavani no Manchester United, também. Mas acho que vão torcer pelo Real Madrid agora”. Na semifinal da Champions, certamente, haverá uma simpatia maior pelo Real Madrid entre os charruas graças ao meio-campista que dá seu máximo em campo – sem se intimidar com garrafadas ou qualquer coisa.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo