Rodrygo personificou a mística do Real Madrid no Bernabéu e já é eterno na dourada história merengue na Champions
Rodrygo decidiu uma noite mágica com suas conhecidas virtudes e com a alma que tantas vezes rege as glórias do Real Madrid na Champions
O espírito imortal do Real Madrid percorre os campos da Champions desde os anos 1950. Alfredo Di Stéfano foi o primeiro a incorporar aquela aura e liderar um pentacampeonato continental. Por vezes, compartilhava tal alma invencível com Ferenc Puskás, Paco Gento e outras lendas. Com o passar das décadas, outros gigantes se transformaram na essência merengue – de Predrag Mijatovic a Zinédine Zidane, de Cristiano Ronaldo a Karim Benzema. Nesta Champions, mais do que nunca, a imortalidade madridista se impõe mesmo nas situações menos prováveis. E coube a um brasileiro de 21 anos se transfigurar numa daquelas noites eternas do Estádio Santiago Bernabéu. Rodrygo escreve seu nome na gloriosa história do Real Madrid na Liga dos Campeões. Foi ele quem permitiu que se materializasse uma das vitórias mais incríveis do clube, mesmo entre tantas histórias lendárias vividas pelo maior campeão europeu.
Quando surgia de maneira muito precoce no Santos, Rodrygo chamava atenção por sua juventude e também pela evidente habilidade. Porém, existiam outras virtudes que, com um olhar mais apurado, indicavam como aquele garoto era diferente. Uma delas era a maturidade, independentemente da idade mostrada em seu RG. O atacante nunca sentiu o peso da ocasião. Arrebentava logo de cara em Libertadores. Não se intimidava com a mística da camisa do Santos, comparável à de raríssimos clubes no mundo. E, dentro dessa postura, Rodrygo sempre tratou a bola como um senhor. Sua capacidade nos fundamentos era de um jogador pronto. Dava para ver que tudo ocorreria muito cedo em sua carreira, diante de tamanha personalidade.
Rodrygo não ficou muito tempo no Santos. O Real Madrid decidiu apostar no adolescente, pagar os milhões que o seu futebol já valia. O atacante dependeu de um período de adaptação na Espanha, com aparições pelo Castilla. Mesmo assim, a impressão de que o atacante queimaria etapas rapidamente persistia. A quem já tinha estourado em Libertadores, fazer o mesmo na Champions nem parecia tão distante assim. Basta lembrar o que aconteceu em sua segunda aparição pelo torneio, com uma tripleta diante do Galatasaray no Bernabéu. Estava claro como o garoto era destinado a coisas grandes, embora a campanha não tenha durado além das oitavas. Rodrygo deu assistência, mas a equipe não resistiu ao Manchester City.
Rodrygo não conseguiria repetir o nível de impacto na Champions passada, passando mais tempo no banco durante os mata-matas, apesar de boas atuações na fase de grupos. De qualquer maneira, é a atual temporada que muda o status do atacante no Real Madrid. O nível de confiança aumentou com Carlo Ancelotti, assim como seu espaço na equipe titular. Pode não fazer o barulho de Vinícius Júnior e nem ser intocável nas escalações, mas nem por isso deixa de ser muito importante. Já tinha sido nessa Champions, com bons momentos na fase de grupos e com o gol que permitiu a reviravolta diante do Chelsea nas quartas, após o presentaço de Modric.
Ancelotti escolheu Rodrygo como titular no primeiro duelo com o Manchester City, no Estádio Etihad. O atacante não se saiu muito bem. O Real Madrid dependeu muito das individualidades para sobreviver no confronto, mas a contribuição do brasileiro seria apenas pontual. Uma deixa para recuperar sua confiança veio no final de semana, contra o Espanyol, na partida que poderia confirmar o título merengue. E ele se consumou, muito graças à atuação estelar do jovem. Anotou dois gols, infernizou a marcação com seus dribles, liderou a goleada por 4 a 0. Taça nas mãos, o ponta já tinha ajudado a concretizar algo grande. Estava mais leve. O raio cairia duas vezes no mesmo lugar.
Dá para discutir se Rodrygo não merecia ser titular contra o Manchester City no Bernabéu. Ancelotti optou por deixá-lo no banco e ter uma arma extra no segundo tempo. Foi necessária, pela forma como os merengues não conseguiam criar boas oportunidades de gol. Tornou-se urgente, quando os ingleses abriram o placar na reta final. Pela forma como o jogo se desenrolava, os merengues pareciam mortos no confronto. Por meio de Rodrygo, ressuscitaram, com aquela velha alma que pintou na Europa pela primeira vez nos anos 1950. Nesta quarta-feira, ela vagava com o 21 às costas.
O Rodrygo decisivo no Bernabéu não foi necessariamente o habilidoso, o precoce. Foi o maduro e o excelente nos fundamentos. Estava no lugar certo para ocupar o espaço de Benzema e permitir a fagulha aos 45 minutos, numa conclusão se antecipando a Ederson. Ainda faltava um gol. Rodrygo faria mais nos acréscimos, aos 46. Brigou pela bola no começo do lance e, quando veio o cruzamento, o ponta de apenas 1,74 m cresceu dois metros na área. Fez tal qual um grande centroavante, um Benzema. Cabeceou com técnica, como quem não sente o peso da definição. Estava leve para voar com a alma imortal dos madridistas.
Quando a prorrogação começou, Rodrygo devia se sentir o melhor jogador do mundo. E ele procuraria o melhor do mundo da temporada, Benzema, com um passe que rendeu o pênalti fatal. Que permitiu o gol de ouro do francês Bola de Ouro e que, diante de um City abatido, garantiu a classificação sem nem depender dos pênaltis. Embora os ingleses precisassem de um gol, a tranquilidade do Real Madrid fez toda a diferença no tempo extra. Rodrygo também influenciava nisso, num time combativo, que não deixaria de lutar nunca depois do Everest escalado. Ajudava na defesa, roubava bolas e encaminharia a festa depois.
Depois que o jogo acabou, Rodrygo apareceu agachado no gramado. Era como se não acreditasse em tudo aquilo que tinha vivido. Era como se despedisse da imortalidade merengue, agora ele mesmo eterno nos livros sobre o clube. Durante a comemoração, os companheiros claramente estavam encantados com o garoto. Mesmo veteranos como Marcelo, o mais vitorioso da história madridista, davam seus sorrisos ao Rayo. E o ponta exibia a camisa especial que pedia o 14° título, ainda possível graças a ele.
Há uma final a se disputar e uma chave de ouro para concluir a campanha verdadeiramente épica do Real Madrid. Mas dois gols a partir dos 45 minutos do segundo tempo num mata-mata de Champions, seja qual for o desfecho da competição, será sempre um privilégio até então inédito de Rodrygo. Assim como seu nome será privilegiado a cada vez que um torcedor do Real ou um apaixonado por futebol qualquer recontar os eventos dessa noite mágica no Bernabéu. A mística merengue atendeu pelo número 21.



