O início de uma dinastia: primeiro título europeu do Liverpool completa 40 anos
Por Bruno Bonsanti
Entre os dez anos que separaram a metade dos anos setenta da metade dos anos oitenta, nenhum clube europeu, das ligas mais relevantes, foi tão vitorioso quanto o Liverpool. A equipe inglesa conquistou uma Copa da Uefa, quatro Copas dos Campeões e sete campeonatos nacionais neste período. Uma longa dinastia com base no trabalho de reconstrução tocado por Bill Shanky na década anterior e comandada pelos seus mais fiéis discípulos. O principal era Bob Paisley, técnico do primeiro título europeu dos Reds, em 25 de maio de 1977, 40 anos atrás, com vitória por 3 a 1 sobre o Borussia Monchengladbach, no Estádio Olímpico de Roma.
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Paisley era tudo que Shankly não era – exceto ótimo treinador. Quieto até esbarrar na timidez, não cunhava frases brilhantes como seu antecessor, nem era tão carismático. Era mais de escutar do que falar, tanto que a última biografia escrita sobre o técnico que teve média de 1,5 títulos por temporada ao longo de nove anos, melhor até que a de Alex Ferguson (1.03, em 27 anos, excluindo as Supercopas da Inglaterra das duas contas), levou o título de “Gênio Silencioso”. Era o que ele era: toda a atenção que poderia ser usada com palavras era voltada para detalhes.
Isso fez com que Paisley fosse uma peça essencial da comissão técnica durante os 15 anos do reinado de Shankly em Anfield. Da mesma forma, tornou-o o sucessor natural quando o seu chefe decidiu se aposentar. Não teve peito para pedir que seu antecessor, uma vez aposentado, parasse exercer influência sobre a equipe, e era implacável na hora de vender ou substituir jogadores.
Um episódio contado por Ian Herbert, autor da biografia citada a cima, ilustra bem o contraste de personalidades. No desfile em comemoração ao título europeu de 1977, a delegação estava prestes a discursar perante os torcedores. Shankly, apesar de não ter mais ligação com o clube, estava junto e movimentou-se em direção ao microfone para abrir os trabalhos. Roy Evans, ex-jogador, membro da comissão técnica e treinador principal do Liverpool nos anos noventa, interveio: “Chefe, é a vez de Bob primeiro”. “A parte ainda mais extraordinária foi Paisley permitir que o homem que o ofuscava tivesse sua voz. Paisley falou apenas brevemente antes de entregar o microfone para o ‘Chefe'”, escreveu Herbert, no Independent.
Caiu em seu colo a missão de substituir uma lenda, e ele temia que o resultado fosse o mesmo do Manchester United. Apenas alguns anos antes, Matt Busby havia pedido o boné para virar diretor dos Red Devills e foi substituído por Wilff McGuinnes, que ficou apenas um ano e meio no comando do time. Busby voltou para completar a temporada e se aposentou de vez. Entrou o irlandês Frank O’Farrell, no começo da temporada 1971/72, para outra passagem desastrosa de 18 meses. Pós-Busby, o United foi três vezes oitavo lugar, uma vez 18º e acabou rebaixado. Quando? No mesmo 1974 em que Paisley começou o seu trabalho como técnico principal.
Mas o roteiro do Liverpool seguiu de forma diferente. A renovação da equipe que retornou à primeira divisão no começo da década de sessenta e foi duas vezes campeã inglesa já havia sido iniciada por Shankly, que encerrou sua passagem com o primeiro título europeu da história dos Reds, a Copa da Uefa de 1972/73. Os principais nomes do time que passou por Crusaders, da Irlanda do Norte, Trabzonspor, Saint-Ètienne e Zurique, rumo à final contra o Gladbach, foram estabelecidos na equipe pelo antecessor de Paisley: Ray Clemence, Tommy Smith, Emylin Hughes, Kevin Keegan, Steve Heighway e Ian Callaghan.
Paisley fez alguns acréscimos. Suas primeiras contratações foram o meia central Terry McDermott, o lateral direito Phil Neal e o meia-esquerda Ray Kennedy. Todos passariam dos 300 jogos pelo Liverpool e jogariam a decisão de Roma. Neal, inclusive, chegou a 650 partidas com a camisa vermelha e conquistou 18 títulos em sua passagem de 11 anos por Anfield. É o jogador mais condecorado da história do clube.
O sucesso europeu havia batido na porta do Liverpool algumas vezes, antes mesmo da conquista da Copa da Uefa de 1973. Duas campanhas destacam-se nesse período. O clube chegou às semifinais, em sua primeira participação na Copa dos Campeões, em 1964/65, depois de ganhar do Colônia, nas quartas de final, no cara ou coroa – era, definitivamente, outra época. Bateu a Internazionale de Helenio Herrera, por 3 a 0, em Anfield, antes de ser eliminado no San Siro. No ano seguinte, perdeu a decisão da Recopa Europeia para o Borussia Dortmund, na prorrogação.
O Liverpool encarou dois testes difíceis naquela campanha. O primeiro foi o Trabzonspor, que dominou o futebol turco naquela época, conquistando seus seis títulos nacionais entre 1975 e 1984. A derrota por 1 a 0 na Turquia foi confortavelmente revertida com um 3 a 0, em Anfield, construído nos primeiros 19 minutos da partida. Em seguida, veio o Saint-Étienne, que havia acabado de se sagrar tricampeão francês e era o atual vice-campeão europeu. Novamente, o jogo de ida, fora de casa, terminou 1 a 0 para os anfitriões. Na Inglaterra, o 2 a 1 para os Reds classificava os franceses até os 39 minutos do segundo tempo, quando David Fairclough marcou o gol da passagem às semifinais.
O Zurique foi presa fácil: 3 a 1 na Suíça e 3 a 0 na Inglaterra. O título europeu seria decidido contra o Borussia Monchengladbach, que perfilava um time histórico: ficou entre os três primeiros da Bundesliga em todas as edições entre 1967 e 1978, com cinco títulos e dois vices. Venceu a Copa da Uefa de 1975 e repetiria o feito, três anos depois. Tinha jogadores como Allan Simonsen e Jupp Heynckes. Era a reedição da decisão da Copa da Uefa de 1973.
Ray Kennedy exigiu a primeira defesa de Wolfgang Kneib com um chute de fora da área, completando passe de McDermott, pela direita. Rainer Bonhof respondeu para o Gladbach: recebeu no círculo central, avançou sem marcação e acertou o pé da trave, de fora da área. Aos 28 minutos do primeiro tempo, Heighway trouxe da direita para o meio e achou um lindo passe para McDermott, que bateu no canto para abrir o placar.
O Monchengladbach precisou de apenas sete minutos de segundo tempo para empatar. Precisou, também, de um passe errado do meia Jimmy Case, que deixou Simonsen dentro da área. O dinamarquês acertou um belo chute cruzado, no ângulo de Clemence. Na sequência, os alemães quase viraram o jogo em duas grandes chances: livre, Simonsen cabeceou para fora, mas pouco depois, achou um lindo passe da direita que atravessou o gramado para deixar Uli Stielike na cara do gol. Clemence saiu bem para abafar.
O momento era todo do Gladbach, mas o Liverpool prevaleceu no jogo aéreo. Heighway cobrou escanteio da esquerda, e Tommy Smith, próximo da aposentadoria e completando 15 anos de clube, apareceu para fazer 2 a 1, de cabeça. Aos 37 minutos da etapa final, Keegan recebeu na intermediária e avançou como um raio. O capitão Berti Vogts havia levado o primeiro drible, mas conseguiu se recuperar e dividia com o inglês. Na iminência do terceiro gol vermelho, recorreu ao carrinho e derrubou Keegan. O árbitro marcou pênalti, que Neal cobrou no canto.
Foi o bastante. O Liverpool saiu de Roma com a taça da Copa dos Campeões, que conquistaria mais três vezes nos sete anos seguintes, dando início a um período de hegemonia no futebol europeu e consolidando o que já vinha fazendo no âmbito doméstico. E tudo sob o comando do “gênio silencioso” Bob Paisley.



