Champions League
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O momento excelente do City se coroa com uma vitória imponente sobre o Bayern, de voracidade no ataque e uma defesa impecável

O Manchester City conseguiu transformar em grande triunfo uma partida que foi parelha em grande parte do tempo, ao causar uma pane no Bayern e também se proteger com perfeição atrás

O Manchester City, indubitavelmente, atravessa o seu melhor momento na temporada. E o ápice dos celestes se explicita numa atuação categórica na Champions League, para deleite da torcida no Estádio Etihad. O Bayern de Munique vinha com 100% de aproveitamento no torneio, mas acabou pulverizado na visita à Inglaterra. O marcador de 3 a 0 não explica todas as nuances do duelo, mas corresponde à maneira como os Citizens foram efetivos e vorazes ao longo da noite. O certo equilíbrio prevaleceu durante 70 minutos, numa partida intensa e muito corrida. Ainda assim, o chute perfeito de Rodri e o posicionamento defensivo impecável do City valiam a vitória pelo placar mínimo até então. E se o Bayern conseguia emparelhar o embate, os sucessivos erros na saída de bola custaram caríssimo. Haaland apareceu com assistência para Bernardo Silva e também com seu gol. O placar final torna a situação muito difícil para os bávaros, mesmo com o reencontro na Allianz Arena.

O placar chama mais atenção para os aspectos ofensivos do Manchester City. De fato, o time criou bastante e teve boa movimentação na frente, fazendo eco à ascensão recente na temporada. Mas a segurança defensiva dos celestes foi ainda mais importante no Estádio Etihad. O Bayern simplesmente não criou perigo dentro da área e, quando necessário, Ederson barrou os tiros de longe. Rúben Dias, sobretudo, foi impecável atrás. Os bávaros tiveram uma estratégia clara, com uma formação mais leve, que em certos momentos gerou incômodo. Contudo, o time pecou bastante na execução das jogadas e individualmente muitos jogadores foram mal. A zaga também abusou da sorte nos movimentos com a bola. Foi com estas entregadas que o resultado escapou de vez e a equipe entrou em pane, permitindo que os Citizens arregaçassem as mangas para um placar tão dilatado na reta final.

Escalações

O Manchester City entrou em campo desenhado num 3-2-4-1 por Pep Guardiola. Ederson abria a escalação no gol, com a zaga formada por Manuel Akanji, Rúben Dias e Nathan Aké. John Stones mais uma vez pintou como volante, ao lado de Rodri, com liberdade para avançar. O quarteto de criação reunia Bernardo Silva, Kevin de Bruyne, Ilkay Gündogan e Jack Grealish. Já na frente, Erling Braut Haaland inspirava cuidados. O Bayern de Munique iniciava o duelo com uma formação mais leve escolhida por Thomas Tuchel, num 4-2-3-1. Yann Sommer era protegido por Benjamin Pavard, Dayot Upamecano, Matthijs de Ligt e Alphonso Davies na defesa. Os volantes eram Joshua Kimmich e Leon Goretzka. Kingsley Coman, Jamal Musiala e Leroy Sané formavam a trinca de meias, com Serge Gnabry mais solto no ataque – na ausência do lesionado Eric Maxim Choupo-Moting.

Primeiro tempo

Os primeiros minutos da partida apresentaram um ritmo intenso, como se esperava, mesmo que os times não criassem oportunidades tão claras. O Manchester City possuía um pouco mais de iniciativa e se adiantava em campo, tentando empurrar o Bayern para trás. Contudo, os bávaros aproveitavam sua formação veloz para acelerar nos contragolpes e também incomodar. As primeiras finalizações foram dos celestes. Haaland mandou por cima e Gündogan teve uma cabeçada sem direção. Muitas jogadas buscavam o lado direito do ataque. Já os alvirrubros tiveram uma batida torta de Davies. Susto mesmo ocorreu aos 14, quando Sommer foi jogar com os pés quase em cima da linha e por muito pouco Haaland não desviou para dentro.

Com o passar dos minutos, a partida seguiu mais concentrada na intermediária. O Manchester City tinha mais posse de bola, com subidas esporádicas do Bayern. Todavia, os celestes conseguiam ser ligeiramente mais contundentes. Aos 22, Haaland arriscou da entrada da área, depois de combinação com Grealish, e Sommer realizou defesa segura. Não demorou para os bávaros responderem, num tiro venenoso de Musiala travado na hora exata por Rúben Dias. A ação do zagueiro logo se provou essencial, quando os Citizens emendaram seu ataque seguinte.

O primeiro gol da partida aconteceu logo depois, aos 27 minutos. E se não surgiam muitas brechas dentro da área, Rodri encontrou o caminho das redes de longa distância. Foi um golaço do volante. Na entrada da área, Rodri deu uma finta seca em Musiala, que passou lotado. Então, acertou um tapa na bola com muita categoria, com o chute fazendo uma curva para fora e entrando exatamente no ângulo, sem chances para Sommer. Não era uma superioridade gritante, mas os Citizens trabalharam mais pelo lance decisivo até então. A pressão sobre o Bayern se tornava maior, e sem poder se descuidar atrás.

De fato, o Bayern tentou aumentar um pouco mais a carga na sequência da partida. Ao mesmo tempo, o City se mostrava mais confiante e levava mais perigo quando se aproximava. A chance do segundo foi claríssima aos 34, num cruzamento fechado que Sommer afastou parcialmente. A sobra ficou limpa com Gündogan na área e, mesmo caído, Sommer operou um milagre com a perna para desviar o arremate. Os bávaros eram mais testados na defesa, com a proteção dos ingleses impecável. A recomposição e a organização defensiva do time de Pep Guardiola eram perfeitas. Os bávaros ainda esfriaram no final da primeira etapa, também por um atendimento médico a De Ligt. Nos acréscimos, Sané teve a última tentativa num chute de longe que passou ao lado.

Segundo tempo

O Bayern de Munique estava bem mais aceso no início do segundo tempo. Tinha seus escapes pelo lado esquerdo, com Sané. Logo de cara, o camisa 10 queimou um chute forte que Ederson rebateu como deu. O duelo se repetiu pouco depois, agora num chute rasteiro melhor colocado por Sané, e Ederson realizou uma defesa mais difícil. O City ameaçou também antes dos cinco, mas por uma sequência de trapalhadas dos bávaros. Primeiro Upamecano deu o presente para Grealish, que rondou a área. E quando a bola voltou aos alemães, Sommer entregou nos pés de Haaland, mas Kimmich bloqueou batida. Foi por pouco. Quando o Bayern voltou a tentar, com Sané, Ederson respondeu com mais uma ótima intervenção para espalmar o tiro de longe.

O momento era do Bayern. O time teria uma sequência de escanteios aos dez minutos e as duas cabeçadas foram desviadas por defensores do City. O duelo também ficava mais pegado, com faltas mais duras. E as defesas de Sommer seriam necessárias pouco depois, numa melhora dos Citizens. Primeiro o suíço desviou uma pancada de Aké na infiltração. Depois, quando Rúben Dias dominou e concluiu na área após escanteio, o arqueiro deu um tapinha por cima do travessão. O relógio mal marcava os 12 minutos, mas já era um segundo tempo repleto de emoção.

As chances de gol cessaram nos minutos seguintes, mas não o ritmo da partida. E a capacidade defensiva das duas equipes era um dos destaques nesta fase. O City tinha méritos por não permitir lances aos adversários dentro da área, mas o tempo de bola do Bayern também era bom, com Haaland neutralizado até então. O problema é que os bávaros abusavam dos passes errados no campo defensivo, desde o primeiro tempo. As substituições até demoraram a acontecer, com De Bruyne sacado aos 23 por questões físicas, trocado por Julián Álvarez. Já o Bayern ganhou Sadio Mané no posto de Musiala na sequência.

O Manchester City abriu o segundo gol de vantagem neste momento, aos 25, graças ao mapa da mina dado pelo Bayern: os erros na construção. Upamecano quis driblar Grealish na entrada da área e foi desarmado. O ponta deu o passe de calcanhar para Haaland, que fez o cruzamento digno de um bom lateral. Bernardo Silva entrou na área com muita liberdade e cabeceou fora do alcance de Sommer. O tento deixou os bávaros tontos, com uma pressão dos Citizens pelo terceiro. E os visitantes às vezes pareciam tropeçar nas próprias pernas, nos arredores de sua área. Sommer teria que salvar a equipe aos 31, espalmando um chute rasteiro de Álvarez que tinha endereço.

Com tamanho volume ofensivo do Manchester City, alguma bola sobraria para Haaland. E ela veio na sequência do escanteio, aos 32, para o terceiro gol da equipe. No levantamento na área, Stones ajeitou pelo alto de cabeça e Haaland entrou rasgando no segundo pau, sozinho, sem que Sommer pudesse salvar desta vez. As tentativas de resposta do Bayern não passavam de espasmos, e Rúben Dias foi monstruoso num desarme no mano a mano com Gnabry. O quarto parecia mais próximo do outro lado, e Sommer foi importante para cortar um cruzamento. Aos 35, Thomas Müller e João Cancelo vieram a campo nas vagas de Gnabry e Davies. O Estádio Etihad, de qualquer forma, já gritava olé. Neste embalo, Álvarez chutou com muito perigo de fora, raspando a trave.

Sem dar sinais de reação, o Bayern se complicava sozinho quando precisava rodar a bola no campo de defesa. Foi assim que entregou um escanteio para o Manchester City. O quarto quase pintou no marcador, mas Sommer voou para desviar com a ponta dos dedos a cabeçada potente de Rodri. Neste momento, o melhor para os bávaros era ouvir o apito final, porque claramente o time sentia o resultado. Aos 44, Grealish também arriscou um tiro colocado que passou por cima. Os últimos suspiros do Bayern vieram com alguns cruzamentos na reta final, para especular um desconto que melhoraria a situação para a volta. Mas não seria agora que a defesa do City desleixaria, depois de tamanha apresentação.

Os três gols de vantagem aproximam bastante o Manchester City das semifinais. Por mais que o Bayern possua inegavelmente mais tradição na Champions e um bom time, fica difícil de imaginar uma reviravolta. O clube tomou sua decisão quando trocou de técnico às vésperas do jogo decisivo e, ao menos neste pouco tempo, Thomas Tuchel não criou um impacto tão positivo assim. Enquanto isso, Pep Guardiola parece reencontrar o caminho para um aproveitamento arrasador. Mais uma vez o City se redesenha, redefine jogadores e conta com o melhor de seus talentos. É um senhor resultado.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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