Um mini-guia do PSG x Bayern de Munique pelas oitavas de final da Champions
O duelo de mais peso das oitavas reúne dois times que usam a Champions como limite entre fracasso e sucesso na temporada
Paris Saint-Germain e Bayern de Munique fazem o duelo de maior peso das oitavas de final da Champions League. E a questão primordial vai além do que os times representam, com o poderio econômico e as boas campanhas recentes. Por conta da hegemonia na liga nacional, ser campeão da Ligue 1 e da Bundesliga não basta mais. A Champions possui um peso imenso para definir se a temporada dos parisienses ou dos bávaros foi um fracasso. Assim, a pressão se eleva nas alturas, especialmente num momento em que as duas forças dominantes não sobram tanto assim em suas ligas.
O Bayern de Munique surge um passo à frente neste momento. Além da história vitoriosa na Champions, os bávaros possuem uma equipe mais confiável e mais estabilidade coletiva. É um time que se sugere mais pronto para a classificação, vide a tranquilidade na fase de grupos, ainda que Julian Nagelsmann não tenha amarrado completamente suas peças e encontre turbulências nos bastidores. Nada comparado, todavia, com o furacão que passa a cada semana pelo Parc des Princes. O Paris Saint-Germain acumula atuações ruins, desfalques e rumores sobre confusões nos vestiários. Ainda tem uma coleção de craques capazes de resolver. Mas não necessariamente o melhor equilíbrio.

Como foi a fase de grupos
O Bayern de Munique fez uma fase de grupos impecável na Champions, especialmente pelas dificuldades que se sugeriam. Não foi o time inconsistente da Bundesliga. A largada dos bávaros já foi ótima, com vitória sobre a Internazionale em Milão e também sobre o Barcelona em Munique, num momento de maiores problemas da equipe de Julian Nagelsmann e numa partida muito perigosa. Foi o triunfo que realmente abriu caminho à classificação. As goleadas sobre o Viktoria Plzen aumentaram a tranquilidade, até que os 3 a 0 sobre o Barça já eliminado deflagrasse a melancolia no Camp Nou. Na rodada final, os alvirrubros ainda preservaram os 100% de aproveitamento com outro triunfo sobre a Inter.
O Paris Saint-Germain estava num grupo com suas dificuldades na Champions, é verdade. Mas esperava-se a liderança da equipe de Christophe Galtier. A vitória sobre a Juventus logo na estreia, com um grande primeiro tempo, empolgava. Logo depois, o Maccabi Haifa assustou e os parisienses viraram. Só que os duelos contra o Benfica tiveram dois empates, que deixavam a luta pela liderança indefinida. Dentro do Parc des Princes, a goleada por 7 a 2 sobre o Maccabi Haifa permitiu a classificação por antecipação, às custas da eliminação da Juventus. Assim, a vitória por 2 a 1 em Turim não teve o mesmo peso. O problema aconteceu na maneira como os franceses tiraram o pé, com o Benfica fazendo saldo no jogo paralelo para assumir a primeira colocação. O custo disso é um duelo muito mais duro para os franceses nas oitavas.
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Como vem sendo a temporada
Apesar do antecedente impecável na Champions League, o Bayern de Munique não faz sua temporada mais tranquila. A campanha na Bundesliga começou arrasadora, mas logo o time passou a abusar dos empates. Chegou a ficar sem vencer por quatro rodadas consecutivas, o que custou a primeira posição. A recuperação aconteceu especialmente a partir de outubro, quando Nagelsmann achou uma maneira de jogar e reencaixou um centroavante no ataque. Mas não que tenha impedido novas instabilidades após a Copa do Mundo, com a queda momentânea. Não há ninguém tão avassalador na Bundesliga para tomar a primeira colocação por enquanto, mas a pressão de quem vem atrás não deixa o Bayern relaxar.
O Paris Saint-Germain já virou do avesso sua temporada algumas vezes. Basta lembrar que a campanha na Ligue 1 começou com absurdos 17 gols em três rodadas. Até parecia que Christophe Galtier daria jeito no time e extrairia o melhor das suas estrelas. Porém, logo a coisa desandou. O PSG passou a vencer seus compromissos no torneio bem mais no limite, também largando mão do esquema tático que parecia ideal. E se a vantagem construída antes da Copa do Mundo soava exagerada para o nível de algumas atuações, os tropeços se tornaram cada vez mais recorrentes depois disso. A liderança na Ligue 1 não parece tão segura e a eliminação na Copa da França aconteceu logo nas oitavas de final.
Como o time voltou da pausa
O Bayern de Munique demorou para encontrar seu foco depois da Copa do Mundo. A equipe pareceu afetada por alguns aspectos, como as lesões de jogadores importantes e a eliminação precoce da Alemanha. Foram três empates seguidos, até que a melhora viesse nos três triunfos mais recentes. Os reforços da janela de inverno trazem novas perspectivas, com Yann Sommer e João Cancelo dando qualidade à equipe titular. A maior turbulência acontece mesmo nos bastidores, com uma gestão atual de personalidades fortes e consecutivos confrontos. A demissão do preparador de goleiros, o que desagradou o lesionado Manuel Neuer, é o capítulo mais recente. Não fossem essas pequenas rusgas, o ambiente seria bem melhor.
Se o Bayern sentiu os efeitos da Copa, o PSG então parece ter mergulhado neles. Foi um torneio muito desgastante para as principais estrelas do Parc des Princes. E o pensamento nem parece estar no trabalho do clube. São três derrotas e um empate nas últimas sete rodadas da Ligue 1. A última semana foi especialmente claudicante, com a eliminação para o Olympique de Marseille na Copa da França e a chapuletada do Monaco em que os 3 a 1 ficaram baratos. Faz tempo que o PSG joga sua temporada inteira na Champions, mas esse não é o clima ideal para encarar um embate de tanto peso nas oitavas. Há relatos de discussões nos vestiários entre jogadores e membros da diretoria. Além disso, os desfalques mostram como o elenco anda desequilibrado, diante da dependência de vários garotos.

Os destaques
Jamal Musiala é o melhor jogador do Bayern de Munique na temporada. O garoto foi decisivo mesmo em momentos difíceis e une não só um ótimo repertório na construção, mas também capacidade de decisão. Levou um pouco mais de tempo para engrenar após a Copa, mas dá sinais de recuperação. Quem também tem feito a diferença nas partidas mais recentes é Thomas Müller, que contribui para o encaixe do time. E não se menospreza a importância de Joshua Kimmich e Leon Goretzka como dupla para o funcionamento no meio-campo. Por serem recém-contratados, João Cancelo e Yann Sommer também contarão com mais holofotes ao seu redor, em especial o lateral, com muito talento na construção.
Na ausência de Kylian Mbappé, a importância da dupla de ataque aumenta. Neymar não faz boas partidas nas últimas semanas e Lionel Messi reduziu sua marcha após a Copa do Mundo fantástica, com um impacto menor do que se via no início da temporada. De qualquer maneira, são craques com rodagem na Champions e um senso de necessidade pela ocasião. Pelo que se viu nos últimos compromissos, Gianluigi Donnarumma será mais do que necessário sob os paus, para evitar um estrago maior. Sem mais a concorrência de Keylor Navas, o arqueiro justifica a confiança. Olho ainda em Achraf Hakimi, que deverá fazer um confronto bastante interessante com Alphonso Davies pelos lados, entre dois jogadores inteligentes e de enorme capacidade no apoio.
As ausências
Manuel Neuer ganhou o melhor substituto acessível, com a chegada de Yann Sommer. Porém, a ausência do veterano ainda assim é digna de nota, por sua liderança e por sua história na Champions. A lista de desfalques do Bayern inclui ainda outros ausentes de longa data, como Noussair Mazraoui e Lucas Hernández. Ryan Gravenberch não é opção no meio. O maior pesar neste momento fica para Sadio Mané, que parecia ter se encontrado no clube até sofrer a contusão que o tirou da Copa do Mundo. O ataque possui boas alternativas, mas nenhuma com seu poderio.
A fase ruim do PSG também se corresponde à quantidade de problemas no departamento médico. A começar por Kylian Mbappé, que tende a ficar no banco nesta semana. Lionel Messi e Marco Verratti são outros dois que retornam de problemas físicos. Renato Sanches e Nordi Mukiele são ausências confirmadas que não custam tanto assim, enquanto Fabian Ruiz permanece em dúvida. A lista de ausentes pode ser uma porta aberta ao meio-campista Warren Zaïre-Emery, de 16 anos, que aparece inclusive no 11 inicial previsto pelo L’Équipe.

Os técnicos
Era certo que Julian Nagelsmann treinaria o Bayern de Munique em algum momento de sua promissora carreira. O salto aconteceu após a ótima passagem à frente do RB Leipzig, como melhor substituto possível a Hansi Flick, mas a impressão é de que a continuidade do comandante na Baviera não durará tanto quanto se imaginava de início. O desempenho geral do Bayern sob as suas ordens é abaixo do que fazia o seu antecessor, com dificuldades para aproveitar melhor suas peças e ganhar sequências. É verdade que a saída de Robert Lewandowski teve seu peso, mas mesmo assim a irregularidade é incomum para o Bayern. Pelo menos a capacidade para criar variações permitiu algumas recuperações, só que o nível de exigência é mais alto. Se a eliminação na Champions passada custou confiança, o preço na atual pode ser mais caro.
Christopher Galtier chegou ao Paris Saint-Germain como uma mensagem de que o clube entendeu o que precisava fazer para finalmente conquistar a Champions. Foi a aposta num bom treinador da Ligue 1, que quebrava um pouco a linha de contratações dos técnicos anteriores e parecia ter aptidão para encaixar a equipe. De início, isso até pareceu possível. Porém, não é necessário muito tempo para a tempestade chegue no Parc des Princes. E foi exatamente isso o que aconteceu com o passar dos meses. Galtier não se mostrou tão bom assim na gestão de conflitos, o que é recorrente em Paris, e sempre ressurgem rumores de embates nos vestiários. E não que a equipe venha apresentando futebol para aliviar nesse aspecto. O momento é ruim, em resultados e qualidade. Uma eliminação na Champions pode tornar sua estadia na capital breve.
Os antecedentes
Bayern de Munique e Paris Saint-Germain se enfrentaram bastante nas últimas edições da Champions. Esses duelos mais recorrentes começaram em 2017/18, quando os dois times foram sorteados no mesmo grupo. Os franceses ganharam com autoridade em Paris e os alemães deram o troco em Munique. Já em 2019/20, a final de Lisboa marcou o ápice entre os times. Uma partida de peso, mas em que o favoritismo ao redor do Bayern se confirmou. O time de Hansi Flick estava numa fase iluminada e também carregava consigo a tradição. Na temporada seguinte, em 2020/21, o confronto pelas quartas de final. O Bayern ainda atravessava bom momento, mas não tão exuberante e com o custo de desfalques importantes, incluindo Lewandowski. O PSG foi ótimo nos contra-ataques para os 3 a 2 da Alemanha e passou pelos gols fora, após o 1 a 0 na França em que ainda deu mais calor apesar da derrota.
Antes disso, foram três partidas na virada do século. As primeiras aconteceram na fase de grupos de 1994/95. Os dois times avançaram, mas o PSG ganhou ambos os duelos. Primeiro fez 2 a 0 em Paris e depois ganhou também por 1 a 0 em Munique, com direito a um gol antológico de George Weah, na melhor fase da carreira. O reencontro ficou para 1998/99. O Bayern ganhou por 5 a 1 na Alemanha, com dois gols de Élber e outros dois de Carsten Jancker, enquanto o PSG fez 3 a 1 na França. O problema é que nessa época apenas o líder avançava em alguns grupos e o confronto direto beneficiou os bávaros. Por fim, em 2000/01, O PSG esteve entre as vítimas do quarto título do Bayern, embora ambos tenham avançado no Grupo F. Os parisienses ganharam por 1 a 0 no Parc des Princes, mas Hasan Salihamidzic e Paulo Sérgio marcaram nos 2 a 0 do Estádio Olímpico.

Figura em comum
Kingsley Coman é uma das tantas crias da base do Paris Saint-Germain que não foram aproveitadas da devida maneira na equipe principal. O ponta passou nove anos nas categorias de base do PSG. Nasceu na cidade e seu pai era torcedor do clube. Quebrou recordes de precocidade, ao estrear com apenas 16 anos. Porém, totalizou somente quatro aparições com a equipe principal. Sob o temor de que não seria aproveitado em Paris, rumou à Juventus em 2014. A partir de então, se firmou como profissional e logo se transferiu ao Bayern em 2015. Coman seria uma arma importante em diferentes títulos dos bávaros, apesar dos problemas constantes de lesão. Já o apogeu ocorreu exatamente no reencontro com o PSG na final da Champions, em que fez valer a “Lei do Ex” com todo o seu esplendor.
Onde assistir
Terça-feira, 17h (horário de Brasília)
Transmissão no SBT, na TNT e na HBO Max



