Champions League

O confronto entre Barcelona e Bayern sempre marcou times históricos na Champions

Pelo que se viveu ao longo dos últimos 11 anos, o duelo entre Barcelona e Bayern se transformou em uma espécie de clássico europeu. Os dois times se enfrentaram em diversas ocasiões importantes na Champions League e os resultados, para um lado ou para o outro, serviram na consagração de equipes que marcaram a história do torneio. É o que se espera outra vez nesta sexta, com o jogaço marcado para Lisboa, no embate mais aguardado destas quartas de final.

O primeiro confronto entre Bayern e Barça pela competição se deu ainda em 1998/99, pela fase de grupos. Foram duas vitórias dos bávaros, que não foram felizes naquela temporada especificamente, mas logo veriam a geração dirigida por Ottmar Hitzfeld recuperar o troféu continental após 25 anos de espera. Os catalães responderiam em 2008/09, com uma das melhores atuações na histórica campanha comandada por Pep Guardiola, avançando nas quartas de final. O Bayern também teria sua chance de vingança em 2012/13, nos 7 a 0 agregados que marcaram o apogeu dos tempos de Jupp Heynckes, valendo vaga na decisão. Por fim, a memória mais recente é da semifinal de 2014/15. E nesta alternância de vencedores, quem se deu melhor foi o Barça, naquela noite em que Messi deixou Boateng sem pai nem mãe.

Muita coisa mudou nos clubes desde então. Ainda assim, alguns personagens continuam os mesmos. Messi e Müller já foram decisivos, Lewandowski e Suárez seguem como referências no ataque, Neuer e Ter Stegen prometem um duelo particular. O momento, assim como ocorreu em 2012/13, sugere o favoritismo ao Bayern – e de maneira até mais exacerbada, considerando a crise do Barcelona. Mas, diferentemente daquela ocasião, Messi está inteiro, e o camisa 10 é motivo suficiente à precaução dos alemães. Abaixo, relembramos essas quatro temporadas em que Bayern e Barcelona se enfrentaram na Liga dos Campeões, confira:

Fase de grupos, Champions 1998/99

Não seria uma campanha feliz ao Bayern de Munique, como a irrepetível decisão diante do Manchester United (e dentro do próprio Camp Nou) reconta. De qualquer maneira, aquele momento representaria a força dos bávaros rumo ao título continental – que se consumou duas temporadas depois, em 2000/01. A base da equipe de Ottmar Hitzfeld estava montada e mostraria suas garras na Champions. A ponto de, num grupo bastante cascudo logo na primeira fase, avançar na liderança.

O Bayern pegou o Manchester United no Grupo D, assim como Barcelona e Brondby. Mesmo com o futuro Bola de Ouro, Rivaldo, o Barcelona ficou pelo caminho e as duas vitórias dos bávaros no confronto direto se tornaram fundamentais. O primeiro encontro aconteceu na terceira rodada, no Estádio Olímpico de Munique, com os alemães fazendo valer o mando de campo com o placar de 1 a 0. E ainda buscariam a virada por 2 a 1 no Camp Nou, com o gol de um personagem atual em Saebener Strasse: Hasan Salihamidzic, hoje diretor esportivo do clube.

O Bayern possuía uma equipe muito forte em todos os setores e também com muita experiência. Para começar, outro que segue trabalhando em Munique, Oliver Kahn, era o goleiro. Lothar Matthäus atuava como líbero e servia como o grande diferencial do sistema defensivo, embora tenha se ausentado do embate no Olímpico. Nomes como Bixent Lizarazu, Markus Babbel e Samuel Kuffour complementavam o setor. No meio-campo, quem mandava era Steffan Effenberg, em excelente temporada. Salihamidzic era titular eventual. Já na frente, além da qualidade de Mario Basler na criação, o artilheiro Élber servia como principal referência. Um timaço o de Ottmar Hitzfeld.

O Barcelona vivia sua “fase holandesa” sob as ordens de Louis van Gaal. Os jogadores da Oranje se espalhavam com Ruud Hesp, Michael Reiziger e Phillip Cocu. Ainda assim, não eram mais importantes que a legião lusófona. Luis Figo e Rivaldo serviam de protagonistas, assessorados por Giovanni e Sonny Anderson. Ainda era um plantel que contava com Luis Enrique, além de um jovem Xavi ganhando chances como titular aos 18 anos. Não era a formação mais forte do Barça, mas merecia respeito.

Quando os dois times se encontraram, o Bayern precisava reagir. Os alemães haviam conquistado apenas um ponto nas duas primeiras rodadas, derrotados na visita ao Brondby, e o Barcelona liderava com quatro pontos. A postura dos anfitriões no Estádio Olímpico, mesmo com o desfalque de Matthäus, refletiu as necessidades. O primeiro tempo contou com um massacre do Bayern, parando no goleiro Hesp. O tento merecido sairia nos acréscimos e selaria o triunfo. Após ótimo cruzamento de Jens Jeremies, Élber escorou e Effenberg completou de carrinho. O Barça melhorou na segunda etapa, mas uma boa defesa de Kahn contra Giovanni e uma bola de Sonny Anderson no travessão impediram a reação. Com o controle do jogo, os bávaros comemoraram o 1 a 0.

Duas semanas depois, o reencontro no Camp Nou trazia climas diferentes. Van Gaal era criticado por seu trabalho, enquanto Hitzfeld conseguia arrumar o Bayern. E os visitantes buscaram nova vitória. O Barça até saiu na frente. Depois de ter um gol anulado por falta de Giovanni quando subiu para cabecear, Pierluigi Collina manteve o critério e marcou um pênalti num lance parecido, aos 29 minutos. O próprio brasileiro assumiu a cobrança e venceu Kahn. Antes do intervalo, Élber também teve um tento anulado por impedimento. Era uma partida bastante aberta.

A reviravolta no placar começou aos três do segundo tempo, numa bobeira da zaga culé, que permitiu a Alexander Zickler finalizar sozinho. Élber, que havia lutado muito para dar o passe no lance, representava o principal perigo. Travava uma batalha com Hesp, de novo herói. E, apesar de algumas boas respostas barcelonistas com Rivaldo e Sonny Anderson, o Bayern merecia a virada. Ela veio aos 42, numa casquinha de Élber para Salihamidzic, que chegou com tudo na área (inclusive fazendo falta) e mandou para dentro.

O Barcelona ficava em uma situação complicada e amargou a eliminação ao empatar com o Manchester United na rodada seguinte. Já o Bayern disparou, derrotando o Brondby, antes de assegurar a liderança contra o próprio United. Vale lembrar que, naquela época, apenas os primeiros colocados tinham a classificação garantida na Champions. Com seis grupos, apenas os dois melhores segundos colocados passavam às quartas de final. Os Red Devils sobreviveram assim. E, após eliminar Kaiserslautern e Dynamo Kiev nos mata-matas, o Bayern viveria o traumático reencontro com o time de Sir Alex Ferguson na finalíssima.

Quartas de final, Champions 2008/09

Barcelona e Bayern levaram quase dez anos para que o reencontro ocorresse na Champions League, desta vez em uma ocasião de maior peso. As duas equipes se enfrentavam nas quartas de final do torneio continental em 2008/09, numa temporada de mudanças a ambos os clubes. Os blaugranas começavam a descobrir o talento de Pep Guardiola na casamata, no início de sua revolução no Camp Nou. Já os bávaros se decepcionavam com Jürgen Klinsmann, uma aposta que parecia boa e que, no final das contas, não deu nada certo na Allianz Arena.

Campeão continental com Frank Rijkaard em 2006, o Barcelona atravessava sua renovação com Guardiola e, aquele embate, seria fundamental para salientar um pouco mais como o clube estava no caminho certo. A equipe tinha avançado na liderança de seu grupo e goleou um forte Lyon nas oitavas de final, mas o Bayern trazia um desafio de outras dimensões por sua tradição. Por seu lado, após superarem o próprio Lyon para ficar com o primeiro lugar do Grupo F, os alemães vinham empolgados pelo atropelamento sobre o Sporting nas oitavas: 7 a 1 na Alemanha e 5 a 0 em Portugal. Seria uma doce ilusão.

Àquela altura, o castelo de areia de Klinsmann começava a cair. A equipe fazia uma campanha instável na Bundesliga e, quatro dias antes de pegar o Barcelona na ida, tomou a inesquecível goleada por 5 a 1 contra o Wolfsburg de Grafite. Era um time forte, com Philipp Lahm, Bastian Schweinsteiger, Miroslav Klose, Lukas Podolski, Franck Ribéry, Lúcio, Zé Roberto, Luca Toni, Mark van Bommel e outros jogadores renomados. Mas pouco organizado para pegar o Barça, o que ficaria claro desde o primeiro encontro no Camp Nou.

E a força daquele Barcelona estava escancarada em La Liga. Já sustentava uma vantagem de seis pontos na liderança, embora os 6 a 2 sobre o Real Madrid ainda estivessem por acontecer. E a escalação que muita gente sabe de cor estava formada, com Lionel Messi, Samuel Eto’o, Thierry Henry, Andrés Iniesta, Xavi, Carles Puyol, Dani Alves, Gerard Piqué e uma constelação de craques. Naquele momento, até dava para imaginar que o Bayern tentasse se reerguer. Entretanto, o Barça mostrou qual o verdadeiro lugar de ambos os times na história.

O vareio aconteceu logo na primeira partida: 4 a 0 dentro do Camp Nou, com todos os gols anotados no primeiro tempo. O Bayern pode reclamar das baixas de Lúcio, Lahm e Klose. Nada que diminua o domínio brutal do Barcelona. Henry já tinha perdido grande chance quando Messi abriu o placar aos nove minutos. Após trama entre Iniesta e Eto’o, o camisa 10 recebeu sozinho na área e bateu com facilidade. Um passe incrível de Messi por trás da marcação de Breno permitiu a Eto’o fazer o segundo. A zaga dos alemães era puro desastre.

Guardiola foi até expulso por reclamar de um pênalti negado sobre Messi, mas não atrapalhou a imposição blaugrana. Foram ainda outras duas boas chances perdidas, até Henry cruzar para Messi fazer o terceiro, aos 38. E numa troca de passes que botou os alemães na roda, Eto’o ampliou. A vitória estava definida e o Barcelona pôde tirar o pé do acelerador rumo ao segundo tempo. Mesmo assim, seguiu com as melhores chances, sem muitos esboços de reação dos visitantes.

O jogo de volta viu um Bayern modificado e com os retornos de Lahm e Lúcio à formação titular. Não possibilitaram a inimaginável reação na Allianz Arena. Os bávaros até pressionaram no primeiro tempo, sem que Toni aproveitasse as melhores brechas. Melhor da equipe nos 180 minutos, Ribéry abriu o placar aos dois do segundo tempo, após driblar Victor Valdés. Todavia, o Barça só precisou apertar um pouco mais para arrancar o empate. Aos 28, Seydou Keita arrematou de fora da área e decretou o empate por 1 a 1. Ainda rolaria um gol anulado do Bayern, mas nada que evitasse o estrago.

Klinsmann duraria mais duas partidas no cargo, demitido após uma derrota para o Schalke 04 na Bundesliga. Para tentar evitar que o Wolfsburg fosse campeão, o Bayern tirou da aposentadoria Jupp Heynckes. O veterano não conseguiu buscar a Salva de Prata, mas seu retorno ao futebol seria importante ao clube. Louis van Gaal ainda chegaria à Baviera, adiando a consagração definitiva de Heynckes a partir de sua recontratação em 2011. Já o Barcelona não seria mais brecado. Eliminou o Chelsea, na polêmica semifinal que terminou decidida por Iniesta, antes de superar o Manchester United na decisão. Também conquistou La Liga com o pé nas costas e garantiu a Tríplice Coroa com a Copa do Rei. A história estava feita.

Semifinal, Champions 2012/13

A chance de revanche ao Bayern de Munique pintou quatro anos depois. E o momento também se inverteu antes do embate pelas semifinais da Champions. Guardiola havia saído um ano antes e havia questionamentos no comando do Barcelona, sem que Tito Vilanova conseguisse sustentar todas as expectativas ao ser promovido de assistente a treinador principal – além de lidar com sérios problemas de saúde. Já o Bayern atravessava o pleno crescimento com a reaparição de Jupp Heynckes na temporada anterior. É verdade que 2011/12 acabou bem frustrante aos bávaros, com três vices, mas também tornou o time mais forte e ajudou o treinador a aprimorar o grupo. A formação mais forte do clube na última década teve sua maior prova de qualidade contra o Barça, aplicando aqueles 7 a 0 no placar agregado.

Lahm, Schweinsteiger e Ribéry eram os remanescentes do vareio sofrido em 2009. A equipe trazia novas peças e amadureceu em relação à sua mentalidade, com contribuição também de Van Gaal nesse processo. E era uma equipe mais completa, com outras tantas referências, a exemplo de Manuel Neuer, Jérôme Boateng, David Alaba, Thomas Müller, Arjen Robben e Mario Gómez. A força do Bayern estava bastante expressa naquela temporada e os duelos nas semifinais ratificariam esta noção. Com 14 vitórias consecutivas na Bundesliga, o time havia confirmado o título semanas antes de pegar o Barça. Na Champions, havia se classificado com autoridade para cima de Arsenal e Juventus durante os mata-matas.

O Barcelona via na época aquela que talvez fosse a melhor versão de Lionel Messi, depois de seu ano arrasador em 2012, mas os problemas físicos impediram que rendesse bem contra o Bayern. O clube seguia com os bastiões dos tempos de Guardiola, como Dani Alves, Piqué, Busquets, Iniesta e Xavi. David Villa e Alexis Sánchez eram opções no ataque, enquanto Jordi Alba e Cesc Fàbregas se tornaram importantes adições no período. Porém, a imposição que se viu na campanha dos 100 pontos por La Liga não se repetiu na Champions. Também com o título nacional encaminhado àquela altura, o desempenho além das fronteiras não era bom. Foi a edição da Liga dos Campeões em que o Barça perdeu para o Celtic na fase de grupos, num jogo emblemático. Também precisou reverter a situação contra o Milan nas oitavas, além de passar pelo PSG com dois empates nas quartas.

O troco do Bayern na ida das semifinais veio na mesma moeda de 2009: 4 a 0 dentro da Allianz Arena. Com Messi voltando após duas semanas ausente e Puyol lesionado, os catalães foram presas fáceis. Além disso, havia toda a questão ao redor de Tito Vilanova, que se recuperava do tratamento de seu câncer, mas ainda assim esteve à beira do campo. A equipe de Heynckes tinha seu ponto de equilíbrio na dupla de volantes, formada por Javi Martínez e Schweinsteiger, embora primasse pela voracidade no ataque. Enquanto se via o tiki-taka improdutivo do outro lado, a verticalidade abriu o caminho aos alemães. Valdés já tinha realizado boa defesa contra Robben e a arbitragem não marcou um pênalti de Piqué, até que Thomas Müller abrisse o placar de cabeça aos 25.

O jogo aéreo foi um caminho para destroçar os blaugranas e o segundo gol viria logo na volta do intervalo, aos quatro minutos. Müller escorou de cabeça um escanteio para Mario Gómez completar na pequena área. Tinha mais: as chances vinham aos montes e, endiabrado, Robben protagonizava bons lances pelo lado direito. Surpreendeu aos 28, ao cortar para a direita e deixar Jordi Alba na saudade, antes de bater rasteiro para estufar as redes – num lance que também contou com falta de Müller. O Barça mal assustava e Valdés tinha mais trabalho que Neuer. Por fim, uma boa combinação pela esquerda permitiu a Alaba cruzar e a Müller fechar sua noite decisiva.

A missão do Barcelona para o reencontro no Camp Nou se tornava dificílima. E ainda mais sem Messi, que deixou seu lugar no comando de ataque com Fàbregas por não apresentar as melhores condições físicas. De qualquer maneira, esperava-se um papel um pouco mais digno dos blaugranas, outra vez empacotados pelo Bayern com o triunfo por 3 a 0. A pressão dos bávaros na marcação funcionou bem, com Schweinsteiger liderando o time. O Barça era passivo e não superou Neuer durante o primeiro tempo, com o goleiro mantendo a segurança. Já na segunda etapa, pesou a eficiência dos bávaros, puxados por Robben e Ribéry nas pontas. O holandês abriu o placar aos três minutos, com sua jogada característica, em chute indefensável. Aos 27, Lahm cruzou e Piqué colaborou ao mandar contra as próprias redes. E o resultado seria definido quatro minutos depois, em linda jogada de Ribéry para Müller concluir de cabeça.

O Barcelona conquistou La Liga de maneira contundente, o que reduziu um pouco a repercussão da Champions, mas perderia Tito Vilanova para a temporada seguinte. O treinador teve uma recaída em seu câncer e deixou o clube para se dedicar ao tratamento. Faleceu em abril de 2014. Já o Bayern coroaria o trabalho brilhante de Heynckes ao bater o Dortmund na decisão continental e completar a tríplice coroa para cima do Stuttgart na Copa da Alemanha. O comandante havia anunciado sua nova aposentadoria. Seria substituído por Guardiola, anunciado antes mesmo daqueles 7 a 0 na semifinal.

Semifinal, Champions 2014/15

Por fim, a última vez que Barcelona e Bayern mediram forças seria igualmente simbólica. Guardiola estava em sua segunda temporada à frente dos bávaros, dominando a Bundesliga, mas ainda cobrado para repetir o título da Champions. O Barcelona, por outro lado, também não engrenou com Tata Martino e tentou repetir a fórmula de buscar um antigo comandante do Barça B, ao tirar Luis Enrique do Celta. Seria uma escolha oportuna, especialmente pela maneira como o treinador acomodou a trinca formada por Messi, Luis Suárez e Neymar na linha de frente. Não era um time tão bem montado quanto na época de Guardiola, mas a efetividade do trio falava por si.

Antes de pegar o Bayern, o Barcelona havia tomado a liderança do Campeonato Espanhol e se mantinha à frente do Real Madrid numa disputa apertada. O time vinha de uma sequência bastante expressiva na Liga, incluindo goleadas acachapantes e um triunfo no clássico do segundo turno, que se provaria vital. E a Champions também guardava uma ótima caminhada nos mata-matas. O Barça teve o desafio de Manchester City e PSG nas etapas anteriores. Emendou quatro vitórias contra os oponentes, inclusive dando o troco sobre os parisienses após uma derrota na fase de grupos. Além de Messi, Suárez e Neymar, a equipe se escorava na boa fase do meio-campo formado por Iniesta, Rakitic e Busquets, enquanto Dani Alves e Piqué lideravam a zaga.

O Bayern convivia com o passar do tempo a alguns jogadores e as adaptações de Guardiola para fazer o time surpreender. Lahm, Schweinsteiger e Xabi Alonso eram os medalhões pelo meio. Os lesionados Robben e Ribéry fizeram muita falta, enquanto Robert Lewandowski chegava ao ataque em parceria com Thomas Müller. A supremacia na Bundesliga era evidente e o título estava no bolso. Entretanto, em uma constante de Guardiola em sua passagem pela Baviera, os problemas físicos se acumulavam ao final da temporada e os tropeços se tornavam mais numerosos. O Bayern havia caído uma semana antes para o Dortmund na Copa da Alemanha e também sucumbira ante o Leverkusen pela Bundesliga. Já na Champions, mesmo com vitórias por 7 a 0 e 6 a 1 sobre Shakhtar e Porto em Munique, os maus resultados fora sugeriam cuidados. Foi o que aconteceu.

A ida foi realizada no Camp Nou. O pouco ortodoxo 3-5-2 do Bayern tinha Thiago Alcântara como ala pela direita e Rafinha no trio de zaga. O Barcelona, com toda a sua força, venceu por 3 a 0. Seria mais uma noite de Lionel Messi. O primeiro tempo veria o Barcelona melhor, apesar de uma boa chance desperdiçada por Lewandowski. Neuer acumulou milagres e várias vezes a zaga bávara se safou no limite. A formação com três zagueiros se expunha ao tridente adversário, enquanto havia certa morosidade dos alemães com a bola. Não à toa, Guardiola já mudaria a uma linha de quatro com 20 minutos, reduzindo os perigos.

O segundo tempo não teria perdão. O Barça até demorou para abrir o placar, com minutos mais arrastados pela queda de rendimento físico dos times, embora os visitantes seguissem superiores. Quando abriram o placar, a porteira se escancarou. O primeiro saiu aos 32, num bom lance de Dani Alves, tocando para Messi dominar e mandar no cantinho de Neuer. O segundo gol foi a obra de arte eternizada no confronto, em que Messi tombou Boateng com seu corte seco e bateu por cima de Neuer. Já nos acréscimos, em contra-ataque, Neymar facilitou ainda mais a vida dos catalães.

O retorno em Munique veria um Bayern modificado – mas não sem as suas invenções. Ainda sem Robben e Ribéry, as pontas acabaram ocupadas por Lahm e Schweinsteiger. Num jogo bastante disputado, de duas viradas, os bávaros venceriam por 3 a 2. Nada que impedisse a classificação do Barcelona à final. Neuer salvaria o time duas vezes, até Mehdi Benatia criar esperanças e abrir o placar aos alemães com sete minutos, numa cabeçada. A pressão precisava ser dos anfitriões, que também se expunham aos contragolpes.

A reação não tardaria. Aos 15, uma combinação entre Messi e Suárez entregou o presente a Neymar. E o jovem também fez o segundo, aos 29, depois de duas boas defesas de Marc-André ter Stegen. Num contragolpe, Suárez deu outra assistência açucarada ao brasileiro, que dominou e mirou o canto. Stegen seria um personagem importante, realizando um milagre impressionante contra Lewa antes do intervalo. Só no segundo tempo que o polonês venceria o goleiro, com um belo lance para cima de Javier Mascherano ao empatar. Restando mais 15 minutos, Müller deixou sua marca num chute de fora da área, mas os três gols ainda necessários não vieram e os germânicos ficaram pelo caminho.

Guardiola passaria mais um ano no Bayern e, tricampeão da Bundesliga, deixaria o clube com um buraco sem a taça da Champions. A verdade é que, apesar de bons momentos, sua filosofia nunca pareceu realmente se casar na Baviera – bem diferente do que se nota com Hansi Flick, um herdeiro de Heynckes na maneira de conceber o jogo. E o Barcelona seguiu surfando no momento. Conquistou La Liga e a Copa do Rei, celebrando a tríplice coroa em cima da Juventus, na decisão continental realizada no Estádio Olímpico de Berlim. Aquela primeira temporada de Luis Enrique foi basicamente o último momento de verdadeira satisfação no Camp Nou, sem que La Liga cumprisse as ambições diante do tri europeu do Real Madrid depois disso. O Bayern ressurge no caminho.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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