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Uefa e autoridades francesas foram mesmo responsáveis pelos incidentes na final da Champions, aponta relatório independente

Uma comissão independente foi formada para investigar os incidentes da final da Champions de 2022 e apontou para uma série de erros, mas isentou os torcedores do Liverpool

Após os incidentes na decisão da última Champions League, realizada no Stade de France, a Uefa patrocinou o trabalho de uma comissão independente para avaliar as responsabilidades sobre as ocorrências – com torcedores feridos, riscos de mortes, o atraso do pontapé inicial e milhares de pessoas que sequer conseguiram entrar nas arquibancadas. Depois de quase nove meses da partida, o relatório final foi apresentado à entidade continental. Embora a divulgação inicial não fosse oficial, a imprensa inglesa teve acesso às informações de maneira antecipada, incluindo veículos como a Sky Sports e o jornal The Guardian. Conforme a análise, os principais erros foram cometidos pela própria Uefa, assim como pelas autoridades da França. Torcedores do Liverpool acabaram isentos de culpa pela ocasião, que, segundo o estudo, poderia ter terminado em desastre.

“É notável que ninguém tenha perdido a vida. Todas as partes interessadas que foram entrevistadas pela comissão concordaram que por pouco uma tragédia não aconteceu: um termo usado quando um evento quase se transforma em uma catástrofe fatal em massa”, avalia a comissão independente. Ao todo, 21 melhorias foram recomendadas à Uefa e às autoridades francesas, com o pedido para que a segurança seja colocada no centro do planejamento e que esses eventos sejam vistos pelo bem-estar do torcedor, não sob o risco de um problema de segurança pública.

A decisão da Champions teve seu início atrasado em 37 minutos, em decorrência dos incidentes nos arredores do Stade de France. Nem todos os torcedores conseguiram entrar no estádio, diante da falta de planejamento nos arredores e também do abuso de força, com uso de gás lacrimogêneo e spray de pimenta. Torcedores do Liverpool, em especial, ficaram feridos em meio à confusão. Conforme o estudo, os problemas eram evidentes mesmo três horas antes do horário marcado para o jogo. Desta maneira, não daria como botar a culpa nos torcedores sem ingressos que chegaram tarde, como fizeram anteriormente a Uefa e as autoridades da França.

O relatório criticou as operações da Uefa e da polícia da França, embora tenha atribuído a responsabilidade primária à entidade continental. A Uefa teria marginalizado sua unidade de segurança, chefiada por um amigo do presidente da confederação, Aleksander Ceferin, que assumiu o cargo em 2021. O setor de eventos da Uefa escanteou essa unidade de segurança, com o uso de profissionais subcontratados, e sequer respeitou as diretrizes internas. Por conta disso, a unidade de segurança não manteve diálogo constante com as autoridades francesas e não revisou detalhes da segurança. Não participou efetivamente do planejamento e nem lidou com a crise ocasionada. Foi o próprio Ceferin quem tomou a decisão de adiar o início do jogo, numa tarefa que seria atribuição da unidade de segurança.

A polícia da Prefeitura de Paris não trabalhou em conjunto com os demais responsáveis pela realização da final. Com isso, não conseguiu prevenir os tumultos ou aliviar o congestionamento de um acesso ao estádio reconhecidamente problemático, num gargalo nos arredores do local. O chefe de eventos da Uefa, Martin Kallen, inclusive teria mentido ao dizer que a confederação realizou “várias finais no Stade de France sem problemas”. O próprio relatório após a final da Champions de 2006, ocorrida no local, afirmava que ocorreram “sérios problemas de operação com parceiros, e em particular com a polícia”, bem como criticavam os acessos ao Stade de France como um local que “não estava apto a uma final de Champions”.

Além disso, houve abuso de força, avaliado pela comissão independente. Conforme o relatório, o uso de spray de pimenta e de gás lacrimogêneo foi indiscriminado. Com isso, pessoas ficaram feridas e foram prensadas nos setores de acesso aos torcedores do Liverpool. Outra crítica feita à polícia é a falta de ação contra assaltos e outros ataques a ocorridos nos arredores do estádio – inclusive também na volta dos torcedores para casa, algo pouco reportado pela imprensa. Os policiais também não lidaram adequadamente com os invasores que pularam as cercas de proteção ao redor da entrada principal do Stade de France.

A análise esclarece que a Uefa e as autoridades francesas tentaram atribuir culpa aos torcedores do Liverpool, sem indícios de que eles tivessem realmente causado os tumultos, por supostamente estarem sem ingressos. As investigações apontaram que não há evidências que comprovem tais acusações. Mais de 2,5 mil torcedores do Liverpool com ingressos sequer conseguiram entrar no estádio. Inclusive, existe a possibilidade de problemas nas catracas, que apontaram como falsos ingressos verdadeiros, o que aumentou o tumulto na entrada ao estádio.

“O painel conclui que as afirmações sobre um grande número de torcedores sem entradas e com ingressos falsos foram erroneamente exageradas e declaradas como fatos, para desviar a responsabilidade pelo planejamento e pelas falhas operacionais. Isso é repreensível e envolveu a Uefa, a Uefa Eventos, a Federação Francesa de Futebol, a Polícia de Paris, funcionários do governo e ministros franceses”, enfatiza o relatório, que inclusive comparou a postura com a maneira como o Desastre de Hillsborough foi tratado em 1989. “As afirmações de que os torcedores atrasados e sem ingressos foram a causa principal ou contribuíram para os eventos perigosos têm uma ressonância particular com Hillsborough, quando alegações similares foram feitas e persistiram por décadas, antes de serem totalmente refutadas”.

Inclusive, a comissão avaliou que a consciência dos torcedores do Liverpool em relação ao desastre de Hillsborough auxiliou para que nenhuma nova tragédia ocorresse. Eles estariam mais conscientes do perigo e evitaram um tumulto letal. Entretanto, os torcedores do Liverpool também seriam mais vulneráveis ao trauma e à crise de ansiedade.

Os maiores riscos aconteceram depois que o posto de controle responsável por lidar com a entrada dos torcedores foi abandonado, diante das dificuldades causadas pelo número enorme de pessoas amontoadas em filas paradas. Seguranças sem experiência o suficiente fecharam as catracas com problemas e aumentaram o congestionamento. Foi especialmente neste momento, conforme o relatório, que um esmagamento poderia ter ocorrido, envolvendo as pessoas que aguardavam sua entrada no estádio.

As informações iniciais sobre a análise apontam que não havia um Plano B para a organização da final, como um planejamento para que forças policiais fossem reorganizadas nos arredores do Stade de France. Conforme a Sky Sports, embora a Uefa seja apontada como “responsável primária”, nem todos os membros da comissão independente concordam com essa conclusão. Além disso, está claro como a polícia e membros da federação francesa também precisam assumir responsabilidades por seus papéis no episódio. A Uefa delegou parte de suas atribuições como organizadora do evento à entidade nacional – num erro que também é responsabilidade da organização continental.

O relatório indica preocupação inclusive de que as autoridades da França não consigam absorver devidamente os erros apontados pela investigação. Há um risco de “complacência e compreensão equivocada”, segundo a análise. O país irá receber a Copa do Mundo de Rúgbi em 2023 e também as Olimpíadas em 2024, ambos os eventos com o Stade de France entre seus palcos principais.

Embora a final da Champions de 2022 tenha sido tirada de São Petersburgo e levada a Saint-Denis a menos de três meses de sua realização, não é isso que reduz o peso dos erros dos responsáveis pelo evento. Conforme o relatório, o planejamento da final da Copa da França foi usado como base para a decisão da Champions, o que seria um erro primário em dimensionar a ocasião. Além disso, a reação diante dos vários entraves passou longe de ser a ideal.

Em nota oficial, o Liverpool lamentou o vazamento das informações do relatório e reiterou que aguarda o posicionamento oficial da Uefa: “É extremamente decepcionante que um relatório de tal significado, de tal importância para as vidas dos torcedores e sua segurança futura, acabe vazado e publicado desta maneira. Foram mais de oito meses de trabalho do painel independente e é justo e apropriado publicar o conteúdo do relatório para nossos torcedores de forma apropriada. Vamos esperar para receber uma cópia e sintetizá-lo completamente antes de fazer qualquer outro comentário”.

A comissão independente responsável pelo relatório foi presidida por Tiago Brandão Rodrigues, ex-ministro da Educação e Esportes de Portugal. Também participaram dos trabalhos um grupo de especialistas em segurança em eventos esportivos. Representantes de grupos de torcedores ingleses foram consultados. A comissão entrevistou diversos membros da Uefa e autoridades francesas, bem como torcedores. O circuito de segurança do Stade de France, porém, não pôde ser acessado porque foi excluído automaticamente, sem pedidos da Uefa ou das autoridades para que fosse preservado.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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