Um mini-guia do Club Brugge x Benfica pelas oitavas de final da Champions
Benfica e Club Brugge empolgaram na fase de grupos, mas o favoritismo é dos encarnados, diante da crise dos belgas que gerou até troca de técnico
Benfica e Club Brugge foram duas enormes sensações na fase de grupos da Champions League. Por não serem os elencos mais recheados de estrelas, talvez não fossem tão temidos no sorteio dos mata-matas. Entretanto, os resultados anteriores referendam o potencial de ambas as equipes. E apenas uma delas continuará contando história, com o embate nas oitavas de final. Mas, se a etapa anterior sugeriria uma abertura a ambas, o momento é do Benfica. O favoritismo dos encarnados é claro não apenas por ter sido líder de sua chave, mas também porque vive uma temporada estável por completo, diferentemente do Brugge, que demitiu até seu treinador há pouco mais de um mês.
O Benfica até oscilou um pouco mais nas últimas semanas. Mesmo assim, é preciso respeitar um time que eliminou a Juventus e bateu de frente com o Paris Saint-Germain. A liderança no Campeonato Português dá mais tranquilidade para lidar com a Champions. Já o Club Brugge teve ótimas atuações, mas também se aproveitou de problemas dos oponentes na fase de grupos. E os últimos meses foram um tanto quanto problemáticos, com as dificuldades no Campeonato Belga, que fazem a equipe passar longe das chances de seu quarto título consecutivo e resultaram na saída do técnico Carl Hoefkens, substituído por Scott Parker.

Como foi a fase de grupos
O Benfica vinha de uma campanha excepcional na Champions passada, ao eliminar o Barcelona na fase de grupos e depois deixar o Ajax pelo caminho nas oitavas. Pois os encarnados conseguiram ir melhor na primeira fase desta vez, tanto em termos de desempenho quanto em qualidade do futebol apresentado. A equipe de Roger Schmidt largou com vitória sobre o Maccabi Haifa, antes de um excelente triunfo sobre a Juventus em Turim. Era o primeiro sinal. Depois, os benfiquistas competiram sem receios com o Paris Saint-Germain, com dois empates. O grande resultado veio nos 4 a 3 sobre a Juve no Estádio da Luz, num placar que ficou até barato pelo show dos lusitanos, mas pelo menos já garantiu a classificação. E a liderança caiu no colo graças aos 6 a 1 no Maccabi Haifa, combinado com o cochilo do PSG no compromisso final. Praticamente tudo deu certo.
O Clube Brugge fez uma fase de grupos histórica na Champions, para relembrar seus melhores momentos. Que os belgas viessem de atuações interessantes em participações recentes, nada se compara ao visto no Grupo B, em que a crise dos oponentes também ajudou. O Brugge começou com tudo, ao vencer o Bayer Leverkusen em casa e enfiar um 4 a 0 sobre o Porto em pleno Estádio do Dragão. A surpresa era clara, e se escancarou com os 2 a 0 sobre o Atlético de Madrid na Bélgica, antes do empate por 0 a 0 no Metropolitano. A classificação veio com ampla antecipação, e só então aconteceu a primeira derrota, no troco do Porto com os 4 a 0 fora de casa. Na rodada final, o empate por 0 a 0 contra o Leverkusen foi protocolar, mas custou a liderança.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
Como vem sendo a temporada
O Benfica tem qualidade para fazer uma temporada brilhante. A campanha na Champions serve de cartão de visitas, depois que o time também apresentou ótimo futebol nas fases qualificatórias. Já no Campeonato Português, a liderança é confortável, embora a vantagem fosse maior até semanas atrás. Os lusitanos venceram 17 de suas 20 partidas pela liga, com somente uma derrota. É um aproveitamento impressionante, referendado pelo futebol ofensivo apresentado pelo time de Roger Schmidt. O único porém fica para as copas nacionais. Os encarnados deixaram a desejar, com as eliminações precoces na Taça de Portugal e na Taça da Liga.
O Clube Brugge é um time de duas faces nessa temporada. A campanha na Champions League é de sonho, mas no Campeonato Belga os torcedores já sabem que não será possível buscar o tetracampeonato. Os tropeços não demoraram a acontecer e, mesmo com vitória sobre o Genk na primeira rodada, o Brugge deixou que os líderes se desgarrassem. Os problemas na liga nacional culminaram na demissão do técnico Carl Hoefkens, mesmo com a história feita na Champions. Não resistiu ao quatro tropeço em cinco rodadas, no Boxing Day. E não que o time tenha dado uma guinada tão grande sob as ordens de Scott Parker. A equipe ocupa a quarta colocação na liga, mas já 20 pontos atrás do Genk. Outro problema que ocasionou a troca de treinador foi a eliminação para o St. Truiden nas oitavas da Copa da Bélgica.
Como o time voltou da pausa
O Benfica continua com um aproveitamento muito alto, mas a pausa da Copa do Mundo cortou um pouco do embalo da equipe. O primeiro resultado ruim foi o empate com o Moreirense, que culminou na eliminação na Taça da Liga. Depois, os encarnados perderam a invencibilidade na temporada, com a derrota para o Braga no Campeonato Português, e também empataram o clássico contra o Sporting. A resposta mais recente veio com quatro triunfos consecutivos na liga. Porém, o Braga também foi o algoz nas quartas da Taça de Portugal, nos pênaltis. Não seria um janeiro tão simples com a novela pela venda de Enzo Fernández. Gonçalo Guedes chegou como um reforço renomado, além das apostas nos jovens Andreas Schjelderup e Casper Tengstedt.
O Club Brugge só venceu uma partida desde o retorno aos gramados em dezembro, o que diz muito sobre as preocupações ao redor do time. Os resultados já não eram bons antes da pausa, mas pioraram desde então. A eliminação na Copa da Bélgica iniciou a série negativa. Depois, vieram seis empates e uma derrota em oito rodadas pelo Campeonato Belga. O revés diante do Genk, na abertura do segundo turno, dizimou qualquer expectativa de uma reviravolta na tabela. E o Brugge foi ficando para trás com os muitos empates recentes. Nem o “fato novo” com a troca de técnico deu jeito.

Os destaques
O Benfica não tem mais Enzo Fernández, mas o elenco é bastante qualificado. Gonçalo Ramos se valorizou na Copa do Mundo, mas já vinha arrebentando no ataque das Águias. O atacante é peça central para a dinâmica de jogo, mas deve começar no banco o primeiro duelo contra o Brugge por voltar de lesão. O mesmo se aplica a Rafa Silva, fantástico na fase de grupos da Champions, especialmente contra a Juventus. O meia é outro que tende a entrar só no segundo tempo por questões físicas. Sem eles, a reestreia de Gonçalo Guedes no torneio continental ganha até mais peso. O atacante deve ser o responsável por comandar a linha de frente. Dois menos badalados que brilharam na fase de grupos são o lateral Alejandro Grimaldo e o meia João Mário. Olho também em António Silva, zagueiro que é a grande revelação do time.
O Club Brugge tem méritos por, mesmo com o destaque na fase de grupos, conseguir segurar seu elenco. O nome mais importante na etapa anterior da Champions é um velho conhecido, Simon Mignolet. O veterano realizou atuações espetaculares em sua meta e fez a diferença para a classificação. Apesar da fama ruim dos tempos de Liverpool, repetidas vezes o goleiro opera milagres na volta à Bélgica. Por tarimba, Hans Vanaken é outro sempre instrumental no meio-campo, dono da braçadeira e maestro. Todavia, quem encantou no início da Champions foram os jovens homens de frente. Ferran Jutglà anotou gols decisivos e foi uma boa referência. Possui ótimo apoio pelos lados, não apenas pela presença de Andreas Skov Olsen e Kamal Sowah na base titular, como também pelas alternativas de Tajon Buchanan e Noa Lang por ali.
As ausências
A principal mudança do Benfica é mesmo Enzo Fernández, que a torcida faz questão de esquecer depois de forçar sua saída após a Copa do Mundo. Chiquinho tem sido o parceiro de Florentino Luis no meio. De resto, os problemas dos encarnados se concentram sobre aqueles que voltam de lesão. Gonçalo Ramos e Rafa Silva não estão 100%. Para não comprometer a situação de ambos, a tendência é que David Neres seja usado centralizado na armação, enquanto Gonçalo Guedes surja como homem de referência.
O Club Brugge realizou seguidas mudanças em seu ataque nas últimas semanas, pela instabilidade e também por problemas físicos. Três potenciais titulares estão em dúvidas para o compromisso: Ferran Jutglà, Andreas Skov Olsen e Tajon Buchanan. Com isso, Roman Yaremchuk tende a liderar a linha de frente. Kamal Sowah e Noa Lang devem ser os outros titulares, mas vale prestar atenção no garoto Antonio Nusa, de 17 anos, que ganha espaço. Do meio para trás, a escalação deve ser mantida, com menção ainda ao volante Raphael Onyedika, outro ótimo valor que desponta aos 21 anos.

Os técnicos
Roger Schmidt possui uma carreira fora de grandes potências, mas bastante respeitável. O comandante fez bons trabalhos no Red Bull Salzburg e no Bayer Leverkusen, antes de ganhar mais dinheiro no Beijing Guoan. A volta à Europa foi ótima, num trabalho de muitos elogios no PSV. E o Benfica só pode agradecer por sua chegada na atual temporada. O rendimento foi altíssimo desde os primeiros compromissos, com um jogo ofensivo e bem encaixado. O sucesso na Champions, paralelo à disparada no Campeonato Português, não parece ao acaso. É um treinador que sabe aprimorar jovens talentos e fazer elencos menos badalados superarem as expectativas. Merece o reconhecimento.
O Club Brugge mudou constantemente de técnico nos últimos tempos, fruto de seu sucesso. Philippe Clément aceitou uma oferta do Monaco após ser bicampeão belga. Alfred Schreuder o substituiu no meio da temporada passada e conquistou o tri, antes de retornar ao Ajax, onde havia sido assistente. E o Brugge decidiu promover também seu antigo assistente, Carl Hoefkens. Entretanto, a diretoria não teve dedos para demiti-lo, mesmo com o impacto na Champions, por não conseguir fazer o mesmo na Bélgica. Apostou agora em Scott Parker, o que soa mais como grife do que como retrospecto. O ex-volante teve alguns bons momentos em seu início de carreira à beira do campo, ao liderar acessos de Fulham e Bournemouth. Em compensação, caiu duas vezes com os Cottagers e não resistiu nas Cherries depois de um 9 a 0 do Liverpool. E não é o início na Bélgica que anima.
Os antecedentes
Embora dois clubes bastante tradicionais nas competições europeias, Club Brugge e Benfica terão seu primeiro embate nos torneios da Uefa.

Figura em comum
Um dos grandes personagens do Benfica na temporada passada foi Roman Yaremchuk. O centroavante não teve grande desempenho pelos encarnados, mas anotou gols decisivos na Champions League. E nenhum foi mais marcante que o tento que valeu o empate contra o Ajax nas oitavas de final, fundamental à classificação. Foi um gol de simbolismo ainda maior pelo contexto político. O ucraniano comemorou exibindo uma camiseta com um símbolo nacional, em meio às tensões com a Rússia que resultaram na guerra poucas semanas depois. Apesar de muito festejado também pelos benfiquistas, o atacante deixou o clube depois de um ano. O Club Brugge pagou €17 milhões, em aposta por seu sucesso anterior no Gent. Yaremchuk só marcou dois gols em 24 partidas até o momento e frequenta mais o banco, mas a Champions passada já mostrou como pode se transformar.
Onde assistir
Quarta-feira, 17h (horário de Brasília)
Transmissão no Space e na HBO Max



