Champions League


Shankly instigou Anfield para intimidar a Inter de Helenio Herrera – e levou o troco na Itália

Adversários desta quarta-feira, Internazionale e Liverpool disputaram vaga na final da Copa dos Campeões de 1965, com vantagem aos italianos no fim das duas partidas

Bill Shankly tinha seus truques. No começo da primeira campanha do Liverpool na Copa dos Campeões da Europa, decidiu abandonar os calções e meiões brancos para que o seu time entrasse em campo todo de vermelho para intimidar o Anderlecht. “Vermelho de perigo, vermelho de poder”, como descreveria o atacante Ian St. John. Após passar pelo Colônia nas quartas de final no cara ou coroa, Shankly colocaria em prática outra estratégia para tentar eliminar a Internazionale de Helenio Herrera. Deu certo para o jogo em Anfield, mas os italianos deram o troco em Milão e foram à final conquistar o bicampeonato europeu.

A Internazionale poucas vezes deixou de brigar no topo da tabela da Serie A depois do fim da Segunda Guerra Mundial, tornou-se dominante com a chegada de Herrera em 1960 e ganhou experiência em futebol continental na Taça das Cidades com Feiras antes de conquistar seu primeiro título da Copa dos Campeões, em 1964. Enquanto isso, o Liverpool foi rebaixado nos anos cinquenta e demorou quase uma década para retornar à elite da Inglaterra. Conseguiu graças à chegada de Shankly, que comandou uma revolução de métodos, estrutura e mentalidade. Campeão inglês quebrando 16 anos de jejum na temporada anterior, aquela participação na Copa dos Campeões foi a primeira campanha europeia dos Reds.

Falando em primeiras vezes, dias antes de receber a Internazionale em Anfield, o Liverpool ganhou a Copa da Inglaterra pela primeira vez, um tabu considerável se levarmos em conta que a competição existia há quase 100 anos. A vitória em Wembley contra o Leeds foi selada com um gol de St. John, a oito minutos do fim da prorrogação. Antes, Gerry Byrne, com a clavícula quebrada desde o início do jogo, havia dado assistência para o gol de Roger Hunt, igualado por Billy Bremner logo na sequência. A bravura de Byrne e o ineditismo da conquista seriam a nova cor vermelha que Shankly usaria para intimidar os seus convidados.

Para o plano funcionar, era essencial que a Internazionale subisse primeiro ao gramado, para começar a ser vaiada pelas abarrotadas arquibancadas de Anfield antes da explosão final que Shankly havia maquinado. Ele havia cordialmente convidado Herrera a começar o aquecimento mais cedo, como se fosse um ato de educação, mas os italianos estavam enrolando nos vestiários. Foi necessário um empurrãozinho extra. Eu disse: ‘Está na hora de ir’, e eles uma hora foram. Era exatamente o que eu queria, psicologicamente”, escreveu Shankly, em sua autobiografia.

Os jogadores da Inter subiram e começaram o aquecimento diante da Kop, principal arquibancada do estádio. Debaixo de pesadas vaias, decidiram mudar de lado quando apareceram as camisas vermelhas. O capitão Ron Yeats liderou a fila, seguido Byrne e Gordon Milne, também desfalque para a partida por lesão, carregando a Copa da Inglaterra. “Deus do céu, a erupção que aconteceu entre nossos torcedores quando eles viram a taça. O barulho era inacreditável. As pessoas estavam histéricas”, disse Shankly em seu livro. Como ele adorava dar umas exageradas, é importante buscar uma segunda fonte. “Quando a taça apareceu, eu juro que a terra estava vibrando. Nunca ouvi um barulho como aquele. A sua cabeça zumbia. Poderíamos ter vencido qualquer um naquela noite, até o Pelé e o Brasil”, disse Ian Thompson, inspetor-chefe da polícia de Merseyside, que trabalhou naquela partida, ao livro Bill Shankly: It’s Much More Important Than that.

Hunt marcou um gol “continental, não um gol britânico” pegando uma bola que estava quatro metros no ar. Sandro Mazzola empatou para a Internazionale, mas Ian Callaghan e St. John também deixaram seus nomes no placar. “Herrera veio nos ver duas ou três vezes, mas nunca havia nos visto jogar como naquela noite e nos deu os méritos depois da partida. ‘Nós já fomos batidos’, disse, ‘mas, esta noite, fomos derrotados’”, escreveu Shankly. Mas tinha jogo de volta.

O Liverpool ficou hospedado em Como, famoso pelo seu lago, a cerca de 70 kms de Milão. Uma cidadezinha simpática, bonitinha, casa de uma igreja com um sino, como a maioria das cidadezinhas simpáticas e bonitinhas da Itália. Um sino que toca de hora em hora. “Não foi tão ruim até mais ou menos 11 horas da noite quando o barulho do dia cessou e não havia nada para ouvir além das badaladas”, contou Shankly em seu livro. Ele e Bob Paisley, na época membro da comissão técnica, foram conversar com o monsenhor da Igreja, pedir para que ele segurasse um pouco o sino pelo menos naquela noite. “Ele foi simpático, mas disse que não poderia fazer o que pedimos. Então eu disse: ‘Bom, você pode deixar Bob subir lá e colocar uma atadura nos sinais e talvez meio que silenciá-los um pouco?’. Ataduras de crepe e algodão! Bob estava morrendo de dar risada”, completou.

A cirurgia para diminuir o barulho dos sinos também não foi permitida, e os jogadores ingleses não tiveram a melhor noite de sono das suas vidas. No dia seguinte, também não tiveram a melhor noite de futebol das suas vidas porque o clima em San Siro era hostil, com sinalizadores e bombas de fumaça. A Internazionale ganhou por 3 a 0, com uma arbitragem que irritou imensamente os ingleses. Reclamam (sim, até hoje) da falta cobrada por Mario Corso para o primeiro gol e principalmente do segundo tento, marcado por Joaquín Peiró após roubar a bola, saindo de trás, enquanto o goleiro Tommy Lawrence a pingava no chão antes da reposição. Giacinto Facchetti fechou a conta aparecendo na área como se fosse um centroavante.

Reclamações à parte, a Internazionale se impôs como a campeã europeia que era contra um time pouco experiente em competições europeias, que perdeu a concentração diante de condições adversas. O brasileiro Jair da Costa faria o único gol da final, também em San Siro, contra o Benfica, para dar à Internazionale o bicampeonato europeu. O Liverpool teria que esperar até 1977 para conquistar a Copa dos Campeões. Mas nesse intervalo, adquiriu cancha com várias campanhas importantes, como a decisão da Recopa, no ano seguinte, e principalmente os dois títulos da Copa da Uefa no começo da década de setenta.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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