Champions League

O Estrela Vermelha festejou a classificação à Champions num tanque de guerra e aflorou velhos ranços dos Bálcãs

Parte da Delije, inclusive, compôs um grupo paramilitar que combateu pelos sérvios e foi responsável por crimes de guerra.

Já se passaram quase três décadas desde aquele jogo, mas a história permanece viva no Estrela Vermelha. As raízes nacionalistas do clube são mais antigas que sua própria data de fundação oficial e a relação com as forças policiais permaneceu ao longo dos tempos. Algo que veio à tona outra vez nesta terça-feira, durante a comemoração dos alvirrubros pela classificação à Liga dos Campeões. O time permaneceu 26 anos longe das etapas principais da competição continental, mas conseguiu emendar a segunda presença consecutiva na fase de grupos. Os jogadores festejaram em desfile aberto pelas ruas de Belgrado. Mas não em um veículo qualquer, e sim um tanque de guerra.

A cena tem um contexto. Antes da partida decisiva contra o Young Boys nesta terça, que terminou com o suficiente empate por 1 a 1, um tanque utilizado na Guerra da Iugoslávia foi colocado do lado de fora do Estádio Marakana. O veículo, ornado com bandeiras e as cores do Estrela Vermelha, tinha sido levado ao local por torcedores ainda na véspera e logo se transformou em atração àqueles que passavam por ali. Porém, a exibição da peça também gerou discussões e manifestações contrárias por parte dos croatas, incomodados com a exaltação da memória sangrenta.

E a própria presença do velho tanque soava como uma resposta. Na semana passada, enquanto o Estrela Vermelha fazia o primeiro jogo contra o Young Boys na Suíça, um bar sérvio que reunia torcedores na Croácia foi atacado por cinco homens mascarados. Os agressores insultaram o dono do estabelecimento e agrediram os clientes com pedaços de pau. Cinco pessoas ficaram feridas, inclusive um menor. Oito pessoas acabaram presas e, nesta quarta-feira, cinco foram indiciadas por “comportamento violento motivado pelo ódio”. Os acusados, que pertencem a uma torcida da cidade de Split, podem pegar até cinco anos de prisão.

Em uma página extraoficial de notícias do Estrela Vermelha, torcedores citam o apelido de “máquina” como a razão para o tanque ter sido levado ao Marakana. Não colou muito. O próprio Dinamo Zagreb respondeu e postou a foto de um trator do lado de fora do Estádio Maksimir. O símbolo está ligado à fuga de mais de 200 mil sérvios do território croata ao final da Guerra da Iugoslávia, muitos deles agricultores dirigindo seus tratores. De maneira igual, o veículo representa o orgulho ferido na Sérvia.

Diante de todas as tensões já costumeiras entre os países, acirradas nestes últimos dias, a atitude do Estrela Vermelha na comemoração parece um tanto quanto irresponsável. Joga mais lenha na fogueira, numa história em que há milhares de vítimas e na qual os principais atores não são inocentes. Resta torcer para que a escalada das hostilidades não tenha novos desdobramentos.

Para entender um pouco mais do contexto, vale conferir também os dois fios presentes no twitter do Copa Além da Copa. A quem não segue a página, fica também a sugestão:

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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