Champions League

O Dortmund teve ímpeto, mas a solidez defensiva e os contragolpes (e a arbitragem) fizeram a vitória do Real

No confronto entre duas equipes com identidades tão ofensivas, seria natural esperar um jogo intenso no Signal Iduna Park. Borussia Dortmund e Real Madrid, no entanto, conseguiram extrapolar as expectativas. Os dois times jogaram em seus limites. E o que se viu foi uma verdadeira partidaça, com os dois lados confiando em sua voracidade no ataque, além de terem que se desdobrar na defesa, para conter a fome do outro. Mas, ao final, só os merengues puderam comemorar, emendando a sua segunda vitória na fase de grupos da Liga dos Campeões. Os aurinegros terão suas razões para reclamar da arbitragem, sobretudo pelo toque de mão evidente de Sergio Ramos quando o placar ainda estava zerado, que não resultou em pênalti. De qualquer forma, naquilo que acabou validado, os madridistas foram superiores. O combate defensivo e os contra-ataques garantiram a vitória por 3 a 1.

O Dortmund entrou a campo com algumas escolhas que chamavam a atenção. Peter Bosz mantinha o seu 4-3-3, mas apostando apenas nos jogadores que não vinham de problemas recentes de lesão. Talvez essa seja a melhor explicação para Marc Bartra e Julian Weigl começarem no banco. Além disso, depois da goleada sobre o Borussia Mönchengladbach, ele manteve Maximilian Philipp entre os titulares. Christian Pulisic acabou relegado aos reservas. Zidane, por sua vez, entrava com o melhor à disposição. Cristiano Ronaldo e Gareth Bale comandavam a linha de frente, enquanto Isco vinha no apoio, no 4-3-1-2 que se protegia em duas linhas sem a bola.

Durante os primeiros minutos, o Dortmund foi claramente superior. Tinha mais posse de bola e se impunha no campo de ataque, se posicionando bastante à frente no campo. Era sua maneira de tentar sufocar os merengues. E até deu algum trabalho, buscando passes rápidos em profundidade, que pegassem a defesa adversária desprevenida. Além disso, a marcação alta dava resultado, forçando os erros do Real Madrid. Entretanto, o time de Zidane resistia e logo encontraria o seu caminho do ouro. Não é de hoje que os madridistas possuem um dos melhores contragolpes do mundo. E isso seria usado à exaustão, aproveitando as costas da zaga aurinegra. Com Nacho Fernández na esquerda, Dani Carvajal tinha passe livre para subir. Foi uma arma constante. O Real criou duas chances claríssimas em sequência, com Roman Bürki fazendo uma defesaça na primeira e, logo depois, com Lukasz Piszczek travando no último momento.

O Dortmund responderia. E, aos 14 minutos, aconteceu o lance que dá margem à contestação dos alemães. Em um momento no qual era superior, apesar das duas chances mais claras do Real Madrid, o time de Peter Bosz deu sua primeira finalização no gol – a única no primeiro tempo. Andriy Yarmolenko cruzou para Philipp chutar cruzado, quase sem ângulo. Keylor Navas fez a defesa com a ponta dos dedos, mas depois a bola bateu no braço de Sergio Ramos. Aparentemente o capitão não teve intenção, mas a Fifa recomenda a marcação da infração em lances do tipo, pela maneira como o braço estava aberto. O árbitro, contudo, não marcou. Quatro minutos depois, os merengues abriram o placar.

Pela maneira como o Real Madrid encontrava espaços, o gol parecia questão de tempo. Aconteceu graças a um lance de extrema felicidade de Gareth Bale. Após lançamento de Carvajal, o galês apareceu livre de marcação dentro da área e acertou um chute difícil, de chapa, de primeira. No ângulo de Bürki, que nada pôde fazer. O placar cobrava mais pressa do Dortmund. O problema é que os aurinegros apresentavam sérias dificuldades na criação e na conclusão. O meio-campo errava demais e, assim, também expunha o time aos erros. Mas é preciso ressaltar também que os madridistas jogavam muito bem sem a bola – protegidos, mas dando o combate sempre. Carvajal travou Aubameyang de maneira perfeita aos 33 e, quando teve uma brecha maior, o gabonês estava impedido. Apesar do volume de jogo maior dos alemães, o Real tinha muito mais facilidade para ameaçar. Cristiano e Ramos ainda desperdiçaram boas chances antes do intervalo.

Na volta para o segundo tempo, o Borussia Dortmund retomou o seu ímpeto. Começou a tentar atacar um pouco mais em profundidade e quase empatou logo no primeiro ataque. Yarmolenko desviou de cabeça e venceu Navas, mas Raphaël Varane apareceu para afastar o perigo na pequena área. Já aos quatro minutos, a falta de proteção dos aurinegros cobrou o seu preço. Kroos passou em profundidade para Bale, que arrancou pela esquerda. O galês cruzou e Cristiano Ronaldo se antecipou à marcação para balançar as redes. Para sua sorte, o Dortmund não demoraria a responder. Aos oito minutos, Aubameyang enfim acertou algo e descontou, completando o cruzamento de Gonzalo Castro. Ainda assim, o cenário era bastante difícil.

O Dortmund tentava recobrar o prejuízo e Bosz reconfigurou o time. Weigl e Mahmoud Dahoud entraram nos lugares de Jeremy Toljan e Nuri Sahin, num 3-4-3. O problema era encontrar uma brecha para passar a defesa do Real Madrid. Os merengues eram irredutíveis, especialmente Casemiro, onipresente à frente da zaga. O volante fez uma de suas melhores atuações da carreira. E por mais que os aurinegros pressionassem, continuavam assumindo os riscos dos contragolpes. Quando os defensores não chegavam na última hora para afastar o perigo, Bürki aparecia para o milagre. Não foram poucas as grandes defesas do goleiro.

Por mais que o Dortmund tentasse sufocar, não conseguia finalizar da melhor maneira. Os marcadores quase sempre chegavam para bloquear ou ao menos dificultar a jogada. Não à toa, Navas pouco trabalhou ao longo da noite. Na chance mais clara de empatar, Aubameyang errou. A última cartada de Peter Bosz veio com Pulisic, aos 30, suplantando Mario Götze. Quatro minutos depois, o Real Madrid fechou a conta. Mais um contra-ataque, com Luka Modric orquestrando sua equipe. Enfiou a bola para Cristiano Ronaldo, que invadiu a área e chutou violentamente no canto de Bürki, desta vez sem poder fazer nada. O gol esfriou de vez os aurinegros. Fizeram menos ainda e dependeram de duas ótimas intervenções de Bürki para evitar a goleada.

Como aconteceu contra o Tottenham, na primeira rodada, a derrota deixa um sabor agridoce ao Borussia Dortmund. A arbitragem é a queixa recorrente. Mas, de novo, a atuação do time propondo o jogo não foi condizente com aquilo que conseguiu produzir. O ataque não soube trabalhar tão bem a bola para transformar a pressão em bombardeio. Além disso, individualmente alguns dos principais jogadores do time não estiveram bem – Yarmolenko foi o raro a se salvar, mas sem muita colaboração dos companheiros. Já na defesa, enquanto Bürki se redimiu das falhas contra os Spurs, a falta de solidez e a lentidão atrapalharam. Sem somar pontos após duas rodadas, o time enfrenta uma situação delicada na competição, e precisará responder principalmente em sua visita ao Bernabéu.

O Real Madrid, por outro lado, conquista uma vitória para recuperar o seu vigor, depois de jogos fracos no Campeonato Espanhol. Desta vez os merengues não precisaram ter a iniciativa, e sim esperar os adversários para causar estrago. Desta maneira, o clube consolidou tantas conquistas ao longo das últimas temporadas. E se o coletivo funcionou de maneira satisfatória, foram vários os destaques pontuais. No ataque, Bale e Cristiano deram conta do recado, com o galês em recuperação. Kroos e Modric cumpriram bem seu papel em ditar o ritmo e acelerar quando necessário. Nacho e Carvajal deram muita consistência às laterais. E Casemiro foi um leão. A arbitragem, de qualquer forma, deixa margem ao questionamento.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo