Champions League

O lendário Benfica 5×3 Real Madrid, a final da Champions que consagrou o bicampeonato encarnado há 60 anos

Com Eusébio se apresentando para a Europa aos 20 anos, o Benfica conquistou uma vitória mítica para a sua história

O Estádio Olímpico de Amsterdã recebeu 62 mil pessoas naquele 2 de maio de 1962, mas milhões ao redor da Europa olhavam com grande interesse a coroação que ocorreria naquela noite. A decisão da Copa dos Campeões de 1961/62 reunia duas potências, que definiriam qual a direção da história naqueles primórdios do torneio. De um lado, o Real Madrid tentava recuperar seu cetro depois de perdê-lo, cinco vezes campeão nas cinco primeiras edições. Do outro, o Benfica visava fincar o pé no trono, ao levar a taça no ano anterior, embora não fosse diretamente o responsável por derrubar os antigos reis. Em campo, Di Stéfano e Puskás ainda impunham muito respeito. Mas aquele dia serviria para que os europeus se rendessem a um fenômeno vindo da África, que nem tinha participado do título benfiquista de 1961, mas logo chegou como majestade em sua primeira final. Eusébio, aos 20 anos, ofereceu em Amsterdã uma das maiores atuações já registradas na Champions. Participou de quatro dos cinco gols do Benfica, capaz de arrancar uma épica virada por 5 a 3 para sagrar o time bicampeão. A história daquele lendário esquadrão encarnado passa pelo Estádio Olímpico, há 60 anos.

A trajetória do Benfica na Copa dos Campeões começa na temporada 1957/58. Em tempos de maiores alternâncias no topo do Campeonato Português, os encarnados representaram o país pela primeira vez no torneio da Uefa depois do título nacional de 1956/57. Seria uma campanha curta, encerrada logo na fase de entrada. Os encarnados pegaram o Sevilla, vice-campeão espanhol, que se classificara porque o campeão Real Madrid também havia levado o bicampeonato continental. Então dirigido por Otto Glória, o Benfica não resistiu à força dos andaluzes. A derrota por 3 a 1 no Nervión seria seguida pelo empate por 0 a 0 na Luz, fatal aos lisboetas. Apesar disso, alguns nomes importantes ganhavam experiência além das fronteiras. Mário Coluna, José Águas, Domiciano Cavém e Ângelo Martins eram nomes que fariam história em pouco tempo.

O Benfica deu o seu salto competitivo a partir de 1959/60, quando contratou Béla Guttmann, treinador húngaro que acumulara as mais variadas experiências no futebol e na vida. O técnico era, acima de tudo, um sobrevivente: escapou do Holocausto, ao fugir de um campo de trabalhos forçados e se esconder em um sótão de Budapeste. Antes disso, dentro de campo, participara da vanguarda desde os tempos de Hakoah Viena, esquadrão da comunidade judaica no Campeonato Austríaco. Já à beira do gramado, era uma das mentes brilhantes por trás da revolução do futebol da Hungria após a Segunda Guerra Mundial. Dirigiu com destaque o Honvéd, antes de trabalhar em outros países e ser até campeão italiano à frente do Milan. E, convidado para participar de uma excursão com o Honvéd pelo Brasil, o comandante ficou no país e tornou-se campeão paulista com o São Paulo. Isso antes de retornar à Europa e, levado inicialmente pelo Porto, conquistar seu primeiro Campeonato Português.

Béla Guttmann (Keystone/Hulton Archive/Getty Images)

Béla Guttmann seria contratado pelo Benfica como atual campeão nacional. Com uma base forte de jogadores, o treinador conseguiria montar uma máquina de jogar futebol. O primeiro sinal disso aconteceu com a conquista do Campeonato Português em 1959/60. Ainda assim, a certeza absoluta viria na Copa dos Campeões de 1960/61. O retorno dos encarnados ao torneio seria bem mais longo, desta vez para só acabar com a taça. A campanha irrepreensível do timaço deixou pelo caminho Hearts, Újpesti, Aarhus e Rapid Viena. Os portugueses venceram seis dos oito duelos, com 23 gols anotados e só oito sofridos. Até que, na decisão, o Benfica tivesse pela frente o Barcelona, responsável por eliminar o pentacampeão Real Madrid logo de cara e que reunia uma constelação estrelada por László Kubala, Sándor Kocsis, Evaristo de Macedo, Luis Suárez e Zoltán Czibor. Numa final marcada pelas “traves quadradas” do Estádio Wankdorf, que negaram gols preciosos aos blaugranas, os benfiquistas ganharam por 3 a 2. A Europa pela primeira vez era deles.

A formação daquele Benfica já era célebre entre seus torcedores. Começava com Costa Pereira, goleiro trazido de Moçambique que se tornaria intocável na meta encarnada por mais de uma década. Já a defesa era liderada por Germano, comprado naquele ano do Atlético de Portugal e que servia de xerife do setor, com muita capacidade técnica. Tinha ao seu lado o auxílio de Mário João e Ângelo Martins, laterais que brilhavam no clube desde a década de 1950. Já da base, quem reforçava o setor defensivo era o polivalente Fernando Cruz, que atuava em variadas posições e costumava ficar mais preso na proteção.

As mudanças daquele Benfica em relação ao que viria no futuro começavam no meio. José Neto e Joaquim Santana formavam a dupla central, mas perderiam espaço com recuos essenciais. Primeiro, o de Mário Coluna, craque vindo de Moçambique em 1954. O então atacante seria deslocado como armador, onde podia servir de maestro e conduzir o time com seus passes em profundidade. Já Domiciano Cavém, que viraria até mesmo um classudo volante com Guttmann, costumava atuar como atacante desde que chegara ao Estádio da Luz em 1954. O setor também contava com o centroavante José Águas, dono da braçadeira de capitão, que era o mais antigo do elenco e estava no time desde 1950. Já nas pontas, além de Cavém, outro nome costumeiro era o habilidoso José Augusto, comprado junto ao Barreirense em 1959.

E duas adições fundamentais ocorreram no ataque do Benfica para tentar o bicampeonato da Champions, em 1961/62. António Simões estourou a partir da base em 1961 e Béla Guttmann não teve problemas em firmá-lo na equipe principal com apenas 18 anos. Porém, o grande reforço era outro atacante, apenas um ano mais velho, que chegara de Moçambique durante a campanha do título de 1960/61 e sequer teve tempo de ser integrado antes da final contra o Barcelona. Era Eusébio, um verdadeiro achado que contou com grande participação de Guttmann para fisgá-lo.

Conta a história que foi Bauer, lenda do São Paulo e antigo comandado do húngaro no Morumbi, quem avisou Guttmann sobre a existência de um prodígio em Lourenço Marques (atual Maputo), durante uma conversa informal numa barbearia. O veterano da seleção brasileira tentou levar Eusébio ao Tricolor, sem acordo, e então resolveu recomendá-lo ao antigo treinador. Só tinha uma questão: a promessa atuava pelo Sporting de Lourenço Marques, filial dos rivais alviverdes. Porém, enquanto os sportinguistas queriam levar o atacante a Lisboa como jogador da base, os benfiquistas ofereciam contrato e um polpudo salário para o adolescente logo se integrar como profissional. O Pantera Negra aceitaria tal oferta. A história do Benfica mudaria a partir de então.

O desembarque de Eusébio em Portugal aconteceu em 15 de dezembro de 1960. O prodígio foi mantido sob extrema proteção em suas primeiras semanas no país, para não ser aliciado por dirigentes do Sporting. Após ser registrado, começou a participar dos treinos do Benfica. “O menino é ouro!”, teria sido a primeira avaliação de Guttmann, ao se deslumbrar com a técnica e a explosividade do novato. Contudo, o Pantera Negra passou meses sem estar inscrito no time. Sua estreia aconteceu exatamente um dia após o título da Champions de 1960/61, quando os encarnados entraram em campo pela Taça de Portugal. O adolescente logo marcou seu primeiro gol, apesar da derrota para o Vitória de Setúbal.

A temporada de 1961/62 foi a primeira em que Eusébio atuou pela equipe principal do Benfica. Sua fama se ampliou após as exibições contra o Santos no Torneio de Paris e contra o Peñarol no Mundial Interclubes. Apesar das derrotas benfiquistas em ambas as ocasiões, os próprios adversários admitiam que um novo fenômeno vestia a camisa 8 encarnada. E a Champions não demorou a descobrir isso. A estreia do Benfica aconteceu nas oitavas de final, contra o Austria Viena. Depois do empate por 1 a 1 fora de casa, os lisboetas golearam por 5 a 1 em seus domínios. Santana e José Águas fizeram dois gols cada, mas Eusébio deixaria o seu num chute potente no canto.

O Benfica correu riscos de encerrar a campanha do bicampeonato nas quartas de final da Champions, quando encarou o Nuremberg, campeão alemão-ocidental estrelado por Max Morlock. Na visita aos bávaros, os encarnados perderam por 3 a 1. A neve que tomou o campo atrapalhou a infeliz jornada de Costa Pereira. A resposta viria com o calor de um infernal Estádio da Luz, que engoliu os germânicos com a goleada por 6 a 0. Os três primeiros gols saíram com 20 minutos, enquanto a marca seria dobrada no segundo tempo. Eusébio estava especialmente inspirado, com dois gols e algumas arrancadas imparáveis. José Augusto (duas vezes), José Águas e Coluna complementaram o placar.

(Evening Standard/Hulton Archive/Getty Images)

A semifinal guardava um desafio duro ao Benfica. O Tottenham vinha da dobradinha na Inglaterra e atravessava o melhor período de sua história. Bill Nicholson dirigia a célebre equipe de Jimmy Greaves, Cliff Jones, Danny Blanchflower e outras figuras marcantes. Antes da partida, o próprio Béla Guttmann avaliava que os Spurs contavam com um time mais qualificado. De fato, seriam jornadas duríssimas para que os portugueses conseguissem prevalecer rumo à final.

O Benfica venceu a partida de ida, no Estádio da Luz, por 3 a 1. Simões marcou o primeiro gol numa cabeçada logo aos cinco minutos, antes que o empate de Jimmy Greaves fosse anulado por impedimento. José Augusto ampliou a diferença para os encarnados aos 19, enquanto os Spurs precisariam insistir até Bobby Smith descontar aos nove do segundo tempo. Não seria um alívio tão duradouro, já que José Augusto fez mais um dez minutos depois e o goleiro Bill Brown acumulava defesas para evitar um saldo pior aos visitantes. Já no último lance, outro tento dos ingleses seria anulado por impedimento – em lance bastante contestado, já que árbitro e bandeirinha divergiram na hora da marcação. De qualquer maneira, a  vantagem dos lusitanos era razoável para o reencontro em White Hart Lane.

O Tottenham deu o troco em Londres. Porém, o triunfo por 2 a 1 se tornou insuficiente. O Benfica aumentou sua vantagem no placar agregado logo aos 15 minutos, com José Águas, de carrinho. De novo, um gol anulado impediu a reação imediata dos Spurs, mas Bobby Smith empatou num lindo chute antes do intervalo e Blanchflower virou cobrando pênalti aos três do segundo tempo. O duelo passava a ficar no limite e os londrinos flertaram com o terceiro tento, mas pararam duas vezes na trave e ainda reclamaram de um pênalti não anotado a seu favor. Enquanto isso, do outro lado, seria a vez de os benfiquistas se verem frustrados por um tento anulado. No fim das contas, o placar se manteria e a diferença na ida valeria a passagem dos lusitanos à segunda decisão consecutiva.

“Nenhuma partida mais emocionante – jogada em ritmo frenético, sem pedir ou dar um descanso – eu vi em qualquer classe de futebol. Os dois times sabiam que estavam em uma luta gloriosa, e ambos se lembrarão disso, o vencedor e o vencido. Então, também, o mesmo acontecerá com todos os torcedores que estiveram presentes em White Hart Lane na última noite”, escreveu o jornal The Times, no dia seguinte. Enquanto isso, Béla Guttmann classificaria aquele como “o jogo mais difícil de sua carreira”.

Por fim, na decisão, o Benfica enfrentaria um adversário tão qualificado quanto experiente. O Real Madrid queria retomar sua hegemonia na Champions depois da queda precoce na temporada anterior. Ainda era, com sobras, o maior vencedor do torneio e boa parte do seu elenco multicampeão estava mantida – em especial, os principais craques. Além do mais, os merengues construíam paralelamente uma nova hegemonia, mas no Campeonato Espanhol. Naquela temporada, os madridistas faturaram o segundo de cinco títulos consecutivos por La Liga, em série repetida apenas nos anos 1980. O antigo capitão Miguel Múñoz, mantido como técnico a partir de 1960, vinha respaldado por seu esquadrão.

O Real Madrid teve sua grande classificação nas fases anteriores contra uma forte Juventus, vencendo o replay nas quartas de final. Nos outros confrontos, vitórias duplas diante de Vasas, Boldklubben 1913 e Standard de Liège. O Benfica voltava a elevar o sarrafo em Amsterdã. Dentro de campo, Alfredo Di Stéfano e Ferenc Puskás já tinham passado dos 35 anos, mas permaneciam como símbolos de maestria no futebol. Vinham apoiados por uma excelente linha de frente composta por Francisco Gento, Luis del Sol e Justo Tejada. Felo e Pachín fechavam o meio, enquanto José Santamaría servia como esteio da zaga, acompanhado por Pedro Casado e Vicente Miera. Mais atrás, José Araquistáin era o goleiro. Os merengues podiam não estar na melhor forma, mas seguiam com grandes nomes.

Presente nos Jogos Olímpicos de 1924, em Paris, Béla Guttmann aproveitou a visita ao Estádio Olímpico de Amsterdã para contar suas histórias aos comandados. Relatou inclusive os encontros com o lendário fundista finlandês Paavo Nurmi. A motivação estava presente nos discursos do treinador, para fazer o Benfica acreditar que, de fato, era melhor que o Real Madrid. E a preparação era minuciosa, com os benfiquistas treinando sob chuva e frio intenso na véspera, enquanto os merengues passeavam pela cidade neerlandesa. O foco dos encarnados era maior. Em campo, sua célebre escalação: Costa Pereira, Mário João, Germano e Ângelo Martins; Francisco Cruz e Domiciano Cavém; José Augusto, Eusébio, José Águas, Mário Coluna e António Simões. No banco, o velho bruxo húngaro.

Naquele 2 de maio de 1962, a ocasião já se prenunciava grandiosa desde a execução dos hinos nacionais. As equipes perfiladas estavam posicionadas entre uma legião de jornalistas e a banda militar que executava as canções – de Portugal, da Espanha e dos Países Baixos. Os atletas tanto de Benfica quanto de Real Madrid vestiam os agasalhos de suas equipes – com os merengues prontos para usar um uniforme todo azul, já que o mando era benfiquista e os calções brancos dos portugueses impediam a combinação inteira branca dos espanhóis. Coluna e Eusébio estavam lado a lado entre os encarnados. Já na parte merengue, a trinca formada por Di Stéfano, Puskás e Gento intimidaria qualquer linha defensiva.

A partida começou disputada no meio, com muitas bolas perdidas. Isso até que Di Stéfano desse seu cartão de visitas na área do Benfica, com um peixinho livre que direcionou ao lado da meta de Costa Pereira. Os benfiquistas, porém, dominavam os primeiros movimentos da final. Os lusitanos tinham mais presença ofensiva. Posicionavam seu time no campo de ataque e empurravam o Real Madrid para trás. As recuperações dos encarnados eram rápidas e neutralizavam as ligações diretas dos merengues. Demoraria apenas para que o time de Béla Guttmann realmente penetrasse na área com perigo.

O Real Madrid voltou a dar um susto aos sete minutos, num contra-ataque fulminante puxado por Gento. A velocidade do ponta esquerda para escapar da marcação de Mário João era impressionante. Dentro da área, os merengues emendaram toques de primeira, até Tejada chutar em cima de Costa Pereira. Contudo, houve impedimento no lance. Eusébio atuava de maneira recuada, na tentativa de conduzir sua equipe. Assim, os embates com Di Stéfano eram constantes, à medida que o Flecha Loira também voltava bastante e se apresentava como praticamente um volante na construção dos ataques, com passe livre para subir.

O Benfica se tornou mais ameaçador quando Eusébio resolveu arriscar mais. Coluna entrou no jogo e o Pantera Negra se beneficiava com isso, aproximando-se da área e soltando o pé. Aos 13 minutos, foram duas finalizações seguidas, a primeira bloqueada e a segunda para fora. De qualquer maneira, o maior mérito do Benfica naqueles primeiros momentos era a sua defesa, que se antecipava bem aos movimentos da linha de ataque do Real Madrid e controlava muitos lançamentos longos, especialmente Germano. Quando isso não aconteceu, aos 17, os merengues abriram o placar. Os lusitanos cobraram uma falta em direção à área, repelida pela defesa espanhola. Di Stéfano estava à espera da sobra na intermediária defensiva e deu um excelente lançamento para Puskás. O Major Galopante, que não tinha aparecido tanto até então, disparou sozinho por entre os zagueiros e invadiu a área para fuzilar no canto. Os benfiquistas precisariam correr atrás do prejuízo.

A partida seguiu pendendo ao Real Madrid. Os merengues pareciam mais conscientes de suas ações e tinham mais continuidade em seus lances. Isso até que Puskás, puxando mais para o meio, reaparecesse no placar. O Major Galopante ampliou a diferença aos 23. Numa cobrança de falta rápida, o camisa 10 recebeu o passe na intermediária e girou, antes de desferir o canhotaço potente. A bola venenosa entrou no cantinho e, saltando atrasado, Costa Pereira não teve o que fazer. O Benfica, ao menos, descontou sem perder tempo, aos 25 minutos. Coluna sofreu uma falta no limite da grande área. O camisa 10 rolou para Eusébio chutar rasteiro, no pé da trave. José Águas estava mais atento no rebote e completou com o goleiro Araquistáin batido. Os encarnados voltavam ao embate num momento fundamental.

A temperatura da decisão subiu, com lances mais pegados na intermediária e faltas seguidas. O Real Madrid continuava apresentando mais qualidade, em especial quando Del Sol podia trabalhar os passes com categoria. Só que o Benfica tinha um fenômeno chamado Eusébio. Aos 31, o Pantera Negra rompeu em velocidade pelo meio e soltou um petardo que levantou a torcida, por mais que tenha seguido para fora. Quando o Real Madrid respondeu, num recuo errado, Costa Pereira se antecipou bem a Puskás dentro da área. A impressão era de que o próximo gol poderia sair para qualquer lado, pela forma como os dois times atuavam com ímpeto ofensivo. Os benfiquistas deram o passo à frente, ao empatar aos 34. Numa bola recuperada no meio do campo, José Águas puxou pela ponta direita e cruzou de trivela. Eusébio brigou na área e ajeitou para trás, onde surgia Cavém. O camisa 5 soltou uma pancada de esquerda, como nos tempos de atacante, e Araquistáin só viu o chute fortíssimo entrar direto em seu ângulo. Golaço.

Costa Pereira transmitia certa insegurança nas bolas altas. Numa dessas, deixou escapar um cruzamento e quase complicou sua equipe, chegando a tocar a bola com a mão fora da área. Por sorte, a cobrança da falta frontal seria travada. Mas o Real Madrid acelerava mais para retomar a vantagem. Depois de mais uma grande jogada de Del Sol pelo meio, Gento invadiu a área e engatilhou o chute, mas pegou torto na bola. Quem não perdoava era Puskás, autor também do terceiro, aos 38. O próprio Major Galopante tentou uma enfiada, cortada parcialmente pela zaga, e pegou a sobra na entrada da área. No domínio, o camisa 10 deu um tapa que deixou a marcação no vácuo. De frente para o gol, acertou outro tirambaço de esquerda e mandou no canto inferior de Costa Pereira, sem chances de defesa.

Durante os minutos finais do primeiro tempo, Gento seria mais ativo na ponta esquerda. O camisa 11 emendou alguns dribles espetaculares e o Real Madrid permanecia mais tempo no campo ofensivo. Por alguns centímetros, o quarto gol não aconteceu aos 40. Gento recebeu a abertura de Puskás e entortou João Mário. O cruzamento na linha de fundo chegou na medida para Tejada, que cabeceou por cobertura e carimbou o travessão. O Benfica concentrava suas ações ofensivas em Eusébio, que partiu com a bola dominada algumas vezes e arrancou até a área merengue, mas acabava abafado na hora de executar seus arremates. De uma maneira geral, os lisboetas foram de mais a menos durante o primeiro tempo e precisavam de um chacoalhão nos vestiários.

O Benfica voltou para o segundo tempo trabalhando melhor os passes, muitos de primeira. A necessidade era clara e os encarnados tinham novamente mais iniciativa no duelo. Outro detalhe estava no posicionamento entre José Águas e Eusébio, com o camisa 9 atuando mais recuado na entrada da área e permitindo que o Pantera Negra se metesse entre os zagueiros. Os pontas benfiquistas, José Augusto e Simões, também participavam mais. Porém, o gol de empate aos seis minutos dependeu bem mais da individualidade de Coluna. Numa dividida de Puskás na intermediária defensiva, a bola espirrou para trás e ficou com o camisa 10 lusitano. Coluna aproveitou a liberdade e chutou forte de direita, em petardo que entrou no canto de Costa Pereira. A imprevisibilidade voltava a prevalecer em Amsterdã.

A confiança do Benfica começava a transparecer no segundo tempo, com um bom trabalho realizado por Cavém na cabeça de área, seja para se antecipar aos lances ou para lançar. Era ele quem colava em Di Stéfano, que pouco se apresentava para criar as jogadas. O Real Madrid tentava sair mais ao campo de ataque, mas se via controlado. Os merengues tiveram um pouco mais de respiro numa ótima combinação entre Del Sol e Gento pela esquerda. O troco lisboeta seria com Eusébio, na base da individualidade, só parado com um escanteio a seu favor. Germano era mais um que garantia o equilíbrio dos benfiquistas, sempre firme quando precisava cortar as ligações merengues e dividir com os adversários. Como se não bastasse a melhora dos adversários, o Real Madrid teve um sério problema aos 16 minutos, quando Pedro Casado se lesionou na virilha. Sem substituições, o camisa 2 precisou ser adiantado para a ponta direita e fazer apenas figuração em campo.

As jogadas do Benfica pela linha de fundo saíam com mais frequência, assim como os dribles curtos. Eusébio sempre sobrava nesse aspecto, embora Ângelo Martins também tivesse causado um carnaval pela lateral esquerda em uma de suas participações. Superior na segunda parte, o time de Béla Guttmann poderia ter ampliado aos 17. Num estupendo lançamento de Coluna para Simões, o ponta foi puxado no limite da área. Coluna rolou a cobrança da falta para o lado, Eusébio bateu forte sobre a marcação e a bola espirrada surgiu para José Augusto mandar para dentro. Um impedimento bastante reclamado anulou o tento. Não que os portugueses tenham aguardado tanto pela virada. Aos 19, Eusébio disparou do campo de defesa. Deixou Di Stéfano na saudade e só foi parado com falta de Pachín dentro da área. Pênalti, que o próprio Pantera Negra cobrou, deslocando Araquistain. A reviravolta já estava presente no placar, com o 4×3 parcial.

O Real Madrid dava mais sinais de desgaste, com uma equipe mais velha e ainda o problema de Casado. Apesar disso, uma ligação direta dos merengues, quase rendeu novo empate aos 22. Puskás girou no meio de três e deu um tapa para o lado, onde Di Stéfano corria sozinho. O Flecha Loira invadiu a área, mas finalizou em cima de Costa Pereira, que realizou uma defesa essencial. Aquele lance custaria caro, já que o Benfica anotou seu quinto gol pouco depois, aos 25. Num lançamento longo, Santamaría meteu a mão na bola na entrada da área. A cobrança de falta frontal era excelente aos encarnados. Coluna rolou de lado e Eusébio enviou mais um de seus tiros potentes. A bola rasante saiu do alcance de Araquistáin, que ainda tocou de leve, mas não evitou que o chute adormecesse no canto da rede. O Pantera Negra marcava a diferença em campo.

A situação do Real Madrid se tornava dramática, pela diferença no placar e pela forma como seu time indicava o cansaço. Casado mancava em campo e claramente não tinha condições. Eusébio não estava nem aí. O camisa 8 parecia disposto a infligir uma goleada histórica e, aos 26, passou fácil por Pachín antes de mandar um foguete. Araquistáin fez milagre essa vez, para espalmar a bola pelando. Os merengues estavam pensos para o lado esquerdo do ataque e tinham um pouco mais de respiro com os dribles de Gento, em lances que acabavam não rendendo necessariamente chances de gol. Já nas arquibancadas, os gritos de “Benfica, Benfica”, que pipocavam de tempos em tempos no Estádio Olímpico, se tornavam mais constantes.

(Keystone/Hulton Archive/Getty Images)

Os virtuosos do Real Madrid precisavam aparecer mais na partida. Puskás recuava um pouco e o time claramente era melhor quando o Major Galopante influenciava o jogo. Num desses lances em que o camisa 10 apareceu na ligação, Gento pegou uma sobra pelo lado esquerdo da área e bateu de primeira, para que Costa Pereira operasse outro milagre. Agora era o momento em que os merengues atuavam com a bola nos pés e os benfiquistas apostavam nos contragolpes. Del Sol era outro que melhorava o time, mas não conseguia se envolver de forma tão constante.

Aos 32 minutos, uma confusão se deu em campo. Di Stéfano recebeu o passe de Del Sol e encontrou um clarão no meio da zaga do Benfica. Invadiu a área e, na hora do chute, seria bloqueado por Fernando Cruz. Os espanhóis queriam o pênalti desesperadamente, mas a arbitragem entendeu que o marcador tinha ido só na bola. Depois de um breve bate-boca, a ação foi retomada em Amsterdã. Não dava para dizer que a atuação do árbitro Leo Horn era impecável, com a falta de critério para assinalar faltas de ambos os lados. Porém, tal postura afetava os dois times, que tinham lances dos quais saíram insatisfeitos.

O Real Madrid não deixava de lutar. Dependia de seus melhores jogadores, entretanto. Di Stéfano estava mais ativo na intermediária ofensiva e serviu com esmero a Puskás, aos 35. O camisa 10 dominou e enviou a tijolada que passou muito próxima do travessão. Gento, por sua vez, exibia um fôlego invejável para o momento da partida e não deixava de vencer todas as corridas contra os defensores. Pecava um pouco nos cruzamentos. Do outro lado, o Benfica oferecia pouco. Os encarnados se concentravam mais no trabalho defensivo e se limitavam a algumas arrancadas individuais, que pelo menos ajudavam a equipe a gastar tempo. Aos 39, quando José Águas pôde finalizar novamente, Araquistáin deu a ponte para evitar o sexto gol dos lusitanos. A pressa era toda dos madridistas.

Os dois times já estavam mais tensos e o Real Madrid perdia o controle de seus nervos. Del Sol quase arrumou confusão na cobrança de um lateral que o Benfica tentava atrasar e Pachín matou um contra-ataque com um pontapé em Eusébio. Nada quebrava a calma de Coluna, todavia. O camisa 10 encarnado era um mar de serenidade quando pegava a bola no meio e mudava de direção para desnortear os adversários. Era o maestro dos encarnados e com isso permitia que o relógio corresse. As bolas recuadas até Costa Pereira viravam um expediente bem mais corriqueiro entre os lusitanos, com minutos silenciosos dos madridistas em termos ofensivos. Marcar dois gols era missão praticamente impossível a esta altura, com o relógio se aproximando dos 45. Os pentacampeões europeus pareciam cientes que, ali, nascia um bicampeão. Isso até que, num chute para fora de Di Stéfano, Leo Horn pedisse a bola e os lisboetas iniciassem a celebração.

A invasão de campo foi massiva, assim que o apito final soou. Eusébio e Germano pediram a bola, uma relíquia daquela conquista. Misturados num mar de gente, os jogadores do Benfica chegavam um a um à beira do campo, onde cumprimentavam dirigentes e membros da comissão técnica. Eusébio, em particular, era carregado nos braços pelos torcedores, já sem a sua camisa – levava como prêmio a 9 de Di Stéfano. Não havia mais espaço em campo, até que o troféu acabasse entregue ao capitão José Águas num mero canto na lateral. O camisa 9 tinha problemas para adentrar na multidão e exibir o símbolo do bicampeonato. A taça seria mais visível apenas quando o centroavante também foi erguido pelos torcedores alucinados. A volta olímpica se tornou possível somente com escolta da polícia.

Nos vestiários, Béla Guttmann ressaltava o nível do espetáculo apresentado pelas duas equipes em Amsterdã: “Foi um jogo tão grande como o que disputamos contra o Tottenham. Toda a equipe jogou futebol e mostrou ter fibra, não se impressionando quando, a princípio, o jogo correu mal. O Real Madrid continua a ser uma turma poderosa, com jogadores de grande categoria e um sistema de jogo que é uma bela máquina. Pareceram-me Del Sol e Gento os mais perigosos de todos os jogadores madrilenos, muito embora ontem não conseguissem marcar presença”.

O capitão José Águas, por sua vez, concentrava os elogios no poder de reação do Benfica: “Os dois gols que sofremos foram o melhor estimulante; foram eles que nos levaram a lutar daquela maneira e nos proporcionaram o triunfo. Conseguimos contrabalançar a desvantagem, sofremos mais um gol e repusemos de novo o empate. O êxito dessa recuperação deu-me vivacidade e velocidade para a segunda parte. E daí a vitória”.

Do lado do Real Madrid, Puskás estava resignado com o resultado, apesar da tripleta: “Acabamos por perder o encontro, apesar de eu ter cumprido bem a minha obrigação, marcando três gols. Foi, no entanto, um belo jogo. Trata-se apenas de uma derrota, sem repercussões especiais e a equipe voltará a dar o que sabe”. O capitão Gento complementou: “O Benfica tem um ataque muito rápido e rematador, e uma defesa que cobre bem o gol. Sentimo-nos satisfeitos porque lutamos pela vitória, que chegamos a julgar nossa”.

Já Di Stéfano dizia: “O Benfica jogou bem e soube marcar os gols. Mas posso me queixar do árbitro, que não viu Cruz prender a minha perna, numa ocasião, e não concedeu o pênalti que era devido por eu ter sido derrubado na grande área. Mas perdi um gol infantilmente quando fiquei isolado diante de Costa Pereira e atirei a bola contra o seu corpo. Tive tempo para decidir o que deveria fazer, mas não executei o que pensei. E esse gol fez uma enorme falta”. O Flecha Loira nunca perdoaria o árbitro Leo Horn pelo pênalti não marcado, a ponto de se recusar a cumprimentá-lo anos depois.

Na época, curiosamente, os árbitros costumavam comentar o jogo à imprensa. Leo Horn elogiaria o nível em campo: “Foi um dos mais belos jogos de final que até hoje vi. E sinto-me satisfeito por ter entrado neste encontro como árbitro. As duas equipe jogaram com lealdade, sem truques, embora às vezes com certa dureza. Mas os jogadores recebiam bem as palavras de repreensão, que eram apenas destinadas a evitar que o jogo endurecesse. Mas não havia necessidade de tal coisa: as duas equipes queriam era jogar futebol. Admirei em especial os dois interiores, Eusébio  Coluna, e o conjunto defensivo. No Real, Di Stéfano e Puskás continuam a ser grandes jogadores. Mas a vitória do Benfica foi merecida, devido ao espírito de luta”.

E a história da Champions presente no gramado do Estádio Olímpico de Amsterdã não se encerrou aos dois times envolvidos. Um jovem garoto holandês que trabalhava como gandula naquela decisão, tempos depois, lideraria outro esquadrão do torneio. Ele se veria bastante impactado pela partidaça entre Benfica x Real Madrid e se motivaria para a sequência de sua trajetória nas categorias de base do Ajax. Os craques em campo seriam uma inspiração para ele mesmo se transformar em gênio. Seu nome? Johan Cruyff. Curiosamente, um dos responsáveis por bater de frente com os encarnados dentro de poucos anos.

Antes que a história se transformasse, o Benfica teria uma recepção das mais calorosas no retorno a Portugal. “A chegada a Lisboa dos campeões europeus revestiu-se de aspectos verdadeiramente apoteóticos. Milhares de pessoas se juntaram no aeroporto para saudar calorosamente os campeões do Benfica. O entusiasmo atingiu o auge quando José Águas, o primeiro a descer do avião, trazendo um grande colar de folhas de louro e erguendo bem alto a famosa taça que ficará, pelo menos, mais um ano em Portugal, recebeu os cumprimentos do ministro da Educação e do presidente da Câmara Municipal. Depois e ainda no aeroporto, os jogadores foram alvo das maiores manifestações de carinho, quer por parte dos seus familiares, quer das milhares de pessoas ali reunidas”, narrava o Diário de Lisboa. O time seguiu para os festejos no Estádio da Luz acompanhado por um “interminável cortejo de automóveis e outros veículos motorizados”. Dentro do estádio, “houve um autêntico carnaval”, com arquibancadas lotadas.

A grandiosidade daquele Benfica estava gravada, ainda que nem tudo fosse impecável nos anos posteriores. Os encarnados deixaram escapar outra vez o título do Mundial Interclubes, com a derrota para o Santos nos míticos embates na sequência de 1962. Àquela altura, Béla Guttmann não estava mais à frente da equipe. O treinador saiu em litígio com a diretoria, sentindo-se subvalorizado. Antes da decisão contra o Real Madrid, pediu um aumento salarial de 65% se fosse campeão e não foi atendido. Além disso, também estava decepcionado por cobrarem a estadia de sua esposa no hotel durante o duelo contra o Nuremberg na Alemanha. Foi quando rogou sua famosa “maldição”, de que os encarnados não conquistariam novamente a Copa dos Campeões dentro de 100 anos. E a sequência da década de 1960, mesmo que imponente, guardaria outras tantas desventuras no Estádio da Luz.

Eusébio, de fato, se tornou um fenômeno. O Pantera Negra levou a Bola de Ouro em 1965 e outras duas vezes acabou na segunda posição da eleição, inclusive em 1962. Porém, a reconquista da Champions insistia em não vir por detalhes ao Benfica. O tri seria perdido na decisão contra o Milan, em 1963. Os benfiquistas viveriam outros dois vices, contra a Internazionale em 1965 e diante do Manchester United em 1968. Potências da época também cruzaram o caminho dos lisboetas e acabaram cortando o embalo antes da final, como o Ajax e o Celtic. Já a partir da década de 1970, com muitos nomes da geração de ouro saindo de cena, as campanhas mais curtas dos lusitanos os afastaram dos antigos sonhos. Os dias gloriosos ficavam no passado.

Depois de 60 anos, a maldição de Béla Guttmann ainda impera. O mais próximo que o Benfica chegou de quebrá-la foi no título recente da Uefa Youth League, com seus garotos da base – porque, no restante das competições internacionais, os vices se tornaram o padrão a cada chegada na decisão. A sina das finais e a distância temporal, entretanto, não diminuem em nada o orgulho dos encarnados por 1962. Não são muitos os clubes do mundo que podem encher a boca para dizer que dominaram seu continente por dois anos e fizeram mesmo os mais poderosos adversários sucumbirem. Eusébio estrelou um dos maiores esquadrões da história. E aquela vitória sobre o Real Madrid continua central para se dimensionar o gigantismo atingido pelos benfiquistas em seu ápice.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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