Champions League

O Leicester voltou a viver intensamente o seu sonho, em uma vitória da garra na Champions

Há dias em que tudo dá certo. Dias em que você sabe que a história perfeita vai acontecer. Afinal, os fatos se sucedem e se encaixam da melhor maneira possível, como se o destino já estivesse escrito. Ainda que, para se concretizar, também dependa do esforço. O Leicester conhece bem estes dias. Eles se repetiram diversas vezes na temporada passada, quando a única certeza parecia ser mesmo a conquista da Premier League, por mais improvável que soasse. Jogo após jogo, ninguém mais pôde duvidar da manifestação do inacreditável. E, nesta terça, quem esteve no Estádio King Power voltou a desfrutar desta sensação. Desde a entrada dos times em campo, havia uma confiança inabalável. Que se manteve ao longo dos 90 minutos, em forma de muita vontade e aplicação dos jogadores. Terminou com o sonho coletivo: graças à vitória por 2 a 0 sobre o Sevilla, as Raposas estão nas quartas de final da Liga dos Campeões. A epopeia persiste, e repleta daqueles velhos elementos mágicos.

O último serviço prestado por Claudio Ranieri foi criar esperanças. Na partida derradeira sob as ordens do treinador, o Leicester teve uma atuação bem acima do que vinha fazendo nas semanas anteriores. Kasper Schmeichel defendeu um pênalti e Jamie Vardy anotou o gol que manteve as Raposas no páreo, apesar da derrota por 2 a 1 no Estádio Ramón Sánchez-Pizjuán. Muito aconteceu no Estádio King Power desde então. Mas aquela semente estava plantada. E foi ela que inflamou a torcida a todo o tempo. Bastava confiar. Embaladas ao som da banda Kasabian, fanática como todos que estavam ali, as arquibancadas vibravam. As bandeiras tremulando representavam a energia que se transmitiria aos próprios jogadores.

Mais uma vez, Craig Shakespeare convocou os heróis do título para a equipe titular. A única ausência em relação ao time campeão da Premier League, obviamente, era N’Golo Kanté. Ainda assim, se não podia entrar em campo, o volante estava nas arquibancadas como mais um torcedor, para apoiar os seus companheiros. E todos foram um pouquinho de Kanté nesta terça. Foram muito de Leicester. Jogaram com um empenho irrepreensível. O esforço na marcação começava desde a linha de frente. Vardy corria e se jogava a cada bola. Okazaki foi um leão. Mahrez desarmou mais do que qualquer outro. O meio de campo era excepcional no combate, especialmente Wilfried Ndidi, o herdeiro de Kanté. E nada parecia ser capaz de vazar a defesa, especialmente pelo alto, onde Morgan e Huth eram soberanos. Quando até a dupla de zaga, tão frágil nos últimos meses, se engrandece desta maneira, você sabe que algo especial vai acontecer.

Aconteceu, desde os primeiros minutos. A primeira chance de gol da partida foi do Sevilla. Um chute firme de Samir Nasri, após passar por Morgan. Schmeichel buscou no canto. E o goleiro vem sendo um gigante nesta campanha, o melhor do time com certas sobras – e, para muitos, também o melhor goleiro da competição até aqui. Os andaluzes tinham mais a bola. O que eles não tinham era moleza, diante da intensidade do Leicester na marcação. As Raposas apertavam a saída de bola, tentando bloquear cada milímetro do campo. Quando os visitantes passavam da faixa central, os anfitriões se fechavam ao redor de sua área. Como fizeram com primazia em 2015/16.

O Leicester criou suas oportunidades. Não com tanto perigo, mas mostrava a sua personalidade para buscar a vitória. E o primeiro tento, que já garantiria a classificação, saiu aos 27. Vardy, inspiradíssimo, sofreu falta na entrada da área. Sabe aquilo que eu falei sobre tudo dar certo? Pois então: Mahrez cobrou, a bola passou por todo mundo e sobrou na coxa de Morgan. O zagueiro mandou para dentro e correu para o abraço. Justo ele, que lidou com o turbilhão de críticas nos últimos meses. Justo ele, de gols tão importantes na reta final da gloriosa campanha na Premier League. As Raposas seguiram superiores no final da primeira etapa, arriscando mais, ainda que a posse fosse toda dos rojiblancos.

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O Sevilla precisava de atitude. Por isso mesmo, Jorge Sampaoli mexeu no time na volta do intervalo. Tirou Gabriel Mercado e Pablo Sarabia, promovendo as entradas de Stevan Jovetic e Mariano. Logo nos primeiros minutos da etapa complementar, os andaluzes tiveram uma grande oportunidade de empatar. Sergio Escudero acertou um chutaço do meio da rua e mandou a bola cheia de efeito. Schmeichel não conseguiria chegar. Mas quando não é para acontecer… A bomba explodiu no travessão. E, no minuto seguinte, o Leicester ampliou a vantagem. Após corte parcial da defesa, a redonda sobrou limpa, no peito de Marc Albrighton. Dominou e bateu rasteiro, no contrapé de Sergio Rico. O gol que garantia tranquilidade ao Leicester.

Compreendendo muito bem o jogo, Craig Shakespeare promoveu sua primeira mudança. Tirou Okazaki, aplaudidíssimo por cada gota de suor que derramou, para a entrada de Islam Slimani, mais funcional para o bombardeio aéreo do Sevilla. Enquanto isso, Sampaoli queimou a última alteração com Joaquín Correa no posto de Wissam Ben Yedder. A pressão dos andaluzes era gigantesca. Mas não tão grande quanto a vontade do Leicester. Schmeichel, mais uma vez, foi acionado para fazer boa defesa em chute cruzado de Correa.

O Sevilla, porém, seria boicotado pela falta de cérebro de uma de suas estrelas. Samir Nasri caiu na pilha de Vardy e discutiu com o artilheiro, tentando acertar uma cabeçada. Recebeu o segundo amarelo, merecidamente, após já ter dado uma entrada exagerada em Ndidi no primeiro tempo. Com um a menos para os 15 minutos finais, o time de Sampaoli ganhou seu sopro de esperança aos 38. Pênalti bem discutível marcado pela arbitragem, sobre Vitolo. Um gol dos visitantes já garantiria a prorrogação. Mas, definitivamente, não era para ser. Steven N’Zonzi cobrou rasteiro e Schmeichel demonstrou muita segurança. Pegou mais uma penalidade, assim como fizera na volta. Nunca na história da Champions um goleiro havia parado cobranças nos dois confrontos de um jogo de mata-matas. Orgulhoso nas tribunas, Peter Schmeichel aplaudia o rebento.

Os minutos finais guardaram apenas a espera para que a certeza de 90 minutos, enfim, se transformasse em um fato consumado. Sampaoli foi expulso e o Sevilla insistiu pelo gol que prorrogaria sua vida na Champions, mas que não veio de jeito nenhum. O Leicester, aliás, poderia ter feito até mesmo o terceiro. Mahrez, fabuloso sem a bola, deu um pique de mais de 70 metros rumo ao campo de ataque. Passou para Vardy, que exagerou na força e bateu por cima da meta de Sergio Rico. A imagem do atacante, socando o próprio rosto, mostrava bem o sangue nos olhos das Raposas nesta noite.

Ao apito final, prevaleceu o orgulho. O Estádio King Power viveu uma comemoração belíssima. O clima frustrante já se tornou parte do passado. O surpreendente campeão inglês voltou. A confiança e a alegria estão novamente lá. Sobretudo a união, dos abraços que se espalhavam em campo, nas arquibancadas, na comunhão promovida por mais uma vitória fantástica. Por uma vitória do Leicester que todos curtiram ver na última temporada. E que quer fazer seu conto de fadas, mesmo sem o autor principal, se expandir pela Champions. Shakespeare, ao que parece, tem competência para isso. Com o caráter demonstrado nesta terça e uma pitada de sorte no chaveamento, dá para sonhar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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