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O grande triênio do Club Brugge de Ernst Happel, respeitado na Europa entre 1976 e 1978

Sob o comando do lendário técnico austríaco Ernst Happel, o Club Brugge venceu rivais de peso como Real Madrid, Milan e Juventus. Conheça a história daquele período histórico do clube belga

A ótima campanha na fase de grupos e a classificação às oitavas de final em um grupo difícil na edição atual da Liga dos Campeões recolocaram o Club Brugge em evidência na Europa, evocando o melhor momento dos belgas nas taças continentais, vivido no triênio 1976-77-78. Na ocasião, o time comandado pelo lendário técnico austríaco Ernst Happel deixou para trás rivais de peso como Real Madrid, Milan, Juventus, Atlético de Madrid, Roma e Hamburgo, chegando às decisões da Copa da Uefa em 1976 e da Copa dos Campeões em 1978, ambas perdidas para o Liverpool. Tudo isso somado a um inesquecível tricampeonato nacional.

O contexto histórico

O período compreendido pelas três primeiras décadas imediatamente posteriores à Segunda Guerra Mundial assistiu a uma redefinição de forças no futebol belga, em especial nas suas quatro principais cidades: Bruxelas, Liège, Bruges e Antuérpia. Clubes que, em alguns casos, não tinham nenhuma conquista prévia suplantaram velhos campeões e despontaram como novas potências nacionais. A adoção gradual do profissionalismo, a partir do início dos anos 1960, também ajudou a cristalizar o novo cenário, ainda que este tivesse suas particularidades.

A conclusão desse período de transição se daria com a ascensão do Club Brugge a força nacional, tomando de vez o status de maior clube local do Cercle Brugge no início dos anos 1970, quase na mesma época da adoção do profissionalismo integral. Embora tivesse sido o primeiro clube de futebol da cidade, fundado oito anos antes do rival, o Club Brugge tinha apenas um título, o do campeonato de 1920, até meados dos anos 1960, enquanto o Cercle já vencera três vezes a liga (em 1911, 1927 e 1930) e uma vez a copa (também em 1927).

Fundado em 1891 como Brugsche Football Club (embora sua origem remeta a outro clube de mesmo nome criado por estudantes no ano anterior), a agremiação mudou de nome e adotou a forma francesa Football Club Brugeois em 1897, assim que um grupo de dissidentes que saíra em 1892 decidiu retornar a ela. E logo em seguida à conquista do primeiro título, em 1920, passou a incluir o “Royal” antes do nome. Mas essa nova nomenclatura marcaria um sério declínio em sua força, culminando no primeiro rebaixamento em 1928.

O clube retornaria logo na temporada seguinte, mas cairia novamente em 1933, voltaria em 1935 e desceria de novo em 1941, em meio à Segunda Guerra. Dali em diante, passaria as décadas de 1940 e 1950 quase inteiras no limbo da segunda divisão, com acessos esporádicos. Só retornaria de vez à elite em 1959, após ser vice da categoria inferior, um ponto à frente do rival Cercle, que também se afundara no período. O grande nome da campanha foi o atacante Fernand Goyvaerts, revelado no clube e que sairia para o Barcelona em 1962.

Após passar algumas temporadas se estabilizando na primeira divisão, a partir de 1966/67 o clube cresceria em ambição e em resultados: seria vice-campeão da liga (sua melhor colocação desde o título de 1920) por nada menos que cinco vezes em seis anos antes de enfim voltar a levantar a taça em 1973. E obteve ainda seus primeiros títulos na Copa da Bélgica em 1968 (derrotando o Beerschot nos pênaltis) e 1970 (goleando o Daring por 6 a 1). Essa segunda conquista levaria o clube às quartas de final da Recopa, caindo para o campeão Chelsea.

O título da liga de 1973, o segundo em sua história, encerrava um jejum de 53 anos e veio com excelente campanha: sete pontos à frente do vice-campeão Standard Liège, com 17 vitórias e apenas duas derrotas em 30 jogos e o melhor ataque da competição, com 53 gols marcados. Era também o primeiro do clube sob sua nova nomenclatura oficial em neerlandês – Club Brugge Koninklijke Voetbalvereniging (o “Koninklijke” significa “real” e o “Voetbalvereniging”, associação de futebol) – adotada no ano anterior e que perdura até hoje.

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O mentor da revolução

Menos estável naquele momento era o comando técnico. Desde 1963, nenhum treinador havia conseguido permanecer por mais de duas temporadas à frente do time. O neerlandês Leo Canjels, responsável por levar o Club Brugge ao aguardado título da liga em 1973, por exemplo, saiu logo após a conquista fazendo críticas à diretoria e retornando aos Países Baixos para dirigir o pequeno MVV. Seu substituto, o também neerlandês Jaak de Wit, teria passagem ainda mais rápida: menos de uma temporada, sendo demitido em janeiro de 1974.

O novo técnico viria por indicação do meia neerlandês Henk Houwaart, que havia sido dirigido por ele no ADO Den Haag na década anterior: era o austríaco Ernst Happel, sem clube após ter sido demitido do Sevilla, então na segunda divisão espanhola, pouco antes do Natal de 1973. A experiência frustrante de quatro meses no clube da Andaluzia, que tentava se reerguer após o descenso sofrido no ano anterior, seria um raro insucesso na carreira do treinador que já detinha certo cartaz no futebol europeu desde seus tempos de jogador.

Defensor que atuou por quase duas décadas no Rapid Viena (com passagem pelo Racing Paris no meio) e integrou a forte seleção da Áustria terceira colocada na Copa do Mundo de 1954, Happel iniciara sua carreira de técnico nos Países Baixos em 1962, no ADO Den Haag, o qual levou seis anos depois ao título da copa nacional. Logo estaria no Feyenoord, implementando um estilo que, se por um lado era mais pragmático que o do rival Ajax de Rinus Michels, por outro deu frutos mais cedo no continente, ao levantar a Copa dos Campeões de 1970.

A conquista vinda com vitória sobre o Celtic em San Siro, após ter deixado pelo caminho o atual campeão Milan, era a primeira do futebol holandês nas copas europeias. E seria sucedida pelos títulos do Mundial Interclubes superando o Estudiantes no fim de 1970 e da liga neerlandesa em 1970/71. Sem o mesmo sucesso nas duas temporadas seguintes, porém, Happel decidiu deixar o clube e aceitou o desafio do Sevilla. Mas logo tomaria o rumo de outro clube no qual deixaria sua marca tanto no âmbito nacional quanto continental.

O treinador austríaco chegou ao Club Brugge em 21 de janeiro de 1974. Recebia uma equipe que, apesar de detentora do título belga, cumpria campanha bem decepcionante na nova temporada: ocupava apenas o décimo lugar entre 16 times e vinha de três derrotas seguidas, incluindo uma goleada de 4 a 0 sofrida em casa diante do Royal Antuérpia, com quem mantinha uma histórica rivalidade interregional. E nas últimas sete partidas, havia vencido só uma: 5 a 0 no vice-lanterna Beringen. Em resumo, um time que precisava de uma chacoalhada.

Ernst Happel orienta um treino no Club Brugge

A recuperação seria significativa: antes da chegada de Ernst Happel, o Club Brugge havia somado 14 pontos em 32 possíveis, com cinco vitórias e 25 gols marcados em 18 jogos. Com ele, a equipe conquistou 18 pontos em 28 possíveis, com oito vitórias e 36 gols marcados em 14 jogos, pulando para a quinta posição ao final da campanha. Não seria suficiente para uma vaga europeia, mas indicava o acerto de sua contratação e lhe dava o respaldo necessário para levar a cabo uma ampla reformulação no elenco, além de outras medidas.

Antes do começo da temporada 1974/75, vários medalhões com passagem pela seleção seriam negociados: o líbero Erwin Van Den Daele (Anderlecht), o atacante Johan Devrindt (Lokeren), o goleiro Luc Sanders e o meia-atacante Pierre Carteus (ambos com o Oostende), além do também atacante neerlandês Ruud Geels (Ajax). Por outro lado, chegavam ao clube o goleiro dinamarquês Birger Jensen (B1903), o lateral-esquerdo Jos Volders (Anderlecht), o volante René Vandereycken (Hasselt) e o atacante Roger Van Gool (Royal Antuérpia).

Juntamente com essa reformulação do elenco, o treinador implementou outras duas medidas fundamentais para estimular a competitividade da equipe: um rigoroso trabalho de preparação física feito desde a pré-temporada e um novo sistema de pagamentos, no qual os baixos salários eram compensados por uma gorda premiação por vitória, incentivando o empenho dos atletas. E o passo decisivo para o início do triênio histórico viria com o quarto lugar na liga em 1974/75, que valeu a classificação à Copa da Uefa da temporada seguinte.

“Os caras tinham medo dele (Happel). Era um verdadeiro líder: extraía 200% do grupo, tornava cada jogador melhor, e nós jogávamos pelo time. Ele era muito duro na pré-temporada, nos matava (nos treinos). Essa era a base da nossa boa condição física: boa mentalidade e trabalho duro. E então tínhamos dois ou três jogadores capazes de fazer a diferença”, relembrou Georges Leekens, zagueiro central daquela equipe e que mais tarde, nos anos 1990, chegaria a comandar a seleção da Bélgica na Copa do Mundo de 1998, na França.

Outras novidades seriam apresentadas para 1975/76: as chegadas do líbero austríaco Edi Krieger, do Austria Viena e da seleção de seu país, e do jovem meia Daniël De Cubber, pinçado no pequeno Namur, da terceira divisão; além da mudança de casa, deixando o velho estádio De Klokke para passar a mandar seus jogos (assim como fez o rival Cercle Brugge) no novíssimo Olympiastadion, cuja construção pela prefeitura de Bruges havia se iniciado em 1973, com a conclusão das obras e a inauguração acontecendo ao início da nova temporada.

Apesar de ter perdido a primeira partida disputada pela liga na nova casa (2 a 1 diante do RWD Molenbeek, atual campeão), o Club Brugge logo faria do Olympiastadion seu fortim, tornando-se praticamente imbatível no estádio naqueles primeiros anos. Nele, sob o comando de Happel, seriam 12 vitórias, um empate e apenas uma derrota em 14 partidas por copas europeias. Já pela liga, os Blauw-Zwart manteriam uma incrível série invicta de 55 jogos (47 vitórias e oito empates) atuando como mandante entre janeiro de 1976 e abril de 1979.

A equipe

O time-base para o novo palco dos Blauw-Zwart começava com o goleiro dinamarquês Birger Jensen, trazido do B1903 (naquele momento, o futebol belga havia se tornado porto de atração de destaques do país escandinavo, onde o esporte ainda era amador). Carismático, excêntrico (chegou, em certa altura, a se aventurar como cobrador de pênaltis), mas sobretudo de reflexos brilhantes sob as traves, permaneceu por 14 anos como titular da equipe, sendo apontado por muitos como o melhor da posição na história do Club Brugge.

O quarteto da defesa começava por Alfons “Fons” Bastijns, antigo ponta convertido em lateral-direito vindo do Racing White em 1967 juntamente com técnico romeno Norberto Höfling. Era um dos únicos do elenco de meados dos anos 1970 (junto com Raoul Lambert) a estar no clube desde a década anterior e não só sobreviveu à reformulação feita por Ernst Happel como tornou-se capitão do time com a chegada do técnico austríaco. Ao todo, permaneceria 14 anos no clube, até 1981, tornando-se um nome histórico dos Blauw-Zwart.

No centro da defesa havia o austríaco Edward “Edi” Krieger no posto de líbero e Georges Leekens como o “stopper”. O primeiro, meia de origem recuado à função de homem da sobra a organizar a saída da defesa, fora um dos últimos a chegar antes da conquista do tri nacional, trazido do Austria Viena. Já o segundo, apelidado “Mack The Knife” em alusão à precisão de seus desarmes, viera do Crossing Scharbeek em 1972 para se tornar, a exemplo de Bastijns, um dos pilares dos Blauw-Zwart no setor ao longo daquela década, até sair em 1981.

O lateral-esquerdo Jos Volders completava o setor. Profissionalizado no Anderlecht, chegou logo após conquistar pelos Mauves o título belga de 1974, seu terceiro na carreira (numa verdadeira dança das cadeiras, seu antigo clube contratou Jean Thissen, do Standard Liège, para seu lugar). Versátil, bom apoiador, Volders permaneceria no Club Brugge até 1982. Os quatro defensores formavam uma retaguarda muito competitiva, contando com laterais e líbero de perfis ofensivos, escudados pela força e combatividade de Leekens na zaga.

O Club Brugge no álbum do campeonato belga 1977-78

Também fortemente competitivo era o meio-campo, em especial o volante René Vandereycken. Jogador de grande senso tático e vigoroso no combate, também tinha bom passe e vocação goleadora, chegando com frequência na área adversária. Era mais um nome pinçado por Ernst Happel de clube pequeno (o Hasselt, da terceira divisão), sendo um dos mais jovens do elenco. Teria grande futuro, tornando-se nome frequente na seleção belga por mais de dez anos e saindo do Club Brugge para atuar na Serie A italiana pelo Genoa em 1981.

Meia-armador experiente, dinâmico e de fôlego inesgotável (era apelidado “Maratonista”), Julien Cools era outro nome que compunha o setor. Vindo do Beringen, clube que o revelou, em 1973, aparecia em todos os espaços do meio-campo, sempre se apresentando para receber o passe e conduzir o time à frente. A chegada ao Club Brugge também o tornou nome regular na seleção até o fim da década: seria o capitão dos Diabos Vermelhos vice-campeões da Eurocopa em 1980. Na ocasião, porém, já havia trocado os Blauw-Zwart pelo Beerschot.

Completava a trinca do meio-campo outro jovem, o recém-contratado Daniël De Cubber, que tinha apenas 21 anos (um a mais que Vandereycken) ao aportar no Olympiastadion para aquela temporada. Meia-armador de bom passe e movimentação, curiosamente também costumava ser escalado como líbero, devido a seu porte físico e sua altura de 1,88 metro (a mesma de Leekens). Era mais um indicativo da versatilidade do trio de meio-campo, aguerrido sem a bola e igualmente capaz de apoiar e chegar à frente assim que a recuperava.

O lendário Raoul Lambert, maior goleador da história do CLub Brugge

O trio de frente contava com dois jogadores versáteis pelos flancos. Um era Roger Van Gool, pelo lado direito. Revelado pelo Royal Antuérpia, chegara ao Blauw-Zwart em 1974, mas acabaria permanecendo apenas por duas temporadas antes de ser vendido ao Colônia pelo valor recorde da Bundesliga de um milhão de marcos. Nos dois anos em que esteve em Bruges, somou 23 gols pela liga, mas curiosamente não chegou a balançar as redes na campanha europeia de 1975/76, embora contribuísse com assistências e abrindo espaços.

O outro era o dinamarquês Ulrik Le Fevre, o segundo mais veterano do time titular. Revelado pelo Vejle, seguiu para o Borussia Mönchengladbach em 1969 sendo bicampeão da Bundesliga antes de chegar ao Club Brugge em 1972. Poderia atuar como um ponta-esquerda autêntico ou então fechando o meio-campo por aquele lado, transformando o desenho tático de 4-3-3 para 4-4-2. Habilidoso e de chute forte, era um dos principais nomes do futebol da Dinamarca num tempo em que os atletas tinham de sair do país para se profissionalizarem.

Por fim, o time-base se completava com aquele que seria eleito mais tarde o maior jogador da história do clube: o centroavante Raoul Lambert, que só defendeu os Blauw-Zwart por toda a carreira, desde a estreia no time de cima em 1962 até a aposentadoria em 1980, atravessando gerações e acompanhando um momento de marcante evolução no futebol do país. Jogador mais veterano daquele elenco, era o único a ter experiência de Copa do Mundo, tendo sido titular dos Diabos Vermelhos no Mundial do México, em 1970.

O início do triênio de ouro

A temporada 1975/76 seria a segunda em que a camisa do Club Brugge ostentaria o patrocínio icônico e imenso (regra no futebol belga da época) do fabricante de jeans 49R, marcante daquele período e exibido até 1979. E depois do ano e meio de transição necessário para burilar o novo esquadrão, a máquina agora estava azeitada, pronta para grandes campanhas e conquistas. Teria início ali um tricampeonato nacional com o qual sua torcida nunca sonhara, firmando os Blauw-Zwart como potências do país junto a Anderlecht e Standard.

Após supremacia inicial do Lokeren, o Club Brugge correu por fora e assumiu a liderança isolada do campeonato na 13ª rodada. Na metade do segundo turno, o time pisou fundo no acelerador e disparou na frente, chegando a abrir seis pontos de frente para os perseguidores no começo de abril ao golear o KV Mechelen por 5 a 1. Em 18 de abril, o título antecipado seria confirmado com um 0 a 0 em casa diante do vice-líder Lokeren no mesmo dia em que o Anderlecht também via morrer suas chances com outro 0 a 0 contra o RFC Liège fora de casa.

Os números evidenciavam a solidez daquela campanha vitoriosa. O Club Brugge foi a equipe que mais venceu, que menos perdeu e teve ainda o melhor ataque: em 36 jogos, foram 22 vitórias (único a superar as duas dezenas de triunfos), oito empates e seis derrotas, com expressivos 81 gols marcados (16 a mais que o Anderlecht, vice-campeão e segundo colocado também nesse quesito). E como se não bastasse, o clube chamaria a atenção nas competições continentais pela primeira vez com uma bela caminhada até a final da Copa da Uefa.

A trajetória não teria nenhum adversário fácil. Logo de cara, caberia ao Club Brugge enfrentar o Lyon, do zagueiro Raymond Domenech e do atacante uruguaio Ildo Maneiro. Na ida, fora de casa, um jogo alucinante terminou com revés por 4 a 3: o Brugge marcou duas vezes em 10 minutos, sofreu a virada no segundo tempo, foi buscar o empate a nove minutos no fim, mas na última volta do ponteiro sofreu o quarto gol. Mas na volta o alçapão do Olympiastadion entrou em ação: um 3 a 0 categórico assegurou a passagem à segunda fase.

O próximo adversário seria o Ipswich, do técnico Bobby Robson, que contava com três jogadores de seleção inglesa: o lateral Mick Mills, o zagueiro Kevin Beattie e o atacante David Johnson. O clube de Suffolk (que, no início da década seguinte, levantaria ele próprio a Copa da Uefa) impôs um contundente 3 a 0 no jogo de ida. Mas o Brugge precisaria só do primeiro tempo da volta para devolver o placar com Raoul Lambert, Daniël De Cubber e Ulrik Le Fevre. E aos 44 da etapa final, René Vandereycken anotaria o gol da classificação por 4 a 0.

O goleiro Birger Jensen no jogo contra a Roma em 1975-76

Nas oitavas e quartas de final, os oponentes seriam clubes italianos. Primeiro a Roma, treinada pelo sueco Nils Liedholm e contando com o zagueiro Francesco Rocca, o meia Giancarlo De Sisti e o atacante Pierino Prati, todos com passagem pela Nazionale. O Club Brugge, no entanto, não se intimidou, impondo-se em ambas as partidas por 1 a 0: Julien Cools apanhou bola mal afastada pela defesa para marcar o gol da vitória no Olympiastadion na ida e Raoul Lambert silenciou os torcedores romanistas dentro da capital italiana na volta.

Em seguida seria a vez de enfrentar o Milan treinado por Giovanni Trapattoni (e sobre a direção técnica do veterano Nereo Rocco), tendo Gianni Rivera ainda como camisa 10, além de outros grandes nomes como o goleiro Enrico Albertosi e o meia Romeo Benetti. E novamente os belgas abririam a série em casa, do que se aproveitaram para construir boa vantagem para a partida de volta. Le Fevre abriu o placar logo aos cinco minutos após um corta-luz feito por Lambert. E aos 17 da etapa final, um chutaço de longe de Edi Krieger selou os 2 a 0.

Em San Siro, no dia 17 de março de 1976, o Milan chegou a acreditar numa reviravolta quando igualou o placar agregado ao marcar com Alberto Bigon no primeiro tempo e Luciano Chiarugi no segundo. Mas seis minutos depois, um gol do reserva Dirk Hinderyckx (que entrara no intervalo no lugar de Le Fevre) frustrou a qualquer plano de reação e calou a torcida milanista. Mesmo com a derrota por 2 a 1, o Club Brugge ultrapassava pela primeira vez as quartas de final de uma copa continental. Já havia feito história. Mas ainda faria mais.

Na semifinal, caberia aos belgas enfrentarem o Hamburgo, que naquela temporada terminaria a Bundesliga como vice-campeão (sua melhor colocação na liga desde sua criação até ali) e venceria a copa nacional (o que o levaria a conquistar a Recopa europeia no ano seguinte). No confronto da ida, no Volksparkstadion, o Brugge saiu na frente com Lambert no início da etapa final, mas os donos da casa empataram em 1 a 1 com Willi Reimann. Na volta, um gol contra do lateral Manfred Kaltz deu aos belgas a vitória por 1 a 0 e a vaga na final.

Club Brugge na final da Copa da Uefa 1976 – foto World Soccer

A decisão seria contra o Liverpool, que já conquistara o torneio três anos antes sob o comando de Bill Shankly e agora, dirigido por Bob Paisley, tentaria seu segundo título após deixar para trás Hibernian, Real Sociedad, Śląsk Wrocław, Dynamo Dresden e Barcelona. O time titular mantinha sete nomes da primeira conquista: o goleiro Ray Clemence, os defensores Tommy Smith e Emlyn Hughes, o meia Ian Callaghan, o ponta Steve Heighway e a dupla de frente com Kevin Keegan e John Toshack. E, como o Brugge, os Reds venceriam o título nacional.

Apesar de todo o cartaz do adversário, os belgas começariam assustando no primeiro jogo, em Anfield: logo aos cinco minutos, Lambert aproveitou uma bola mal recuada pelo lateral Phil Neal para encobrir Ray Clemence e abrir o placar. Dez minutos depois, as arquibancadas ficariam ainda mais perplexas quando, após uma bonita jogada trabalhada, Julien Cools acertou um chutaço da entrada da área e ampliou, silenciando o estádio. O Club Brugge saía para o intervalo não só em ótima vantagem, como também com dois gols na casa do adversário.

A vantagem, no entanto, seria reduzida a pó em cerca de cinco minutos na etapa final: aos 14, os Reds diminuíram num chute de longe do meia Ray Kennedy. Aos 16, Keegan fez grande jogada pela esquerda e passou para Kennedy. A bola acertou o pé da trave e sobrou para Jimmy Case empatar. E aos 20, a virada chegaria em pênalti marcado num lance controverso e cobrado por Keegan. Apesar da derrota por 3 a 2, os belgas precisariam de vitória simples por 1 a 0 ou 2 a 1 em casa para levar o caneco, enquanto aos Reds bastaria o empate.

No Olympiastadion, em 19 de maio de 1976, o Club Brugge parecia ter conseguido o resultado de que precisava logo aos 11 minutos, quando o árbitro alemão-oriental Rudi Glöckner (o mesmo da final da Copa do Mundo de 1970) marcou pênalti num toque de mão de Tommy Smith. Raoul Lambert converteu com um chute forte e abriu a contagem. Mas quatro minutos depois, Os Reds tiveram uma falta frontal em dois lances no limite da grande área belga. Emlyn Hughes rolou para Keegan, que acertou o canto de Birger Jensen, decretando o 1 a 1.

Ainda assim, os belgas passariam os 75 minutos restantes precisando de apenas um gol para levar a taça. Tiveram chances claras, como a boa combinação de Le Fevre e Van Gool que terminou num chute de Lambert na trave. No fim, Ray Clemence ainda impediu outra chance clara ao salvar um chute de Julien Cools. Os Blauw-Zwart, que haviam vencido todos os seus jogos em casa até ali na campanha, amargariam um empate no jogo mais importante. Seria o único resultado desse tipo da equipe no Olympiastadion em copas europeias naquele período.

A dobradinha nacional

Para a temporada seguinte, o elenco sofreu apenas uma baixa importante, a de Roger Van Gool vendido ao Colônia. Porém, ciente de que era possível brigar por taças tanto em casa quanto no continente, Ernst Happel ganhou reforços que encorparam o elenco, como o goleiro holandês Leen Barth – que, após passar cinco anos na reserva do Anderlecht, seguiu ao Union St.-Gilloise na segunda divisão antes de chegar para disputar posição com Birger Jensen – e o atacante Bernard Verheecke, jovem de 19 anos pinçado do rival Cercle Brugge.

Mas as novidades mais significativas foram dois novos nomes que rapidamente conquistaram a titularidade: o meia Paul Courant, destaque do RFC Liége na temporada anterior, desbancou Daniël De Cubber no setor e se tornou indispensável na escalação. E o atacante inglês Roger Davies, grandalhão e goleador implacável, campeão de seu país com Derby County em 1975, se tornou o substituto de Van Gool, formando poderosa dupla de área com Raoul Lambert, ainda que este começasse a sofrer com lesões mais frequentemente.

O caldeirão do Olympiastadion também seria de fundamental importância na campanha do bicampeonato nacional, quando de novo o Club Brugge superou o Anderlecht por quatro pontos (os mesmos 52 a 48 da temporada anterior, aliás) e com dois jogos por fazer. O desempenho dos Blauw-Zwart na nova casa foi quase perfeito: 16 vitórias e um único empate (0 a 0 com o Royal Antuérpia) em 17 jogos. A confirmação do título seria em 8 de maio, após a vitória de 3 a 0 sobre o Beringen, com uma incrível tripleta do volante René Vandereycken.

Na mesma temporada, o clube completaria ainda a primeira dobradinha nacional de sua história ao vencer a Copa da Bélgica. Depois de atropelar os pequenos Stade Brainois (5 a 0) e Eendracht Gerhees Oostham (10 a 1), das divisões inferiores, a equipe superou três adversários da elite – o Lokeren (1 a 0), o Winterslag (3 a 1) e o Waregem (4 a 2) – antes de protagonizar uma final épica contra o rival Anderlecht em Heysel: perdendo por 3 a 1 com menos de meia hora de jogo, o time reagiu e virou para 4 a 3 com dois gols de Roger Davies.

Já na Europa, esta temporada foi a única das três em que o clube não alcançou uma final. Mesmo assim fez seus estragos: jogando a Copa dos Campeões, teve como adversário na primeira fase o Steaua Bucareste dirigido por Emerich Jenei e que contava com o meia Ion Dumitru e o atacante Anghel Iordanescu, nomes de relevo do futebol do país. No Olympiastadion, o Club Brugge saiu na frente com Roger Davies cobrando pênalti, sofreu o empate com Radu Troi, mas venceu por 2 a 1 com gol de Bernard Verheecke a nove minutos do fim.

Os capitães Velázquez e Bastijns – Club Brugge x Real Madrid – 1976-77

Já em Bucareste, o clube esteve perto da eliminação pelos gols fora de casa depois que Iosif Vigu abriu o placar no primeiro tempo. Até que Raoul Lambert veio ao resgate a 20 minutos do fim, empatando em 1 a 1 e classificando os belgas. Pela frente, um desafio ainda maior aguardava os Blauw-Zwart: um Real Madrid repleto de nomes históricos dos merengues, como José Antonio Camacho, José Martínez “Pirri”, Carlos Alonso “Santillana” e Vicente Del Bosque (que só entrou no intervalo do jogo de volta), além do alemão Paul Breitner.

O Real Madrid, porém, teria de jogar longe do Santiago Bernabéu devido a uma punição de dois jogos imposta pela Uefa após os distúrbios provocados por torcedores quando da eliminação dos merengues para o Bayern de Munique na edição anterior do torneio. A partida acabou transferida para o estádio de La Rosaleda, em Málaga, onde o Club Brugge conseguiu segurar um excelente empate em 0 a 0. Na volta, no Olympiastadion, os belgas venceram por 2 a 0 (gols de Le Fevre e de Rubiñán, contra), derrubando mais um gigante do continente.

A queda, porém, chegaria de maneira amarga nas quartas diante do Borussia Mönchengladbach, que seria um dos finalistas daquela edição. Dirigido por Udo Lattek, o forte time dos Potros reunia nomes da seleção da Alemanha Ocidental como Berti Vogts, Uli Stielike, Rainer Bonhof e Jupp Heynckes, além do dinamarquês Allan Simonsen, que ganharia a Bola de Ouro da revista France Football como o melhor jogador da Europa naquele ano. O primeiro jogo seria no Rheinstadion, em Düsseldorf, onde o Borussia costumava jogar partidas europeias.

Para o Club Brugge, os primeiros 40 minutos foram de sonho: aos 23, um chutão de Birger Jensen se transformou em rápida troca de passes finalizada por um toque esperto de Julien Cools na saída do goleiro Wolfgang Kneib, abrindo o placar para os belgas. E aos 39, em outro contragolpe mortal, Paul Courant recebeu de Jos Volders, tirou Berti Vogts e Kneib com um mesmo drible e, com classe, tocou para o gol vazio e ampliou a vantagem diante de 65 mil torcedores alemães-ocidentais. O clube já vislumbrava as semifinais do torneio no horizonte.

Ainda antes do intervalo, porém, o Borussia descontou com Christian Kulik em outro belo gol e voltou ao jogo. Acabaria empatando na etapa final com Allan Simonsen, depois de Birger Jensen não conseguiu segurar uma cabeçada. Ainda assim, o Brugge precisava apenas de um empate em casa por 0 a 0 ou 1 a 1 para avançar. E na volta, mantinha o placar em branco até os 40 minutos da etapa final, quando, em falha da defesa, Wilfried Hannes apareceu para encobrir Birger Jensen com um toque de cabeça e dar a vitória aos Potros por 1 a 0.

Somando os 180 minutos, o Club Brugge desperdiçara uma vantagem de dois gols construída fora de casa, como havia feito diante do Liverpool em Anfield no ano anterior. E permitia ao Borussia passar à frente no placar agregado pela primeira vez a apenas cinco minutos do fim do confronto. Aquela seria também a única derrota por competições europeias no Olympiastadion durante todo o período de Ernst Happel à frente da equipe. O bi da liga e a dobradinha nacional, ambos feitos inéditos para o clube, compensariam a decepção.

A um passo do topo na Europa

Aquela temporada 1976/77 seria a última de Ulrik Le Fevre no clube, já que, aos 31 anos, o meia-atacante decidiu voltar à Dinamarca e ao Vejle para encerrar a carreira. Seu substituto seria outro dinamarquês, Jan Sørensen, que explodiu feito um cometa no Frem, de Copenhague, e na seleção de seu país no primeiro semestre de 1977. Outro reforço para o ataque foi o goleador Jan Simoen, que, mesmo defendendo o lanterna e rebaixado Oostende, havia terminado como vice-artilheiro da liga em 1976/77, com expressivos 20 gols marcados em 33 jogos.

Além disso, a ascensão do polivalente Gino Maes como opção para a lateral-esquerda e a zaga permitiu a saída de Norbert De Naeghel, habitual suplente da defesa revelado pelo clube no fim dos anos 1960, que migrou para o Gent. Outro reserva muito utilizado que acabou deixando o clube foi Dirk Hinderyckx, atacante que marcou gols importantes antes de sair para o Lokeren. A principal baixa no setor ofensivo, porém, viria no meio da temporada: o inglês Roger Davies, que retornou ao seu país em dezembro de 1977 para defender o Leicester.

O tri da liga veio com o Club Brugge liderando quase de ponta a ponta – o que não quer dizer que tenha sido sem contratempos. Já na quinta rodada, o time foi goleado pelo Anderlecht por 6 a 1. E na reta final, após estar cinco pontos à frente do então vice-líder Standard Liége na 28ª rodada, viu a diferença cair de modo a inviabilizar o título antecipado. Um gol de Simoen nos acréscimos contra o La Louvière (2 a 1) em 23 de abril permitiu aos Blauw-Zwart jogarem pelo empate contra o Lokeren fora de casa uma semana depois. E a conquista veio com o 1 a 1.

O elenco do Club Brugge para a temporada 1977-78

A campanha mostrou um Brugge menos equilibrado que em anos anteriores: embora terminasse com o melhor ataque do campeonato (73 gols), o time levou assustadores 48, mais do que outros nove clubes da primeira divisão e simplesmente o dobro do vice-campeão Anderlecht. Era reflexo de uma temporada de recorrentes baixas por lesão: nas últimas rodadas, por exemplo, a equipe não contaria com seu xerife da zaga (Georges Leekens), seu jogador mais criativo do meio-campo (Paul Courant) e sua referência no ataque (Raoul Lambert).

As lesões também impactariam na escalação do time para a final da Copa dos Campeões, o que veremos mais adiante. Mas até chegar lá, o clube fez campanha brilhante, outra vez derrubando camisas pesadas. De saída, não foi preciso muito esforço para despachar o KuPS, da Finlândia, com vitórias por 4 a 0 em Kuopio e 5 a 2 no Olympiastadion. Nas oitavas de final, o adversário foi o Panathinaikos, batido na Bélgica por 2 a 0 (gols de Roger Davies, de pênalti, e Sørensen – um em cada tempo) e vencedor na Grécia por um insuficiente 1 a 0.

O primeiro duelo memorável daquela campanha viria nas quartas de final, diante do Atlético de Madrid dos brasileiros Luís Pereira e Leivinha, dos argentinos Rubén Ayala e Rubén Cano (este, naturalizado espanhol) e do técnico Luís Aragonés. No Olympiastadion, mais uma vez o caldeirão fez a diferença. Embora o Atleti levasse perigo em contragolpes, o Brugge atacou mais e marcou no fim da etapa inicial quando o meia Miguel Ángel Ruiz perdeu a bola para Courant, que avançou, passou por Luís Pereira e bateu para vencer o goleiro Miguel Reina.

No segundo tempo, aos 11 minutos, De Cubber arriscou um chute forte da intermediária, e a bola desviou num companheiro e enganou Reina, tomando o rumo das redes. Oito minutos depois, foi a vez do outro goleiro brilhar: o árbitro marcou pênalti de Leekens no atacante Francisco Aguilar, mas Birger Jensen espalmou a cobrança do meia Marcial. Antes do fim, ainda houve uma outra defesaça do dinamarquês, bloqueando um chute cara a cara de Rubén Cano e segurando a vitória dos belgas por 2 a 0, um ótimo resultado para o jogo de volta.

Na volta, em Manzanares (o antigo nome do Vicente Calderón), os rojiblancos chegaram a sonhar com a vaga ao abrirem 2 a 0 no primeiro tempo, com gols de Domingo Benegas e Marcial. Mas na etapa final, aos 16, Julien Cools descontou com um belo chute após falta cobrada para a área, fazendo o Atleti precisar de dois gols. Os locais marcariam mais uma vez com Marcial, um minuto depois. Mas aos 24, uma grande jogada de Verheecke terminou com a conclusão de Lambert, fechando o placar em 3 a 2, o bastante para levar o Brugge às semifinais.

Uma parada duríssima era o que aguardava os belgas na etapa seguinte: ninguém menos que a Juventus, detentora da Copa da Uefa e que viria a se sagrar bicampeã italiana naquela temporada, além de formar a base da Azzurra que ficaria em quarto lugar na Copa do Mundo de 1978, dali a cerca de três meses (seriam nove convocados). E no Comunale de Turim, no jogo de ida, a Vecchia Signora venceria por 1 a 0 com gol de Roberto Bettega a quatro minutos do fim, depois de o Club Brugge suportar intensa pressão ao longo de toda a partida.

Os belgas, porém, largariam com tudo no jogo de volta, marcando com apenas três minutos: um lançamento longo, invertendo a jogada da esquerda para a direita, contou com a indecisão de Gaetano Scirea para o capitão Fons Bastijns entrar e tocar para as redes. Aquele seria o único gol do tempo normal. Na prorrogação, o Brugge (com um a mais após Claudio Gentile levar o segundo amarelo) confirmaria a classificação a quatro minutos do fim, quando Sørensen escapou pela esquerda e cruzou para Vandereycken fuzilar Dino Zoff e fazer 2 a 0.

Foi um feito histórico: o Club Brugge se tornava a primeira – e até hoje a única – equipe belga a alcançar a final da principal competição de clubes do continente. Não houve, porém, muito tempo para comemorar: o elenco enfrentava uma crise de lesões, o que forçou o clube a contratar numa emergência o meia-atacante (e desertor) húngaro Lajos Kű, ex-Ferencvaros. E o oponente na final seria mais uma vez o Liverpool – e desta vez com um agravante: a partida única seria na Inglaterra, no campo “neutro” de Wembley, em 10 de maio de 1978.

Georges Leekens se recuperou a tempo de jogar a final, mas Paul Courant e Raoul Lambert não. As ausências muito sentidas no setor ofensivo levariam Ernst Happel a adotar um sistema de jogo mais defensivo, visando levar a final para os pênaltis ou tentar surpreender quando aparecesse uma chance. Para isso, o time ostensivamente lançaria mão de uma prática comum das equipes belgas da época: a linha de impedimento. Com defesa adiantada e meio-campo compacto, o Club Brugge buscaria congestionar o jogo entre as intermediárias.

No primeiro tempo, embora o Liverpool tenha conseguido criar algumas chances, a estratégia de certa forma funcionou. No segundo, porém, os Reds conseguiram furá-la. Birger Jensen já havia feito uma excelente defesa cara a cara com Terry McDermott aos três minutos. Mas aos 15, não pôde fazer nada quando um bom passe de Graeme Souness encontrou Kenny Dalglish na área, e o camisa 7 escocês deu apenas um leve toque por baixo da bola quando ele saía do gol. Aquele seria o lance decisivo da partida, vencida pelos britânicos por 1 a 0.

O Club Brugge ainda teria uma grande chance aos 34, numa bola de Simoen que o zagueiro Phil Thompson salvou em cima da linha. Mas foi uma das raras ocasiões de gol dos belgas, que, diante de suas limitações, pouco puderam fazer além de se orgulhar de terem dificultado a tarefa de um Liverpool favorito por larga margem. Aquela final, em que o clube chegou perto de se colocar no topo do futebol europeu, marcaria o desfecho daquele triênio brilhante sob o comando de Ernst Happel, com três títulos da liga, um da copa e duas finais continentais.

Happel, aliás, já fazia jornada dupla naquela altura: desde meados de 1977 conciliava o trabalho no clube com o comando da seleção dos Países Baixos – que, ironicamente, eliminaria a Bélgica (com alguns de seus jogadores do Club Brugge) no Grupo 4 das Eliminatórias da Copa do Mundo de 1978. Os neerlandeses chegariam a enfrentar os Blauw-Zwart num curioso amistoso pouco antes do Mundial argentino. E, como na Copa dos Campeões, o treinador sairia com o segundo lugar após perder a final para a equipe local – no caso, a Argentina.

Os outros momentos de destaque

Embora marcada pela chegada do atacante Jan Ceulemans, contratado do Lierse e que viria a se tornar um dos jogadores mais simbólicos da história do clube, a temporada 1978/79 seria um anticlímax. O mau começo na liga aliado à queda precoce na Copa dos Campeões diante do Wisla Cracóvia (quando o Brugge venceu em casa por 2 a 1, mas perdeu na Polônia por 3 a 1 sofrendo dois gols nos oito minutos finais) levou à saída de Ernst Happel do comando ainda em novembro de 1978. O clube terminaria apenas em sexto no campeonato.

Tempos depois, o Club Brugge ainda incluiria outras duas grandes campanhas europeias em seu currículo, em ambas alcançando as semifinais e evidenciando a força do Olympiastadion em seus jogos como mandante. A primeira delas aconteceu na Copa da Uefa de 1987/88, na qual os belgas superaram Zenit, Estrela Vermelha, Borussia Dortmund e Panathinaikos, antes de caírem para o Espanyol tendo vencido o jogo de ida em casa. Os destaques foram as reviravoltas com goleadas de 5 a 0 sobre Zenit e Dortmund e 4 a 0 sobre o Estrela Vermelha.

Era uma geração dos Blauw-Zwart que reunia nomes como o já citado Jan Ceulemans, o zagueiro Hugo Broos, os meias Franky e Leo Van Der Elst (que não tinham parentesco) e os atacantes Marc Degryse, o dinamarquês Kenneth Brylle (artilheiro daquela edição da Copa da Uefa) e o israelense Ronny Rosenthal. Naquele elenco, também figurava um remanescente dos melhores momentos do Club Brugge na Europa: o goleiro Birger Jensen, que já contava então com 36 para 37 anos e estava prestes a encerrar seu vínculo de 14 anos com a agremiação.

Já na Recopa de 1991/92, um Ceulemans perto da aposentadoria e o também já veterano Franky Van Der Elst ainda estavam no clube, e a eles se juntavam nomes emblemáticos como o versátil Lorenzo Staelens e o atacante nigeriano Daniel Amokachi. Daquela vez, o clube superou o Omonia Nicosia, o GKS Katowice e, pelos gols fora de casa, o Atlético de Madrid do alemão Bernd Schuster, do português Paulo Futre e do brasileiro Donato, antes de cair na semifinal para o futuro campeão Werder Bremen – mas vencendo todos os jogos em casa na campanha.

Foto de Emmanuel do Valle

Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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