Champions League

Quanto vale a Liga dos Campeões?

A Liga dos Campeões é o mais importante campeonato interclubes do mundo. Os times mais famosos do planeta entram em campo para se enfrentar e a Uefa oferece uma premiação que o torna o mais lucrativo torneio existente no futebol. Nem a Copa do Mundo distribui tanto dinheiro. Apesar disso, não é só a premiação – nem o óbvio mérito esportivo – que torna a competição atraente para os clubes.

Na Copa do Mundo de 2010, a Fifa distribuiu US$ 420 milhões (cerca de € 296 milhões). Na temporada 2010/11, a Uefa distribuiu € 754,1 milhões em prêmios. Com uma premiação tão alta, a competição torna-se um grande atrativo aos times, mesmo àqueles que não têm chances de ser campeão.

Na temporada passada, por exemplo, o Zilina, o campeão da Eslováquia, conseguiu passar pelas preliminares e chegar à fase de grupos. A Uefa oferece uma premiação mínima a cada participante da fase e mais uma extra de acordo com o resultado (empate ou vitória, derrota não garantem qualquer bônus). O time eslovaco perdeu todos os seus seis jogos. Mesmo assim, levou para casa € 7,4 milhões de euros, e só não recebeu mais porque a televisão eslovaca paga apenas € 212 mil pelos direitos de televisão da Liga dos Campeões.

O valor pago ao Zilina foi o menor entre todos os participantes da última Liga dos Campeões. O maior coube ao Manchester United, mesmo ficando com o vice-campeonato da competição. Os Red Devils levaram para casa € 53,2 milhões, pouco a mais do que o campeão, Barcelona, que ficou com € 51 milhões. A razão para o segundo ganhar mais do que o primeiro é simples. Os direitos de TV pagos ao United foram de € 28,8 milhões, enquanto os catalães receberam € 18,8 milhões – valores pagos pelas redes de televisão dos respectivos países.

Como os ingleses recebem mais pela TV, o terceiro que mais arrecadou foi o Chelsea, que levou € 44,5 milhões. Em seguida vem o Schalke 04 com € 39,75 milhões e o Real Madrid € 39,3 milhões – os dois últimos foram semifinalistas, enquanto o primeiro foi quadrifinalista.

A alta premiação permite que clubes como o próprio Manchester United e o Barcelona mantenham sua vida financeira mais saudável. Os Red Devils têm uma dívida grande, ainda em função da compra do clube pela família Glazer, em 2005 – que tomou empréstimos para a compra e colocou o pagamento na conta do clube. Por isso, embora o clube tenha voltado a apresentar lucros na última temporada, o dinheiro da Liga dos Campeões é importante para o balanço financeiro.

O Barcelona, por sua vez, é outro que precisa dos prêmios da Liga dos Campeões para manter usa saúde financeira. Isso porque o clube catalão é um dos que mais gasta com salários no mundo. Apesar de ser um grande arrecadador de recursos, os blaugranas gastam cerca de 60% da sua folha em salários. Só que curiosamente, quanto mais o time ganha, mais gasta. Isso porque o time tem vários contratos de desempenho. Ganhando os títulos que disputa, o Barcelona aumenta sua folha salarial em cerca de 20%. Ainda assim, um clube com o nível de gasto que tem o Barcelona não pode sequer imaginar ficar fora da Liga dos Campeões. Sem ela, o time teria que apertar o cinto nas finanças.

Quando o dinheiro não é o mais importante

Apesar da premiação alta oferecida pela Uefa, alguns clubes estão mais interessados na Liga dos Campeões pela oportunidade de negócio que ela representa. Um dos torneios mais vistos do mundo, o interclubes traz exposição e ajuda os clubes a expandirem suas marcas e espalharem torcedores e fãs ao redor do mundo todo. Não por acaso, clubes como o Real Madrid e o Manchester United conseguem ter torcedores em locais distantes do seu mercado original, como a Ásia.

Por faturar muito com marketing, a Liga dos Campeões representa a mais importante forma de divulgação, de estar em mais jogos televisionados para mais lugares ao redor do mundo. Em última instância, significa mais tempo de exposição aos patrocinadores do clube. Além disso, ainda mantém a marca em exposição. Nesse sentido, é importante também fazer boas campanhas não só pelo óbvio fator esportivo, mas por criar ainda mais torcedores pelo mundo – aumentando mais o número de consumidores de produtos do clube.

A Uefa, porém, pode barrar quem quer entrar nesse clube das grandes marcas de clubes europeus a qualquer custo. Os clubes que gastarem mais do que arrecadam passarão a ser punidos pelo Fair Play Financeiro, que irá monitorar, nas próximas temporadas, as finanças dos clubes. E a punição não será apenas com multas. A maior delas será a proibição de participar de competições europeias, especialmente a Liga dos Campeões, a maior delas.

“Mais importante do que o valor em si, que é importantíssimo especialmente para clubes menores, que arrecadam na casa de € 15 milhões a € 20 milhões de premiação, para os grandes clubes como o Real Madrid, que fatura € 440 milhões, faturar entre € 25 milhões e € 30 milhões em um ano, é importante, ajuda, mas é um incremento de 6% mais ou menos do seu negócio, quer dizer, não é tão impactante”, afirma Amir Somoggi, diretor da área Esporte Total da consultoria BDO.

“A punição do Fair Play Financeiro pode estar diretamente associada à valorização da marca, ampliação da base de torcedores. Então a punição que um clube pode sofrer por não participar da Liga dos Campeões vai muito além da premiação em si”, explicou Somoggi. O consultor lembra que o Marchester City faz atualmente o que o Chelsea já fez no passado, buscando se globalizar e ampliar sua base de torcedores em todo o mundo. Ficar fora de uma competição de muita visibilidade como a Liga dos Campeões é uma punição pesada para um clube que quer crescer a sua marca.

Com isso, o clube consegue ganhar mais mercado e aumentar também a arrecadação futuramente. O Chelsea conseguiu aumentar significativamente a sua arrecadação, mas não a ponto de cobrir os altos gastos feitos pelo clube com transferências e salários – basta lembrar que em janeiro os Blues gastaram € 58,43 milhões só para trazer Fernando Torres – e apesar da gestão de Roman Abramovich estar no oitavo ano no comando do clube – ele prometeu que, a essa altura, o clube já daria lucro. Se o Manchester City repetir o Chelsea, o Fair Play Financeiro o impedirá de jogar as competições europeias, um entrave no modelo de negócio “gastador” do clube.

A Liga dos Campeões, para estes clubes, vale mais como vitrine da sua marca do que como recompensa financeira. E este é o aspecto que a Uefa usará para punir os clubes. Para quem tem dinheiro sobrando, o prêmio é importante, mas não é o mais importante.

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