Champions League

O Benfica x Ajax da Champions rememora os duelos titânicos entre os timaços de Eusébio e Cruyff

Ajax e Benfica viveram uma passagem de bastão em 1969, antes que os holandeses consolidassem sua força na semifinal de 1972

A partida no Estádio da Luz nesta quarta-feira trará para o gramado duas equipes que vêm de campanhas marcantes na fase de grupos da Champions League. Mais do que isso, o duelo possui um significado enorme ao passado. Benfica e Ajax estão entre as camisas mais pesadas da competição continental, por histórias imponentes na própria construção da identidade do futebol europeu. Os benfiquistas estremeceram a Copa dos Campeões nos anos 1960, enquanto os ajacieden provocaram uma revolução nos anos 1970. E, claro, há episódios em comum. Em 1968/69, ocorreu uma espécie de passagem de bastão entre os clubes, nas quartas de final. Já em 1971/72, os Godenzonen consolidaram seu poderio numa semifinal diante dos encarnados.

O primeiro embate, em 1968/69, viu duas equipes de estaturas diferentes no continente. O Ajax estava em sua quinta participação na Copa dos Campeões e buscava sua afirmação. Dois anos antes, tinha eliminado o Liverpool com direito a uma goleada por 5 a 1 nas oitavas de final. Porém, caiu para o Dukla Praga nas quartas e nunca tinha ido além disso. O Benfica podia não viver os seus melhores anos, mas sua reputação o precedia. Mantinha nomes importantes da base bicampeã em 1960/61 e 1961/62. Os encarnados tinham disputado outras três finais desde então, sempre derrotados, inclusive na edição anterior contra o Manchester United. A famosa maldição de Béla Guttmann imperava.

Nas fases anteriores, o Ajax havia passado por cima de Nuremberg e Fenerbahçe, com nove gols marcados e só um sofrido. Rinus Michels dirigia o esquadrão em formação, já estrelado por feras como Johan Cruyff, Piet Keizer, Sjaak Swart, Wim Suurbier e Velibor Vasovic. Já o Benfica não tomou conhecimento do Valur, com direito a um 8 a 1, antes de pular as oitavas. Otto Glória estava no comando do timaço abrilhantado por Eusébio, Mário Coluna, António Simões, José Torres e outras estrelas.

O embate até parecia ter sido resolvido na ida, em Amsterdã. O Benfica visitou o Estádio Olímpico e não tomou conhecimento dos anfitriões, mesmo lidando com as dificuldades provocadas pelo rigoroso inverno europeu. Apesar da máxima de que os lusitanos não jogavam bem no gelo, desta vez triunfaram em um gramado coberto por uma densa camada de neve e com os termômetros batendo os sete graus negativos. Vitória contundente por 3 a 1, que encaminhava a classificação.

Jacinto marcou o primeiro do Benfica aos 32, de pênalti, e Torres ampliou cinco minutos depois, numa bola roubada na entrada da área. O Ajax até esboçou uma reação no início da segunda etapa, quando Inge Danielsson descontou numa pancada dentro da área, mas o terceiro benfiquista viria na sequência, com José Augusto conferindo de cabeça o escanteio. Até pelo poderio benfiquista, a TV holandesa desacreditou da virada dos Ajacieden e decidiu não exibir a volta em Lisboa.

A missão do Ajax não era fácil, ainda mais encarando 60 mil torcedores no Estádio da Luz. Mas a capacidade do time de Rinus Michels ficaria expressa ali. Cruyff chamou o jogo para si. O camisa 14 havia ficado mordido por certa soberba notada entre os lusitanos e, endiabrado, participou de três gols logo na primeira meia hora de jogo. Os Ajacieden tiveram um tento anulado de cara, que não fez tanta falta porque Cruyff cruzou para a cabeçada certeira de Danielsson aos nove minutos. Isso até que o show particular do camisa 14 começasse.

Cruyff anotou o segundo três minutos depois, num rebote do goleiro José Henrique. Já aos 31, o craque deitou e rolou. Driblou goleiro e deu uma caneta no zagueiro, antes de finalizar com a meta aberta. A classificação ficava nas mãos dos holandeses, mas o Benfica conseguiu reagir no segundo tempo. Torres descontou aos 25, de cabeça. Com os 3 a 1 revertidos no marcador, seria necessário realizar o jogo-extra para definir a classificação, em duelo agendado para três semanas depois. O Estádio Olímpico de Colombes, palco de alguns episódios históricos do esporte, recebeu um jogo emblemático naquele 5 de março de 1969.

Cerca de 40 mil torcedores holandeses viajaram até a França, empolgados pelo momento. O estádio parisiense estava abarrotado, com aqueles que não conseguiram ingressos pendurados em altas árvores para tentar ver algo. O resto do país também parou para assistir ao jogo, com escolas liberando os alunos mais cedo e empresas permitindo que os funcionários pausassem o trabalho. “Quando estávamos sentados no ônibus a caminho do estádio, passamos pela Champs Élysées e haviam dezenas de milhares de torcedores do Ajax por lá, Isso realmente nos deu um sentimento especial, que ressaltou a importância do jogo. Nós só poderíamos sair de Paris de uma maneira, e era vencendo”, declarou o atacante Klaas Nuninga, tempos depois. Cumpriram a intenção, com o triunfo por 3 a 0.

Até parecia que o equilíbrio iria prevalecer em Colombes, diante do gramado pesado. O placar zerado se manteve ao longo dos 90 minutos, levando o duelo à prorrogação. Foi quando o Ajax desencantou, sobrando fisicamente contra um adversário mais envelhecido. Cruyff abriu a contagem logo aos dois minutos, contando com uma falha de José Henrique. Danielsson ampliou ainda no primeiro tempo extra, enchendo o pé num rebote, e também fechou a conta na segunda etapa, com direito a toquinho por cobertura. Ao apito final, uma invasão de campo massiva se desencadeou. Os heróis holandeses eram carregados nos braços pelos torcedores.

“Com o resultado que conseguimos em Amsterdã, todos pensaram que o apuramento estava garantido. Houve algum deslumbramento em alguns companheiros de equipe. Um deles até desvalorizou, na véspera ao jantar, o próprio Cruyff, que tinha estado apagado no primeiro jogo. Viram o baile que Cruyff deu”, afirmaria António Simões, nome histórico dos benfiquistas, em entrevista ao Diário de Notícias em 2018. “Essa eliminatória foi a transição para o início de uma grande equipe, que tinha Cruyff e a primeira grande geração de futebolistas holandeses. É o Ajax que dá continuidade à supremacia europeia do Benfica”.

O Ajax seguiu às semifinais, nas quais superou o forte Spartak Trnava. O potencial do esquadrão se tornava ainda mais claro. Na decisão, porém, a tripleta de Pierino Prati rendeu uma goleada incontestável ao Milan no Santiago Bernabéu, por 4 a 1. Os holandeses teriam que aguardar um pouco mais pela consagração, mas já reivindicavam o protagonismo.

O Feyenoord se tornou o primeiro clube holandês a conquistar a Champions, em 1970. O Ajax dava a volta por cima com o título de 1971. O Benfica, eliminado na moedinha pelo Celtic em 1969/70 (após a retirada do jogo-desempate do regulamento), se ausentou da edição seguinte do torneio. E o retorno dos encarnados guardaria o reencontro com os ajacieden em 1971/72, na semifinal. Os holandeses passaram invictos pelas fases anteriores, sem se intimidar com Dynamo Dresden, Olympique de Marseille e Arsenal – ganhando tanto ida quanto volta de franceses e ingleses. Já a campanha lusitana tinha deixado para trás Wacker e CSKA Sofia, antes de uma goleada por 5 a 1 sobre o Feyenoord, para reverter a derrota no primeiro confronto das quartas.

Já veterano, Eusébio era acompanhado por uma nova geração representada por Nené e Rui Jordão. O inglês Jimmy Hagan estava no comando do Benfica neste momento. Pelo Ajax, Cruyff estava em seu auge e se mantinha ao lado de Swart e Keizer, mas tinha munição ainda melhor com o surgimento de Johan Neeskens, Arie Haan, Ruud Krol e outros nomes célebres da Laranja Mecânica. Rinus Michels tinha partido rumo ao Barcelona, mas o alto nível no comando da equipe era resguardado por Stefan Kovacs.

O placar seria bem menos movimentado do que três anos antes. No Estádio Olímpico de Amsterdã, o Ajax precisou pressionar bastante até furar o bloqueio e construir a vitória por 1 a 0. O gol saiu aos 19 do segundo tempo, numa falta inteligentemente cobrada por Piet Keizer. Sjaak Swart passou com tudo por trás dos defensores e surgiu sozinho na área, para fuzilar José Henrique com uma cabeçada indefensável. Dentro do Estádio da Luz, o empate por 0 a 0 bastou, com grandes defesas do goleiro Heinz Stuy e os Godenzonen demonstrando que também sabiam defender. Na decisão, os Ajacieden comemoraram o bicampeonato contra a Internazionale. Seriam ainda tricampeões diante da Juventus em 1973.

Foram quase cinco décadas até que os clubes novamente se encarassem pela Champions. Na fase de grupos de 2018/19, Noussair Mazraoui garantiu o triunfo do Ajax por 1 a 0 na Johan Cruyff Arena, enquanto Jonas e Dusan Tadic balançaram as redes no 1 a 1 da Luz. Os Godenzonen passaram de fase para uma campanha que lembrou os melhores tempos do clube, com a caminhada até as semifinais. Desta vez, as duas potências do passado esperam que o confronto sirva de bom presságio a tempos tão nostálgicos quanto novamente gloriosos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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