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O Real Madrid ressurge como bicho-papão da Champions e reverte o breve sonho do Liverpool num 5×2 de pesadelo

O Liverpool teve um início de partida perfeito, em que conseguiu abrir dois gols de vantagem em 15 minutos, mas o Real Madrid se recuperou e goleou em Anfield sem parecer se esforçar

Bastaram menos de 15 minutos para a torcida do Liverpool se encher de esperanças em Anfield. Como num sonho, os Reds abriram dois gols de vantagem sobre o Real Madrid, pelas oitavas de final da Champions League. Darwin Núñez assinou uma pintura de letra e Courtois falhou bisonhamente para entregar o segundo tento. Parecia possível apagar os traumas após as duas finais recentes perdidas para os merengues. Entretanto, se existe um pesadelo na Champions, ele se chama Real Madrid. E os madridistas virariam o bicho-papão em pouco tempo. O empate saiu antes do intervalo, entre o talento de Vinícius Júnior e a bobeada imensa de Alisson. Já na segunda etapa, tudo parecia muito mais fácil aos espanhóis. Um, dois, três gols. Militão virou e Benzema anotou outros dois. O que começou como uma atuação perfeita do Liverpool virou outra imposição do Madrid. A vitória por 5 a 2 já aproxima a classificação antes do reencontro no Estádio Santiago Bernabéu.

É verdade que uma dose de sorte auxiliou o Liverpool de início. Aproveitou o desacerto do Real Madrid com um meio-campo praticamente reserva. Entretanto, a intensidade dos Reds também sufocava e as construções eram bem feitas. A ressurreição do Real Madrid se combinou com um desabamento mental dos ingleses. E quem conseguiu entrar na mente dos adversários foi Vinícius Júnior. Praticamente todas as jogadas do time nos 45 minutos iniciais passavam pelo ponta. Depois de corrigirem os erros e entrarem nos prumos, com Modric controlando as engrenagens no meio, os merengues viraram o tabuleiro para ter a sorte a seu favor. E não a desperdiçaram a cada fagulha na segunda etapa, fatais em seus três gols. Não é o melhor momento da equipe de Carlo Ancelotti, mas nunca se descarta os merengues nos mata-matas da Champions. Nem duas pancadas de início num Anfield trepidante foram capazes de intimidar.

Escalações

O Liverpool entrou em campo sem surpresas. Alisson abria a escalação, com a defesa formada por Trent Alexander-Arnold, Joe Gómez, Virgil van Dijk e Andy Robertson. No meio, a trinca era composta por Jordan Henderson, Fabinho e Stefan Bajcetic – este, aos 18 anos, se tornando o mais jovem titular dos Reds num jogo de Champions. Já o ataque tinha Mohamed Salah e Darwin Núñez mais abertos, além de Cody Gakpo centralizado. O Real Madrid possuía os desfalques principais de Aurélien Tchouaméni e Toni Kroos, com o alemão restrito ao banco de reservas. Thibaut Courtois vinha protegido por Dani Carvajal, Éder Militão, Antonio Rüdiger e David Alaba na defesa. Luka Modric era a referência no meio, acompanhado por Eduardo Camavinga e Federico Valverde. Rodrygo e Vinícius Júnior ofereciam apoio a Karim Benzema no ataque.

Primeiro tempo

O Liverpool iniciou a partida numa rotação muito maior que a do Real Madrid. Os Reds tinham o controle da bola e também boa dose de agressividade. Com isso, quatro minutos bastaram para o primeiro gol. E foi uma pintura de Darwin Núñez. Numa escapada pela direita, Salah teve espaço para fazer o cruzamento rasteiro. Éder Militão cochilou na marcação e Darwin escapou para definir livre. Então, o uruguaio resolveu abusar da qualidade. Deu um belíssimo toque de letra, que se provou essencial para também surpreender Courtois e pegar o goleiro no contrapé. Depois do bombardeio da final passada, poucos minutos bastaram para derrubar a muralha.

O barulho em Anfield, que já era muito alto, aumentou. E não que o Real Madrid tenha conseguido responder de imediato. Esbarrava na defesa do Liverpool em suas primeiras tentativas. O posicionamento dos Reds era muito bom, enquanto os merengues pecavam na criação. Quando saiu a primeira finalização dos espanhóis, foi numa saída errada dos adversários, e Van Dijk logo travou Rodrygo. Em compensação, a resposta imediata veio num contragolpe puxado por Gakpo, que Salah chutou ao lado.

O Liverpool claramente era melhor na partida. Mesmo assim, ninguém poderia imaginar como o placar se tornaria ainda mais favorável aos 14, com o presentaço de Courtois. Já era um lance cheio de pixotadas, de ambos os times, com bolas perdidas rapidamente. Num recuo de Carvajal, o goleiro ficou indeciso e se enroscou sozinho com a bola. Deu de canela e entregou o ouro nos pés de Salah, que balançou as redes sem qualquer dificuldade. Ficava até chato de comemorar, mas a vingança contra o belga era doce aos Reds. Com a vantagem ampliada, o time da casa resolveu recuar.

O Real Madrid, no entanto, tinha outro herói da final passada: Vinícius Júnior. E numa partida amarrada, o atacante encontrou a fresta para diminuir o prejuízo aos 21. O Liverpool se fechava atrás e contava com linhas próximas. Os merengues não conseguiam se infiltrar. Dependeram da individualidade de Vini. Num lance pela esquerda, o brasileiro encarou a marcação, abriu para o chute no meio de três e desferiu o golpe certeiro. Uma bola tão forte quanto precisa, que saiu do alcance de Alisson e entrou no cantinho. O jogo não deixava respirar. À medida que os Reds voltaram a adiantar sua equipe, Vinícius também buscou o contra-ataque.

O problema do meio-campo do Real Madrid não era só a dificuldade na construção, mas também a falta de proteção à defesa. O Liverpool não precisou de muito esforço para quase anotar o terceiro, aos 25. Em mais um avanço pela direita, agora com Jordan Henderson, Salah não conseguiu bater. A bola ficou viva na pequena área e Darwin foi para briga, mas Carvajal e Militão salvaram em cima da linha. E a situação piorou um pouco mais quando Alaba saiu lesionado nesse momento. Nacho Fernández veio para o lugar.

Quase sempre os lances ofensivos do Real Madrid dependiam da participação de Vinícius Júnior. A equipe pendia ao lado esquerdo. Um cruzamento quase encontrou a cabeça de Carvajal, enquanto outro tiro cruzado do atacante exigiu uma defesa difícil de Alisson aos 31. A posse de bola neste momento, apesar desses avanços, era mais do Liverpool. Também não era uma apresentação de tanta qualidade dos Reds no trato com a bola, mas existia uma pressão. Os merengues ficaram a um fio de finalizações perigosas dos ingleses dentro da área.

E se de um lado Courtois havia vacilado, Alisson retribuiu a gentileza do outro aos 36 minutos, com o empate do Real Madrid. Foi uma bola longa para Vinícius Júnior e Joe Gómez, ao se antecipar, recuou para Alisson. O goleiro pareceu exceder na confiança e não percebeu que Vini se aproximava para apertar. Sem levantar a cabeça, deu o passe nas pernas do adversário e viu a bola espirrar, ganhando altura antes de entrar nas redes. Vini mudava a história de uma partida insana. Só então o primeiro tempo reduziu seu ritmo. O Liverpool sentiu a vantagem perdida repentinamente e não era tão agressivo com a bola. Enquanto isso, o Real Madrid parecia disposto a acertar um pouco mais sua zaga. Courtois só voltou a trabalhar aos 45, numa falta de Alexander-Arnold no centro do gol. Mais perigoso foi o contragolpe merengue depois, numa bola ótima de Vinícius para Rodrygo, que Robertson travou providencialmente.

Segundo tempo

Nem dois minutos bastaram para que o jogo se incendiasse na volta para o segundo tempo. E com a virada do Real Madrid. Vinícius Júnior de novo participou, desta vez ao sofrer uma falta na linha de fundo, bem próxima da borda da área. Modric cruzou à meia altura e Militão se abaixou para desviar de cabeça, sozinho, sem chance de defesa. O Liverpool precisava subir uma montanha novamente, e o baque afetava um pouco mais a equipe. O Real Madrid continuou com um controle maior da bola na segunda etapa. Só depois de cinco minutos que os Reds voltariam a chegar, a partir dos cruzamentos. Darwin por pouco não acertou uma cabeçada no segundo pau, num lance em que reclamou indevidamente de pênalti.

E como a desgraça do Liverpool não bastasse, o Real Madrid teve mais uma pitada de sorte para o quarto gol, aos dez minutos. Foi um lance construído com categoria e inteligência, na tabela entre Rodrygo e Benzema. Todavia, o chute do francês precisou de um desvio em Joe Gómez no meio do caminho para matar Alisson, que perdeu a direção da bola. Parecia que bom futebol já não bastava mais aos Reds. Os merengues eram mais conscientes de seus movimentos ofensivos e também podiam se defender com mais segurança. Jürgen Klopp precisava mudar e botou de uma só vez Roberto Firmino e Diogo Jota, nas vagas de Darwin e Gakpo aos 19.

O Liverpool ganhou novas energias com as trocas, ao menos aparentemente. Depois de muito tempo, conseguiu levar perigo e teve sua primeira finalização da segunda etapa aos 20 minutos, num tiro de longe dado por Bajcetic que passou ao lado da meta. O Real Madrid, todavia, só depende de uma bola em tantas e tantas vezes. E marcou o quinto assim que pôde, num contragolpe, aos 22. Numa bola roubada a partir de um erro de Fabinho na intermediária defensiva dos espanhóis, Vinícius acionou Benzema e o centroavante teve muita calma dentro da área. Deixou Alisson sentado com um drible e só mandou de chapa na gaveta.

A partir de então, o Liverpool pareceu acreditar ainda menos. Ficava no ataque porque era o que o jogo pedia, com o Real Madrid recuado. Mas faltava capacidade de definição. Roberto Firmino cabeceou uma bola no meio do gol, para defesa de Courtois aos 25, mas era pouco. As entradas de James Milner e Joel Matip na sequência também não melhoravam as perspectivas. Já aos 35, Dani Ceballos dava mais capacidade no meio ao Real Madrid, na vaga de Rodrygo. A esta altura, o andamento do jogo era mero protocolo, sem qualquer emoção. Os merengues poupavam energias e, mesmo assim, estavam bem mais inteiros. Benzema e Modric deram lugar a Marco Asensio e Toni Kroos. E se era importante ao Liverpool diminuir, para alimentar o mínimo de chances, nem isso aconteceu. O time fechou o segundo tempo com míseras duas finalizações, pouquíssimo para quem precisava de ação. O único elogio na reta final ficava à torcida, que não parou de cantar.

Não dá para dizer que o Liverpool está totalmente morto na Champions, porque permanece com alguns recursos. Mas a forma como o time sentiu a reviravolta em Anfield sugere que é praticamente impossível uma resposta. A equipe, numa temporada problemática, se esfacelou aos poucos e não teve quem chamasse a responsabilidade. A intensidade só durou basicamente enquanto o Real Madrid não se encontrava. E não é que os Reds terão a torcida ao seu lado na volta, como em outras viradas do passado. Já os merengues ficam bem mais tranquilos para a sequência de trabalho. A pressão está toda do outro lado – e é geralmente o que acontece quando se encara o Madrid na Champions. O Liverpool aprendeu a lição como poucos nos últimos anos e o tombo desta terça foi até maior que os das últimas finais – não em peso da ocasião, mas pelo tamanho da transformação do cenário.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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