Champions League

Svilar entrou para a história da Champions, e seu desafio agora é fazer que isso seja esquecido

Aos 18 anos, Mile Svilar estava no centro das atenções na Champions League. E a idade era justamente o chamariz em relação ao jovem goleiro do Benfica. No final de semana, o belga disputou a primeira partida como profissional. Diante da lombalgia de Júlio César, assumiu a meta na Taça de Portugal e agradou na vitória por 1 a 0 sobre o Olhanense. Seu teste de fogo, de qualquer maneira, aconteceu nesta quarta. Seria ele o responsável por proteger a baliza de um time com o moral surrado. Teria a responsabilidade de enfrentar o Manchester United, assim como se tornaria o mais jovem arqueiro a disputar a Champions, superando o recorde de Iker Casillas. Fazia boa partida, seguro. Até que o excesso de confiança se tornasse seu pecado. Com uma falha capital, Svilar permitiu a vitória dos Red Devils por 1 a 0, que deixa os encarnados muito próximos da eliminação no torneio continental.

A história de Svilar como goleiro começa antes mesmo de seu nascimento. Seu pai se chama Ratko Svilar, e também se dedicou à baliza em sua carreira profissional. Formado pelo Crvenka, o iugoslavo fez sua fama no Vojvodina, antes de se transferir ao Royal Antuérpia. Disputou a Copa do Mundo de 1982 e atuou no clube belga até depois dos 40 anos, antes de se tornar treinador de goleiros e técnico em diferentes oportunidades. Em 1999, Mile nasceu e seria lapidado dentro de casa. Ingressou nas categorias de base do Anderlecht e logo começou a se destacar, convocado também pelas seleções menores da Bélgica. Seu potencial era notado por diferentes clubes da Europa, que passaram a cortejá-lo. O Benfica, então, se tornou o seu destino, aconselhado por Nemanja Matic.

A princípio, Svilar seria o terceiro goleiro no elenco de Rui Vitória. Júlio César era o nome mais referendado, enquanto Bruno Varela se tornou uma aposta para ocupar a lacuna deixada por Ederson. No entanto, os problemas de seus companheiros, o novato ganhou sua chance de ouro. E parecia contar com o apoio de todos no clube para cumprir seu trabalho. Ainda mais depois da goleada sofrida na visita ao Basel, a cobrança sobre o Benfica na Liga dos Campeões se agigantou. Muitos temiam sofrer outro passeio, desta vez em pleno Estádio da Luz, diante do Manchester United. Não foi o que se viu ao longo dos 90 minutos.

Para quem aguardava um jogo mais intenso em Lisboa, as expectativas não se cumpriram. Ao contrário do que aconteceu na Basileia, o Benfica demonstrou solidez em seu sistema defensivo. Deu pouquíssimas brechas ao Manchester United, mordendo principalmente no meio-campo, o que afastava os visitantes de sua área. Vez ou outra, os laterais benfiquistas sofriam com a habilidade dos meias adversários, mas nada além disso. Já do outro lado, os encarnados por vezes incomodavam nos contra-ataques, apostando na velocidade pelos lados do campo. Uma tônica que se viu desde o primeiro tempo e seguiu na volta do intervalo.

Enquanto isso, Svilar aparecia bem quando exigido. Logo nos primeiros instantes, saiu de maneira corajosa no bico da grande área para afastar um lançamento a Romelu Lukaku, de peixinho. Fez uma boa defesa em chute rasteiro de Matic, além de estar sempre bem posicionado, especialmente nas bolas alçadas. Era um dos destaques em campo, surpreendentemente tranquilo para o tamanho da ocasião e para a sua idade. Entretanto, quando deveria ser um pouco menos seguro de si, Svilar falhou. Marcus Rashford cobrou uma falta de muito longe, em direção ao gol. A bola na descendente estava nas mãos do goleiro. Mas, ao invés de socá-la e afastar de uma vez o perigo, preferiu segurá-la. Acabou passando a linha e concedendo o gol. A tecnologia no relógio do árbitro não deu margem ao erro. Aos 19 do segundo tempo, a vantagem era do Manchester United.

Na sequência da partida, Svilar voltou a fazer boa defesa, em chute forte de Anthony Martial, desviando para escanteio. E o Benfica teve a chance de redimir a sua promessa, ameaçando mais no ataque, embora não tenha conseguido acertar uma vez sequer a meta de David de Gea. Ao final, o lamento era apenas dos encarnados, que jogaram de igual com os Red Devils e poderiam muito bem ter arrancado a vitória. Por uma infelicidade, saíram do Estádio da Luz derrotados e praticamente eliminados, ainda sem pontuar na Champions.

Ao apito final, as câmeras se concentraram em Svilar. O goleiro pediu desculpas a torcida, antes de ser consolado por companheiros e adversários. Júlio César foi um dos primeiros a erguer a cabeça do garoto. Seus “compatriotas”, Lukaku e Matic também conversaram com o prodígio. Já na coletiva à imprensa, quem o exaltou foi José Mourinho. “Só um grande um goleiro sofre este gol. Não gosto de goleiros que partam a cabeça na trave, prefiro um que tome este gol do que fique os 90 minutos em cima da linha. É um grande talento, um fenômeno, e vai render muito dinheiro para o Benfica”, declarou o comandante dos Red Devils.

Svilar, por sua vez, tratou de seguir em frente: “Podia ter feito melhor no gol, mas não posso mudar isso agora. Não me afeta, estou mentalmente preparado. Faz parte do crescimento, é assim, não podemos voltar atrás”. Visão importante para seguir o seu trabalho, já que o técnico Rui Vitória o respaldou para seguir na posição durante a próxima rodada do Campeonato Português. Em campanha modesta até o momento, ocupando apenas a terceira colocação e cinco pontos atrás do líder Porto, os encarnados visitarão o Desportivo das Aves.

O potencial de Svilar está claro. O jovem costuma ser elogiado por seu empenho nos treinamentos, enquanto o histórico na base o respalda. É comparado com Thibaut Courtois, embora a transferência ao Benfica aluda também à lenda de Michel Preud’Homme, que brilhou pelos benfiquistas nos anos 1990. E outro goleiro mítico da Bélgica, Jean-Marie Pfaff, já rasgou elogios ao seu herdeiro, dizendo que a promessa tem potencial para superá-lo. A questão será a maneira como o garoto irá se refazer do erro, após aprender com ele. Depois de Jan Oblak e Ederson, o Benfica apresentou suas credenciais para lapidar bons goleiros. A convivência com Júlio César será importante. Mas há um rótulo que se criou nesta quarta, e o desafio de Svilar é não deixar que isso marque a sua carreira. Os três gols sofridos por Casillas em sua estreia na Champions, contra o Olympiacos de Giovanni e Zlatko Zahovic, mal são lembrados. Já a sua precocidade na meta merengue valeu uma história bem maior, e pouco tempo depois.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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