Champions League

O placar terminou apertado, mas o Real Madrid ofereceu um recital no primeiro tempo contra o Shakhtar

O Real Madrid exibiu um futebol de extrema classe, embora tenha falhado para converter as muitas finalizações da noite, o que gerou uma vitória pela margem mínima

Não é incomum ver um jogo de futebol no qual o placar não traduz exatamente o que aconteceu em campo. E quem olha os 2 a 1 do Real Madrid sobre o Shakhtar Donetsk, em pleno Santiago Bernabéu, pode pensar que os merengues sofreram após o tropeço no final de semana contra o Osasuna. Na verdade, a equipe de Carlo Ancelotti exibiu, durante o primeiro tempo, seu melhor futebol da temporada – por mais que tivesse problemas para converter as incessantes finalizações em gols. Foi uma noite em que os madridistas trataram muito bem a bola com dribles, toques de efeito e linhas de passes inebriantes. Rodrygo e Vinícius Júnior marcaram os tentos, enquanto Benzema, que até faz um início de temporada um pouco abaixo do último ano, parecia flutuar em campo. Entretanto, com só dois gols marcados, o Real Madrid tomou um tento de voleio numa raríssima chegada do Shakhtar. E, baixando a rotação, os espanhóis ficaram no limite na segunda etapa. Pelo menos, vencem a terceira em três rodadas e encaminham a classificação na Champions.

O Real Madrid vinha com Andriy Lunin no gol, no lugar do lesionado Thibaut Courtois. O meio de campo trazia numa linha de quatro, com Aurélien Tchouaméni e Toni Kroos centralizados, além de Federico Valverde e Vinícius Júnior abertos. Rodrygo flutuava mais no ataque pela direita, com Karim Benzema abrindo na esquerda. Do lado do Shakhtar, os olhares ficavam para Maryan Shved e principalmente Mykhaylo Mudryk nas pontas. Mais importante seria o goleiro Anatolii Trubin, muito exigido na noite.

O Real Madrid atuava muito solto, desde os primeiros minutos. As linhas se adiantavam para amassar o Shakhtar Donetsk e a movimentação da equipe era excelente. Rodrygo apresentou seu cartão de visitas, rabiscando diante da marcação. Logo o goleiro Trubin teria que fazer suas primeiras intervenções, numa batida de Valverde. E a insistência dos merengues rendeu o primeiro gol em pouco tempo, aos 14. Acionado pelo meio, Rodrygo aproveitou a bobeada da marcação na tentativa de desarme e deu um tapa na entrada da área. Bola por baixo, sem Trubin conseguisse evitar, mesmo encostando na bola.

O gol não mudou em nada a postura do Real Madrid. A equipe seguia pressionando bastante. Vinícius Júnior desfilou seu repertório com um elástico espetacular no meio de dois, mas o chute não saiu bom. Os merengues gastavam a bola e logo depois Benzema deu um toque sutil de calcanhar para Valverde, sem precisão no arremate. Os madridistas jogavam por música e o segundo se encorpava. Benzema chutou com desvio, mas Trubin pegou. Entretanto, não teve quem parasse a troca de passes hipnotizante dos espanhóis aos 28. A bola seguiu de pé em pé, com Benzema, Valverde, Rodrygo e finalmente Vinícius participando. Os brasileiros se combinaram, para que Vini mandasse no cantinho e concluísse um lance mágico da coletividade.

O bombardeio não tinha fim. Quando Trubin saiu mal, a defesa salvou em cima da linha contra Vini. As chances se acumulavam. Benzema e Vinícius insistiam bastante, mas ambos acabaram falhando em bons lances dentro da área. O Shakhtar mal chegava ao ataque e mesmo Mudryk não aprontava das suas. Contudo, num raro cochilo dos merengues, os ucranianos descontaram – apenas na terceira finalização da equipe. Mudryk abriu com Bogdan Mykhaylichenko, que cruzou da esquerda. Livre dentro da área, Oleksandr Zubkov emendou de voleio e acertou o canto, mesmo sem pegar em cheio na bola. Ancelotti não escondeu a insatisfação pela falha. Todavia, os madridistas insistiram pelo terceiro no fim. Trubin pegou mais um chute de Benzema e a equipe da casa fechou a primeira etapa com espantosas 18 finalizações.

O Real Madrid retomou o segundo tempo sem diminuir o ritmo, algo que se notou logo na saída de bola, com um escanteio forçado por Benzema aos dez segundos. Continuavam arriscando os chutes sem pudores, ainda que sem pontaria. Quando a bola chegou na meta, Trubin manteve a segurança contra Valverde e Tchouaméni. Faltava um pouquinho mais de precisão. Enquanto isso, Mudryk lembrou que a vantagem era de apenas um gol aos oito minutos. O ponta invadiu a área, mas, atrapalhado pela defesa, acabou travado por Lunin em seus pés. A demanda madridista pelo terceiro gol era exatamente para não ficar no limite.

Quando diminuiu um pouco o fluxo de ataques, o Real Madrid ficou até mais perto do gol em suas investidas. Rodrygo tabelou lindamente com Benzema e mirou o canto, mas Trubin salvou aos 19. Logo depois, Vinícius bateu num chute que saiu zunindo ao lado da trave. O Shakhtar ainda se permitia acreditar em tiros de longe. As primeiras mudanças dos ucranianos viriam então, com Danylo Sikan e Ivan Petriak em campo aos 22. O duelo esfriava e Ancelotti só mexeu a primeira vez aos 30, botando Eduardo Camavinga no posto de Tchouaméni.

A esta altura, o Real Madrid parecia brincar com o perigo. Não matava o jogo e via o Shakhtar se criar. Yukhym Konoplia furou um cruzamento na área e os ucranianos rondavam. Foi quando, aos 35, Rodrygo deixou o campo aplaudido para a participação de Marco Asensio. As decisões dos merengues não eram as melhores na conclusão dos avanços, mas pelo menos os Mineiros não exibiam qualidade para uma reação. E quem tentava coroar sua partida de gala no finalzinho era Benzema. O francês mandou com muito perigo ao lado da trave aos 43 e, na sequência, Trubin espalmou no canto. Nos acréscimos, quando Benzema deu o passe numa jogadaça na linha de fundo, Asensio parou na trave. Era o 35° chute do time na noite. Ficaria nisso, num placar aquém do desejado, mas numa forma que agradou bastante por aquilo que se viu até o início da segunda etapa.

O Real Madrid está bem próximo da classificação, com nove pontos. Fica a uma vitória de confirmar a passagem na próxima rodada, na visita ao Shakhtar na Polônia. Os ucranianos pelo menos permanecem na zona de classificação. Chegam aos quatro pontos, mas com o RB Leipzig no encalço depois do triunfo sobre o Celtic na rodada.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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