Porto erra ao tentar calar a sua torcida e impedir as vaias

Imagine que seu time, em começo de temporada, venceu nove jogos, empatou quatro e perdeu apenas um. É o vice-líder do campeonato nacional (no qual ainda está invicto), somente um ponto atrás do primeiro colocado. Em oito partidas disputadas pela competição, sofreu apenas três gols e é, portanto, a melhor defesa do campeonato. Essa equipe ainda disputa o principal torneio do seu continente e, depois de passar tranquilamente por um mata-mata de acesso, é líder do grupo após o encerramento do primeiro turno. E tudo isso com um treinador em início de trabalho, em que ainda está conhecendo o elenco que tem nas mãos. A pergunta é: você vaiaria seu time?
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Agora imagine outro cenário. Seu time vem de uma temporada irregular, em que viu um grande rival dominar o futebol do país. Trocou de técnico e apostou num estrangeiro para o trabalho de reconstrução. O tal treinador tem uma grande experiência em categorias de base, mas só trabalhou efetivamente numa equipe principal uma vez, há 11 anos, quando iniciava a carreira – e era um clube pequeno. Em 14 partidas na atual temporada, utilizou 21 jogadores titulares, numa rotatividade que demonstra o quanto ele ainda está testando o elenco. A equipe vem sofrendo em alguns jogos considerados fáceis e chegou a somar quatro empates em cinco partidas. Para completar, foi eliminada por um grande rival no segundo campeonato mais importante do país, que é disputado de forma eliminatória, em jogo único. A derrota em casa quebrou um tabu que já durava sete anos. A pergunta é: você vaiaria seu time?
Agora, pode parar de imaginar, pois os dois cenários descritos acima são reais. Mais do que isso: são da mesma equipe. Ambos referem-se ao Porto, que passa por uma reestruturação sob o comando do técnico espanhol Julen Lopetegui e vem alternando bons e maus momentos na temporada até agora. E a resposta é: sim, a torcida vaiou o time.
As vaias em si – e mesmo a inconstância da equipe – não são propriamente dignas de nota. Tanto uma quanto a outra podem ser consideradas normais, já que o exigente torcedor portista quer resultados imediatos e o time, dentro de campo, ainda sente o peso da reformulação. Pode-se dizer até que se trata de um círculo vicioso: o clube fez uma temporada ruim e optou por mudanças. Essas, por sua vez, demoram um tempo para serem assimiladas. Assim, o time não produz exatamente o que dele se espera. Isso causa desgosto na torcida, que o demonstra vaiando.
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O problema está na continuação da história. Ao invés de assumir as críticas como algo normal, o Porto resolveu iniciar uma campanha para que o torcedor deixe de vaiar o time no estádio. Na entrevista coletiva do técnico Lopetegui, esta semana, o clube instalou uma placa bem ao lado do treinador, com os dizeres: “Enquanto se canta, não se assobia” (os portugueses usam o termo assobiar para se referir às vaias).
Evidentemente, o espanhol foi questionado sobre isso. E respondeu de duas maneiras. Primeiro, numa brincadeira que soou como ironia: “Ali está escrito e é evidente, não? Vejam se conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo (cantar e assobiar). Eu, por exemplo, não consigo”. Depois, com mais serenidade: “Agora mais a sério. Respeitamos absolutamente a nossa massa associativa. A história e a mística dizem-nos que o clube esteve sempre muito unido, perante muitas adversidades e situações difíceis. Temos de continuar a ser unidos e fortes, sabendo que todos juntos somos muito mais fortes, contra tudo e contra todos, mas sempre todos juntos.” O técnico disse ainda preferir que a torcida se volte contra ele próprio do que contra os jogadores.
A polêmica em torno do assunto começou com uma declaração do atacante colombiano Jackson Martínez, que deixou clara sua insatisfação com a atitude das arquibancadas na vitória sobre o Athletic Bilbao, pela Liga dos Campeões. “Respeito os torcedores, são eles que vêm ao estádio. Mas eu, se vou a um estádio, é para apoiar a equipe, não? Se é para vaiar, é melhor ficar em casa”, disse.
Essa história reabre a discussão sobre direitos e deveres do torcedor – e do clube. Afinal, o Porto quer que seus fãs comprem ingressos, gastem dinheiro nas lojas oficiais, consumam dentro do estádio e apoiem o time. Mas não admite que, quando insatisfeitos com o rendimento dentro de campo, essas mesmas pessoas o demonstrem vaiando. E notem que está se falando aqui apenas de vaias, e não de atos violentos ou de vandalismo, o que realmente seria merecedor de repúdio.
O Porto, como grande clube que é, tem obrigação de montar times que disputem campeonatos para ganhar. Tem a obrigação, também, de entender a paixão de sua torcida e de não querer controlar esse sentimento.
O torcedor, passional como é, vai vaiar sempre que achar necessário. Até porque, o que ele mais quer é ver a equipe correspondendo dentro de campo e o fazendo naturalmente trocar as vaias pelos aplausos e os assobios pelos cânticos.



