Champions League

Real Madrid foi uma rocha na defesa e, apesar da melhora do Liverpool, passou às semifinais

Liderados por Casemiro e a linha defensiva, os merengues seguraram o 0 a 0 em Anfield

Dessa vez não houve milagre em Anfield. Nem era o Anfield de sempre, com as arquibancadas vazias, nem era realmente necessário haver um milagre. O Liverpool teve uma atuação muito melhor do que na Espanha, mais em linha com o equilíbrio que se esperava para o confronto, mas a fragilidade no primeiro tempo da partida de ida foi fatal aos seus sonhos. O Real Madrid, extremamente sólido na defesa, resistiu à pressão inglesa e avançou às semifinais com o empate por 0 a 0 e 3 a 1 no placar agregado.

Zidane não correu nenhum risco. Tirou velocidade do jogo quando precisou. Aglomerou-se na própria área quando foi necessário. Esteve sempre à espreita, esperando a hora certa de dar o bote e matar as quartas de final, mas nem precisou. Dentro dos parâmetros do que se espera à esta altura da Champions League, e do que o Liverpool já conseguiu produzir em momentos de adversidade, teve até que certa tranquilidade para lidar com um ataque que já foi um dos melhores do mundo.

Não é mais. Há causas coletivas. A pressão incessante tornou-se intermitente, mesmo com Fabinho de volta ao meio-campo. É o cobertor curto: ele melhora a roubada de bola no setor, mas deixa o time com Nat Phillips e Ozan Kabak na linha de zaga. Eles foram aterrorizados por Vinícius Júnior e Karim Benzema no primeiro jogo. Com esse contexto, foi uma decisão sábia moderar a intensidade. Se o Real Madrid marcasse, não haveria nenhuma chance. Como não marcou, o confronto se arrastou ainda indefinido.

Defensivamente, o Liverpool foi relativamente seguro. Levou dois sustos, ambos com Benzema. Mas o ataque falhou na hora do passe final, na tranquilidade para converter as três ou quatro chances que apareceram, dando também os méritos à defesa merengue, com Federico Valverde na lateral direita, Éder Militão e Nacho Fernández pelo meio, Ferland Mendy à esquerda e Casemiro como o xerifão, sempre com bloqueios e desarmes muito bem calculados.

O Liverpool quase teve o começo dos sonhos. No terceiro minuto, Mané matou o lançamento nas costas da defesa e passou para o meio da área. Salah chegou batendo rasteiro, mas não pegou muito bem na bola. Mandou direto ao meio, onde estavam os pés de Courtois. O ritmo seguiu alto pelos dez minutos seguintes. Mané dava um calor danado em Valverde, aberto como lateral direito após lesão que encerrou mais cedo a temporada de Lucas Vázquez. O período de pressão terminou com uma finalização colocada de James Milner no ângulo. Ótima defesa de Courtois.

A partir dos 11 minutos, o Real Madrid começou a ficar mais com a bola. O Liverpool diminuiu a intensidade da pressão. Era uma situação delicada: precisava buscar dois gols, mas o jogo da Espanha deixou claro que não poderia deixar seus zagueiros, Kabak e Phillips, no mano a mano com Vinícius Júnior e Benzema. Isso se soma à falta de confiança para roubar a bola no ataque como sempre fez tão bem agora que não tem Van Dijk para limpar a barra lá atrás – e nem Joel Matip, e nem Joe Gomez.

Esse equilíbrio até foi encontrado, em parte porque o Real Madrid, com a bola, não teve pressa nenhuma para atacar. Com vantagem de dois gols, cozinhava o jogo, deixava o tempo passar, arriscava pouco. O Liverpool não sofreu na defesa. O único susto foi um vacilo de Phillips na altura do meio-campo. Benzema roubou a bola, avançou à entrada da área, deu o come em Kabak e tentou o passe para Vinícius Júnior. O desvio no zagueiro turco quase foi fatal, mas morreu no pé da trave.

Sentindo um pouco o cheiro de sangue, o Real Madrid avançou as suas linhas para tentar matar a eliminatória. A partir dos 20 e poucos minutos, o Liverpool passou a ter muitos problemas com a saída de bola. Quando conseguia, porém, chegava com certo perigo em transição, mas faltou capricho na hora de dar o último passe. Os laterais especialmente pareciam mandar a bola para a área de qualquer jeito, apesar de serem dois bons passadores que costumam colecionar assistências.

Nos últimos dez minutos, o Liverpool voltou a chegar com perigo mais sustentado. Mané não alcançou um cruzamento fechado de Arnold por pouco e depois cruzou a área com um passe rasteiro para Salah, que dominou com certo espaço, mas mandou por cima. Wijnaldum teve uma boa chance, após jogada de raça de Arnold, mas… também mandou por cima. Aos 46 minutos, Mané recebeu na entrada da pequena área, de costas para o gol, e escorregou na hora de girar para bater.

De qualquer maneira, foi um bom primeiro tempo do Liverpool. No entanto, depois da derrota na partida de ida, pelo menos ótimo seria necessário. O Real Madrid foi para o intervalo ainda muito confortável. Levou alguns sustos, mas pareceu sempre no controle.

Os ingleses voltaram a imprimir um ritmo alto no começo da segunda etapa. Firmino teve boa chance, outra defesa interessante de Courtois. Na marca dos 15 minutos, Klopp antecipou a mudança estrutural que havia feito no final da partida do Alfredo Di Stéfano: Jota no lugar de Kabak, Fabinho recuado à zaga, Firmino como camisa 10, Salah pelo meio, Mané pela direita, o português pela esquerda. Também trocou Milner por Thiago para tentar melhorar a qualidade de passe no meio-campo.

Como no Alfredo Di Stéfano, isso resultou em mais facilidade para o Liverpool se manter no campo de ataque. Também como no Alfredo Di Stéfano, essa posse de bola resultou em poucas chances de gol. O famoso domínio arame liso, sem muita criatividade. Salah e Firmino tiveram boas situações bloqueadas. Especialmente Firmino, vítima de ótima ação defensiva de Militão. Jota fez uma bagunça na área e bateu cruzado. Outro desvio. Outro escanteio – que, sem Henderson e Van Dijk, deixaram de ser uma arma dos Reds.

Enquanto isso, o Real Madrid apenas aguardava a chance de matar o jogo. Apareceu em um lançamento maravilhoso de Valverde para Vinícius Júnior. Alisson saiu na hora certa e ainda abafou o rebote com Benzema. Também houve uma cabeçada do francês, livre na pequena área. Ele pegou apenas de raspão na bola e mandou por cima. Zidane fechou um pouco mais a casinha aos 27 minutos, com Odriozola na vaga de Kroos, voltando Valverde ao meio-campo. Klopp deu a última cartada dez minutos depois: Oxlade-Chamberlain e Shaqiri nos lugares de Mané e Firmino.

Pernas mais frescas para tentar o milagre nos dez minutos finais, mas foram justamente nesses que a ocupação territorial do Liverpool foi mais inofensiva. Apenas nos acréscimos apareceu uma boa chance. Thiago roubou na entrada da área, avançou e rolou para Salah. Courtois saiu do gol e, para colocar de vez um ponto final na disputa, a bola ainda bateu no egípcio e saiu em tiro de meta.

Estrutural e coletivamente, o Liverpool fez uma boa partida. Com domínio das ações, seguro na defesa. Não teve a qualidade individual para transformar isso nas chances de gol que precisava para se classificar. Poderia ter se soltado mais? Não sem se deixar exposto, um risco que reservou para a última meia hora. Não foi uma estratégia ruim, mas todo jogo tem duas equipes. O Real Madrid, com todos os problemas que apresentou nesta temporada, é um time cascudo, experiente e organizado. Duro de ser batido. E mais uma vez na semifinal.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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