Surpresa das quartas da LC, APOEL não vence por acaso

Como uma equipe do Chipre está entre as oito finalistas da Liga dos Campeões da Europa? Em outro esporte, seria difícil responder essa questão. Já no futebol, mais uma vez fica provado que uma equipe bem organizada e formada com jogadores interessados pode alcançar os mais inesperados resultados.
O sérvio Ivan Jovanovic levou o APOEL, atual campeão nacional, aonde nunca uma equipe cipriota havia chegado. Fez isso porque formou, ao longo de mais de quatro anos de trabalho, um time coeso, inteligente e ciente de suas limitações.
A partida de volta das oitavas-de-final, contra o Lyon, na capital Nicosia, foi tratada de forma diferente pelo técnico Jovanovic. Tendo que reverter a derrota de 1-0 da ida, o sérvio optou por mudar o seu tradicional 4-2-3-1 por um mais ortodoxo 4-4-2. O motivo foi criar na defesa dos franceses mais dificuldades de marcar o principal jogador da equipe, o atacante brasileiro Aílton.
O APOEL é uma equipe muito agressiva na marcação. Jogando sempre com a linha defensiva bastante alta, o objetivo é recuperar a bola da maneira mais rápida possível e, de preferência, no campo do adversário. A estratégia visa forçar o rival ao erro e dificultar sua transição ofensiva. O zagueiro Paulo Jorge é o último homem e o comandante do setor. A imagem abaixo mostra o instante em que o APOEL recupera a posse da bola.
Oito jogadores do time cipriota ocupam o campo do Lyon (Charalambides está na extrema direita e não aparece no quadro). Paulo Jorge está no campo defensivo, mas dentro do círculo central.
O grupo, apesar de não ser de grande qualidade técnica, é rico em atributos fundamentais para que essa tática funcione: preparo físico, concentração e entrega. Outro ponto positivo é o trabalho dos volantes (Nuno Morais e Hélder Souza) na primeira bola defensiva. Com bom porte e imposição física, eles ganham quase todas as disputas aéreas no meio-de-campo.
Estratégia se adapta às limitações da equipe
Na hora de sair para o ataque, a transição é bastante rápida, tendo nas bolas longas sua principal arma. Manduca e Charalambides avançam bastante pelos lados, formando quase um 4-2-4. O alvo preferido é Aílton. O brasileiro recebe a bola sempre com duas opções de ação: o giro para tentar a jogada individual ou o pivô para um companheiro que chega de frente. Quando os espaços para o lançamento não aparecem, Manduca é quem dá opção para articular pelo meio, com o lateral Boaventura apoiando para ocupar o flanco esquerdo.
Especificamente para esse jogo, o treinador optou por escalar um segundo atacante. Solari ocupou a vaga que geralmente é do volante Hélio Pinto (suspenso pelo segundo amarelo) ou do meia Trickovski (que ficou no banco de reservas). O argentino entrou com a incumbência de se movimentar intensamente, levando consigo a marcação e criando espaços para a velocidade dos meias-extremos e de, principalmente, Aílton. Foi exatamente assim que saiu o gol da vitória por 1-0.
O zagueiro Marcelo Oliveira é quem avança com a bola para iniciar a jogada longa. Solari desloca-se para a ponta direita, levando consigo a marcação do zagueiro Cris. Essa movimentação cria o espaço para a arrancada de Aílton, que recebe o passe na frente. Na sequência, o brasileiro é derrubado ao tentar o domínio da bola, que sobra para Charalambides. Ele invade a área e cruza rasante para Manduca completar para o gol na segunda trave.
Com a abertura do placar logo aos 9 minutos, o restante da partida, incluindo a prorrogação, se desenvolveu com o Lyon atacando desorganizado um APOEL bem postado. Apesar de mais posse e mais conclusões a gol, o time de Remi Garde não conseguiu criar chances claras e, nas poucas vezes que o fez, parou no goleiro Chiotis. A classificação merecida veio no desempate por pênaltis.
O Chipre ocupa a 127ª posição do Ranking Mundial. Nunca disputou uma Copa do Mundo, sequer uma Eurocopa. Mesmo assim, o APOEL, saído de três fases classificatórias, sem nenhum jogador de renome, continua surpreendendo. Jovanovic conhece seu elenco, sabe o que ele é capaz de produzir e treinou a equipe muito bem para executar suas ideias. No futebol, nem sempre o melhor é o vistoso, às vezes, ganha o mais eficiente.
Viva o futebol, viva o APOEL.



