Champions League

Um jogaço sob neve: PSG é mais letal na Alemanha, segura a pressão do Bayern e larga com ótima vantagem

A eficiência ofensiva dos parisienses pesou bastante, em noite de protagonismo para Neymar e Mbappé

Finais, tantas vezes, possuem elementos de tensão que travam os times e não produzem boas partidas. Um exemplo aconteceu no Estádio da Luz, na decisão passada da Champions League, quando o duelo entre Bayern de Munique e Paris Saint-Germain ficou abaixo das expectativas que gerava. Entretanto, sob intensa neve, a Allianz Arena cumpriria as promessas oito meses depois, com um jogo memorável. Desta vez, rendendo a festa ao PSG, que garantiu uma excelente vitória por 3 a 2 e deu um passo à frente na busca pelas semifinais da Champions. Os franceses foram mais precisos no ataque, abriram a vantagem rapidamente e resistiam à insistência dos bávaros. E, mesmo cedendo o empate, ainda tiveram talento à disposição para garantir o triunfo num contragolpe.

O Bayern teve uma atuação dominante. Os números enfatizam isso, com 31 finalizações, 12 delas no alvo. Contudo, os alemães não exibiram a eficiência dos franceses, assim como seus erros acabaram se tornando bem mais custosos atrás. Alguns desfalques pesaram ao time de Hansi Flick, que ainda lidou com as lesões de jogadores durante a noite. Mas nada que alivie o resultado que não aconteceu, quando os bávaros tinham condições para isso. Mauricio Pochettino, afinal, também perdeu Marquinhos e não contava com dois de seus melhores meio-campistas. Teve, em contrapartida, um trio iluminado durante os 90 minutos: Navas, Neymar e Mbappé. Os três permitiram um passo importante à classificação, ainda mais num jogo de tamanha intensidade, que até por isso perdeu ritmo no fim.

O Bayern de Munique não tinha Serge Gnabry e Robert Lewandowski para a partida. Com isso, Leroy Sané e Kingsley Coman formavam a dupla nas pontas, com Eric Maxim Choupo-Moting no comando de ataque. Já na defesa, Lucas Hernández e Niklas Süle começavam, com Jérôme Boateng e Alphonso Davies no banco. O PSG também encarava seus problemas, especialmente no meio, sem Leandro Paredes ou Marco Verratti. Idrissa Gana Gueye e Danilo Pereira formavam a dupla de volantes. Já no quarteto ofensivo, a novidade era Julian Draxler no lugar de Moise Kean. O alemão formava uma trinca com Neymar e Ángel Di María no apoio, enquanto Kylian Mbappé atuava mais adiantado no ataque.

Os primeiros movimentos já deixavam claro como seria um grande jogo. O Bayern tentou abafar e criou as primeiras oportunidades. Hernández testou Keylor Navas e, logo depois, Choupo Moting carimbou o travessão ao completar de cabeça uma cobrança de escanteio. Porém, o PSG confirmou sua capacidade de surpreender logo em sua primeira chegada e abriu o placar com três minutos. O contra-ataque foi muito bem armado, aproveitando certa precipitação da zaga bávara e a falta de coordenação na pressão, o que deixou um buraco. A partir do passe de Di María, Neymar disparou e deixou quatro marcadores comendo poeira. Mbappé apareceu livre na direita e recebeu o passe. O chute não foi tão bom, mas Neuer facilitou ao fazer o movimento errado e acabou falhando no lance, permitindo o gol.

Atrás no placar, o Bayern precisaria aumentar sua intensidade e trabalhava durante quase todo o tempo nos arredores da área do PSG. A pressão era grande, mas a defesa parisiense fazia um bom trabalho para segurar a vantagem. Marquinhos, em especial, cumpria um excelente papel na proteção. Melhor ainda aos parisienses, os contra-ataques causavam muitos problemas aos alemães. Os visitantes voltaram a balançar as redes aos 12 minutos, com Draxler, mas um impedimento mínimo de Mbappé na construção do lance safou os anfitriões. A estrutura da equipe de Hansi Flick parecia abalada.

O desenho da partida era bastante claro, com o Bayern tendo que se impor e o PSG podendo esperar. Navas também se tornaria essencial para segurar o resultado, à medida que os espaços para as finalizações se tornavam maiores. Primeiro, aos 19, numa cobrança de falta de Kimmich, Goretzka apareceu na pequena área, mas não conseguiu finalizar em cheio. Ainda assim, foi uma defesa difícil de Navas em cima da linha. Logo depois, seria a vez de Benjamin Pavard encher o pé no canto e o arqueiro espalmar. A blitz sinalizava a possibilidade de empate, com Choupo Moting também assustando numa batida para fora após escanteio.

Todavia, os desleixos defensivos do Bayern voltariam a custar caro. Mais uma brecha ao PSG se transformou em gol aos 28. Depois de uma cobrança de escanteio, Choupo Moting até afastou no primeiro momento. O problema foi a maneira como os bávaros saíam da área logo depois. E os méritos também foram de Neymar, que descolou um lançamento primoroso. Marquinhos foi muito inteligente ao perceber a movimentação da linha de impedimento e apareceu livre na área, dominando com qualidade e definindo na saída de Neuer. O pesar ao zagueiro era a lesão que sofreu logo depois. Ander Herrera entrou e Danilo Pereira recuou à zaga.

O placar exigia uma resposta de Hansi Flick e o treinador realizou duas alterações antes do intervalo – segundo a revista Kicker, ambas por problemas físicos. Primeiro, Alphonso Davies entrou na vaga de Leon Goretzka, com Lucas Hernández deslocado à zaga e David Alaba adiantado para o meio. O lado esquerdo mais forte ofensivamente já gerou preocupação no PSG e, a partir de uma inversão, surgiu o primeiro gol bávaro aos 37. Pavard teve todo o espaço para cruzar e botou a bola na cabeça de Choupo Moting, que testou para baixo, vencendo Navas. Logo depois, Süle daria lugar a Jérôme Boateng na defesa. O restante do primeiro tempo seguia com a bola nos pés do Bayern, mas sem grandes espaços.

Pochettino voltou ao segundo tempo com Mitchel Bakker no lugar de Abdou Diallo, outo a sentir dores. Mas nada que resultasse numa alteração global no jogo. O Bayern seguia apertando e ditando o ritmo. A insistência era grande, com boa participação de Coman pela esquerda. Os goleiros logo começariam a aparecer nos primeiros minutos. O primeiro a crescer foi Neuer, após um desarme de Mbappé sobre Sané na entrada da área, num lance em que Neymar saiu livre pela esquerda e o goleiro se agigantou para bloquear o chute. A bola ainda seguiu viva, mas Davies tirou em cima da linha a batida de Mbappé. Do outro lado, Navas interviu duas vezes, rebatendo um tiro de fora executado por Alaba e logo depois outra chegada de Pavard.

Dava para dizer que o Bayern sentia a falta da presença de área de Lewandowski, por mais que Choupo Moting fizesse uma boa partida. Muitas vezes os bávaros rondavam e pareciam esperar o posicionamento excelente de seu goleador para aproveitar as brechas. O polonês, porém, não estava lá. O PSG, enquanto isso, se desdobrava na defesa e tentava contar com seus contragolpes. Mbappé até escapou num lance em que carimbou Neuer, mas estava impedido. O Bayern, de qualquer forma, tinha mais volume e empatou aos 15. Numa cobrança de falta lateral, Kimmich cruzou no capricho e Müller cabeceou livre, às redes.

A partida seguia entre a pressão do Bayern e a paciência do PSG. Os franceses tinham dificuldades para acertar suas transições, até pela falta de qualidade do meio para trás. Na frente, no entanto, estava claro como uma bola bastaria. E ela apareceu aos 23, com o terceiro gol da equipe, o segundo de Mbappé. Di María deu um tapa de primeira no meio e Mbappé partiu para cima de Boateng. O chute saiu prensado, mas o desvio acabou sendo determinante para tirar Neuer e balançar o barbante. Di María sairia logo depois, substituído por Moise Kean.

Um problema ao Bayern era a falta de alternativas no banco. Além de Lewa e Gnabry, Douglas Costa e Corentin Tolisso também estavam ausentes. A única opção ofensiva era Jamal Musiala, que não entrou. E a intensidade do time caiu um pouco na sequência do terceiro gol do PSG, numa partida muito exigente fisicamente. Os bávaros passaram bons minutos batendo contra a parede, sem sequer criar oportunidades. Aos 41, voltaria a sobrar uma fresta, graças a um pivô de Choupo Moting, mas Alaba bateu a centímetros da trave. Logo depois, Müller conseguiu girar na área e também arrematou para fora. Os alemães ainda pediriam um pênalti no fim, negado pela arbitragem. Faltou fôlego e o jeito será tentar reverter em Paris. Nos instantes finais, Neymar ainda daria lugar a Rafinha, numa substituição para ganhar um pouco mais de tempo e celebrar o triunfo.

Não dá para falar que o Bayern de Munique realizou uma partida ruim. Todavia, a equipe errou demais durante os primeiros minutos. Sair atrás no placar não é exatamente uma novidade nesta temporada e aconteceu muitas vezes na Bundesliga, com viradas bávaras. O problema é que os alvirrubros não tinham encarado um adversário com tanta força individual. Além disso, por mais que Navas tenha feito uma partidaça, as 31 finalizações indicam como o calibre não foi o melhor. Individualmente, Kimmich se destacou, criando a maior parte das oportunidades da equipe. Pavard e Coman também se apresentaram bastante, enquanto Müller e Choupo Moting se entenderam razoavelmente na frente, mesmo faltando algo a mais. Mas a defesa errou muito e Leroy Sané ficou devendo, mais ciscando que oferecendo algo.

Do lado do Paris Saint-Germain, a precisão se tornou fundamental. Diferentemente do que aconteceu na decisão em Lisboa, os parisienses se mostraram fulminantes quando puderam fuzilar. Todo avanço era um perigo imenso e a impressão é de que os visitantes poderiam ter feito mais, não fossem os impedimentos. Além disso, a defesa conseguiu evitar um saldo pior, travando mais de um terço das finalizações bávaras, embora também tenha precisado de um Navas excelente sob os paus. Marquinhos foi ótimo enquanto esteve em campo, assim como Idrissa Gana Gueye. Mas o protagonismo cabe a Neymar e Mbappé, no melhor de seu entrosamento para resolver o jogo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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