Champions League

O presente honrou o passado e o Benfica 2×2 Ajax ofereceu uma partidaça digna da grandeza dos clubes

O Ajax foi melhor durante o primeiro tempo, quando atuou em cima dos anfitriões, mas o Benfica voltou com tudo para o segundo tempo e teve muito espírito de luta para reagir

As menções a Benfica e Ajax, tantas vezes, trazem consigo os nomes de Eusébio e Johan Cruyff. Era natural que as duas lendas fossem bastante mencionadas antes do jogo das oitavas de final da Champions League, até por terem protagonizado noites fantásticas pela competição continental. O presente dos dois clubes, no entanto, também se destaca nesta edição da Champions. Algo que se tornou evidente no Estádio da Luz, onde benfiquistas e ajacieden ofereceram um clássico instantâneo com o emocionante empate por 2 a 2. O Ajax até pareceu justificar certo favoritismo no primeiro tempo, quando foi melhor. Marcou em cima e construiu bons ataques para anotar dois gols, apesar da infelicidade de Haller no tento contra. Na segunda etapa, todavia, o Benfica ressurgiu e voltou com muito espírito de luta. Empatou e até flertou com a virada. Os minutos finais poderiam pender para qualquer lado. Acabou mesmo na eletrizante igualdade, que promete outro jogaço para a Johan Cruyff Arena.

O Benfica vinha alinhado num 4-4-2 pelo interino Nélson Veríssimo. Nicolás Otamendi e Jan Vertonghen formavam uma experiente dupla de zaga, com Gilberto na lateral direita. Everton Cebolinha e Rafa Silva jogavam abertos nas meias, com Julian Weigl e Adel Taarabt fechando o meio. Mais à frente, Gonçalo Ramos encostava em Darwin Núñez. O Ajax tinha sua principal novidade com Ryan Gravenberch ao lado de Édson Álvarez na cabeça de área, deixando Davy Klaassen no banco. A qualidade técnica na equipe de Erik ten Hag ficava para a trinca composta por Antony, Steven Berghuis e Dusan Tadic na armação. Na frente, Sébastien Haller servia de referência.

Como dava para se imaginar, a partida na Luz começou com um ótimo nível de intensidade. O Ajax se fazia mais presente no campo de ataque, sem criar chances claras de início, mas com uma marcação adiantada que empurrava os encarnados para trás e gerava muitos desarmes. O ponto alto nas primeiras ações foi uma caneta de Antony para cima de Julian Weigl. O Benfica tinha seus melhores escapes em avanços laterais e ganhou algumas bolas paradas de início, também sem gerar perigo, no máximo com Jan Vertonghen provocando uma defesa segura de Remko Pasveer.

Quando o Ajax encaixou seu primeiro bom ataque, aos 18 minutos, o gol saiu. E veio em uma roubada de bola. Noussair Mazraoui bateu a carteira de Alejandro Grimaldo e tabelou com Antony na direita. O lateral teve todo o tempo para cruzar e encontrou Tadic livre do outro lado da área. Sozinho, o capitão deu um belíssimo tapa de direita na gaveta, tirando do alcance de Odysseas Vlachodimos. O gol fez os Ajacieden recuarem um pouco mais suas linhas e o Benfica avançar.

A chance do empate surgiu aos 25, numa jogadaça de Rafa Silva na linha de fundo. O ponta chutou prensado e o goleiro Pasveer teve dificuldades para desviar para escanteio. O gol do Benfica saiu logo na sequência, após a cobrança do tiro de canto. Vertonghen foi bloqueado e, com a sobra, deixou Mazraoui no chão antes de cruzar rasteiro para o meio da pequena área. A bola bateu em Haller e entrou, num gol contra do artilheiro. Só que o Ajax não se acomodou e voltou a aumentar a marcha em busca do ataque. O empate saiu três minutos depois, aos 29, com Haller se redimindo. Após a jogada pela esquerda, Berghuis cruzou e o centroavante arrematou duas vezes. Vlachodimos até salvou a primeira, mas o marfinense guardou na segunda.

O ritmo da partida ficou mais lento nos 15 minutos finais do primeiro tempo, especialmente por conta dos atendimentos médicos. O Ajax não precisava apertar tanto e o Benfica não construía o suficiente. Os Ajacieden passaram a administrar um pouco mais a posse de bola e a trocar passes no campo de defesa, esperando os espaços para acelerar. Os visitantes assustaram novamente aos 40, num contragolpe puxado por Gravenberch, mas o chute de Mazraoui foi encaixado sem problemas por Vlachodimos. Aos 44, a linha de passe saiu pela direita. Antony deu um passe perfeito para Édson Álvarez, que se infiltrou na área e chutou cruzado. A bola bateu na trave e, no susto, Haller mandou o rebote para fora com a meta aberta, na pequena área. Dava para fazer bem melhor. Nos acréscimos, uma subida com Antony também ameaçou.

Se parecia faltar mais concentração ao ataque do Benfica, o cartão amarelo para Darwin Núñez logo de cara no segundo tempo indicava certo descontrole. De qualquer maneira, com o passar dos minutos, os encarnados se mostraram mais ligados e mais agressivos na bola. Darwin deu um cruzamento venenoso cortado na pequena área e Cebolinha bateu com desvio ao lado da trave, tudo antes dos dez minutos. Já aos 15, num contra-ataque, Rafa Silva executou o cruzamento rasante e Darwin ficou a centímetros para completar. Darwin chutaria para fora logo depois. O Ajax tentava sair um pouco mais nesse momento, mas se mostrava exposto.

Cebolinha deu lugar a Roman Yaremchuk aos 17 minutos, deixando o Benfica mais ofensivo. O Ajax é que encaixaria seu ataque antes, com Mazraoui acionado em grande lançamento, para forçar a defesa decisiva de Vlachodimos. Mas não que isso acanhasse os encarnados, que seguiram melhores e mais ativos na pressão, até com um pedido de pênalti corretamente negado pela arbitragem. Era a vez dos Ajacieden errarem demais suas construções e tomarem sufoco. A posse de bola superior dos holandeses pouco significava, diante da verticalidade dos lusitanos. Aos 25, Yaremchuk recebeu o passe de Rafa Silva e ia passando por Pasveer, mas Jurriën Timber chegou na hora exata para travar, quando o gol já estava aberto.

O gol de empate do Benfica parecia pedra cantada. Finalmente saiu aos 27 minutos, em contragolpe puxado pelo infernal Rafa Silva. O ponta serviu Gonçalo Ramos no meio, que soltou o canudo de fora da área. Pasveer espalmou de forma meio estranha, a bola ficou viva na pequena área e Yaremchuk, que saiu muito bem do banco, completou à meta escancarada. Durante a comemoração, o ucraniano apresentou uma camisa com o brasão de armas de seu país, símbolo nacionalista, numa clara manifestação política diante dos conflitos com a Rússia. Recebeu o cartão amarelo por isso. O duelo seguiu aberto, com o Ajax tentando despertar, mas espaços perigosos a favor do Benfica, que lutava muito a cada bola.

O Ajax contaria com as entradas de Davy Klaassen e Nicolás Tagliafico, enquanto Paulo Bernardo seria novidade no Benfica. O final de jogo não tinha tantas brechas e o sangue ferveu aos 40, num lance em que Antony tentou dar um chapéu em Darwin Núñez. Os dois se estranharam e encostaram testa com testa, quando o brasileiro se excedeu mais na força. Recebeu o amarelo. Aos 45, a saída de Darwin não parecia uma boa escolha, diante da atuação excepcional do uruguaio. Tanto é que, nos acréscimos, os Ajacieden flertaram com a vitória e aplicaram uma última blitz. Antony assinaria o melhor lance, num chute colocado da entrada da área, mas Vlachodimos voou e salvou a sua equipe. Prevaleceu um justo empate, deixando tudo aberto para o reencontro em Amsterdã.

Os elogios ao Ajax se concentram ao primeiro tempo, sobretudo. Foi quando o time aplicou melhor seu jogo, pela marcação sufocante e pelas trocas de passes mais bem feitas. Já a segunda etapa teve o melhor do Benfica, com muita sede pelo empate, corrigindo erros e sendo bem mais voraz. O placar reflete essa alternância, e não que os times tenham feito atuações ruins nos tempos que perderam. Individualmente, Mazraoui e Tadic auxiliaram muito o funcionamento dos ajacieden, enquanto Timber foi o destaque na zaga. O renascimento benfiquista dependeu de Darwin Núñez e Rafa Silva, além da entrada providencial de Yaremchuk. Antony e Gilberto, mesmo não sendo destaques tão centrais, foram muito bem. Elementos de uma partida excelente e que deve render mais histórias na volta.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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