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O Real Madrid não relaxou e, com alto nível de concentração, ratificou a classificação com outra vitória sobre o Liverpool

O Liverpool entrou com uma formação ofensiva e lutou no Bernabéu, mas o Real Madrid não aliviou por um instante sequer e, mais concreto no ataque, ganhou de novo

A vitória do Real Madrid em Anfield já parecia definitiva. Virar o placar da maneira como virou, engatilhando uma goleada por 5 a 2, dava aos merengues uma vantagem até mesmo moral nas oitavas de final da Champions League. Muita coisa se passou nas últimas semanas, em especial com o Liverpool, que aplicou históricos 7 a 0 sobre o Manchester United, por mais que o time não mantivesse a consistência. Aquele resultado dava um fiozinho de esperanças de que algum milagre talvez poderia acontecer aos Reds no Santiago Bernabéu. Porém, nenhum outro time joga tão bem a Champions quanto o Real Madrid. A equipe de Carlo Ancelotti não menosprezou os visitantes nesta quarta-feira e esteve com o nível de concentração lá no alto. Não apenas evitou a pressão do Liverpool, como até criou mais chances. Ratificou a passagem com nova vitória por 1 a 0. Alisson e Courtois mantiveram o placar zerado por um tempo, mas o ótimo entendimento de Vinícius Júnior com Benzema ao longo da noite rendeu o tento na reta final.

A eliminação não gera um baque tão grande no Liverpool. Nada mais é que o fruto de uma temporada errante dos comandados de Jürgen Klopp, com alguns grandes momentos, mas tropeços bastante custosos. A casa já tinha caído em Anfield e o time até ergueu a cabeça rapidamente. Visitou o Bernabéu sabendo que um resultado positivo já seria lucro, e que a briga agora é pelo G-4 na Premier League. Deu para lutar na Espanha, mas não para conquistar qualquer reviravolta – como imaginado.

Já o Real Madrid segue revigorado na sequência da Champions. Os madridistas também não fazem uma temporada exuberante, mas a história na competição continental é outra. Os merengues se agigantam por lá, como aconteceu na própria virada da ida contra o Liverpool. Por bola, hoje, o time de Carlo Ancelotti não deveria ser necessariamente visto como um dos favoritos. Por peso da camisa, nunca se descarta o Madrid dentre os principais candidatos. E depois de tudo o que aconteceu na temporada passada, esta mística está mais aflorada. Ainda mais com a coleção de craques que continua à disposição do elenco.

Escalações

O Real Madrid começou a partida com Thibaut Courtois, Dani Carvajal, Éder Militão, Antonio Rüdiger e Nacho Fernández na defesa. Eduardo Camavinga era a novidade no meio, ao lado de Toni Kroos e Luka Modric. Já no ataque, Federico Valverde e Vinícius Júnior apoiavam Karim Benzema. O Liverpool apostou num time mais ofensivo. Alisson abria o 11 inicial, com a zaga alinhada por Trent Alexander-Arnold, Ibrahima Konaté, Virgil van Dijk e Andy Robertson. Fabinho e James Milner fechavam o meio. Cody Gakpo atuava na ligação, com Mohamed Salah a Darwin Núñez abertos, além de Diogo Jota na referência.

Primeiro tempo

O Liverpool justificava a sua formação nos primeiros minutos. Tinha uma postura agressiva na marcação e tentava sufocar o Real Madrid. Os merengues não demoraram a ter suas escapadas e a rondar a área, mas Benzema foi bloqueado no primeiro chute. Foi mais perigoso um contra-ataque do outro lado, em que Rüdiger escorregou e Salah acionou Darwin Núñez, mas o centroavante chutou em cima de Courtois. Apesar do susto, logo os merengues passaram a responder com mais contundência. Kroos mandou um chute de longe que Alisson agarrou tranquilo. Impressionante mesmo foi o milagre do arqueiro aos 14, diante de Vinícius Júnior. O atacante bateu à queima-roupa, da pequena área, e o goleiro esticou o braço para salvar inacreditavelmente.

Para quem tinha uma vantagem tão ampla no placar agregado, o Real Madrid não tirava o pé. Os merengues aceleravam em seus avanços, tal qual o Liverpool. Os Reds se postavam no campo de ataque, mas também concediam espaços atrás. Numa dessas, Camavinga teve tempo para disparar uma pancada de fora da área e Alisson deu um leve desvio, para que a bola explodisse no travessão. Vinícius Júnior era muito ativo neste momento, puxando quase todos os avanços, muito solto nos dribles. Os merengues eram mais concretos, também com um míssil de Modric por cima aos 22. E, mesmo num lance depois anulado por impedimento, Alisson salvou mais uma num chute rasteiro de Vinícius, que o goleiro repeliu com o pé.

O ritmo da partida caiu um pouco mais por volta dos 30 minutos. O Real Madrid recuou e o Liverpool tinha mais a bola para tentar construir. As jogadas dos Reds passaram a sair pelas laterais da área. Courtois só voltou a trabalhar aos 31, numa cabeçada fácil de Darwin. O uruguaio tentava aparecer e teria uma grande jogada individual pouco depois. Abriu a marcação no bico da grande área e bateu cruzado, mas Courtois voou para desviar com a ponta dos dedos, na defesa mais difícil da noite até então. Era o melhor momento dos ingleses na primeira etapa e, em outra batida firme, agora com Gakpo, Courtois espalmou de novo.

A pressão do Liverpool só esfriou depois de um atendimento médico a Nacho Fernández, aos 40. Seria um final de primeiro tempo mais controlado. O Real Madrid até voltou a avançar um pouco mais, enquanto os Reds no máximo conseguiriam um escanteio. Foi uma atuação razoável do time de Jürgen Klopp, mas bem longe das necessidades. Os goleiros acabaram desequilibrando. E a maneira como os merengues não se acomodaram também era importante.

Segundo tempo

Para quem esperava um Liverpool com sangue nos olhos na volta do intervalo, não foi isso que se viu. A partida manteve seu equilíbrio durante os primeiros minutos e, novamente, o Real Madrid era mais direto. O time da casa assustou num lance sob dúvida de impedimento, antes de Alisson voltar à ação aos oito minutos. O goleiro parou Valverde no mano a mano e depois segurou a sobra de Benzema. As chegadas dos merengues eram mais constantes, com bolas longas rumo a Vinícius Júnior. Os Reds precisavam de mudanças e Roberto Firmino entrou ao lado de Harvey Elliott aos 12, com Darwin e Jota sacados.

De novo, o Liverpool não teve um salto de produtividade com as mudanças. Era uma partida sob controle do Real Madrid, que não concedia espaços na defesa e ainda fazia mais no ataque. Aos 18, um cruzamento na medida de Modric, após chapelar Alexander-Arnold, rendeu uma cabeçada venenosa de Valverde, por cima do travessão. Vinícius e Benzema se entendiam, o que quase gerou o gol do francês, num tiro forte que passou a centímetros do travessão aos 24. A esta altura, o objetivo do Liverpool tinha ido para o ralo. Mudanças seriam protocolares, com Milner dando lugar a Alex Oxlade-Chamberlain aos 28.

O Real Madrid fazia por merecer mais o gol. O que finalmente aconteceu aos 33, para sacramentar a classificação. A jogada nasceu num grande passe de Camavinga. Van Dijk até travou Benzema, mas a sobra caiu para Vinícius. O brasileiro furou o chute na área, mas, sentado, conseguiu dar o passe para o lado. Encontrou Benzema sozinho, para só escorar. O francês ainda preocupou a torcida, ao sentir lesão no tornozelo na sequência, sem sequer comemorar direito. Tinha sofrido um choque com Van Dijk e saiu manquitolando.

Ancelotti deu um descanso aos seus veteranos depois do gol. Modric e Benzema deixaram o campo, com as entradas de Dani Ceballos e Rodrygo. Depois, Vinícius Júnior saiu muito aplaudido para dar lugar a Marco Asensio e Aurélien Tchouaméni suplantou Kroos. Por fim, Carvajal foi trocado por Lucas Vázquez. O Liverpool tinha desistido de vez. Os minutos finais do duelo eram protocolares, com passes para o lado e sem qualquer esforço. Os dois minutos de acréscimos pareciam até desnecessários àquilo que estava resolvido. Se fosse para sair mais um tento, seria do Real Madrid, mas Konstantinos Tsimikas travou Rodrygo com a meta aberta – num lance que até gerou revisão do VAR por possível pênalti. Não foi nada, e nem precisava ser a esta altura.

O Real Madrid avança para as quartas de final como um time a ser evitado no sorteio. É um dos adversários mais temíveis por aquilo que faz historicamente na competição. Juntando bola e tradição, talvez só o Bayern de Munique não se intimide totalmente com os merengues. Porque mesmo o Liverpool tendo um passado riquíssimo no torneio acabou engolido – como de praxe nos últimos encontros com os madridistas, aliás.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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