Champions League

O Bayern lamenta detalhes que custaram a queda na Champions, mas também sabe que o fim do reinado tem contextos mais profundos

Os bávaros já vinham em declínio, comparando com o ótimo desempenho na temporada anterior, e existem rusgas internas que também explicam alguns problemas

O reinado do Bayern de Munique se encerra na Champions League com uma eliminação na qual os alemães ficaram aquém de seu potencial. A queda diante do Paris Saint-Germain não se deve a uma diferença tão gritante entre os times ao longo dos 180 minutos. Entretanto, a falta de efetividade no primeiro jogo cobrou seu preço, ainda mais quando a urgência não resultou na mesma imposição dos bávaros dentro do Parc des Princes. Quando a história do confronto for relembrada, os desfalques serão importantes para se apontar a razão da derrocada do time de Hansi Flick. Ainda assim, também há uma queda de desempenho geral além destes encontros e entraves internos que explicam a despedida de um time que ganhou a edição anterior da Champions com tantos méritos.

O Bayern de Munique caiu de nível em relação à temporada passada, e tal constatação não se deve apenas à eliminação na Champions. A queda é até natural, considerando a maneira avassaladora como os bávaros se apresentaram na reta final do torneio continental e da Bundesliga. Entretanto, a intensidade do futebol já não era a mesma no começo de 2020/21. O ataque se mostrava menos objetivo, enquanto a defesa parecia ainda mais exposta. A maratona de jogos, sem uma pré-temporada bem feita, influenciam neste declínio. Além disso, mesmo o encaixe coletivo não parecia tão grande como antes.

Alguns jogadores importantes no Bayern de 2019/20 não mantiveram o sarrafo para 2020/21. Alphonso Davies talvez seja o que perdeu importância de forma mais perceptível, em meses atrapalhados também pelas lesões. Diagnosticado com COVID-19 recentemente, Serge Gnabry poderia ser importante contra o PSG, mas é outro que não consegue ser tão preponderante quanto na temporada passada. Enquanto isso, a zaga não vê fases tão confiáveis de Jérôme Boateng e David Alaba, enquanto o ciclo de ambos se encaminha ao fim.

Em compensação, outros protagonistas aumentaram sua influência. Neuer se vê numa forma ainda melhor que na temporada passada, essencial em muitos jogos, até pela maneira como esteve exposto. Esta vitória sobre o PSG acaba se tornando simbólica, com o goleiro sustentando as esperanças até o fim, graças às suas excelentes saídas do gol. Joshua Kimmich também dita mais o funcionamento da equipe, e seu desfalque na virada do ano se tornou um problema claro aos bávaros. E neste momento, as perdas de Robert Lewandowski e Leon Goretzka atrapalharam as pretensões na Champions.

Lewa vinha conseguindo ser ainda mais letal que na temporada passada, o que por si é impressionante. O time do Bayern até possui outras alternativas ofensivas com suas demais peças, mesmo que Eric Maxim Choupo-Moting esteja anos-luz atrás como centroavante reserva. E que o camaronês não tenha ido mal contra o PSG, é bem claro como o time sentiu a ausência do polonês. No primeiro jogo, com Lewa, certamente os bávaros não teriam anotado apenas dois gols com aquele volume criado. Mais do que isso, o centroavante é essencial para prender a marcação adversária e abrir espaços aos companheiros. Algo que faltou no Parc des Princes.

Já Goretzka vinha de uma temporada excelente, ainda melhor que a anterior. É um volante que pisa na área e contribui bastante na definição, além de ser muito forte fisicamente. O deslocamento de Alaba por ali mudou as características do time contra o PSG e o Bayern careceu dessas chegadas. Acabou muito dependente do jogo pelas pontas, o que não se tornou suficiente por si. Kingsley Coman, outro de temporada melhor que a anterior, até iniciou o lance do primeiro gol em Paris. Já Leroy Sané, que ainda não é o craque que os bávaros esperavam quando o contrataram, tentou bastante no segundo tempo e não viu seus lances terem continuidade. Thomas Müller, bem travado pelos volantes do PSG, acabou aparecendo menos desta vez.

A falta de mais jogadores ao Bayern era um assunto corrente na temporada e, com o departamento médico cheio, fica em evidência com a eliminação na Champions. Vale lembrar que a equipe também não tinha Corentin Tolisso e Douglas Costa nestas quartas de final, dois componentes importantes para preencher o elenco e que poderiam ser úteis num jogo como o desta terça. Jamal Musiala surge bem, mas acabou jogado na fogueira como possível salvador nos minutos finais do Parc des Princes e pouco fez. Já no desespero, a alternativa de Hansi Flick foi trabalhar com Javi Martínez de centroavante. As saídas de Thiago Alcântara, Philippe Coutinho e Ivan Perisic não necessariamente tiveram reposições a altura e, com um elenco um pouco mais curto, o Bayern sentiu o erro no planejamento da forma mais indigesta. Nem todas as posições estão bem cobertas e, em alguns setores, as apostas mais baratas não surtiram efeito.

A falta de investimento no elenco, aliás, é um dos principais motivos à possível saída de Hansi Flick do clube. O treinador não esconde a insatisfação com a maneira como o Bayern agiu no mercado, não melhorando o elenco campeão em 2019/20, assim como possui discussões com o diretor Hasan Salihamidzic sobre o tempo de jogo de alguns jogadores. A decisão do dirigente em não renovar com Boateng teria aumentado o conflito. Muitas promessas da base permanecem imaturas e, numa sequência de jogos em que os atletas à disposição se tornaram mais escassos, a razão ficou com o treinador.

Não dá para colocar a eliminação na conta de Flick, ainda que alguns problemas do Bayern sejam antigos, como a própria maneira como a defesa permanece exposta. O treinador aposta suas fichas numa marcação mais alta e os melhores momentos da equipe também dependeram desta postura no Parc des Princes, mesmo que a vitória por 1 a 0 tenha correspondido mais à sorte do que ao juízo dos bávaros. Dentro dos elementos no tabuleiro, a impressão é que a queda corresponde a detalhes. Detalhes que poderiam ter rendido uma vitória ao Bayern na Allianz Arena ou também um triunfo do PSG em Paris. Mas, mesmo sendo circunstâncias de jogo, esses detalhes geram debates maiores sobre aquilo que poderia ter sido feito internamente.

O objetivo do Bayern de Munique para a reta final da temporada será a conquista da Bundesliga. Apesar do tropeço contra o Union Berlim no final de semana, com uma equipe remendada e com destaques poupados, o clube precisaria fazer muita coisa errada para deixar a Salva de Prata escapar diante da atual vantagem de cinco pontos. Contudo, mesmo se o eneacampeonato vier, 2020/21 acaba se tornando uma temporada de ressaca depois de tantas histórias marcantes em 2019/20. Na Champions, os bávaros sucumbiram naquele que parecia seu primeiro teste real. Já na Bundesliga, o time não encontrou adversários a altura nos confrontos diretos e isso acaba sendo determinante ao conforto atual, apesar de alguns deslizes ao longo da campanha e de muitas oportunidades em que os alvirrubros precisaram buscar a virada.

Resta saber qual o destino de Hansi Flick para a próxima temporada. Se as desavenças com Salihamidzic não seriam por si um motivo para a saída, a chance de assumir a Alemanha depois da Eurocopa parece oferecer a deixa perfeita ao adeus do treinador, até por seu histórico no Nationalelf. Pela maneira como transformou o Bayern na temporada passada e tirou o máximo desses jogadores com um futebol extremamente ofensivo, Flick está na história do clube. Mas há sinais de desgaste, em diferentes sentidos, que não repetem o efeito positivo de 2019/20. Há um elenco mais do que qualificado para retomar o favoritismo na Champions que vem, com os devidos reforços, mas mexer com os brios nem sempre é tão simples e a renovação de lideranças na defesa também não se sugere tão fácil. A seleção talvez se torne um passo mais atrativo para que Flick se desligue dos problemas atuais, mantendo-se ainda como um dos principais técnicos do mundo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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