Champions League

O último Bayern x PSG tem vários personagens em comum, mas representa outras eras aos clubes

Não faz muito tempo que Bayern de Munique e Paris Saint-Germain mediram forças na Champions League. As duas equipes brigaram pela liderança no Grupo B de 2017/18. Entretanto, olhando para trás, até parece que uma era se passou aos clubes. O PSG, afinal, provocou a demissão de Carlo Ancelotti na Baviera pela vitória incontestável dentro do Parc des Princes. Os bávaros tinham muitas peças em comum, mas procuravam um norte na época. Enquanto isso, em Paris, a badalação ao redor de Neymar e Mbappé estava apenas no começo. E seria o próprio Bayern que seguraria aquela empolgação inicial, já sob as ordens de Jupp Heynckes.

Abaixo, relembramos o que aconteceu naqueles dois jogos, com alguns detalhes que fizeram a diferença e que, por linhas tortas, podem servir de caminho neste domingo – ainda que os contextos sejam totalmente diferentes.

PSG 3×0 Bayern: Os franceses infligem a crise na Baviera

O Paris Saint-Germain estelar começava a se formar e, naquele momento, a vitória sobre o Bayern de Munique parecia um sinal de força. Unai Emery comandava o projeto parisiense, com os reforços recentes de Neymar e Kylian Mbappé, além de Daniel Alves. O duelo no Parc des Princes aconteceu logo pela segunda rodada da fase de grupos e, àquela altura, chancelava os parisienses como candidatos mais fortes à Orelhuda. Mas não que os bávaros vivessem uma fase tão iluminada. Apesar do título na Bundesliga anterior, Carlo Ancelotti era questionado e, não à toa, pegaria o seu boné após a derrota acachapante.

O PSG tinha poucas semelhanças com o time atual. Na defesa, Thiago Silva era o esteio, com Marquinhos ao seu lado. Daniel Alves ocupava a lateral direita, Layvin Kurzawa era o titular na esquerda e Alphonse Areola tomava conta do gol. No meio, do trio titular em Paris, apenas Marco Verratti continua no elenco. Adrien Rabiot e Thiago Motta foram os outros escalados. Já o ataque tinha Neymar pela esquerda e Mbappé na direita, com Edinson Cavani centralizado. Ángel Di María e Julian Draxler saíram do banco.

O Bayern era bem mais semelhante com o atual. Dos 11 titulares, apenas James Rodríguez e Arturo Vidal deixaram o clube, embora muitos tenham perdido espaço entre os titulares. Sven Ulreich suplantava o lesionado Manuel Neuer na ocasião. A linha defensiva tinha Joshua Kimmich, Niklas Süle, Javi Martínez e David Alaba. Mats Hummels ficou na reserva e Jérôme Boateng sequer foi relacionado. No meio, Thiago Alcântara e Corentin Tolisso acompanhavam Vidal. Por fim, Robert Lewandowski tinha o apoio de James e do capitão Thomas Müller no ataque. Arjen Robben e Franck Ribéry estavam no banco, mas o francês nem entrou, com Kingsley Coman priorizado.

Naquele mês de setembro, o PSG tateava o seu novo time, enquanto o Bayern não mostrava muito rumo. Os bávaros vinham de um mercado movimentado, com muitos jovens contratados, mas precisavam se reencontrar após as aposentadorias de Philipp Lahm e Xabi Alonso. Dois tropeços nas seis primeiras rodadas da Bundesliga aumentavam a pressão. De qualquer maneira, pesava contra Ancelotti os problemas de relacionamento e a dificuldade em montar uma equipe realmente confiável. O italiano não criou grande identidade na Allianz Arena e seria queimado rapidamente. O PSG, por sua vez, estava invicto até aquele momento e empolgava, ainda mais com a adição de dois craques que poderiam alavancar o rendimento do time.

Que não fosse a fase mais inspirada do Bayern, o clube alemão ainda era visto como parte de um “triunvirato” na Champions ao lado de Real Madrid e Barcelona. O PSG queria se mostrar como um emergente e, por isso mesmo, o resultado teve tanto peso. O ataque parisiense viveu uma grande noite. Neymar fez gol e deu assistência. Mbappé incendiou a equipe com muita energia, especialmente para driblar os adversários e servir os companheiros. E Cavani garantiu presença de área, também deixando sua marca. Estava fresca a disputa entre o brasileiro e o uruguaio para cobrar o famoso pênalti contra o Lyon, mas nada que atrapalhasse o rendimento da equipe. Pelo contrário, o trio mostrou como se entendia muito bem com bola rolando.

O primeiro gol saiu logo aos dois minutos. Neymar fez estrago na defesa e passou a bola para Dani Alves, que entrava livre pela direita. O lateral apenas tirou de Ulreich. Müller poderia empatar na sequência, mas errou o alvo. E a verdade é que, sem criatividade, o Bayern limitava seus melhores momentos a cobranças de escanteio. Foi assim, por exemplo, que Javi Martínez também exigiria uma ótima defesa de Areola na sequência da noite. Mas nada comparado ao repertório do PSG.

O time de Unai Emery acelerava e tinha um Mbappé especialmente intenso. Cavani não aproveitou o primeiro presente do garoto, mas ampliou aos 31, com um lindo chute de chapa, após a bola ajeitada pelo francês. Neymar ainda daria um lindo passe de letra a Cavani, mas o uruguaio parou em Ulreich. O recital dos parisienses continuou no segundo tempo, assim como a reação do Bayern se restringia às bolas paradas. Neymar e Mbappé se combinavam às maravilhas, mas o brasileiro mandou para fora duas boas oportunidades.

O terceiro gol, de qualquer forma, não tardaria. Aos 18 minutos, Dani Alves arrancou pela direita, puxando contra-ataque. Enfiou a bola para Mbappé, que deu um drible de futsal desconcertante em Alaba e chutou para o gol. Javi Martínez até salvou na pequena área, mas Neymar apareceu para completar o rebote. No fim, o PSG pôde tirar um pouco mais o pé. Areola voltaria a fazer boa intervenção em batida cruzada de Coman e em cobrança de falta de Lewandowski. Mas não era a noite dos bávaros.

As lembranças são doces a Neymar e Mbappé, principalmente. Foi a primeira atuação maiúscula da dupla no Paris Saint-Germain. Thiago Silva também se saiu muito bem na missão de reduzir os espaços a Lewandowski, bem assessorado por Marquinhos. E a estratégia de jogar na velocidade, algo que deve se repetir neste domingo, já se mostrou bastante valiosa aos parisienses. Mas vale salientar, também, a importância que Dani Alves teve no apoio naquele momento.

O Bayern, por sua vez, tirou pouquíssimas lições. A defesa sofreu, em especial Alaba, que não conseguiu proteger o lado esquerdo e deixou muitos espaços, principalmente quando precisou sair ao combate de Mbappé. Lewa foi nulo na linha de frente, com apenas Müller tentando algo. Mas, no fim das contas, Kimmich se tornou o único que conseguiu se salvar pela maneira como criou perigos nas bolas paradas. Um de seus lances até poderia alterar o andamento do jogo, considerando as boas intervenções de Areola. Mas não mudaria a superioridade do PSG.

Na antevéspera do jogo, Carlo Ancelotti afirmara que “gerir jogadores era a maior dificuldade de qualquer treinador”. E isso seria determinante à sua saída do Bayern. No dia seguinte à derrota, o italiano receberia sua carta de demissão. Não conseguiu encontrar uma formação ideal e entrou em rota de colisão com vários atletas. Thomas Müller era um dos mais insatisfeitos, relegado como ponta. Da mesma forma, outros medalhões discordavam das escolhas e não tinham boa relação com o técnico. Os jogadores chegaram mesmo a realizar treinos secretos sem o comandante, inclusive na temporada do título da Bundesliga. A situação era insustentável e o PSG acelerou o processo.

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Bayern 3×1 PSG: Ao menos um afago no moral

Thomas Tuchel parecia o favorito para substituir Carlo Ancelotti à frente do Bayern de Munique. No fim das contas, a diretoria preferiu recorrer às velhas certezas e tirou Jupp Heynckes da aposentadoria, confiando a recuperação do time ao mestre de outrora. A recuperação foi notável a partir de então. Os bávaros emendaram vitórias na Bundesliga e assumiram a primeira colocação. Também se impuseram contra Celtic e Anderlecht na Champions, garantindo a classificação sem dificuldades. O reencontro com o PSG ficou para a sexta rodada, apenas valendo a liderança, com os dois confirmados nos mata-matas. E, ainda que não tenham devolvido na mesma moeda da ida, os alemães recobraram seu moral com os 3 a 1 na Allianz Arena.

No final de semana anterior, o PSG perdeu seu primeiro jogo na temporada, derrotado fora de casa pelo Strasbourg. Apesar da situação cômoda, Unai Emery não quis saber de poupar e escalou praticamente o mesmo time que havia atuado no Parc des Princes. Era uma formação até mais ofensiva, com Draxler no lugar de Thiago Motta. No mais, os craques seguiam em campo, com o trio de ataque intacto, composto por Neymar, Cavani e Mbappé. Di María sequer saiu do banco naquela noite.

Heynckes havia perdido um compromisso nos 12 primeiros encontros nesta volta ao Bayern, até pegar o PSG. Ainda assim, ganhou confrontos diretos de peso na Bundesliga, incluindo os embates com RB Leipzig e Borussia Dortmund. Já era uma equipe um pouco mais com sua cara, no tradicional 4-2-3-1. Ulreich seguia no gol, com Kimmich, Süle, Hummels e Alaba formando a linha defensiva. Rudy e Tolisso eram os volantes. Mais à frente, Coman, James e Ribéry formavam o tridente de meias – sem o lesionado Robben e com Müller apenas no banco. Já na frente, Lewandowski permanecia insubstituível.

Se na ida as defesas de Areola fizeram a diferença ao PSG, Ulreich seria vital ao Bayern na volta. Logo na primeira chance, o goleiro parou Mbappé. Mas os bávaros passariam a ameaçar em seguida e abriram o placar aos oito minutos. James cruzou, Coman ajeitou e Daniel Alves deu condições para Lewa receber livremente. Com todo o tempo do mundo, o artilheiro não perdoou. A partir de então, Heynckes traçou sua estratégia: posicionou sua equipe com solidez no campo defensivo, bloqueando a posse de bola do PSG, e explorou os contra-ataques com trocas de passes em velocidade.

Foi assim que o Bayern travou o PSG, sem permitir tantas infiltrações do tridente parisiense. Mbappé era quem mais aparecia e quase deu uma assistência para Neymar, mas Ulreich salvou fantasticamente. E a resposta dos bávaros seria imediata, em cruzamento perfeito de James para Tolisso completar de cabeça, ampliando aos 36. Quando os franceses respondiam, Ulreich aparecia. Somente na volta ao segundo tempo é que os visitantes descontaram, numa trama entre Verratti e Cavani, com lindo tapa do uruguaio que terminou com a cabeçada de Mbappé para dentro.

A esta altura, o Bayern precisaria de mais três gols para terminar na liderança do Grupo B. O PSG parecia mais preparado ao empate e atacava pelas pontas, ainda esbarrando em Ulreich. Mas seria uma noite favorável aos bávaros, com o terceiro tento confirmando a vitória aos 24. Coman passou como quis por Daniel Alves e cruzou para Tolisso de novo surgir como elemento surpresa. A entrada de Thomas Müller na vaga de Ribéry foi outro fator importante, dando novo vigor ofensivo. Além disso, Thiago Silva saiu lesionado, num final de partida dominado pelos alemães e cheio de tentativas pelo alto. Por fim, nos acréscimos, coube a Ulreich confirmar o posto de melhor da noite ao frustrar Mbappé com novo milagre.

Que seu goleiro tenha garantido a diferença no placar, o Bayern também foi melhor na maior parte do tempo. Centrou-se em anular as forças do PSG, contou com um meio-campo mais robusto e mostrou eficiência na definição das jogadas. Tolisso e Coman, em especial, também indicaram certo gosto em encarar os franceses. Não deixou de ser uma equipe dominante, mas tomando as precauções necessárias contra um adversário bastante duro – e que vinha em melhor momento, afinal. Já Unai Emery ainda contou com um Mbappé elétrico, mas sem a mesma sintonia de Neymar e Cavani. A escolha do meio-campo não funcionou e Dani Alves, em particular, esteve em jornada infeliz.

E no fim das contas, aquela Champions terminou melhor ao Bayern do que ao PSG. Os franceses deram o azar de pegar o Real Madrid logo nas oitavas de final e foram eliminados com duas derrotas. Os alemães deram um pouco mais de sorte no chaveamento, batendo Besiktas e Sevilla, mas também fizeram um embate bem mais duro contra os merengues nas semifinais – apesar da eliminação. Unai Emery não ficaria, assim como Jupp Heynckes voltou ao descanso. E que Thomas Tuchel tenha mais tempo de casamata em Paris, Hansi Flick é quem parece contar com uma engrenagem mais forte para este domingo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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