Champions League
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Um mini-guia do Milan x Tottenham pelas oitavas de final da Champions

Os momentos de Milan e de Tottenham não inspiram confiança, o que aumenta a imprevisibilidade do embate pela Champions

Milan e Tottenham fazem um duelo pela Champions League em que cravar um favorito é missão bastante difícil. As duas equipes, afinal, atravessam momentos instáveis e não inspiram grande confiança antes das oitavas de final. A situação do Tottenham é menos impactante, embora o time de Antonio Conte não engrene na Premier League e venha de uma goleada por 4 a 1 sofrida para o Leicester. Já o Milan pode até ter vencido seu último compromisso, num magro 1 a 0 sobre o Torino, mas isso só aconteceu depois de mais de um mês sem um mísero triunfo sequer.

As perspectivas antes da pausa para a Copa do Mundo pareciam melhores aos dois concorrentes. Porém, os times não conseguiram ganhar muito impulso nesta retomada de trabalho – pelo contrário. A fase de Harry Kane é o maior ponto de confiança ao Tottenham, mas os desfalques para o duelo no San Siro serão bastante importantes, sobretudo no meio-campo. Enquanto isso, o Milan tenta reencontrar seus rumos diante das dificuldades para fazer jogos regulares e da fragilidade de sua defesa. No momento, a Champions parece um trampolim às perspectivas de quem seguir em frente na competição, já que as ambições nas ligas nacionais são limitadas.

Harry Kane, do Tottenham (Foto: Mike Hewitt/Getty Images/One Football)

Como foi a fase de grupos

O Milan não engrenou totalmente na fase de grupos da Champions, mas fez o suficiente para avançar na segunda posição de uma chave acessível. Os rossoneri somaram apenas quatro pontos nas primeiras quatro rodadas, com derrotas para o Chelsea nos dois encontros. Ficava claro como os italianos não competiriam com os ingleses pela liderança, mas, na reta final, os milanistas se impuseram contra os adversários mais acessíveis. Goleadas por 4 a 0 sobre Dinamo Zagreb e Red Bull Salzburg foram suficientes para a segunda colocação.

Já o Tottenham liderou o grupo mais equilibrado da fase inicial, com suas doses de dificuldade. Os Spurs desperdiçaram pontos ao longo da caminhada, especialmente contra o Sporting, em derrota em Lisboa e empate em Londres. Os pontos arrancados anteriormente contra Olympique de Marseille e Eintracht Frankfurt tranquilizavam um pouco mais a situação, mesmo que o time de Antonio Conte não se apresentasse bem. Isso até que, na rodada final, os londrinos dependessem pelo menos de um empate na visita ao Vélodrome. Precisaram buscar a emocionante virada por 2 a 1, suficiente para a primeira colocação.

Como vem sendo a temporada

Esperava-se mais do Milan, após a conquista do Scudetto. É certo que os rossoneri não possuem um poder de investimento como em outros tempos, mas fica claro como o clube não aproveitou o momento. A troca de proprietários gerou atrasos cruciais no planejamento e contratações aconteceram em cima da hora. Além disso, os principais reforços não floresceram e também protagonistas perderam o embalo. O que se nota é um time bem menos consistente, que perdeu fôlego na Serie A e parece estar ameaçado inclusive de garantir seu posto dentro do G-4. Reviver um pouco a história gloriosa na Champions seria o mínimo.

O Tottenham terminou a temporada passada sob expectativas, pela forma como conseguiu se recuperar para entrar no G-4 da Premier League. Antonio Conte faria sua primeira temporada completa e até ganhou algumas novas peças, em relação ao que já tinha acontecido no mercado de inverno de 2022. Entretanto, não se nota um crescimento coletivo dos Spurs. A equipe sofreu em muitas partidas de peso e não se mostra suficientemente confiável. O elenco segue aparentando ser curto demais, entre lesões e outros jogadores que não rendem o esperado.

Como o time voltou da pausa

O Milan é um dos times mais impactados pela pausa da Copa do Mundo. Se não vinha tão bem quanto na temporada passada, a queda se tornou ainda mais abrupta na virada do ano. A má fase é preocupante, especialmente depois de sete partidas consecutivas sem vencer, com cinco rodadas em jejum na Serie A, além da derrota na Supercopa da Itália e da eliminação na Copa da Itália. O apertado triunfo sobre o Torino na última sexta-feira pelo menos aliviou um pouco o ambiente interno, mas está claro que Stefano Pioli perdeu um pouco da condução de sua equipe. É um time fragilizado defensivamente em relação à última temporada e que sequer apresenta as mesmas armas na frente, sem encontrar alternativas de jogo que se encaixem.

O Tottenham atravessa um momento de mais preocupação do que de animação nesta retomada da temporada desde o Boxing Day. Os Spurs ganharam do Manchester City numa grande apresentação, é verdade, mas somam apenas três vitórias nas últimas sete partidas pela Premier League. Sucumbiram no dérbi contra o Arsenal e no final de semana foram goleados pelo Leicester. A Copa da Inglaterra, por sua vez, foi protocolar pela fragilidade dos adversários. Embora alcançar o G-4 da Premier League siga ao alcance, a Champions ressurge no horizonte com um peso maior como resposta.

Giroud comemora com companheiros de Milan (Marco Luzzani/Getty Images)

Os destaques

Olivier Giroud foi quem concedeu um respiro ao Milan nessa má fase recente, com o gol da vitória sobre o Torino. O centroavante também foi muito efetivo na fase de grupos da Champions, com quatro gols e duas assistências. Seu trabalho na linha de frente tende a ser essencial num momento em que os rossoneri precisam reencontrar suas referências. Rafael Leão e Theo Hernández permanecem entre os maiores talentos da equipe, mas não que a fase atual os favoreça. Precisarão fazer mais num duelo de tamanha exigência nestas oitavas de final.

Harry Kane sem dúvidas vai ser o nome a carregar as esperanças do Tottenham contra o Milan. O centroavante se tornou o maior artilheiro do clube em todos os tempos e sobra como principal nome dos Spurs nesta Premier League, com 17 gols. Enquanto isso, espera-se uma recuperação de Son Heung-min pela temporada abaixo do costume. Quem também precisará aparecer bastante é Cristian Romero na defesa. Depois dos problemas ocorridos contra o Leicester e diante dos sensíveis desfalques no meio-campo, a tendência é de que o zagueiro acabe mais exigido. Fez falta contra as Raposas, suspenso.

As ausências

O Milan continua com um desfalque e tanto no gol, diante da ausência de Mike Maignan, fora do time desde setembro. Ciprian Tatarusanu não transmite confiança. Enquanto isso, outros nomes que voltam de lesão talvez reapareçam no time milanista. É o caso de Fikayo Tomori na zaga e de Ismael Bennacer no meio, enquanto Zlatan Ibrahimovic tende a ser opção no banco, depois de reaparecer entre os reservas contra o Torino.

O caso do Tottenham é até mais extremo pela quantidade de ausentes. Hugo Lloris também está lesionado e, embora Fraser Forster seja uma boa opção, pareceu fora de ritmo. Já no meio, o estrago é gigantesco. Rodrigo Bentancur lesionou os ligamentos no sábado e está fora da temporada. Não bastasse isso, Yves Bissouma também se recupera de contusão e Pierre-Emile Hojbjerg precisa cumprir suspensão. Há um buraco na cabeça de área dos Spurs.

Pioli, do Milan (Foto: FAYEZ NURELDINE/AFP via Getty Images/One Football)

Os técnicos

Stefano Pioli colocou seu nome na história do Milan, com a conquista do último Scudetto. O treinador superou dificuldades e correspondeu à confiança para armar uma equipe bastante funcional, que conseguiu ser competitiva mesmo com um elenco jovem. Porém, o técnico não consegue sustentar a mesma qualidade mais recentemente. O Milan manteve sua base, mas não ganhou novos mecanismos e encontrou problemas também para encaixar novas peças. A posição de Pioli não parece necessariamente ameaçada atualmente, mas é claro que uma sequência tão ruim quanto a recente gera questionamentos no médio prazo. E não que as decisões do comandante venham sendo boas. Por sorte, seu crédito oferece uma chance de resposta.

Antonio Conte voltará à Itália, onde travou inúmeros duelos com o Milan como jogador e como treinador. E a Champions League pode ser importante para revitalizar sua relação com o Tottenham, que se sugere já repleta de atritos, tanto pela falta de um desempenho tão retumbante quanto por questões de investimento em jogadores – o que desde o princípio se prometia reduzido. Se a campanha na Premier League não vai muito além daquilo que é visto como mínimo, a Champions se oferece como uma porta aberta por enquanto. Até porque Conte não possui um histórico tão bom na competição continental, bem mais referendado por seus feitos em pontos corridos. O treinador será reforço à beira do campo, após se recuperar de uma cirurgia de vesícula.

Antecedentes

Milan e Tottenham se enfrentaram em duas outras ocasiões por competições europeias. E a vantagem é dos ingleses. Os primeiros embates ocorreram nas semifinais da Copa da Uefa de 1971/72. Os rossoneri vinham de um título recente da Champions, em 1968/69, mas os Spurs avançaram à decisão. Steve Perryman comandou a dura virada por 2 a 1 em Londres, antes do empate por 1 a 1 no San Siro que selou a classificação, com participação decisiva do ídolo Alan Mullery. Os londrinos conquistaram o título, em decisão disputada contra o Wolverhampton. Mais recentemente, o reencontro ocorreu nas oitavas de final da Champions de 2010/11. Também seriam jogos muito pegados, com o Tottenham se dando melhor. Os ingleses ganharam por 1 a 0 em San Siro, gol de Peter Crouch após jogada de Aaron Lennon a dez minutos do fim, e avançaram com o 0 a 0 em White Hart Lane. Gomes foi decisivo na meta inglesa. Já a cena mais clássica ficou pela briga entre Gennaro Gattuso e o assistente técnico Joe Jordan, dois “durões” que entraram em rota de colisão.

Figura em comum

Jimmy Greaves foi bastante exaltado recentemente, depois que Harry Kane ultrapassou o antigo centroavante como maior artilheiro da história do Tottenham. E sua chegada a White Hart Lane se tornou possível graças a uma ponte com o Milan. Greaves despontou no Chelsea, onde acumulou suas primeiras artilharias no Campeonato Inglês. Em 1961/62, o atacante chegou como uma nova estrela ao Milan e manteve a fome de gols na Serie A, com nove tentos em dez aparições pela liga. Até deu sua contribuição para a conquista do Scudetto, que culminou no título da Champions em 1962/63, mas sequer ficou para erguer a taça nacional, por dificuldades de adaptação. Em dezembro de 1961, Greaves acertou sua volta à Inglaterra em negócio recorde com o Tottenham, o primeiro jogador a ultrapassar a marca de 100 mil libras. Reforçaria o fortíssimo time de Bill Nicholson e faria história. Conquistou a Copa da Inglaterra em 1961/62 e a Recopa Europeia em 1962/63, além de ter sido mais três vezes artilheiro do Campeonato Inglês.

Onde assistir

Terça-feira, 17h (horário de Brasília)
Transmissão no Space e na HBO Max

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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