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O Chelsea se recuperou da derrota na ida, preservou bem sua vantagem e deixou o Dortmund pelo caminho

O Dortmund teve uma atuação abaixo em Stamford Bridge, muito porque o Chelsea aproveitou o momento do jogo em que sufocava e também conteve o abafa no final

A desconfiança sobre o Chelsea era óbvia, e até necessária. O time que não consegue engrenar mesmo com uma montanha de contratações precisava de uma vitória por dois gols de diferença para avançar na Champions League. Do outro lado, o Borussia Dortmund impunha respeito não apenas pelo 1 a 0 da ida, mas também pela liderança da Bundesliga e pelos 100% de aproveitamento em 2023. Entretanto, os Blues reverteram os prognósticos. Ganharam por 2 a 0 e seguiram em frente às quartas de final. A equipe da casa até demorou para abrir o placar no primeiro tempo em Stamford Bridge, mas aproveitou o momento para sair ao intervalo em vantagem. E um gol muito rápido no início da segunda etapa permitiu que os londrinos lidassem bem com a situação. Bloquearam sua defesa e controlaram um BVB com dificuldades na produção ofensiva. Com méritos, o Chelsea passa.

O Dortmund lida com seu desapontamento, pela vantagem que desperdiçou e pela forma como não correspondeu aos problemas que teve. Foi uma equipe abaixo ao que se viu neste início de 2023, mas também com suas justificativas. Os desfalques pesaram bastante, em especial de Kobel, sem que Meyer transmitisse confiança no gol – embora não tenha falhado nos lances cabais. Além disso, a perda precoce de Brandt, um dos melhores do time nesta sequência positiva, custou demais em termos de construção. Mas não que o Chelsea tenha se beneficiado apenas de debilidades. Os Blues souberam arreganhar os dentes num momento em que o BVB estava nas cordas e, na base da insistência, marcaram o gol. Além disso, mesmo sem Thiago Silva, tiveram tranquilidade na defesa. Kepa apareceu bem quando preciso, enquanto Koulibaly foi excepcional na zaga. Chilwell e Reece James foram outros dois que se saíram bem, enquanto Havertz e Sterling abusaram dos erros, mas se redimiram nos gols.

As escalações

O Chelsea tinha desfalques sensíveis para a partida, em especial pela lesão de Thiago Silva. Kepa Arrizabalaga abria a escalação, com um trio de zaga composto por Wesley Fofana, Kalidou Koulibaly e Marc Cucurella. Reece James e Ben Chilwell abriam nas alas, com Enzo Fernández e Mateo Kovacic pelo meio. Já na frente, Raheem Sterling e João Félix davam apoio a Kai Havertz. Do lado do Dortmund, os desfalques mais penosos eram de Karim Adeyemi e Gregor Köbel, heróis na ida – com o goleiro apenas no banco. Assim, Alexander Meyer começava no gol, em linha defensiva com Marius Wolf, Niklas Süle, Nico Schlotterbeck e Raphaël Guerreiro. Emre Can fechava a cabeça de área, com Jude Bellingham e Salih Özcan mais à frente, além de Julian Brandt e Marco Reus nas pontas. Sébastien Haller servia na referência.

Primeiro tempo

Por causa de um atraso na chegada do ônibus do Borussia Dortmund, a partida seria postergada em dez minutos. E a demora parecia aumentar a ansiedade em Stamford Bridge. Os torcedores do Chelsea exibiram um bonito bandeirão sobre a história do clube. Enquanto isso, os aurinegros tomavam a atmosfera com muito barulho e também fumaça amarela no setor visitante.

A partida começou de novo com muita velocidade, como na ida. O Borussia Dortmund tentou logo de cara morder e pressionar em cima. Enquanto isso, o Chelsea teve a primeira grande chance no contra-ataque, com Sterling. O atacante saiu sozinho e demorou demais para definir, até ser desarmado, mas estava impedido na origem do avanço. E uma má notícia pintaria para o BVB com menos de cinco minutos, quando Brandt lesionou a coxa e deu lugar a Giovanni Reyna. À medida que a partida se desenrolava, os Blues ficavam mais no ataque. E o auxílio de Meyer seria essencial, para sair nos pés de João Félix e travar a infiltração do atacante. Os londrinos rondavam e também ameaçavam nas bolas aéreas, enquanto aceleravam bastante nos avanços. Havertz  assustou num tiro para fora aos oito minutos.

O Dortmund tinha dificuldade para progredir neste início, com a marcação do Chelsea bastante compacta e encaixada. Porém, logo o time passou a administrar mais a posse no campo ofensivo e começou a ganhar faltas. Numa dessas, aos 17, quase Reus anota um golaço. O veterano cobrou o tiro livre com enorme categoria e Kepa voou para espalmar no canto. Era de maior interesse ao BVB esfriar um pouco mais o duelo, e os Blues não abafavam como de início. O controle dos aurinegros era maior, até com uma escapada perigosa de Reyna pela linha de fundo aos 25.

Quando o Chelsea tentava retomar a ofensividade, o gol não saiu por falta de sorte aos 28 minutos. Havertz teve uma batida com muita liberdade na área e acertou o pé da trave. Os Blues voltavam a se adiantar em campo nesta sequência. Kovacic bateu para fora e depois João Félix teve um chute travado. Porém, apesar da ameaça, o Borussia Dortmund segurava as pontas. Os ingleses só foram mais perigosos quando conseguiram encaixar outro contragolpe, aos 38. Sterling carimbou o peito de Meyer no mano a mano e, no rebote, Havertz acertou um chutaço que bateu no travessão e entrou. Contudo, havia impedimento na jogada e o tento foi anulado.

O momento era do Chelsea, estava claro. Cada vez mais, os espaços na defesa do Dortmund surgiam. O problema era a falta de competência na hora de aproveitar as brechas. Mais um lance claríssimo aconteceu aos 40, numa cobrança de falta. Meyer saiu pessimamente, mas deu sorte quando Koulibaly furou a conclusão sozinho O rebote ainda ficou livre para João Félix, que acertou Meyer mais uma vez. O goleiro não transmitia confiança, mas salvava. E nesta empolgação dos Blues, o gol fatalmente sairia aos 44 minutos.

O lance decisivo começou na esquerda. O Chelsea ganhou uma sequência de divididas, até o cruzamento de Chilwell chegar para Sterling. O atacante furou o chute na primeira tentativa, mas a bola seguiu em seus pés e então ele soltou a pancada, para finalmente marcar. A agressividade dos ingleses era recompensada, num primeiro tempo em que o controle do Dortmund foi um tanto quanto passivo. Apesar disso, o BVB quase conseguiu o empate nos acréscimos, em seu lance mais bem construído até então. Bellingham deu ótimo passe para a infiltração de Guerreiro e o lateral saía de frente para o crime, mas foi travado na hora exata.

Segundo tempo

O segundo tempo começou da melhor forma possível para o Chelsea: com um pênalti. Chilwell cruzou e a bola bateu no braço aberto de Wolf, logo aos dois minutos. A penalidade foi confirmada após a revisão do árbitro no monitor. Havertz não aproveitou a primeira oportunidade. O atacante acertou a trave, antes que a zaga rasgasse o perigo. No entanto, como houve uma invasão dupla na área, a batida seria repetida. Havertz insistiu no mesmo canto e desta vez foi mais preciso, acertando a lateral da rede. Meyer não saiu nem na foto. Neste momento, a classificação ficava nas mãos dos londrinos.

O Borussia Dortmund precisava de mais iniciativa. Começou a acelerar mais as suas jogadas e a finalmente conseguir mais arremates. Primeiro, Reyna seria travado por Chilwell. Já aos 13, os aurinegros perderam uma chance dourada de descontar. Haller parou em Chilwell, mas a sobra ficou com Bellingham e o meio-campista bateu de primeira, na área. A bola saiu muito próxima da trave. O BVB ganhava presença ofensiva, enquanto o Chelsea, mais recuado, nem sempre apresentava o melhor posicionamento atrás. O perigo rondava. E os aurinegros ficaram mais ofensivos aos 19, com Jamie Bynoe-Gittens no lugar de Özcan aos 19.

Kepa voltaria à ação aos 20 minutos, num chute cruzado de Wolf que o goleiro espalmou. Logo o espanhol seria punido por cera. A resposta do Chelsea para tentar ganhar mais presença pelo meio vinha com Conor Gallagher no lugar de João Félix, aos 22. De fato, os Blues passaram a ocupar melhor a intermediária e voltaram a chegar ao ataque. Mas a necessidade se concentrava do outro lado e Süle mandou um tirambaço ao lado do poste aos 28. O Dortmund dependia de uma bola. Apesar da postura do BVB, em contrapartida a defesa estava bastante adiantada e se expunha aos contragolpes. Quase os visitantes pagaram caro aos 30. Sterling mais uma vez avançou sozinho e serviu o gol de Gallagher. O lance de novo seria anulado, por impedimento.

Os dois times mexeram nesta sequência. Donyell Malen pintou no lugar de Haller – uma escolha contestável, considerando a necessidade de ter presença de área aos cruzamentos. Já o Chelsea ganhava Ruben Loftus-Cheek e Christian Pulisic nos lugares de Sterling e Kovacic. O Dortmund mantinha a pressão no campo ofensivo e o Chelsea se segurava, num clima de clara tensão em Stamford Bridge. Mas não que os aurinegros fizessem tanto na criação, pecando nesse aspecto. Faltava penetração ao BVB, sem finalizações por um bom período. E a entrada de Denis Zakaria no lugar de Enzo Fernández aumentava a presença física. Quando Bellingham surgiu na área, aos 44, foi para uma mera cabeçada torta.

Os seis minutos de acréscimos prolongavam a vida do Dortmund. O problema é que o time já não parecia acreditar mais. Continuava exposto aos avanços em velocidade do Chelsea e ainda viu Wolf perder a cabeça numa discussão com Chilwell, que só gerou tumulto e amarelos. A esta altura, os zagueiros alemães estavam no ataque. Mesmo assim, não parecia ter gente o suficiente no time, com Bellingham tentando se multiplicar para gerar algo. Num cruzamento pelo lado esquerdo, o meio-campista tentou surpreender Kepa, mas o goleiro fez a defesa com segurança. Já aos 50, quando finalmente surgiu o lance limpo, para Wolf bater, Reece James abafou e Kepa segurou. Era o último suspiro antes que a eliminação se consumasse.

A eliminação é inegavelmente frustrante para o Borussia Dortmund. O momento dos aurinegros era claramente melhor que o do Chelsea antes do confronto. Porém, os londrinos possuem mais recursos e conseguiram a vitória necessária nesta quarta-feira. Não foi um time perfeito, longe disso, especialmente por todas as oportunidades desperdiçadas até que o placar fosse aberto. Ainda assim, o time buscou o resultado e avançou. Tem elenco para dar trabalho, mas também precisa de mais futebol quando pegar adversários com mais peso.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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