Champions League
Tendência

Um mini-guia do Liverpool x Real Madrid pelas oitavas de final da Champions

Nenhum dos times enche os olhos na atual temporada, mas possuem históricos inegavelmente respeitáveis na Champions e ainda um retrospecto recente de embates importantes

Liverpool e Real Madrid se tornaram inimigos íntimos da Champions League nos últimos anos. Os dois clubes possuem embates históricos pela competição, mas os encontros nos mata-matas se tornaram ainda mais costumeiros desde a segunda metade da última década. E com um retrospecto favorável aos merengues. Nestes anos recentes, o Real Madrid sempre se deu melhor quando o Liverpool pintou no caminho. Uma sequência que inclui duas finais, com as vitórias massivas em 2018 e 2022. São memórias frescas que os Reds tentarão vingar, em oitavas de final que não oferecem tantas garantias.

A temporada de ambos os clubes, afinal, não inspira confiança. O desempenho cambaleante do Liverpool é bem mais expresso na Premier League, em que os Reds não conseguem emendar boas séries. A Champions vira assunto prioritário. O Real Madrid, por sua vez, não precisa de motivação para ambicionar o título continental. Mas não que a fase favoreça os merengues. O aproveitamento pode ser maior e o assunto em La Liga não está totalmente fechado, mas não que o futebol agrade. A aposta é numa transformação quando chega a hora da verdade na Champions, algo que ocorre com frequência assustadora no Bernabéu – inclusive, quando o Liverpool pode ser a vítima.

Real Madrid comemora contra o Al Hilal (Foto: FADEL SENNA/AFP via Getty Images/One Football)

Como foi a fase de grupos

O Liverpool estreou na Champions com um choque de realidade, ao tomar os 4 a 1 do Napoli na visita ao Estádio Diego Armando Maradona. A equipe se recuperou aos poucos, mesmo numa chave em que os concorrentes deixaram a desejar. Foram triunfos magros sobre Ajax e Rangers dentro de Anfield, antes que placares elásticos consolidassem a situação fora de casa – incluindo os 7 a 1 sobre os escoceses em Ibrox. Por fim, os Reds ainda tentaram buscar a liderança. Deram o troco no Napoli, mas os 2 a 0 na Inglaterra foram insuficientes a uma reviravolta. No fim das contas, os 15 pontos dos ingleses maquiam um pouco o que foi a dificuldade do time na primeira metade da temporada – e se beneficiam das circunstâncias.

O Real Madrid não teve grandes desafios no Grupo F, mas não que tenha jogado bem. Alguns placares, aliás, ocultam certas dificuldades dos merengues. O time largou com 100% de aproveitamento na primeira metade da campanha, ao derrotar Celtic, RB Leipzig e Shakhtar Donetsk. Mas não que a equipe sobrasse tanto assim. O empate contra o Shakhtar em Varsóvia foi seguido depois pela derrota na visita ao Leipzig na Alemanha. Somente na rodada final é que os madridistas confirmaram a primeira colocação, com os 5 a 1 sobre o eliminado Celtic no Bernabéu. Não foi uma campanha tão impressionante para os atuais campeões, mas acabou sendo condizente às dificuldades recentes da equipe.

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Como vem sendo a temporada

São meses bem mais difíceis do que qualquer torcedor do Liverpool esperava. O mercado de transferências prometia um momento de transição, com a despedida de Sadio Mané, mas também uma aposta (a princípio) interessante em Darwin Núñez. Porém, logo ficou claro como a equipe necessitava de mais reforços e as lesões também não ajudaram, bem como a falta de rendimento de várias figuras de destaque. O resultado é uma equipe com problemas para engrenar e também para imprimir a intensidade que a marcou nos últimos anos. O Liverpool ainda não passou da sexta colocação da Premier League em 2022/23. Teve algumas atuações mais destacadas, mas poucos períodos de real fôlego. Como se não bastasse, desta vez nem as copas nacionais deram uma alegria, com as eliminações precoces diante de Manchester City e Brighton.

O Real Madrid veio de uma temporada apoteótica e manteve boa parte de seus mecanismos, com contratações pontuais, mas o adeus significativo de Casemiro. O início em La Liga era bom, mesmo que a ausência contínua de Karim Benzema pesasse e a qualidade apresentada em campo não fosse suficiente. Porém, o time viu os tropeços se tornarem mais pesarosos em La Liga, especialmente em comparação ao aproveitamento altíssimo do Barcelona – oito pontos à frente neste momento. E a perda da Supercopa da Espanha no clássico decisivo também gerou ruído, num período de indagações. Neste momento, os merengues tentam se concentrar mais na Champions. Seguem vivos na Copa do Rei, com mais um clássico pela frente. Como consolo, pelo menos já faturaram a Supercopa da Europa e o Mundial de Clubes.

Como o time voltou da pausa

O Liverpool parecia capaz de se reerguer na temporada quando retomou as atividades. O time vinha de quatro vitórias consecutivas por todas as competições e, na retomada, ganhou seus dois últimos compromissos de 2022 pela Premier League. O ano virou e o pesadelo apareceu em Anfield. Os Reds sofreram dois grandes golpes em seu moral com as derrotas para Brentford e Brighton. O sofrimento contra o Wolverhampton na FA Cup não ajudou, bem como o empate sem gols contra o Chelsea. Isso até que o Brighton se tornasse algoz na etapa seguinte da FA Cup e o Wolverhampton também amassasse os comandados de Jürgen Klopp na Premier League. Um pouco do brio foi recuperado no clássico contra o Everton, pela vitória e também pelos jogadores em recuperação. Já no último final de semana, o triunfo sobre o Newcastle foi o sinal mais animador em semanas.

As primeiras vitórias do Real Madrid na retomada das atividades não convenceram totalmente. E as derrotas não demoraram a pintar. A equipe perdeu para o Villarreal em La Liga e, depois de sofrer para eliminar o Valencia nas semifinais da Supercopa, nos pênaltis, acabou dominada pelo Barcelona na final. A recuperação se deu com triunfos suados diante do Villarreal, agora pela Copa do Rei, e do Athletic Bilbao por La Liga, antes da classificação sobre o Atlético de Madrid na Copa do Rei. Porém, tropeços contra Real Sociedad e Mallorca em La Liga aumentaram o desgaste. O Mundial de Clubes deu um respiro, com vitórias sem tanto esforço, apesar de certo aperto. Isso até que Elche e Osasuna servissem de sparrings mais recentemente. A temporada dos madridistas não impressiona. Mas muitas vezes é neste momento, nos mata-matas da Champions, que se prova o contrário.

Cody Gakpo comemora o gol do Liverpool (OLI SCARFF/AFP via Getty Images)

Os destaques

Fica até difícil de apontar os destaques do Liverpool numa temporada tão atípica. Mohamed Salah tem os melhores números, mas longe de atingir o nível de outros momentos, embora tenha feito estrago na fase de grupos da Champions. Darwin Núñez e Cody Gakpo chegaram sob expectativas, mas ainda precisam de uma sequência mais confiável. Mesmo a defesa não consegue atravessar momentos tão firmes. Entre tantos problemas, a expectativa do Liverpool é que seus figurões tão acostumados à Champions se reencontrem no momento decisivo. A maior parte do time já ergueu o troféu. Os retornos de Diogo Jota e Roberto Firmino nas últimas semanas também são importantes para elevar as expectativas ao redor dos Reds. E se há uma aposta que pinta em Anfield, este é o meio-campista Stefan Bajcetic, que agrada nas aparições recentes. O garoto de 18 anos oferece um alento depois de tantas desilusões.

Karim Benzema é o nome óbvio do Real Madrid, mas é outro cujos bons números não apresentam totalmente a queda de nível em campo. O centroavante continua entregando gols decisivos e é imprescindível, mas não com a efetividade da temporada passada, sobretudo pelas consecutivas lesões. Assim, o protagonismo fica mais com Federico Valverde e Vinícius Júnior. O uruguaio era o melhor da equipe até a pausa para a Copa e se recuperou com o Mundial de Clubes. Já o brasileiro decide de forma mais recorrente, mesmo no olho do furacão, com os recorrentes ataques racistas na Espanha. Rodrygo também fez algumas partidas brilhantes. O meio do Real Madrid tende a sobrecarregar Luka Modric, com Dani Ceballos e Eduardo Camavinga disponíveis para a ocasião. A defesa vem sendo mais inconstante e lida com desfalques. Ao menos, Thibaut Courtois segue em grande fase e certamente causa pesadelos nos ingleses, pela final do Stade de France.

As ausências

O Liverpool obviamente não escaparia dos problemas físicos em relação ao que enfrentou durante toda a temporada. A ausência de Luis Díaz é bastante lamentada, assim como Thiago Alcântara fará falta no meio-campo. São duas peças vitais, mas nada que os Reds não tenham se acostumado. A zaga corre o risco de não ter a opção de Ibrahima Konaté, enquanto Darwin Núñez é dúvida no ataque por uma contusão no ombro. Pelo menos as voltas recentes de Diogo Jota e Roberto Firmino tranquilizam na frente, enquanto Virgil van Dijk também está confirmado na defesa.

Karim Benzema ganhou um descanso na vitória sobre o Osasuna, com fadiga muscular, mas não deve ser problema em Anfield. Bem mais duros são os desfalques de Toni Kroos e Aurélien Tchouaméni no meio-campo, o primeiro com uma gastroenterite e o segundo gripado. Assim, Eduardo Camavinga e Dani Ceballos tendem a entrar no 11 inicial. A defesa continua sem a alternativa de Ferland Mendy, o que desloca David Alaba para a lateral, com a zaga formada por Éder Militão e Antonio Rüdiger. Olho ainda em Álvaro Rodríguez, garoto da base que aproveita a falta de alternativas no ataque e estreou bem contra o Osasuna. Deve ser alternativa vindo do banco de reservas.

Carlo Ancelotti, do Real Madrid (Angel Martinez/Getty Images)

Os técnicos

Jürgen Klopp não precisa provar mais nada no Liverpool. O treinador liderou os Reds a conquistas inesquecíveis e tem seu lugar cativo entre os maiores da história de Anfield – por uma Champions League, mas especialmente pelo fim do jejum na Premier League. Entretanto, num processo de renovação que não é simples, o alemão tenta se reinventar à frente dos Reds. Dificilmente impedirá um desempenho fraco no Campeonato Inglês. Todavia, a Champions permanece ao alcance para recuperar o moral. O torneio nem sempre é afável com Klopp, que possui três vices – dois deles amargados contra o Real Madrid. Apesar disso, não se nega que ele também conhece os atalhos e possui capacidade de surpreender nos mata-matas. Basicamente, é o objetivo a mirar nesta altura das competições de 2022/23.

Carlo Ancelotti é o maior especialista da Champions League. As quatro conquistas do torneio na carreira o colocam num patamar inédito na história da competição e pedem respeito. Levou as duas primeiras com um Milan que botava medo além das fronteiras – embora o Liverpool discorde parcialmente. Depois, recuperou o troféu pelo Real Madrid, ao encerrar um incômodo jejum de mais de uma década. E retornou ao Bernabéu para desfrutar o sucesso novamente na temporada passada, agora com contornos épicos pela forma como os merengues contornaram o impossível repetidamente. Carletto possui a gestão de grupos como seu forte e também sabe montar times funcionais. A atual versão dos madridistas gerou algumas interrogações sobre o trabalho do comandante, mas seu currículo pede bem mais respeito na hora de avaliar as possibilidades, principalmente na Champions.

Os antecedentes

Real Madrid e Liverpool possuem um histórico bastante amplo na Champions League. O único confronto no século passado aconteceu em 1980/81, e justamente numa decisão. Os Reds vinham de conquistas recentes sob as ordens de Bob Paisley, enquanto os merengues tentavam encerrar um jejum que se estendia por 15 anos na Copa Europeia. Melhor para os ingleses, mais acostumados aos sucessos. A equipe chegou ao seu terceiro troféu continental com a vitória por 1 a 0 no Parc des Princes, gol de Alan Kennedy aos 37 do segundo tempo. Seriam mais 17 anos até que os espanhóis finalmente faturassem seu sétimo título.

As séries mais recentes são bem mais comuns. A começar por 2008/09, nas oitavas de final. O Liverpool ganhou as duas partidas, com direito a um 4 a 0 comandado por Steven Gerrard em Anfield, que basicamente culminou numa nova era galáctica a partir da temporada seguinte no Bernabéu. Em 2014/15, os duelos aconteceram pela fase de grupos. O Real Madrid já era comandado por Carlo Ancelotti e vinha do título na temporada anterior. Ganhou as duas, com direito a um 3 a 0 em Anfield. Isso até que a final de 2017/18 voltasse a elevar os gigantes ao maior dos palcos. A decisão em Kiev ficou marcada pelo show de Gareth Bale, com seu fantástico gol de bicicleta, assim como pelas falhas de Loris Karius e pela lesão de Mohamed Salah.

Novos embates aconteceram em 2020/21, nas quartas de final, em momento sem público por conta da pandemia. O Real Madrid de novo se deu melhor no confronto. A situação seria encaminhada logo na partida de ida, em que Vinícius Júnior teve uma de suas grandes atuações pelos merengues, com dois gols no triunfo por 3 a 1. Em Anfield, os gigantes ficariam no 0 a 0. A chance mais recente de revanche do Liverpool ocorreu em 2022, com a nova decisão na França. Foi a vez do Real Madrid passar à frente no retrospecto em finais. Vinícius Júnior marcou o gol no triunfo por 1 a 0, em que Thibaut Courtois teve sua atuação mais impressionante da carreira. Com isso, lá se vão quase 14 anos da última vitória dos ingleses sobre os espanhóis.

Raul e Xabi Alonso disputam jogada na Champions de 2008/09 – Foto: Imago / One Football

Figura em comum

O maior símbolo em comum na história vitoriosa de Real Madrid e Liverpool na Champions é Xabi Alonso. O meio-campista conquistou o torneio pelos dois clubes, e sempre com um papel importante. O simbolismo do basco em Anfield é até maior, após ser contratado junto à Real Sociedad. Afinal, logo em sua primeira temporada, ele seria um dos heróis do épico em Istambul contra o Milan. Xabi Alonso anotou o gol de empate por 3 a 3, ao aproveitar o rebote de um pênalti que ele perdeu. Não repetiu o feito com os Reds, mas aumentaria sua identificação com o clube. Isso até aceitar uma proposta do Real Madrid em 2009 e, tempos depois, mudar sua relação com o próprio Carlo Ancelotti. Se o treinador havia sido vítima do volante em 2004/05, em 2013/14 ele firmou o seu meio-campo com auxílio do veterano. Xabi Alonso era uma das referências no Real Madrid que encerrou o jejum de 12 anos naquela temporada, embora tenha sido desfalque por suspensão justamente na final contra o Atlético de Madrid. Nada que reduza sua contribuição.

Onde assistir

Transmissão a partir das 17h (de Brasília) em TNT, HBO Max e SBT.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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