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O adeus a Paco Gento, o Senhor Champions League e a personificação das glórias do Real Madrid

Gento é o recordista em títulos da Champions (seis) e de La Liga (12), consagrado como um dos melhores pontas da história do futebol

O Real Madrid colecionava craques naqueles anos 1950 e, mesmo assim, em muitos jogos pendia para a esquerda. Alfredo Di Stéfano, Ferenc Puskás, Raymond Kopa e outras lendas tantas vezes preferiam acionar o ponta voraz para destruir as marcações. Paco Gento era um craque que traduzia sua excelência na bola, mano a mano, encarando os defensores. Os dribles fulminantes e as arrancadas imparáveis eram uma marca do espanhol, que inúmeras vezes decidiu jogos para aquele que é considerado por muitos como o melhor time do Século XX. Tal vitalidade ainda permitiu uma carreira longeva, de quase duas décadas no mais alto nível. E garantiu que a importância de Gento se convertesse também em títulos, muitos, 23 no total. Ainda hoje permanece como único jogador a ter vencido a Champions League seis vezes. Assim será lembrado, como lenda, em seu adeus aos 88 anos.

Paco Gento é uma personificação da história vitoriosa do Real Madrid e, nesse sentido, supera outros ídolos gigantescos do clube – de Di Stéfano a Cristiano Ronaldo. Não existe melhor maneira de mensurar o poderio merengue através de um atleta do que com o ponta esquerda. Porém, a camisa branca não foi a única que vestiu ao longo de sua carreira. Nascido na cidade Guarnizo, em 22 de fevereiro de 1933, o atacante deu seus primeiros passos na Cantábria natal.

Filho de um motorista de caminhão, Gento precisou deixar os estudos aos 14 anos para ajudar a família no sustento. Cuidava de umas vaquinhas que tinham num sítio e ofereciam outra fonte de renda. O esporte já era um escape ao garoto. “Meu pai, que foi jogador no Cultural de Guarnizo, não queria que eu fosse atleta. Tivemos nossas brigas. Ele queria que eu ficasse no campo ordenhando as vacas e alimentando o gado. Ficava bravo quando eu ia jogar… Mas eu saía sempre que podia”, contou anos atrás, ao jornal El País.

O futebol, em pleno processo de popularização na Espanha, ganharia um talento. Gento defendeu pequenos clubes locais na adolescência, como o Nueva Montaña e o Unión Club de El Astillero. Ao mesmo tempo, sua capacidade física acima do comum também levou o cântabro para as pistas de atletismo, onde ele participava de competições locais. Porém, foi a velocidade associada com os dribles e os chutes potentes que realmente o levaram mais longe. A carreira de jogador começou a desabrochar no Rayo Cantabria, pelo qual estreou na terceira divisão nacional. A equipe era a filial do Racing de Santander, recém-promovido à elite de La Liga, e foi para lá que o ponta seguiu às vésperas de completar 20 anos.

Defender o Racing de Santander, seu clube de infância, era um sonho para Gento. Isso se cumpriu no Campeonato Espanhol de 1952/53, no qual o atacante seria uma das revelações dos verdiblancos. No entanto, a aventura por lá não duraria muito. Foram apenas dez jogos, com dois gols marcados, para que o talento do ponta esquerda chamasse atenção de centros maiores. Foi assim que o Real Madrid contratou o novato, sob as ordens do presidente Santiago Bernabéu. A assinatura precisou acontecer às escondidas, já que os torcedores racinguistas perseguiram o representante madridista em Santander, porque não queriam ver seu prodígio partir. Aos 20 anos, a lenda merengue começaria a desabrochar a partir de 1953/54, num momento fundamental de transformação ao próprio clube.

O Real Madrid já era reconhecido como um dos clubes mais tradicionais e importantes da Espanha naquele momento. Porém, atravessava uma seca de duas décadas no Campeonato Espanhol. O título mais recente dos merengues tinha sido conquistado em 1932/33, ano de nascimento de Gento. As glórias naquele intervalo se restringiam a quatro troféus na Copa do Rei. Naquela época, o Madrid era apenas o quinto maior vencedor da liga nacional (atrás de Barcelona, Athletic Bilbao, Atlético de Madrid e Valencia), enquanto os seis vices sobrepunham as duas taças. Foi a partir de então que o cenário do futebol espanhol começou a virar. Teve grande contribuição de Gento e também de outro reforço daquela temporada de 1953/54: Di Stéfano, que finalmente pôde estrear depois de uma longa batalha com o Barcelona.

Gento disputou 17 partidas naquela edição do Campeonato Espanhol de 1953/54. Seria um nome frequente entre os titulares, mas não com a dimensão que ganharia pouco tempo depois. Errava muitos lances básicos e isso gerava cobranças. Tanto é que o presidente Bernabéu pensou em negociá-lo com o Osasuna, mas mudou de ideia após conversar com Di Stéfano. A Flecha Loira defendia que o garoto tinha qualidades inatas e poderia se desenvolver muito. Estava certíssimo. Desde já, ainda assim, aos 21 anos Gento contribuía para o fim de uma seca que durou também 21 anos. Ali começava a se erguer também um dos maiores esquadrões da história.

Gento seria imprescindível nesse fortalecimento do Real Madrid, ganhando mais e mais espaço, ao aprimorar seu talento bruto. A partir de 1954/55, o cântabro ganharia a parceira do argentino Héctor Rial, com quem formou uma dupla fantástica pelo lado esquerdo e que o ajudou a dosar melhor sua velocidade. Se muitos companheiros não conseguiam acompanhar o ritmo de Gento, a partir de então sua explosão domada se colocou mais a serviço da equipe. O que se converteria em mais títulos, com o bicampeonato espanhol em 1954/55 e o troféu da Copa Latina, importante torneio que serviria de protótipo logo depois para a Copa dos Campeões.

“Sempre gostei de futebol e aprendi com todos. Se Di Stéfano desse de calcanhar, eu tentava. Se Rial me dava um passe na medida, eu também tentava. Eu me atrevia a tabelar com eles. E a velocidade eu levava de fábrica. Pegava a bola, corria e, quando olhava para trás, os demais vinham no meio do campo e eu estava na área. Com a esquerda tinha uma batida espetacular. O que aprendi foi frear e essa terminou sendo minha melhor arma. Ia a todo vapor e, de repente, pisava na bola. O defensor passava reto e se estatelava na lateral. Muitas vezes eu senti pena deles. Quando eles iam me conhecendo, muitas vezes vinham atrás de mim, mas eu era esperto e dava um salto quando os ouvia, como um zumbido em meu ouvido. Mas algumas vezes me calçavam, é claro”, definiu Gento, sobre seu estilo de jogo, ao jornal El País.

A explosão do Real Madrid aconteceu no momento certo para, a partir de 1955/56, o clube se ratificar como a maior potência da Europa. Cada vez mais maduro em seu futebol, Gento produzia muitos gols e assistências. Seria ele também um diferencial na afirmação daquele time lendário. A conquista da primeira Champions teria uma noite especialmente decisiva do cântabro. Pelas quartas de final, em pleno Natal, o ponta esquerda teve uma senhora atuação contra o Partizan Belgrado. Marcou um gol e conduziu os 4 a 0 no placar, que seriam vitais à classificação, diante da derrota por 3 a 0 em Belgrado. Em Paris, por fim, Gento pôde botar as mãos na Orelhuda pela primeira vez após o triunfo sobre o Stade de Reims. A vitória por 4 a 3 na final seria definida por um gol de Rial, mas com passe de Gento. Um gosto por decidir que se iniciava ali e se repetiria várias vezes.

O Real Madrid registrou mais um bicampeonato espanhol naquela sequência dos anos 1950, ao faturar o troféu em 1956/57 e em 1957/58. Gento atravessava uma fase excelente, com sete gols em cada uma dessas campanhas. Entretanto, a prioridade se via mesmo na Champions, onde os merengues construíam seu status mítico. As chegadas de outros craques como Kopa e Puskás com o passar dos anos não comprometiam em nada o espaço do jovem. Pelo contrário, reforçavam seu talento para romper as linhas de marcação e criar jogadas aos companheiros. Os adversários ganhavam mais e mais motivos para se preocupar, mas o ponta esquerda era sempre uma das principais tormentas a cada duelo com aquele timaço madridista.

Gento contribuiu ao bicampeonato da Copa dos Campeões em 1956/57 com destaque à final, quando marcou o segundo gol na vitória por 2 a 0 sobre a Fiorentina, dentro do Bernabéu. Seria um tento à sua melhor característica, com uma disparada por todo o campo de ataque, antes de dar um leve toque na saída do goleiro. O tri em 1957/58 contaria com mais três gols de Gento, inclusive o mais importante daquela campanha: um chute cruzado na prorrogação que garantiu o triunfo por 3 a 2 sobre o Milan em Bruxelas, quando os colegas de time estavam exaustos e a locomotiva pela esquerda comandava as ações no tempo extra. Já no tetra, o ponta esquerda adicionou mais um gol à sua contagem e esteve presente em todos os minutos da campanha, que culminou em nova taça diante do Stade de Reims.

A conquista do Real Madrid mais celebrada naquele quinquênio, ainda assim, aconteceu com o penta em 1959/60. Aos 26 anos, Gento estava no ápice de sua forma, a ponto de marcar 15 gols em La Liga – seu recorde pessoal. Porém, se não deu para levar o título espanhol na disputa com o Barcelona, o troco se deu na Champions. Os merengues eliminaram os barcelonistas nas semifinais, com duas vitórias por 3 a 1, e Gento seria um dos melhores em campo naqueles confrontos. A decisão, por fim, rendeu a famosa vitória por 7 a 3 sobre o Eintracht Frankfurt em Glasgow.

Os gols no Hampden Park foram divididos entre os quatro de Puskás e os três de Di Stéfano. Quem viu aquela decisão, ainda assim, ficou boquiaberto com o futebol apresentado por Gento. A atuação esplendorosa dos madridistas dependeu demais das arrancadas, dos dribles e da fome de bola daquele ponta esquerda habilidoso. Na sequência, o Real Madrid ainda disputou a primeira decisão da Copa Intercontinental / Mundial Interclubes, contra o Peñarol. Gento deu o golpe de misericórdia nos 5 a 1 do título na volta em Madri. Seria um dos gols mais emblemáticos de sua carreira, aliás, num chute por cobertura da intermediária.

A partir do início dos anos 1960, a geração do Real Madrid atravessou uma transição. A equipe deixou de emendar seus títulos na Champions, embora tenha chegado a mais duas finais, com derrotas para timaços de Benfica e Internazionale. Em compensação, os merengues se consagrariam com um até então inédito pentacampeonato espanhol. De 1960/61 a 1964/65, ninguém conseguiu competir com os madridistas. O ponta esquerda era uma figura central daqueles times, intocável na posição. Foram 38 gols divididos naqueles cinco troféus. E, com o adeus de Di Stéfano, Gento passaria a usar a braçadeira de capitão. Era chamado pelos companheiros mais jovens de “O Grande Capitão”, com uma personalidade discreta, em que não deixava que o ego fosse maior do que sua bola. Seu currículo, afinal, falava por si.

Aquele mesmo intervalo dos anos 1960 marcou ainda o momento mais importante de Gento com a seleção da Espanha. O ponta esquerda estreou no time principal em 1955, aos 22 anos, e a partir de 1957 teve lugar cativo na equipe titular. A frustração seria grande naquele momento, com um time fortíssimo que não conseguiu se classificar para a Copa do Mundo de 1958. O craque merengue também fez parte do elenco da Euro 1960, que desistiu da competição em meio aos conflitos geopolíticos da ditadura franquista com a União Soviética. E a empreitada não seria tão mais feliz em 1962, apesar da presença no Mundial do Chile. A frustração naquela Copa aconteceu com a campanha encerrada precocemente na fase de grupos, com uma derrota amarga para o Brasil. Gento esteve em campo como titular nos três compromissos e se destacaria especialmente na vitória sobre o México, com uma arrancada por todo o campo que valeu a assistência para o gol decisivo de Joaquín Peiró.

Em 1963, Gento teve a honra de compor a seleção do mundo que enfrentou a Inglaterra em Wembley, num jogo festivo que marcou o centenário do futebol. E ainda teria sua parte na conquista da Euro 1964, o título mais importante da Espanha no Século XX. O ponta esquerda participou do início da qualificação e inclusive marcou um gol fundamental, na vitória por 1 a 0 sobre a Irlanda do Norte em Belfast na fase equivalente às oitavas de final, após o empate em San Mamés. Porém, voltando de lesão, seria ausência na fase final disputada em Madri e, do lado de fora, viu os companheiros serem campeões continentais. Apesar disso, consta na lista de vencedores. E estava longe de viver seu ocaso da carreira, pela forma como brilhava com a camisa do Real Madrid.

A história de Gento na Champions, afinal, ainda não estava completa. O capitão teria mais um capítulo dourado a escrever. E ele aconteceu em 1965/66, com a chamada geração dos “Yé-Yé”, que tinha Amancio Amaro e Pirri como novos protagonistas. O ponta esquerda de 33 anos, de qualquer maneira, era o elo com aquele esquadrão pentacampeão europeu. Seguia decisivo e, assim, se tornou o primeiro jogador da história a festejar seis títulos europeus. Gento de novo foi titular nas nove partidas do Madrid. Marcou três gols, dois deles valendo a classificação sobre o Anderlecht nas quartas de final. Já na decisão, era o dono da braçadeira na vitória por 2 a 1 sobre o Partizan Belgrado e levantou a orelhuda.

O sucesso de Gento naquele momento era tão grande que, três anos depois, ele voltou a ser chamado para a seleção espanhola. Integrou a equipe que disputou a Copa do Mundo de 1966, titular nas duas primeiras partidas, embora de novo a campanha da Fúria tenha se encerrado de maneira precoce. A partir de então, suas chances nas convocações seriam esporádicas. Mesmo assim, com uma ou duas aparições por ano, o capitão do Real Madrid ainda vestiu a camisa vermelha da seleção até 1969. Em 14 anos de serviços prestados, somou 43 partidas (segundo com mais internacionalizações pela Espanha até aquele momento) e cinco gols marcados.

Mesmo superando os 34 anos, Gento continuou arrebentando pelo Real Madrid. Chegou a 12 títulos em La Liga, com um novo tricampeonato em 1966/67, 1967/68 e 1968/69. O ponta esquerda tinha muita bola e marcou 27 gols naquele triênio. Também faturou pela segunda vez a Copa do Generalíssimo (a atual Copa do Rei) em 1969/70, apenas seu segundo título no torneio, após ter levado o troféu inédito à sua galeria em 1961/62. Tal feito ainda permitiu que Gento disputasse a última final continental de sua carreira em 1970/71, a nona de sua trajetória, do alto de seus 38 anos. Já era reserva dos merengues na Recopa Europeia, mas ainda assim participou da maior parte daquela caminhada até a decisão, vencida pelo Chelsea num jogo-desempate. Era hora de se despedir, com exatas 600 partidas e 182 gols. É o sexto com mais aparições pelo clube e o oitavo em tentos.

Gento teve uma carreira modesta como treinador após a aposentadoria. Treinou o Real Madrid Castilla, antes de passar por clubes menores como Castellón, Palencia e Granada. Também ingressou brevemente na política. Sua relação com o Real Madrid, ainda assim, era umbilical. O ex-atacante ocupou a presidência de honra dos merengues e era personagem onipresente em vários eventos do clube – especialmente nos momentos vitoriosos na Champions League, quando as façanhas daqueles timaços dos anos 1950 e 1960 eram relembradas. Gento permanecia como memória viva daquela época, à medida que se despediu de vários companheiros históricos com o passar dos anos.

E a adoração ao redor de Gento não era apenas por ser uma lenda viva, por simbolizar grandes histórias. Era também por sua personalidade sensível e tímida, que não precisava de exageros para dimensionar o grandioso. Assim acabava aclamado por torcedores de outros tantos clubes que não carregam no peito o madridismo. “Não sou daqueles que estufa o peito, nunca fiz isso. Sou pouco estirado de estatura e também de caráter”, dizia. Bastava conhecer seu passado para reconhecer, no entanto, que ali estava um gigante.

Um ato que representa essa personalidade veio em 2016, quando Gento decidiu doar 1600 objetos colecionados em sua carreira para o Real Madrid. Eram camisas, troféus, fotografias, documentos, medalhas e outros artigos de uma coleção riquíssima, um tesouro que passou a fazer parte do museu merengue. “Eu me sinto orgulhoso de ceder meu patrimônio ao clube que me deu tudo. Vivi muitos de meus momentos mais felizes jogando no Real Madrid e agora sigo desfrutando o time. Quando decidi ceder meu patrimônio, não sabia que tinha tantas coisas que podiam interessar… Quero agradecer a todos os meus companheiros, que me ajudaram durante minhas 18 temporadas, e a todos os madridistas por demonstrarem seu carinho sempre”, comentou na época.

Neste domingo, o nome de Gento mais uma vez tinha ganhado amplas manchetes ao redor do mundo, em especial na Espanha e no Brasil. Marcelo igualou o número de títulos do cântabro pelo clube, 23 no total. Porém, se o lateral possui cinco supercopas nacionais e três europeias para engordar sua conta, além de quatro mundiais, o grosso das taças de Gento é composto por suas seis Champions e por suas 12 Ligas. Nesses quesitos, seus dois recordes persistem. E talvez demore um pouco para que consigam superá-lo. É a lenda que viverá muito além dos 88 anos de Gento. “O futebol foi tudo na minha vida. Às vezes eu acordo e me vejo jogando futebol. Sonho que estou jogando a Champions. Vivo das minhas lembranças”, dizia. Um sonho compartilhado com milhões de madridistas, por décadas, que adorariam ser Gento.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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