O RB Leipzig tem a melhor campanha em casa da Bundesliga: nove vitórias, um empate, uma derrota. Melhor até que a do Bayern de . Dentro dos planos de Julian Nagelsmann para as oitavas de final contra o Liverpool, provavelmente constava um bom resultado no leste da Alemanha para tentar a classificação em Anfield. Mas, por restrições de viagem devido à pandemia, a partida de ida foi transferida para Budapeste. O lado bom é que pelo menos um de seus jogadores conhece muito bem a cidade. E também conhece muito bem o Liverpool: Peter Gulácsi nasceu na capital húngara e passou seis anos nos Reds antes de se tornar um dos goleiros mais seguros da Europa debaixo das metas dos times da Red Bull.

Gulácsi é um elo engraçado entre os participantes e o palco das oitavas de final da Champions League porque, embora tenha aparecido nas categorias de base do MTK Budapeste, saiu para o Liverpool antes de chegar ao time principal. E embora tenha se desenvolvido na academia do clube inglês, saiu para o Red Bull Salzburg…. antes de jogar pelo time principal. Mas fala com carinho do seu tempo no norte da Inglaterra e teve oportunidades de entrar em campo na sua cidade natal pela seleção húngara, da qual se tornou titular depois da aposentadoria de Gábor Király na Eurocopa de 2016.

Ele era uma criança inquieta. O futebol apareceu em sua vida porque seus pais queriam alguma desculpa para tirá-lo de casa quando tinha cinco anos. “Nós havíamos acabado de nos mudar para uma nova casa que ficava perto de um campo de futebol, então a solução foi muito simples: eu jogaria futebol por um pequeno clube. Eu gostei imediatamente porque minha família inteira ama futebol, embora ninguém tenha jogado profissionalmente”, afirmou, ao site da Bundesliga. “Eu fiz isso por um tempo e, quando tinha 15 anos, tive a oportunidade de me juntar a uma academia na Hungria e, aos 17, eu me transferi para o Liverpool. Naquele momento, estava claro para mim que o futebol não era mais um hobby, mas uma escolha séria de carreira”.

Segundo o site do MTK Budapeste, Gulácsi chegou ao clube em 2002, quando tinha 12 anos, e, visivelmente talentoso, “rapidamente se juntou à academia”. A sua última temporada em casa foi em 2006/07, quando disputou 19 partidas, mas apenas duas em sua faixa etária (sub-17). O restante foi no sub-19. “No verão de 2007”, escreveu o clube, “graças à colaboração do nosso clube com o Liverpool, ele foi emprestado, teve um desempenho convincente e se tornou jogador do Liverpool para a temporada 2008/09″. Após boas atuações pelos reservas, Gulácsi assinou contrato de quatro anos que o deixaria vinculado ao Liverpool até 2013. A questão, naquele momento, era encontrar um lugar para jogar.

Embora o preparador de goleiros de Rafa daquela época, Xavi Valero, atualmente no West Ham, fale bem de seu pupilo até hoje, Pepe Reina era titular incontestável. Ainda muito jovem, Gulácsi saiu por empréstimo para ganhar experiência. O primeiro foi com Hereford United, da terceira divisão, que lhe entregou um batismo de fogo. Conta que em seu primeiro jogo, contra o Cheltenham, três zagueiros tiveram que sair lesionados. A ficha técnica realmente mostra que Josh Gowling foi substituído por Karl Broadhurst aos 37 minutos do primeiro tempo. Seis minutos depois, Dean Beckwith saiu para a entrada de Ben Smith. E o próprio Boradhurst não ficou nem dez minutos em campo antes de ser trocado por Simon Johnson.

Seu próximo clube foi o Tranmere Rovers, da região de Liverpool, e que pelo menos lhe dava alguns momentos para respirar. “Acho que no Tranmere nós tínhamos um time melhor do que no Hereford”, afirmou ao Hereford Times, em 2011. “No Hereford, era difícil porque eu tinha muito mais coisa para fazer e os jogos eram mais ou menos como sessões de treino porque eu tinha que fazer quase 20 defesas por jogo. Pode parecer supreendente, mas o Tranmere não era um time em que você tinha muita coisa para fazer. Eu ficava envolvido o jogo inteiro, mas talvez precisasse fazer apenas duas ou três defesas em um jogo. No Hereford, era mais sobre parar chutes e lidar com chances, chances, chances. Mas foram duas boas experiências e eu consegui aprender muito com cada uma delas”.

Uma boa oportunidade apareceu na temporada 2011/12 para defender o Hull City, na segunda divisão, também por empréstimo. Mas foi uma faca de dois gumes. Porque, enquanto ele estava afastado, surgiu a chance de ouro de jogar pelo Liverpool. E em um jogo grande. Pepe Reina foi expulso contra o Newcastle em 1º de abril. Seu reserva imediato, o brasileiro Doni, também recebeu o cartão vermelho, em 10 de abril, diante do Blackburn. Os dois estavam suspensos para enfrentar o Everton, em Wembley, pela semifinal da Copa da Inglaterra. Gulácsi até teve o seu empréstimo com o Hull City cancelado, mas Kenny Dalglish deu a titularidade a quem havia ficado. Foi reserva do australiano Brad Jones, uma das 52 partidas em que se sentou no banco sem nunca disputar um minuto pelo time principal do Liverpool.

“Eu teria amado fazer minha estreia pelo Liverpool no clássico. Chegar tão perto sem nunca ter entrado em campo é um histórico estranho e não tenho certeza se já houve dois goleiros sendo expulsos em um intervalo tão rápido. Eu consigo dar risada disso agora, mas essa decepção foi provavelmente o que me motivou a buscar uma chance em outro lugar”, afirmou, em entrevista ao The Athletic. Ele também conta que o momento em que deveria dar o pulo aos adultos foi justamente após a demissão de Rafa Benítez, quando o Liverpool estava trocando de treinador a cada dez dias: de Roy Hodgson, para Kenny Dalglish, para Brendan Rodgers.

“Novos treinadores estão sempre sob pressão para conseguir resultados imediatamente e levar o clube à direção certa. Eles nem sempre têm tempo para dar uma chance aos jovens e pensar no desenvolvimento de um jogador. É sobre resultados”, afirmou. Sem querer ser engenheiro de obra pronta, mas uma pergunta que sempre ficará sem resposta é o quanto ele não poderia ter ajudado o Liverpool durante os anos entre Reina e Alisson em que a posição de goleiro foi um ponto fraco crítico do time, com Loris Karius ou – contratado no mesmo mercado em que o vínculo de Gulácsi chegou ao fim e o jogador de 23 anos acertou com o Red Bull Salzburg.

Depois de jogar 100 vezes e conquistar duas Dobradinhas pelos austríacos, Gulácsi teve que ter paciência novamente. Foi transferido para o RB Leipzig que, em 2015, ainda estava na Segundona e ainda contava com Fabio Coltorti, que havia defendido o clube desde a quarta divisão. Uma lesão no ombro em fevereiro abriu espaço para Gulácsi e ele nunca mais deixou a oportunidade escapar. Caminha para a sexta temporada completa pelo RB Leipzig e poucas vezes esteve indisponível. Na pior das hipóteses, fez 32 jogos dos 34 da Bundesliga – em 2019/20, perdeu um por lesão na cabeça e não entrou em campo na rodada final.

Na atual temporada, jogou todas: 21 rodadas da Bundesliga, com apenas 18 gols sofridos e dez partidas sem ser vazado, as seis da fase de grupo da Champions League e outras três pela Copa da Alemanha. Em 2019/20, sofreu 1.06 gols por partida, média superior apenas à de Manuel Neuer, e defendeu 72,6% dos chutes – equivalente à porcentagem de Alisson. E tem precisado adaptar o seu estilo para atuar mais como goleiro-líbero, adaptando-se às ideias de Julian Nagelsmann. “Eu tenho um papel completamente diferente nesta temporada em comparação com a passada. Eu acho que ainda posso dar alguns passos à frente e estou muito motivado para fazê-lo. Eu amo o trabalho e posso ver muitas oportunidades para melhorar”, disse, ao site da Bundesliga, um ano atrás. “Eu sou muito forte em cima da linha, tenho boas reações e melhorei dentro da área ao longo dos anos, mas acho que ainda há espaço para ser mais corajoso no meu jogo. Como disse antes, tenho muitas tarefas agora, jogando mais com os pés e precisando começar a construir o jogo de trás. Tenho que me reajustar”.

“Sua distribuição agora é uma das melhores da Europa”, elogiou seu ex-chefe Xavi Valero, ao The Athletic. “Ele pode jogar de trás ou passar longo. Ele pode fazer qualquer coisa que você peça. O que realmente o separa é sua inteligência – seu posicionamento, sua compreensão do jogo. Tudo que o torna muito consistente. Ele comete poucos erros, é confiável e muito calmo. É difícil imaginar ele fazendo a coisa errada. Ele tem um perfil como Edwin van der Saar, Petr Cech e Samir Handanovic: ele é confiável, dentro e fora de campo”.

À medida em que o RB Leipzig foi se firmando como um dos melhores times da Alemanha, participante frequente da Champions League, Gulácsi sabia que um dia chegaria a hora de enfrentar o Liverpool. “Estou feliz com a possibilidade, a oportunidade de voltar e jogar em Anfield, enfrentar o Liverpool. Mas, por outro lado, somos um clube ambicioso e, claro, queríamos o melhor sorteio possível…. e o Liverpool não é o mais fácil dos adversários! Neste caso, talvez pudesse ter sido um pouco mais fácil, mas é um grande desafio para nosso clube, para nosso time e temos um objetivo, claro, que é nos classificarmos para a próxima fase”, afirmou, ao site oficial do Liverpool.

E o reencontro fica ainda mais especial por ser em Budapeste. “É uma situação infeliz porque teria sido ideal jogar em Leipzig. Nós somos um time muito forte em casa, ganhamos os três jogos da Champions League e temos a melhor campanha como mandante da Bundesliga. Mas eu sei que também somos capazes de ganhar fora de casa, e Budapeste, para mim, pessoalmente, é um grande local, mas também para nosso time. Temos um grande estádio lá, um novo estádio, que infelizmente foi inaugurado pouco antes da pandemia e ninguém conseguiu realmente aproveitá-lo. É uma ótima oportunidade para estes dois clubes viajarem a uma cidade bonita e jogar em um estádio fantástico”, acrescentou.

O jogo de ida será na Puskás Arena, inaugurada no final de 2019 e – por enquanto – uma das sedes da Eurocopa de 2020, com quatro partidas previstas, incluindo um duelo das oitavas de final. A volta será em Anfield, onde Gulácsi viveu o clima de uma partida diversas vezes como reserva, mas nunca como jogador, em campo, pisando a grama. Infelizmente, o retorno não terá torcedores para que ele tenha a experiência completa. “Eu acho que é uma pena ter que jogar sem torcedores. É uma pena não termos essa experiência. Por outro lado, como time visitante, sem os torcedores do Liverpool, você sempre terá uma chance melhor por causa do ambiente, o clima talvez não seja o mesmo e vamos tentar usar isso a nosso favor”, contou.

O RB Leipzig tem muitas coisas a seu favor, além de arquibancadas vazias em Anfield. Ganhou quatro das suas últimas cinco rodadas do Campeonato Alemão e segue na cola do Bayern de Munique, apenas cinco pontos atrás. Enquanto isso, o Liverpool derrapa na Premier League, com três derrotas seguidas, e parece sem confiança, longe do seu melhor. De qualquer forma, é um adversário sempre perigoso e os alemães precisarão contar com o seu goleiro, talvez o homem mais confortável no campo da Puskás Arena.

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