Champions League

O cinema virou realidade: Futebol não é lógica, é emoção, como no choro de Chicharito

O garoto mexicano que brilha com a camisa do Real Madrid na Liga dos Campeões. O enredo vivido por Chicharito Hernández nesta semana é digno de filme. E, de certa forma, bastante parecido com um dos maiores clássicos do cinema boleiro: a trilogia “Goal!”, estrelada pelo jogador fictício Santiago Muñez. Ao contrário de seu compatriota, Chicharito não imigrou ilegalmente aos Estados Unidos e tem uma história de vida bem menos sofrida. Mas também viveu o seu drama particular com a camisa merengue, fechando a noite desta quarta entre risos e lágrimas. Um filme já com final feliz.

Chicharito atravessa meses de desconfiança no Real Madrid. Aos 26 anos, nunca vingou como se esperava pelo Manchester United. Acabou liberado por empréstimo aos merengues, apenas para fazer sombra a Karim Benzema. E, nas poucas chances que ganhou, não apresentou nada muito diferente dos tempos de Old Trafford. É um centroavante oportunista, mas com certa deficiência na finalização. Nada que o ajudasse a ameaçar a vaga do francês, em fase iluminada, ou mesmo esboçar uma renovação de vínculo com os madridistas. Até a sorte lhe cair no colo, justo em um momento crucial da temporada.

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Benzema se lesionou e abriu espaço para Chicharito. A torcida merengue até poderia não esperar o mesmo brilhantismo do mexicano. Porém, ele compensou com muito esforço. Em três partidas como titular, marcou dois gols e deu uma assistência. Sobretudo, batalhou para abrir espaços nas defesas adversárias e ajudar os companheiros mais talentosos, como Cristiano Ronaldo. Acabou recompensado da melhor maneira possível, com o gol decisivo sobre o Atlético de Madrid em um jogo duríssimo, que colocou o Real na semifinal da Champions.

Durante os 90 minutos, Chicharito teve mais chances de definir o placar. Parou em uma defesa brilhante do goleiro Oblak e em uma jogada aérea travada pela zaga. Mas, diante de um adversário tão sólido na defesa, fez o possível para encontrar as brechas. Finalizou mais do que qualquer outro em campo – até que Cristiano Ronaldo, líder absoluto nas estatísticas. Justo na última teve a sorte grande de encontrar as redes. Deve bastante à jogada de CR7 e James Rodríguez, é verdade. Entretanto, também merece a gratidão de cada um dos madridistas.

Antes do apito final, Chicharito acabou substituído por Carlo Ancelotti. Para receber o devido reconhecimento da torcida do Real Madrid. E para sofrer no banco de reservas, mostrando o quão valiosa era aquela partida. Chorou, abraçou os companheiros, sofreu. Para, no fim das contas, sorrir de alegria e de alívio. Não era filme e nem sonho: ele tinha se tornado o herói da noite. Algo expresso por suas palavras após a partida.

“Sabia que, como sempre, trabalhando as oportunidades iam chegar, ainda que fossem mínimas. Por isso tive paciência, muita perseverança e não deixei de trabalhar para estar 100% quando precisassem de mim”, afirmou. “É preciso ir passo a passo. Foi um ano de emoções, altos e baixos, falta de oportunidades, mas também de coisas bonitas como esta. É preciso ir passo a passo, viver o presente. No futebol, posso errar passes e jogadas. Mais que alívio, esse gol foi uma alegria imensa”.

De certa maneira, as palavras de Chicharito até lembraram um pouco o orgulho da ficção, de Santiago Muñez: “Eu fui paciente. Meus companheiros tiveram fé em mim, assim como a minha família, e este gol foi para eles. Foi um esforço coletivo, uma grande assistência de Cristiano, e o time inteiro fez um trabalho incrível. Eu me sinto feliz pelas pessoas do meu país, que sempre apoiam os mexicanos que jogam na Europa. Cumpri o sonho de vir aqui, às melhores ligas do mundo. O que quero é deixar o nome do México bem alto, para que muita gente possa ver o talento mexicano, que é muito”.

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A emoção de Chicharito é compreensível, especialmente pela grandeza do momento. O camisa 14 pode não vingar no Real Madrid, de fato, mas já escreveu o seu nome na história. Mais do que isso, viveu um momento para refazer a sua carreira – se não for no Bernabéu, talvez em outro clube de expressão. Resgatou uma beleza na Champions que vai além da frieza dos números e dos gols a rodo: futebol também é emoção. Não é feito apenas de Ronaldos e Messis, mas também de Chicharitos. Jogadores medianos que podem se tornar heróis acima dos grandes craques, protagonizar grandes histórias. Não acontece só nos filmes.

A potência e o dinheiro, por vezes, fazem isso se perder na Liga dos Campeões. É legal ver um supertime como Bayern, Real, Barça ou Juventus triunfar. No entanto, a fantasia do futebol não está na lógica. É isso que faz Chicharito tão especial. Um atacante que possui, sim, suas deficiências. Mas que combina suor e vontade. Tem estrela para decidir além das apostas, por um lance de puro oportunismo. O final desta Champions pode não repetir a história de Muñez em Goal. Pouco importa. O épico de Chicharito já se transformou em arte.

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Equipe Trivela

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