Maradona e Careca x Trio holandês: Os anos que nutriram a rivalidade entre os esquadrões de Napoli e Milan
Napoli e Milan foram frequentes adversários diretos pelo Scudetto na segunda metade dos anos 1980 - Maradona se deu melhor mais vezes, mas o esquadrão de Arrigo Sacchi é que reinou na Champions
A partir desta quarta-feira, Napoli e Milan abrem seu primeiro confronto internacional da história. Não se nega o peso do encontro pelas quartas de final da Champions League, especialmente numa temporada em que os napolitanos devem suceder os milanistas como donos do Scudetto. Ainda assim, dá para discutir se este é o maior momento em conjunto dos dois clubes. Numa época em que a Serie A se colocava como a melhor liga do planeta, durante a década de 1980, celestes e rossoneri tiveram dois dos maiores esquadrões da história – e concomitantemente. Assim, foi muito comum que o timaço liderado por Maradona e Careca batesse de frente com o esquadrão estrelado por Van Basten, Gullit, Rijkaard, Baresi e Maldini. É verdade que, na antiga Copa dos Campeões, o Milan se deu muito melhor e levou duas taças consecutivas, enquanto o Napoli festejava a Copa da Uefa. Já no Campeonato Italiano, as brigas pelo troféu eram bem mais ferrenhas e diretas. Uma rivalidade que se reaviva na memória nessas quartas de final.
Os primeiros grandes choques entre Milan e Napoli datam mesmo antes dos anos 1980. Não era tão comum que os celestes brigassem por títulos da forma como acontecia com os rossoneri, mas as equipes coincidiram no topo das competições nacionais durante a virada das décadas de 1960 e 1970. Em 1967/68, os milanistas conquistaram um Scudetto que os impulsionou ao segundo troféu na Copa dos Campeões. Para tanto, tiveram que deixar os napolitanos comendo poeira na segunda colocação da tabela. Já em 1971/72, os dois times chegaram a se confrontar na decisão da Copa da Itália. Melhor para o Milan liderado por Gianni Rivera, que derrotou o Napoli de Dino Zoff por 2 a 0 no Estádio Olímpico de Roma.
E o início da década de 1980 seria agridoce para os dois clubes. O Milan vinha da conquista da Serie A em 1978/79, antes de encarar o primeiro rebaixamento de sua história em 1979/80, envolvido no escândalo do Totonero. Voltou para a elite na temporada seguinte, mas sofreu um novo rebaixamento em campo e só se restabeleceu depois disso, mas no meio da tabela. O Napoli, por sua vez, teve uma terceira colocação em 1980/81, mas também seria ameaçado pelo descenso pouco depois, com dificuldades para acertar a mão nas contratações quando o fluxo de astros estrangeiros começou. O ponto de virada aos clubes atende, mais especificamente, a dois nomes.

Para o Napoli, a transformação começa a partir da compra de Diego Armando Maradona em 1984. É verdade que o craque ainda levou um tempo para se adaptar no Estádio San Paolo, mas impulsionou as perspectivas de seu time gradativamente. Depois do oitavo lugar em 1984/85, numa campanha de recuperação no segundo turno, os celestes já ficaram com a terceira colocação em 1985/86. Enquanto isso, o Milan pintava no meio da tabela, mas lidava com uma severa crise financeira que botava em risco inclusive sua sobrevivência. Foi o quinto em 1984/85, caindo para o sétimo posto em 1985/86. A guinada só se inicia em fevereiro de 1986, quando a salvação nos bastidores acontece depois que Silvio Berlusconi, magnata das comunicações, se torna o novo dono dos rossoneri.
Com Maradona do outro lado, mas sem Berlusconi, o Milan treinado por Nils Liedholm ainda se deu melhor sobre o Napoli de início. Empatou no San Paolo e venceu no San Siro durante a temporada 1984/85, impondo a única derrota dos celestes no segundo turno da Serie A, além de eliminar os sulistas nas oitavas da Copa da Itália. Já em 1985/86, esquentando os motores para a Copa do Mundo, Diego venceu ambos os embates. O jogo do segundo turno, no San Siro, aconteceu quase dois meses depois que Berlusconi havia adquirido o Diavolo. Os napolitanos emplacaram um triunfo por 2 a 1. Bruno Giordano abriu o placar e Maradona ampliou a contagem, com seu primeiro gol diante dos milaneses. Foi um lindo tento, em que encarou a marcação tripla e mesmo assim achou espaço para um chute no cantinho. Angostino Di Bartolomei descontou cobrando falta depois, mas o goleiro Claudio Garella se redimiu da falha com grandes defesas, para segurar a vitória.
A rivalidade entre Napoli e Milan começa a ganhar novas dimensões mesmo em 1986/87. Ainda nem tanto pelos milanistas. É a primeira temporada completa de Berlusconi à frente do Diavolo e as contratações começam a chegar, a exemplo de Daniele Massaro, Roberto Donadoni, Alessandro Costacurta e Giovanni Galli. Outras figuras como Franco Baresi, Mauro Tassotti, Pietro Paolo Virdis e um imberbe Paolo Maldini, aos 18 anos, já são importantes. Mesmo assim, a equipe dirigida por Nils Liedholm tem uma cara diferente em relação ao que se tornaria célebre, com Ray Wilkins e Mark Hateley servindo de dupla estrangeira. O Napoli de Ottavio Bianchi, por sua vez, já era mais respeitado como potência. Maradona atingia seu ápice após a conquista da Copa do Mundo. Vinha muito bem acompanhado por figuras como Ciro Ferrara, Alessandro Renica, Salvatore Bagni, Fernando De Napoli, Bruno Giordano e Andrea Carnevale.
O duelo do primeiro turno na Serie A 1986/87 não seria muito digno de lembranças. Num gramado castigado, transformado em lama pela chuva, Milan e Napoli empataram por 0 a 0 no San Siro. Foi uma partida dura, de muitas faltas, que não atrapalhou a liderança napolitana àquela altura. O reencontro dentro do San Paolo ocorreu no final de abril, num momento em que o Scudetto inédito começava a se tornar cada vez mais concreto aos partenopei. E o triunfo por 2 a 1 reforçou um pouco mais as credenciais da equipe de Ottavio Bianchi. O Napoli resolveu o jogo no primeiro tempo. Giordano cruzou para Carnevale abrir o placar de cabeça e também serviu um lançamento magistral para Maradona fazer o segundo. O melhor de Diego: dominou de maneira sublime, driblou o goleiro Giulio Nuciari e bateu às redes vazias. Bem na defesa, o time da casa só cedeu o desconto no fim, a Virdis. Foi a última vitória da campanha, com três empates no fim que selaram o troféu.
O Napoli não só manteria a força para a temporada 1987/88, como também traria Careca. Já o Milan passaria por uma revolução mais profunda depois do quinto lugar. Arrigo Sacchi chegou como uma grande aposta no banco de reservas, após trabalhos incensados nas divisões de acesso, o último deles à frente do Parma. Carlo Ancelotti era uma nova liderança para o meio-campo, enquanto a dupla estrangeira mudava de nacionalidade: Wilkins e Hateley saíam, enquanto Ruud Gullit e Marco van Basten desembarcavam para adicionar mais qualidade ao setor ofensivo. Definitivamente, os rossoneri mudavam de patamar e se colocariam como concorrentes diretos dos napolitanos pelo Scudetto.
O primeiro duelo dessa nova era seria logo de cara histórico, em janeiro de 1988, ainda pelo primeiro turno da Serie A. O Napoli vinha de um início arrasador e liderava com 21 pontos, invicto. As vitórias sobre Juventus e Verona antes do Natal respaldavam o timaço antes da volta após o Ano Novo. Já o Milan ocupava o terceiro lugar, com 16 pontos, levando um tempo para engrenar. Mesmo assim, dezembro tinha sido frutífero, ao ganhar de Internazionale e Roma. E aquele mês ainda guardaria um destaque especial a Gullit, que recebeu a Bola de Ouro como melhor jogador da Europa, depois de ter quebrado o recorde como futebolista mais caro da história até então, ao se transferir a Milão. O embate contra os napolitanos sublinhou a fase espetacular do holandês. Foi o líder da goleada por 4 a 1.
O placar elástico levou um tempo para se indicar. Aos dez minutos, Maradona descolou um lançamento fabuloso e Careca matou no peito, batendo por cobertura para abrir o placar. A reação do Milan começou nove minutos depois, num passe rasante de Gullit para Angelo Colombo anotar. E em meio a essa pressão, a virada não demorou a sair. Virdis assinalou com insistência, logo aos 24. Os milanistas acumulavam bolas na trave, bem como defesaças de Garella. Todavia, na segunda etapa, os rossoneri consolidaram o resultado. Ancelotti achou Gullit, que driblou o goleiro para fazer o terceiro. Já o quarto seria de Donadoni, com falha de Garella. Gullit deixou o campo aplaudido, enquanto o salto de qualidade com Sacchi ficava expresso. Apesar disso, os napolitanos ainda sustentavam uma vantagem de três pontos na dianteira.
Mesmo com a perseguição implacável do Milan, o Napoli se manteve na primeira colocação. Perdeu contra Roma e Juventus no segundo turno, mas preservou a liderança até a antepenúltima rodada. A reviravolta ocorreu exatamente no reencontro com os rossoneri dentro do San Siro. Aquela vitória dos milanistas por 3 a 2 talvez tenha sido o grande embate entre os dois times no período. Maradona e Careca bem que tentaram, mas Gullit faria a diferença com suas assistências, assim como Virdis garantiria os primeiros gols. Também seria uma tarde especial a Van Basten, que sofreu com as lesões na temporada, mas saiu do banco e anotou o tento que valeu o triunfo. Um ponto atrás antes que a partida começasse, os milanistas terminaram o dia com um ponto à frente. E não deixariam mais a primeira colocação escapar.
O Napoli era até mais perigoso no início do primeiro tempo, mas o Milan saiu em vantagem aos 36 minutos. Numa falta desviada, Virdis apareceu no meio do caminho para guardar. O empate napolitano veio com Maradona, da forma mais clássica, numa cobrança de falta na gaveta. No entanto, os rossoneri voltaram com mais força para a segunda etapa, especialmente depois de Sacchi trocar Donadoni por Van Basten. Virdis se reencontrou com as redes aos 23, ao completar o cruzamento de Gullit. E também seria uma jogadaça de Gullit, puxando o contra-ataque, que serviu o terceiro para Van Basten aos 31. Careca até descontou de cabeça aos 33, mas os celestes não passariam disso. O Milan ainda venceu a Juventus na rodada seguinte e goleou o Como para ficar com o Scudetto. O Napoli, com o moral moído, perdeu para Fiorentina e Sampdoria.
Em tempos nos quais só o campeão da Serie A disputava a Champions, o Milan iniciou uma dinastia continental a partir de 1988/89, com a conquista do título europeu após 20 anos. Superou times fortíssimos de Estrela Vermelha, Werder Bremen e Real Madrid, antes de receber a Orelhuda com goleada sobre o Steaua Bucareste. Também por essa limitação no número de participantes no torneio principal, a Copa da Uefa era muito mais valorizada, e assim o Napoli foi aclamado ao faturar o título secundário. Também foi uma campanha em que bateu adversários pesados – como Bordeaux, Juventus, Bayern e Stuttgart. Apesar disso, não chegaram a se encarar na Supercopa Europeia, em que o vencedor da Copa dos Campeões media forças com o dono da Recopa. Naquela temporada, voltados às frentes internacionais, os dois times foram coadjuvantes de uma imparável Internazionale no Campeonato Italiano. Mas ainda ofereceram grandes duelos.
O primeiro jogo aconteceu na sétima rodada, quando a Inter já tinha começado a se desgarrar na liderança. Os dois esquadrões tentavam uma perseguição, e o Napoli se valeu da revanche para devolver a goleada da campanha anterior. O San Paolo entrou em ebulição com os 4 a 1 aplicados pelos partenopei, em que nem a chegada de Frank Rijkaard àquela altura auxiliou os milaneses. Maradona e Careca estavam afiadíssimos. O camisa 10 abriu o placar com um gol por cobertura, após grande lançamento de Massimo Crippa. Depois, tabelou com o camisa 9, que guardou o segundo num contra-ataque. Giovanni Francini ampliou no início do segundo tempo, num rebote, até que Virdis finalmente descontasse de pênalti. Mas caberia o quarto, de novo com Careca, em mais um contragolpe no qual o artilheiro concluiu com muita qualidade. Além dele, Diego também estava imparável em seus dribles. Os celestes saíram ovacionados.
Já o reencontro, no segundo turno, ocorreu num momento em que Napoli e Milan estavam mais interessados na frente continental. Os napolitanos ainda abriram a rodada seis pontos atrás da Internazionale, mas uma reviravolta parecia bastante difícil, com mais 11 partidas pela frente. Os milanistas até deram uma forcinha aos rivais citadinos, com o empate por 0 a 0 em San Siro. Maradona foi ausência num jogo em que os milanistas foram melhores, mas pararam no goleiro Giuliano Giuliani. Dez dias depois, o esquadrão de Arrigo Sacchi enfiaria os memoráveis 5 a 0 sobre o Real Madrid nas semifinais da Champions. Na mesma data, os napolitanos empataram com o Bayern por 2 a 2 em Munique e avançaram à final da Copa da Uefa, num duelo até mais lembrado pelo mágico aquecimento de Diego no Olympiastadion.
A Internazionale não manteve a toada na Serie A 1989/90. Assim, a competição brindou mais uma corrida particular entre Napoli e Milan pelo Scudetto, mesmo que os rossoneri paralelamente conquistassem o segundo título consecutivo na Champions. Os celestes ganhavam o comando de um antigo ídolo milanista, Albertino Bigon, campeão do Scudetto em 1978/79 como jogador do Diavolo. Outro nome importante que recebia destaque desde a temporada anterior era Alemão, levado depois que a federação italiana passou a permitir a adição de um terceiro estrangeiro nos elencos. Enquanto isso, os milanistas azeitavam as engrenagens do que já era um time muito temido sob as ordens de Arrigo Sacchi.
O jogo do primeiro turno aconteceu de novo na sétima rodada, num momento em que a briga pelo Scudetto não estava totalmente definida. O Napoli deu show no San Paolo, com os 3 a 0 no placar, em semanas nas quais o Milan sofria com o desfalque de Gullit. E seria uma tarde imperial de Maradona, que fazia as pazes com a torcida depois de uma pré-temporada muito conturbada, em que quase saiu para o Olympique de Marseille. Durante o primeiro tempo, Diego fez as vezes de garçom. Foram dois cruzamentos do camisa 10, para dois gols de Carnevale antes do intervalo. As jogadas geniais do argentino se encadeavam, com sequências de dribles e muita hierarquia. Faltava seu gol, que veio com uma sutileza tremenda já na reta final: deixou o goleiro Galli no chão, antes de dar um leve toque de cavadinha por cima do adversário. Na saída de campo, o craque fez questão de levar a camisa de Franco Baresi.
Já entre o final de janeiro e o início de fevereiro, Napoli e Milan tiveram três embates seguidos. As duas equipes se enfrentavam nas semifinais da Copa da Itália, bem como pelo segundo turno da Serie A. Era um momento de ameaça aos napolitanos, que ainda estavam na dianteira do Campeonato Italiano, mas viam uma ascensão marcante dos milanistas. Primeiro aconteceu a ida na Coppa, com empate por 0 a 0 no San Siro, sem a presença do trio holandês. Muito mais pesado seria o confronto pela Serie A, especialmente porque os rossoneri estavam somente dois pontos atrás e poderiam se emparelhar aos celestes com um triunfo. Foi exatamente o que aconteceu, com sonoros 3 a 0. Van Basten faria a diferença, ao se recuperar de lesão, enquanto Careca, também voltando ao time, não ajudaria tanto ao sair do banco.
Diante de 70 mil torcedores no San Siro, o Milan não conseguiu inaugurar o placar no primeiro tempo, mas já foi mais perigoso. Tudo se abriu no início da segunda etapa, com um gol de cabeça de Massaro. Os milanistas mandaram uma bola na trave na sequência, enquanto Alemão saiu de maca, contundido. Maldini tratou de ampliar após cobrança de falta, enquanto um escanteio gerou o terceiro, de Van Basten, em nova jogada aérea. Alberico Evani teve contribuição especial, com suas três assistências. A corrida pelo Scudetto se sugeria completamente aberta.
Três dias depois, o reencontro aconteceu no San Paolo, pela Copa da Itália. O Milan venceu de novo, por 3 a 1, e se classificou à final. Massaro abriu o placar no primeiro tempo e Van Basten ampliou de pênalti no segundo. Também na marca da cal, Maradona parecia recolocar seu time no páreo, até que Massaro ampliasse num tento em que driblou até o goleiro Giuliani. Era um golpe duro ao Napoli, que dez dias depois ainda viu os rossoneri se isolarem na liderança da Serie A, graças a uma ajuda da Inter na vitória sobre os celestes. A situação na reta final da temporada era preocupante.
O calendário do Milan, no entanto, estava cheio. Conciliar a Serie A com a decisão da Copa da Itália e com as fases finais da Champions não seria simples. E os tropeços naturalmente se tornaram mais frequentes na liga, o que alimentava as chances do Napoli. De qualquer maneira, os milanistas permaneceriam nove rodadas no topo da tabela, até que a reviravolta ocorresse nas duas últimas partidas. Num momento em que o time de Arrigo Sacchi eliminava o Bayern nas semifinais da Champions e perdia a decisão da Coppa diante da Juventus, também sofria uma controversa derrota para o Verona na penúltima rodada da Serie A, que entregava a primeira colocação ao Napoli. Assim, na rodada final, pouco adiantou a goleada dos milaneses sobre o Bari. A comemoração aconteceu no San Paolo, onde os napolitanos derrotaram a Lazio por 1 a 0. O consolo do Milan ocorreria semanas depois, com a vitória sobre o Benfica que deu o bi da Champions.
A Champions de 1990/91 foi a primeira que Napoli e Milan disputaram de maneira concomitante. Não chegaram a se encontrar. Os napolitanos caíram nas oitavas de final, eliminados nos pênaltis pelo Spartak Moscou, num momento em que a relação de Maradona com a perseguição da imprensa italiana chegava ao limite. Os milanistas até passaram pelo Club Brugge nesta fase, mas foram eliminados depois pelo Olympique de Marseille, num duelo mais lembrado pela saída dos rossoneri de campo após uma queda de energia no Vélodrome, quando os marselheses já estavam se classificando. Spartak e Olympique fizeram exatamente a semifinal, com a passagem dos franceses, derrotados apenas na decisão pelo Estrela Vermelha. Já a Serie A, naquela temporada, foi da Sampdoria.
O Milan chegou a sonhar com o Scudetto e ocupou a liderança no fim do primeiro turno, mas sem fôlego para acompanhar o time forte da Samp na segunda metade do campeonato. Melancólico, o Napoli teve um desempenho de meio de tabela, muito mais atrapalhado por todas as disputas ao redor de Maradona. Durante o primeiro turno, as equipes empataram por 1 a 1 no San Paolo. Os milanistas foram melhores no primeiro tempo, mas os napolitanos cresceram na segunda etapa, para Maradona marcar o primeiro de pênalti. O empate dos visitantes sairia com Gullit, num jogo muito quente, com disputas em campo e também nas arquibancadas.
Já no segundo turno, o reencontro aconteceu a uma altura em que o Milan estava um ponto atrás da Sampdoria e o Napoli já se via 11 pontos atrás. Diferença na tabela que também se expressou no placar do San Siro, com a goleada rossonera por 4 a 1. Um gol contra de Ciro Ferrara abriu a contagem, enquanto Gullit aumentou antes do intervalo num contragolpe. Rijkaard ampliou numa infiltração e o quarto surgiu num tiro rasteiro de Donadoni. Só então Giuseppe Incocciati descontou em cobrança de falta. O atacante tinha entrado no lugar exatamente de Maradona, substituído no início do segundo tempo, antes do terceiro gol milanista. Aquela foi a última derrota de Diego com a camisa celeste. Duas rodadas depois, ele seria pego no exame antidoping após a vitória sobre o Bari e suspenso pelo uso de cocaína. Um final melancólico a uma rivalidade tão fervorosa contra o trio holandês.
Depois disso, a queda do Napoli na tabela da Serie A se escancarou, ao passo que o Milan construiria um tricampeonato sob as ordens de Fabio Capello. E as goleadas seriam comuns naquele triênio. Os rossoneri enfiaram 5 a 0 no primeiro turno de 1991/92, mesmo num momento em que os napolitanos ainda apareciam entre os primeiros colocados. Maldini e Van Basten comandaram o show, com um gol e duas assistências para cada. Já no segundo turno, o empate por 1 a 1 no San Paolo, com os napolitanos em terceiro, selou o 12° Scudetto dos milanistas. O Milan ainda teria um 5 a 1 no primeiro turno de 1992/93, com nada menos que quatro gols de Van Basten, numa das maiores atuações da carreira do centroavante – e numa das últimas, pouco antes que as lesões abreviassem sua trajetória. O empate por 2 a 2 no segundo turno já via os times bem distantes. E o Milan ainda fez 2 a 1 no San Siro em 1993/94, antes de uma rara vitória por 1 a 0 do Napoli no San Paolo, que não atrapalhou o tri e nem o embalo da equipe que também faturou a Champions.
Os duelos se tornaram mais raros a partir da virada do século, com a crise financeira que obrigou o Napoli a renascer nas divisões de acesso, enquanto o Milan voltava a reinar na Champions. Depois disso, o equilíbrio de forças se inverteu na última década, com a recuperação dos napolitanos como uma potência nacional e os períodos irregulares dos milanistas a partir da saída de Silvio Berlusconi em Milanello. A última temporada em que os rossoneri ganharam as duas partidas dos celestes na Serie A foi em 2010/11, quando ficaram com o Scudetto. Depois disso, os triunfos dos partenopei se tornaram mais comuns, incluindo também suas goleadas. A noção de que os times voltaram a se tornar rivais diretos se deu na temporada passada, quando o Napoli até começou bem a Serie A, mas perdeu fôlego e viu o Milan se desgarrar para levar o Scudetto depois de 11 anos. Já na atual campanha, se os milanistas não conseguiram acompanhar o ritmo impressionante do time de Luciano Spalletti no topo da liga, os 4 a 0 recentes mostram como a rixa segue viva. E o atropelamento bota tempero ao que se decidirá na Champions, em noites que podem ser tão marcantes quanto aquelas de Maradona, Van Basten, Careca, Gullit e tantos outros craques.



