Um recital de Messi permitiu ao Barcelona reviver seus melhores delírios em Wembley

Ao Barcelona, ganhar La Liga não parece mais suficiente neste momento. Os blaugranas fizeram uma campanha dominante na temporada passada, que não rendeu o brilho devido à vantagem estabelecida. A falta de atratividade no futebol exibido pelo time de Ernesto Valverde é um ponto, dependente demais das defesas de Marc-André ter Stegen e do talento de Lionel Messi para somar tantos pontos. Entretanto, há também o olhar na verdejante grama do vizinho, enquanto o Real Madrid arrebatava o tricampeonato da Liga dos Campeões. Por isso mesmo, a necessidade de reconquistar a Orelhuda e dar uma resposta aos rivais se torna ainda mais necessária. E que o momento esteja distante do conforto no Espanhol, uma boa vitória no torneio continental é o que sana todos os anseios dos blaugranas. Dentro de Wembley, de inspiração óbvia pelas conquistas europeias em 1992 e 2011, o Barça protagonizou uma atuação deslumbrante diante do Tottenham. Que os adversários não estivessem em seu melhor dia e até tenham esboçado uma reação, não se nega a superioridade dos catalães na vitória por 4 a 2. De novo, Messi. O camisa 10 foi o regente da sua orquestra e, entre tantas grandes atuações, teve uma de suas melhores.
Ernesto Valverde seguia com suas variações na equipe e vinha com mudanças em relação ao empate com o Athletic Bilbao. Lionel Messi e Sergio Busquets voltaram a aparecer no 11 inicial. Além disso, Arthur disputou o seu primeiro jogo como titular, escalado no meio-campo, deslocando Philippe Coutinho ao ataque. Por outro lado, o Tottenham lidava com uma lista grande de desfalques, que incluía Jan Vertonghen, Moussa Dembélé, Christian Eriksen e Dele Alli. A equipe contava com Harry Winks e Victor Wanyama entre os volantes. Mais à frente, a trinca de meias era composta por Erik Lamela, Lucas Moura e Son Heung-min. No comando de ataque, Harry Kane.
Com uma formação que talvez seja a sua ideal, o Barcelona não teve problemas para dominar o jogo desde o princípio. O primeiro tempo contou com um passeio e o gol inaugural saiu logo no primeiro minuto. Méritos de Messi, que deu um lançamento primoroso a Jordi Alba, nas costas de Kieran Trippier, e quebrou a defesa dos Spurs. Hugo Lloris saiu mal e o lateral apenas rolou para Philippe Coutinho arrematar com a meta escancarada. Os blaugranas dominava a posse de bola e jogavam totalmente à vontade em Wembley, sabendo lidar com a marcação alta dos londrinos. Pior, o time da casa sequer conseguia responder no ataque, errando demais nas transições e demonstrando pouca criatividade.
Jogando de maneira organizada, o Barcelona primava pela velocidade em sua saída de bola, com Arthur auxiliando isso. Já nas pontas, Messi e Coutinho eram dois incômodos ao Tottenham. O time da casa faria sua única finalização aos 24 minutos, em tiro de Harry Kane que Ter Stegen agarrou. Foi o aviso para os blaugranas se tornarem mais incisivos. O segundo gol saiu aos 27, em mais uma boa jogada construída por Messi. O camisa 10 levantou na área, Luis Suárez ajeitou e Coutinho ficou sem ângulo para o chute, mas cruzou para Rakitic pegar na bola de maneira primorosa na entrada da área. Mandou no cantinho de Lloris, assinando um golaço.
Em meio às seguidas chances do Barcelona, o Tottenham só voltou a assustar em uma bola desviada que Ter Stegen se contorceu para espalmar, operando um milagre. De qualquer maneira, os mandantes pareciam os espanhóis, jogando com muita tranquilidade e concentração. Mesmo passando em branco, Suárez participava bastante e brigava pelas bolas. Ajudava a dar mais gana a um time em ritmo alto, sabendo muito bem como lidar com um jogo desse calibre. Parecia que, depois de algumas atuações decepcionantes nas últimas semanas, os catalães estavam dispostos a mostrar as suas credenciais.
E isso aconteceu, definitivamente, no início de segundo tempo arrasador do Barcelona. Se Messi serviu de maestro no primeiro tempo, no segundo ele voltou a se tornar o velho definidor. Por duas vezes a trave o barrou. Na primeira, puxando contra-ataque, mandou no cantinho e carimbou o poste. Movimento repetido quatro minutos depois, acertando o mesmo pé da trave, em nova arrancada. O Tottenham se aliviava e respirou de vez na sequência do jogo. Foi sua vez de avançar em velocidade, pegando a defesa adversária aberta. Harry Kane invadiu a área e chamou Semedo para dançar, dando uma finta belíssima no marcador, à Messi. Definiu com muita qualidade, completando a pintura. Quando a situação parecia mais preocupante, os londrinos voltaram à partida.
Messi respondeu aos dez, enfim balançando as redes e anotando o terceiro do Barça. A jogada começou com uma boa combinação entre Arthur e o argentino pelo centro. Jordi Alba avançou pela esquerda e cruzou. Ninguém completou na área, até que Messi, aparecesse para o chute caprichoso. A bola foi no mesmíssimo canto inferior direito de Lloris. Desta vez para dar um beijo na trave e entrar, sem impedir a festa do craque. Era o capricho em um recital do camisa 10. Mostrava o seu melhor nas velhas arrancadas, com a bola grudada ao pé. Movimentava-se, criava espaços, encontrava-os onde ninguém mais os via. E a precisão nas jogadas impressionava, seja nos passes ou nas definições. Se a imprensa catalã noticiou seu incômodo com a má sequência recente, ele tratou de fazer acontecer. Estava inspiradíssimo.
Com o jogo nas mãos, o Barcelona relaxou. Foi o momento em que o Tottenham realmente melhorou na partida e, depois de permanecer alguns minutos um tanto quanto recuado, tentou se impor de maneira efetiva para diminuir o prejuízo. Os blaugranas tentaram abafar o duelo em seu campo, mas viram os anfitriões crescerem em um jogo mais físico. Ressuscitaram de vez aos 21 minutos, em chute de Lamela que desviou em Clément Lenglet e terminou nas redes, sem chances de defesa para Marc-André ter Stegen. Por pouco o Barça não fez o quarto logo depois, em lance cheio de trapalhadas da defesa londrina, em que Toby Alderweireld travou Messi na hora exata. Todavia, os Spurs pressionavam e tiveram dois lances de perigo com Lucas Moura.
Se o empate saísse, acabaria sendo injusto por aquilo que aconteceu ao longo do jogo. O Barcelona teve condições de aplicar uma goleada maior. E nada mais cabível, então, que Messi tratasse de matar o duelo aos 45. Em uma saída de bola do Tottenham, os catalães tiveram gás para pressionar e roubar a posse. Alba recebeu na esquerda e cruzou rasteiro. Suárez deu um corta-luz inteligentíssimo e deixou a bola para o camisa 10, completamente livre dentro da área. Onde ele perdoa menos ainda, encerrando a sua exibição de gala. O time de Ernesto Valverde segue com seus problemas, especialmente pela falta de confiança na defesa, o que complicou desnecessariamente o embate em Wembley. Entretanto, possui seus craques, e quando eles estão em seu melhor, fica difícil segurá-los. Pior ao Tottenham, que não soube lidar com Messi.
Cabe valorizar as atuações de Arthur e Philippe Coutinho. O meio-campista deu uma dinâmica que o Barcelona não vinha tendo nas últimas partidas e, que sua atuação não tenha sido estrondosa, mostrou que tem bola suficiente para se tornar titular. Já o ponta teve grande influência no primeiro tempo e uma das armas do time foi a maneira como ele pôde se combinar com Suárez e Messi na linha de frente. Ajudou a desmontar o esquema do Tottenham. Com seis pontos conquistados, os blaugranas nadam de braçada em uma chave que se prometia mais dura. Os Spurs, por outro lado, ligam o alerta vermelho. Estão longe de exibir a eficiência de outros tempos, sobretudo na Champions, com duas derrotas em duas rodadas. Terão que tirar muitas lições daquilo que ocorreu nesta quarta em Wembley.



