Champions League

Temporadas de Liverpool e Real Madrid tornam o confronto completamente imprevisível

Como esses gigantes chegam às quartas de final? Pelo que eles fizeram até agora, difícil saber com certeza

Real Madrid e Liverpool têm duas das camisas mais pesadas da Europa. Um combinado de 19 títulos de Copa dos Campeões e Champions League e se enfrentaram em duas finais. Confrontos tão grandes costumam ser equilibrados, e são as temporadas que passam algumas pistas para tentarmos descobrir qual dos dois tem mais chances de passar: quem chega em melhor momento, quem leva vantagem pelo encaixe coletivo individual, quem tem um ou outro jogador em melhor forma. No caso das quartas de final que se iniciam nesta terça-feira, porém, as temporadas mais confundem do que esclarecem.

É mais ou menos assim: o melhor Liverpool desta temporada foi superior ao melhor Real Madrid desta temporada; por outro lado, o pior Real Madrid desta temporada foi superior ao pior Liverpool desta temporada. O Real Madrid foi mais regular. Raras vezes tirou menos de 5, raras vezes tirou mais de 7. A amplitude de desempenho do Liverpool, porém, foi maior. Conseguiu bater 8,5 ou 9 em alguns jogos, mas em outros não passou de 3 ou 4 – alô Aston Villa.

Tudo dependerá de qual time cada um colocará em campo, especialmente por parte do Liverpool, e pouco tem a ver com escalações. O Liverpool jogará como o campeão europeu, inglês e mundial que chegou a ser ao mesmo tempo? O Real Madrid se aproximará um pouco mais do tricampeão europeu? – sê-lo na plenitude é difícil sem Cristiano Ronaldo e com o meio-campo envelhecido.

Há motivos diferentes para ambos não serem mais o que foram recentemente. E claro que essas não são as duas únicas opções. Há diversos graus que cada um pode apresentar nas quartas de final e é por isso que esse é um duelo tão imprevisível, e, consequentemente, tão interessante.

Renovação? Qual renovação?

Vinícius Júnior comemora gol pelo Real Madrid (JOSE JORDAN/AFP via Getty Images/OneFootball)

Zidane é estranho. É um treinador tricampeão europeu que às vezes passa a sensação de que não sabe o que está fazendo. Em termos relativos, claro. Alguma coisa está tentando, alguma direção está tomando. Acontece que nem sempre parece a certa. Nem sempre seu time encanta, nem sempre joga bem. Mas fica um pouco difícil discordar dos números. Além dos títulos europeus, ele ganhou dois do Campeonato Espanhol e tem apenas uma derrota nas últimas 19 rodadas – um turno inteiro de La Liga. Ganhou 14 desses jogos e encostou no Atlético de Madrid. Está vivíssimo na briga pelo bicampeonato espanhol.

Logo, alguma coisa certa ele também está fazendo. Tão certa que ganhou o direito de ser um pouco mais pragmático do que costumam permitir ao treinador do Real Madrid, um clube que vende vitórias e também espetáculos. Quando os resultados dão lugar às contestações, ele tem dois escudos e um álibi. O primeiro escudo: ele é Zinedine Zidane. O segundo escudo: o cara ganhou três Champions Leagues seguidas. O álibi: ele conduz um processo de renovação que demora mesmo e, se conseguir vencer uma outra coisa no meio do caminho, como já fez, tanto melhor.

Mas um bom promotor tentaria refutar esse álibi. O quanto ele realmente está renovando o time? Treze jogadores entraram em campo pelo menos 1.000 minutos nesta temporada com a camisa do Real Madrid. Já é um número baixo. Para ficar em seus dois principais rivais domésticos, o Barcelona tem 17 jogadores com mais de 1.000 minutos, o Atlético de Madrid tem 15. O Liverpool está em 14, mas seus três principais zagueiros perderam mais da metade da temporada.

O pior, porém, ainda está por vir. Apenas dois deles têm menos de 25 anos: Vinícius Júnior (20) e Federico Valverde (22). Que renovação é essa que não coloca os moleques para jogar? Entre esses 13, nove foram tricampeões europeus com Zidane: Varane, Casemiro, Benzema, Modric, Kroos, Lucas Vázques, Asensio, Nacho Fernández e Sergio Ramos. Os únicos rostos novos de verdade são Courtois e Ferland Mendy porque Marcelo não está dando muita razão para ser escalado por Zidane. E aí voltamos à pergunta: que renovação é essa se ele continua colocando os mesmos caras para jogar?

Militão jogou pouco. Rodrygo não jogou muito. Ninguém tem certeza se a passagem de Luka Jovic por Valdebedas realmente existiu ou foi apenas uma ilusão. Dani Ceballos e Martin Odegaard estão se empenhando para tentar fazer funcionar o projeto de renovação do… Arsenal. E os canteranos? Quais canteranos? Tem uns três que jogaram meia dúzia de vezes. Eu discordaria, mas é possível defender que nenhum deles será um grande jogador do nível do Real Madrid. Como saber sem testar em jogos para valer? Juntos, Militão, Rodrygo, Jovic e Odegaard, antes desses dois últimos serem emprestados, somam 1.982 minutos em campo nesta temporada. Bem menos do que os 2.647 de Lucas Vázquez.

Então não é que o Real Madrid não tem feito os olhos de ninguém brilharem nesta temporada porque está em processo de renovação. Se alguma coisa, é justamente por não estar. Zidane pediu demissão na hora certa, logo depois do terceiro título europeu, e deixou que os seus sucessores se desgastassem para escancarar a necessidade de renovação. Voltou com poderes plenos para mandar prender e mandar matar, mas continua apegado aos mesmos senadores de sua primeira passagem – aos que sobraram, pelo menos. Talvez por gratidão? Talvez. Mas provavelmente pelo seguinte: eles lhe dão a melhor chance de vencer imediatamente.

É isso que Zidane parece estar priorizando. O momento pode ser propício para uma renovação. Ela até pode ser necessária. Mas ele não parece disposto a abrir mão de nenhuma porcentagem de chance de vencer em nome dela. Seu time é regular porque está recheado de jogadores experientes. Eles não têm mais vitalidade para atuar a todo vapor semana após semana, exceto Benzema. Mas se ele, Kroos, Modric e Sergio Ramos estão no mesmo lado, também não dá para jogar muito mal tantas vezes e as vitórias vão se acumulando. A dúvida é: será o bastante para ganhar a Champions League?

O pior dos pesadelos 

Virgil van Dijk e Jordan Pickford, em jogada do dérbi entre Liverpool e Everton (Laurence Griffiths/Getty Images/OneFootball)

Se pedissem a um torcedor do Liverpool imaginar a pior cenário possível para a defesa do título da Premier League, ele provavelmente começaria com uma lesão que deixaria Van Dijk fora de ação por meses. A pandemia o faria pensar em excesso de problemas físicos e Anfield vazio todos os jogos. Poderia citar que alguns dos principais jogadores do time cairiam drasticamente de rendimento. Talvez não acertasse que seriam Alexander-Arnold e Roberto Firmino. Nunca diria que o campeão inglês levaria 7 x 2 do Aston Villa. Essa era difícil de imaginar. Mas a temporada do Liverpool decorreu mesmo mais ou menos da pior maneira que poderia decorrer.

Parte disso é circunstancial, parte é culpa dos envolvidos, mas eles recebem um desconto gigantesco por tudo que fizeram nos últimos anos. O Liverpool passou de um time que se despediu de um dos maiores jogadores da sua história sendo goleado pelo Stoke City a outro que quase conquistou 200 pontos em duas edições da Premier League e ganhou a Champions League no meio do caminho. Ganhou também o primeiro título inglês em 30 anos, o que deve ter passado uma sensação irresistível de dever cumprido, mais uma peça do contexto que fez o time diminuir a rotação.

A dúvida em relação ao Liverpool é se a máquina apenas enguiçou ou enferrujou de vez. Se é apenas uma temporada em que tudo deu errado, em que todos estavam de barriga cheia e não havia torcida para religá-los na tomada ou se chegou a hora de uma renovação profunda no elenco. Para Klopp, ainda não. “Eu não acho que é a hora de uma grande reconstrução como eu a entendo: seis, sete fora, contratos chegando ao fim, tentando se livrar deles e trazendo novos rostos. O time deste ano não teve a chance de jogar junto uma vez na verdade. Acho que faria sentido ver como eles se sairiam, mas, claro, alguns pequenos ajustes acontecerão”, afirmou, no fim de fevereiro.

Klopp se refere aos jogadores que foram contratados justamente para injetar um pouco de sangue novo e evitar o sentimento de barriga cheia. Diogo Jota tem sido brilhante, mas passou um tempo machucado. Thiago foi contratado para dar um novo tom ao meio-campo e tem sido obrigado a tentar reconstruir o antigo. E passou um tempo machucado. Nenhum deles teve muita chance de jogar com Van Dijk. Ou Matip. Ou Joe Gomez. Entre esses dois e os prováveis três reforços que o Liverpool deve buscar (Ibrahima Konaté, para a zaga, um substituto para Wijnaldum, chegando ao fim de seu contrato, e um atacante melhor que Origi para sair do banco), seriam cinco rostos novos em relação ao time campeão inglês.

A diferença principal entre Klopp e Zidane é que sabemos exatamente aonde o alemão quer chegar e já vimos o plano final em ação em mais de um ambiente – e, sim, ele funciona muito bem. Ele pode estar em um momento de baixa, inclusive no âmbito pessoal, com a perda da mãe para a Covid-19, mas não deixou de ser um treinador de primeiro nível da noite para o dia. Da mesma maneira, os jogadores do Liverpool não desaprenderam a jogar bola, nem chegaram à idade em que isso a capacidade física começa a ir embora. Exceto MIlner e Henderson, todos os principais jogadores têm menos de 30 anos.

A goleada sobre o Crystal Palace em 19 de dezembro parecia o sinal de que, depois de tantos tropeços e soluços, mesmo com desfalques e problemas, o Liverpool estava pronto para voltar a jogar o que sabe jogar. No fim das contas, os tropeços e os soluços foram a parte boa da temporada dos Reds que apenas agora começam a colocar a cabeça um pouquinho para fora da água, com três vitórias seguidas pela primeira vez desde o começo de novembro – e uma delas bem enfática.

O Liverpool jogou como campeão inglês contra o Arsenal: no domínio do jogo, relativamente bem na defesa, sufocante na pressão, letal no ataque e nos contra-ataques. Não foi a primeira vez na temporada. Atingiu picos de desempenho anteriormente, contra Atalanta (5 x 0), Leicester (3 x 0), Wolverhampton (4 x 0), e Tottenham (3 x 1), além do já citado Palace, e fez bons jogos contra o RB Leipzig.

É possível que o ciclo desse time tenha chegado ao fim. Simplesmente é impossível saber neste momento porque esses picos e o excesso de circunstâncias adversas sugerem que a máquina deu apenas uma enguiçada. E o Liverpool parece apostar nessa hipótese porque projeta apenas ajustes pontuais e não uma profunda renovação para o próximo mercado. Acontece que o clube não sabe em que condições chegará a ele. A margem de erro já foi toda utilizada. Poucos desses jogos de alto desempenho foram feitos desde a queda brusca de rendimento no final de dezembro. E os poucos que foram acabaram sendo apenas lapsos e não o início de uma recuperação.

Caso o Liverpool queira terminar a Premier League entre os quatro primeiros colocados e disputar de fato o título da Champions League, a vitória sobre o Arsenal precisa ser o início de uma sequência de vitórias e alto rendimento e, novamente, não tem como saber neste momento. Se isso acontecerá ou não será determinante para saber qual versão do Liverpool entrará em campo contra o Real Madrid: a que goleou o Crystal Palace e venceu o Arsenal com folgas ou a que perdeu seis vezes seguidas em casa. O histórico recente indica que pode ser qualquer uma delas ou qualquer outra entre elas.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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