Champions League

Três duelos históricos (mas não tão lembrados) que se repetirão nas oitavas da Champions

Por Leandro Stein, da Trivela, e Emmanuel do Valle, do Flamengo Alternativo

O sorteio das oitavas de final da Liga dos Campeões trouxe à tona vários reencontros. Dos oito jogos, apenas Sevilla x Leicester e Manchester City x Monaco nunca aconteceram por competições continentais. Alguns outros já até cansaram: Arsenal x Bayern de Munique acontecerá pela quarta vez nas últimas cinco temporadas, além de outros dois confrontos no início desta década; PSG x Barcelona também se cruzarão pela quarta vez desde 2013, enquanto fizeram jogos históricos na semifinal da Champions em 1995 e na final da Recopa de 1997; já Bayer Leverkusen x Atlético de Madrid valeu a sorte das duas equipes nas oitavas em 2014/15.

Assim, preferimos relembrar outros três confrontos que não estão tão frescos assim na memória. Que remetem a excelente histórias e a grandes times de todos os envolvidos: o Borussia Dortmund x Benfica de 1963/64, o Real Madrid x Napoli de 1987/88 e o Juventus x Porto de 1983/84.

Borussia Dortmund x Benfica

O Borussia Dortmund viveu as suas maiores glórias a partir da década de 1990. Este fato, entretanto, não pode deixar esquecidos os grandes times aurinegros antes disso. Na virada dos anos 1950 para os 1960, o Westfalenstadion era a casa de um dos grandes esquadrões da Alemanha. E que, vez por outra, brilhava também no resto dos gramados da Europa. A maior glória aconteceu em 1966, com a conquista da Recopa sobre o Liverpool. Mas duas temporadas antes, os germânicos já tinham alcançado as semifinais da Copa dos Campeões. Deixaram pelo caminho ninguém menos que o Benfica, bicampeão continental. Entre 1961 e 1965, foi o único ano em que os benfiquistas não alcançaram a final.

O cruzamento entre os campeões alemães e os campeões portugueses aconteceu nas oitavas de final. Favorito, o Benfica começou provando sua força no Estádio da Luz. Diante de 41 mil torcedores, os encarnados venceram por 2 a 1. Simões abriu o placar, enquanto Wosab empatou no segundo tempo. No entanto, caberia ao eterno Eusébio garantir a festa dos tugas. O que ninguém esperava era a imposição dos aurinegros no Westfalenstadion.

O técnico Lajos Czeizler sentiu falta de Costa Pereira e Eusébio. Mesmo assim, com Coluna, Cavém e outros ídolos presentes, nada justifica a goleada por 5 a 0. Os três primeiros gols saíram entre os 33 e os 37 do primeiro tempo, em pane geral dos lusitanos. Partidaça do Dortmund, sobretudo do atacante Franz Brungs, autor de um hat-trick. Reinhold Wosab e Timo Konietzka completaram a contagem. Em campo, outras lendas aurinegras, como o goleiro Hans Tilkowski, Wilhelm Burgsmüller, Alfred Schmidt e Lothar Emmerich. Na sequência, o Dortmund ainda eliminaria o grande Dukla Praga, de Josef Masopust. Só cairia nas semifinais, para outro time mítico: a Internazionale de Helenio Herrera, com empate por 2 a 2 na Alemanha e derrota por 2 a 0 na Itália.

Napoli x Real Madrid

O sorteio da antiga Copa dos Campeões costumava ser uma verdadeira roleta russa. Não havia qualquer direcionamento dos confrontos. Nenhum campeão nacional tinha privilégios. O que permitia embates titânicos logo nos 16-avos de final. Exatamente o que aconteceu em 1987/88. Após conquistar seu primeiro Scudetto, o esquadrão do Napoli cruzou justamente com o timaço do Real Madrid, a Quinta del Buitre, que seria pentacampeão espanhol no final da década de 1980. Apenas um sobreviveu. E nenhum dos dois conseguiria ser campeão europeu naqueles anos ferrenhos.

Que os melhores jogadores do mundo estivessem na Itália, o Real Madrid era um dos poucos clubes de outros países que conseguiam bater de frente. A equipe de Leo Beenhakker era a base da seleção espanhola, de Butragueño, Míchel, Sanchís e outros tantos grandes. Além de Hugo Sánchez, o grande astro estrangeiro, artilheiro da célebre formação merengue. Do outro lado, porém, talento também não era problema. A começar por Diego Maradona. E o camisa 10 estava em ótima companhia naquela temporada, com Careca, Bruno Giordano, Ciro Ferrara, entre outros.

O primeiro jogo, contudo, teve um pouco menos de brilho. Primeiro, porque o encontro no Santiago Bernabéu teve portões fechados, por incidentes com a torcida durante o duelo com o Bayern de Munique na temporada anterior. Além disso, nem Careca e nem Hugo Sánchez entraram em campo. Melhor para os madridistas, que dominaram a partida e venceram por 2 a 0, gol de Míchel cobrando pênalti e outro de De Napoli, contra o próprio patrimônio. Já na volta, o Estádio San Paolo abarrotado por 84 mil presentes não foi suficiente. Francini abriu a conta aos nove minutos, mas o goleiro Paco Buyo estava com o corpo fechado. E, graças a um lindo passe de Sanchís, Butragueño empatou antes do intervalo. Precisando de dois tentos, os napolitanos não foram além do 1 a 1. Nas fases seguintes, o Real eliminou os fortíssimos Porto e Bayern, mas caiu para o campeão PSV com dois empates.

Juventus x Porto

Juventus e Porto se encontraram apenas uma vez anteriormente pela Champions. Mas há, em outra copa europeia, um confronto mais marcante: a decisão da Recopa de 1984, vencida pela Juve por 2 a 1 no Estádio St. Jakob, na Basileia. Naquela temporada, a Velha Senhora havia levantado seu oitavo scudetto nas últimas 13 temporadas, mas o sucesso na Europa até ali era escasso. Havia apenas uma Copa da Uefa conquistada em 1977. O clube ainda amargava a decepção recente da derrota para o Hamburgo, na final da Copa dos Campeões no ano anterior.

Aquele time do Porto, por sua vez, quando chegou à decisão já havia feito história: era a melhor campanha em um torneio continental. Os tripeiros deixaram pelo caminho Dinamo Zagreb, Rangers e Shakhtar Donetsk, além de baterem o atual campeão da Recopa, o Aberdeen de Alex Ferguson, vencendo ambos os jogos das semifinais. No caminho para a Basileia, a Juve dirigida por Giovanni Trappatoni despachou Lechia Gdansk, Paris Saint Germain, Haka finlandês e, nas semifinais, o Manchester United – que havia tirado o Barcelona de Maradona na fase anterior.

Na final, disputada em 16 de maio, todos os gols saíram no primeiro tempo. A Juve abriu o placar logo aos 12 minutos, num lance de inteligência e precisão. Platini passou a Vignola na meia esquerda. O camisa 7 puxou três marcadores, invadiu a área e bateu cruzado. Zé Beto ficou no golpe de vista, enquanto a bola batia no pé de sua trave esquerda, antes de entrar. O empate do Porto veio em uma de suas primeiras finalizações, aos 29 minutos, num lance de sorte. Após bola alçada na área que o centroavante Fernando Gomes escorou para trás. Jaime Magalhães recebeu e passou a António Sousa, que chutou rasteiro. A bola bateu no montinho na linha da pequena área e enganou Tacconi.

O gol do título bianconero saiu quase no fim da primeira etapa, aos 41, num lance confuso. Vignola, autor do primeiro gol, desta vez foi o garçom, lançando Boniek na área. O polonês dividiu pelo alto com o zagueiro e ganhou a jogada com o peito. Mesmo desequilibrado após se chocar também com o goleiro Zé Beto, que saiu em falso, o polonês conseguiu girar e tocar para as redes. Para o Porto, valeu como experiência acumulada, que seria útil três anos depois quando o clube levantaria sua primeira Copa dos Campeões. Já para a Juve, deu injeção de ânimo para seu também primeiro título na Champions, logo no ano seguinte, completando a trinca de taças europeias.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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