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Um mini-guia do Eintracht Frankfurt x Napoli pelas oitavas de final da Champions

O Napoli chega credenciado aos mata-matas da Champions como melhor futebol da Europa, mas o Frankfurt pode ser um oponente ardiloso após a conquista recente da Liga Europa

O duelo entre Eintracht Frankfurt e Napoli pela Champions League pode não ter ares tão glamurosos para os mata-matas continentais. Outros jogos chamam mais atenção nesta fase. Porém, não há dúvidas de que os embates na Alemanha e na Itália podem oferecer jogaços à competição. E quem responde isso é o gramado. O Napoli tem credenciais plenas entre os melhores times da temporada, certamente aquele que mais vale parar os 90 minutos diante da TV. A equipe de Luciano Spalletti apresenta muita qualidade ofensiva e uma coleção de talentos em fases arrebatadoras. Mas pode ter trabalho, contra um Eintracht Frankfurt que já se provou carne de pescoço contra oponentes mais badalados. A conquista da Liga Europa serve para deixar os napolitanos em alerta.

É claro que o favoritismo permanece com o Napoli. Os celestes sobram na Serie A e, neste momento, dividir atenções nem parece um problema. Afinal, essa questão já não foi um empecilho para a fase de grupos espetacular oferecida pelos italianos, com direito a imposições sobre Liverpool, Ajax e Rangers. Talvez falte um pouco mais de experiência além das fronteiras a esse elenco, mas, por aquilo que apresentam no Calcio, os partenopei sabem muito bem medir a temperatura de grandes embates. Já o Eintracht Frankfurt, se não atravessa uma sequência tão consistente, tem sua credencial nessa tarimba de jogos duros. É um clube que se prova copeiro nos últimos anos, com mais impacto em mata-matas da Copa da Alemanha e da Liga Europa do que na Bundesliga em si. A Champions é um novo patamar, embora as Águias deem trabalho aos oponentes mais acostumados ao torneio em seu país.

(Adam Pretty/Getty Images/One Football)

Como foi a fase de grupos

O Eintracht Frankfurt conseguiu uma ótima recuperação na fase de grupos da Champions League. Afinal, a reestreia no torneio após 62 anos ofereceu um baque, com a derrota por 3 a 0 para o Sporting na Alemanha. A retomada começou com um importante triunfo sobre o Olympique de Marseille na França, enquanto o empate contra o Tottenham em casa não era tão ruim. Os Spurs venceram o reencontro na Inglaterra, até que as Águias engrenassem mesmo na reta final. Ganharam do Olympique também em Frankfurt e dependiam do troco sobre o Sporting em Lisboa. De virada, o Eintracht sobreviveu numa das chaves mais equilibradas desta Champions, ao ganhar por 2 a 1. A segunda colocação já era excepcional.

O Napoli foi o melhor time da fase de grupos da Champions, não em aproveitamento, mas em termos de qualidade apresentada. Logo a estreia dos celestes impressionou, com os 4 a 1 para cima do Liverpool no Estádio Diego Armando Maradona. Passariam o carro também sobre o Rangers na Escócia e, de forma mais avassaladora, nos 6 a 1 contra o Ajax na Holanda. Depois disso, bastou administrar, enquanto o foco recaía sobre a Serie A. Os novos triunfos em Nápoles sobre o Ajax e o Rangers não demandaram tanto assim. E a única derrota aconteceu contra o Liverpool na última rodada, quando o time estava classificado e só perderia uma liderança com goleada. Não aconteceria.

Como vem sendo a temporada

O Eintracht Frankfurt faz uma temporada de bons resultados, mas com uma impressão de que poderia ser até melhor. O começo teve dificuldades, com os 6 a 1 do Bayern na primeira rodada da Bundesliga e também a perda da Supercopa Europeia contra o Real Madrid. O time engrenou aos poucos na Bundesliga, com vitórias de peso contra adversários como o RB Leipzig e Union Berlim, mas sem escapar de tropeços também recorrentes. A maior série invicta aconteceu apenas mais recentemente e chegou a render a vice-liderança do Campeonato Alemão. Mas, por essas variações no desempenho, buscar um lugar no G-4 é mais objetivo que o título – e a sexta colocação atual obriga as Águias a correrem atrás do prejuízo. Na Copa da Alemanha, o Frankfurt pegará o Union Berlim nas quartas de final.

É uma temporada perfeita para o Napoli. Absolutamente ninguém apostava em tamanho sucesso, sobretudo quando jogadores-chave se despediram do clube. O adeus dos medalhões, em compensação, abriu espaço a protagonistas de ascensão meteórica. E, se no primeiro ano com Luciano Spalletti os celestes perderam o fôlego, desta vez ninguém é capaz de pará-los. A largada na Serie A começou a transmitir confiança à medida que resultados contra concorrentes como Milan, Roma e Atalanta começaram a acontecer. Ninguém encerrava a sequência vitoriosa dos napolitanos. O time foi para a pausa da Copa do Mundo invicto, com direito a 11 triunfos consecutivos na liga. E a qualidade do futebol apresentado, sobretudo na Champions, respaldava ainda mais. A retomada das atividades teve novos desafios, mas também a capacidade da equipe se consolidar no topo da tabela, bem longe dos concorrentes. Até por isso dá para acreditar num sucesso paralelo na Champions, mesmo com as expectativas no Calcio. A eliminação na Copa da Itália para a Cremonese é o mínimo asterisco.

Como o time voltou da pausa

O Eintracht Frankfurt não vem com um desempenho infalível, mas tem sido um osso duro de roer nesta retomada. A equipe ampliou sua série invicta na Bundesliga e empatou com o Bayern, numa partida em que poderia ter feito estrago maior em Munique. Todavia, a derrota por 3 a 0 para o Colônia custou um pouco de ritmo no pelotão inicial da competição. No último final de semana, o triunfo sobre o Werder Bremen ofereceu a recuperação. Já na Copa da Alemanha, o Darmstadt não era grande desafio. Um dos méritos do time é saber como virar a chave entre competições. É algo que ficou expresso na última Liga Europa, quando as Águias derrubaram favoritos.

O único sinal de alerta do Napoli aconteceu no confronto direto com a Internazionale, com a derrota por 1 a 0 em Milão no primeiro jogo de 2023. Para alguns, era o temor de que os celestes não continuariam na mesma toada vista até a pausa para a Copa. Contudo, a lição foi rapidamente assimilada. A resposta em grandessíssimo estilo veio com os 5 a 1 sobre a Juventus no Estádio Diego Armando Maradona, uma noite que pareceu coroar os napolitanos como novos donos do país. Desde então, o time só venceu pela liga. Já são sete vitórias consecutivas, que sustentam a vantagem confortável no topo. Muitos dos duelos eram acessíveis, mas o triunfo sobre a Roma também ofereceu uma prova de caráter. A queda nos pênaltis para a Cremonese na Copa da Itália, com time misto, já foi esquecida.

(MARCO BERTORELLO/AFP via Getty Images/One Football)

Os destaques

Há quem defenda que o melhor jogador da Bundesliga na atualidade é Randal Kolo Muani. E os argumentos favoráveis ao atacante francês são plenamente compreensíveis. Depois de chegar de graça do Nantes, o jovem rende demais neste início na Alemanha. É um perigo não só pelo poder de definição, mas ainda mais pela capacidade na criação. São dez gols e dez assistências na Bundesliga. Outras figuras mais à frente também são importantes. Jesper Lindström auxilia nessa chegada, enquanto Daichi Kamada é um curinga nas mãos de Oliver Glasner. Não se pode menosprezar a tarimba de Mario Götze, numa fase fisicamente mais consistente, perdendo raros minutos do time em campo. Mais atrás, enquanto Sebastian Rode e Djibril Sow dão firmeza na cabeça de área, Kevin Trapp vem como herói na conquista da Liga Europa.

O Napoli possui um binômio na temporada. Boa parte do sucesso da equipe passa pela dupla formada por Khvicha Kvaratskhelia e Victor Osimhen. Os dois não deixam os celestes na mão em nenhum momento e impulsionam o time quando se combinam. O georgiano foi um achado e possui um arsenal de recursos, entre seus dribles e a capacidade com os dois pés. Enquanto isso, o nigeriano era uma aposta sabidamente certeira de tempos anteriores e domina a área como poucos na atualidade. Mas não que sejam os únicos em grande fase. O mais difícil é não destacar alguém: o meio-campo com André-Frank Zambo Anguissa, Stanislav Lobotka e Piotr Zielinski; Kim Min-jae soberano na zaga; Giovanni Di Lorenzo e Mario Rui dando apoio pelos lados. Até quem vem do banco ajuda demais, vide as participações de Giacomo Raspadori e Giovanni Simeone na fase de grupos da Champions. Anguissa, em especial, encantou no Grupo A.

As ausências

O Eintracht Frankfurt não tem perdas significativas para esse primeiro duelo. O único jogador indisponível é o meio-campista Junior Dina Ebimbe, com um problema no tornozelo. Todavia, não é das ausências mais sentidas. Assim, Oliver Glasner pode alinhar sua equipe ideal. É ver como ele usará a rotação que manteve na fase de grupos – Rode, imprescindível na Bundesliga, atuou bem menos na Champions. Outro nome para ficar de olho é o lateral esquerdo Philipp Max, importante adição do mercado de inverno.

O Napoli também não possui grandes limitações para encarar o duelo na Alemanha. A única ausência é Giacomo Raspadori, com uma lesão na coxa, mas em setor no qual Osimhen e Simeone seguram muito bem as pontas. De resto, Luciano Spalletti poderá priorizar sua força máxima. Um ponto é o encaixe de alguns que se revezam um pouco mais na equipe, como Matteo Politano e Eljif Elmas, que jogaram no final de semana nas vagas de Hirving Lozano e Piotr Zielinski.

(ANDY BUCHANAN/AFP via Getty Images/One Football)

Os técnicos

Oliver Glasner elevou seu patamar em Frankfurt. O treinador já vinha de bons trabalhos na Austria, sobretudo à frente do LASK Linz, e conseguiu levar o Wolfsburg à Champions. Entretanto, tinha limitações aparentes e sua escolha pelo Eintracht até gerou dúvidas iniciais. Porém, o que conseguiu na Liga Europa passada foi fantástico. O time se encaixou muito bem em sua ideia e encarou qualquer adversário. Pode não ter ido bem na Bundesliga, mas o título continental e ainda a vaga na Champions eram um combo inesquecível. Glasner ganhou novas peças e um elenco mais robusto para 2022/23. Consegue extrair mais de seu time na Bundesliga e cumpre a missão na Champions. Agora, será testado sobre sua capacidade de surpreender em outro mata-mata continental.

Luciano Spalletti é um dos treinadores mais experientes em atividade no futebol italiano atualmente. Ccupa um lugar de inegável destaque, com aquele que se consolida como o principal trabalho na carreira. Não é apenas a chance de conquistar o Scudetto pela primeira vez, mas especialmente a qualidade do futebol apresentado, que reforça a identidade de Spalletti como um técnico de recursos. E não que ele possua tantos feitos assim em torneios continentais. Suas campanhas mais longas foram com a Roma, há mais de 15 anos, sem passar das quartas de final da Champions em 2006/07 e 2007/08. Chegou a ser algoz do Real Madrid, mas também tomou os famosos 7 a 1 do Manchester United. As condições no Napoli estão abertas, depois de cair diante do Barcelona nos 16-avos de final da última Liga Europa.

Os antecedentes

Napoli e Eintracht Frankfurt possuem um duelo longínquo pelas oitavas de final da Copa da Uefa, em 1994/95. Os celestes tentavam se reconstruir nos anos posteriores à despedida de Diego Armando Maradona. Tinham talentos do porte de Fabio Cannavaro, André Cruz, Alain Boghossian e Freddy Rincón, além de um treinador muito experiente como Vujadin Boskov – campeão nacional pouco antes com a Sampdoria. Enquanto isso, o Eintracht Frankfurt vinha de boas campanhas na Bundesliga e estava habituado também aos torneios europeus, Jupp Heynckes era o excelente comandante de um time estrelado por Andreas Köpke, Tony Yeboah e Jay-Jay Okocha. Foram duas vitórias por 1 a 0 das Águias, que parariam nas quartas de final, diante da Juventus.

Figura em comum

O personagem em comum mais importante de Napoli e Eintracht Frankfurt na última década foi Jonathan De Guzmán. O meio-campista chegou em alta à Itália, depois de ótimos momentos com o Swansea. Teve alguns lampejos pelos celestes, inclusive ao conquistar a Supercopa da Itália com destaque na decisão contra a Juventus. Entretanto, com problemas físicos e relacionamento conturbado, passaria a rodar por empréstimos. Acabou parando no Frankfurt em 2017. Seriam três temporadas no clube, com destaque ao desempenho em 2018/19. As Águias alcançaram as semifinais da Liga Europa e foram campeãs da Copa da Alemanha. O holandês deu a assistência decisiva para a classificação à final.

Onde assistir

Transmissão ao vivo a partir das 17h (horário de Brasília), no Space e no HBO Max.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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