Champions League

Mahrez exibiu um gosto especial ao jogar na sua Paris e fez uma de suas mais importantes atuações pelo City

O Manchester City deu uma pitada de sorte nos dois lances decisivos, mas também teve competência para transformar um jogo difícil a partir de suas soluções táticas e criar o momento favorável à virada no Parc des Princes. A vitória por 2 a 1 sobre o Paris Saint-Germain teve mais de funcionamento coletivo do que exatamente de protagonistas. Mas, entre aqueles que desequilibraram, Riyad Mahrez merece uma menção especial. O ponta marcou o segundo gol do seu time, numa cobrança de falta que passou no meio da barreira. A sorte sorriu. Porém, o argelino também foi um dos jogadores mais ativos na melhora de sua equipe e participou intensamente para o resultado favorável aos celestes, num lugar tão significativo à sua própria história.

Mahrez despontou no Leicester como um dos atacantes mais irresistíveis da Premier League e, não à toa, foi eleito o melhor jogador do campeonato em 2015/16. Era uma estrela por seus gols, seus dribles e pela forma como potencializava o jogo reativo (mas agressivo) das Raposas. A individualidade do argelino muitas vezes bastava, e melhor ainda quando rendia uma tabelinha com Jamie Vardy. Mahrez não saiu de imediato do Estádio King Power e, mais do que estar presente na primeira Champions da história do clube, também foi o grande destaque na caminhada até as quartas de final.

Depois de estourar em Leicester e ainda disputar duas temporadas na sequência do histórico título, Mahrez acreditou que poderia mais, deixando clara sua vontade de sair. E ficava difícil de recusar uma proposta do Manchester City, sob as ordens de Pep Guardiola, com um dos melhores elencos do mundo. O argelino chegou respaldado ao Estádio Etihad, mas não necessariamente desfrutou do estrelato. Nem sempre foi titular e nem sempre seu estilo de jogo pareceu se encaixar tão bem no coletivo dos celestes. Até confessou que demorou a se adaptar às dificuldades, contra adversários mais fechados. Foi campeão da Premier League em 2018/19 e seria um dos mais efetivos em 2019/20, indicando a confiança crescente, mas não desfrutava da unanimidade. Até parecia que, em momentos nos quais sua individualidade era mais necessária, ficava em falta.

Nesta temporada, Mahrez se mostra mais importante ao Manchester City. O próprio sistema de jogo adotado por Guardiola parece beneficiar o atacante, com mais movimentação e recursos. A habilidade dele acaba mais valorizada, assim como seu estilo amadureceu. O argelino já vinha de um bom momento na sequência de vitórias dos Citizens na Premier League, conquistando o seu espaço em definitivo. E virou um homem de confiança nos mata-matas da Champions. Contra o Dortmund, mesmo sem ser o mais aclamado, ajudou com gol e assistência. Já diante do PSG, deixou sua marca de forma mais expressa.

O centro de gravidade do Manchester City é De Bruyne. O belga parece ter ainda mais influência neste momento do time, mesmo colecionando temporadas excepcionais antes. Não foi diferente contra o PSG, pela forma como dita o ritmo e ajuda a potencializar o sistema. No entanto, sempre sobra espaços para um escudeiro despontar. Contra o Dortmund, Phil Foden fez melhor este papel. No Parc des Princes, Mahrez deu um passo à frente. Durante o primeiro tempo, assim como o restante do time, o argelino não se sairia tão bem. Mas cresceu pouco antes do intervalo e foi importante durante o segundo tempo.

Considerando a carência do PSG na lateral esquerda, a participação de Mahrez na ponta direita ajudava bastante. O argelino chamava o jogo e dava amplitude à equipe, com ações constantes e criando bons lances. Não à toa, era um alvo costumeiro das faltas cometidas pelos adversários. Poucos foram os erros do ponta, que seria bastante solidário também sem a bola. E se a intensidade de Mahrez não gerou necessariamente um gol de placa, o camisa 26 acabou premiado por linhas tortas. Não cobrou bem a falta (segundo suas próprias palavras, a intenção era mandar por fora da barreira), mas os adversários deram a brecha necessária para que ele levasse o papel de herói. É o gol mais importante dos 37 que já marcou pelos Citizens, dando uma vantagem notável para o reencontro no Estádio Etihad.

E a noite especial acontece num lugar bastante familiar a Mahrez. O argelino é mais um dos imigrantes nascidos na periferia de Paris, na cidade de Sarcelles, onde há uma grande comunidade árabe. Lapidou seu talento jogando nas ruas, antes de iniciar sua trajetória num pequeno clube local e pouco depois ser pinçado pelo Le Havre, prolífico formador de talentos. Apesar das raízes na capital, o garoto cresceu torcendo pelo Olympique de Marseille e chegou também a recusar uma proposta do Paris Saint-Germain nos primeiros anos de carreira, avaliando que poderia ter mais chances num clube menor como o Le Havre. Assim, o encontro com o PSG trazia um significado amplo. Mais recentemente, Mahrez até declarou que não descartaria uma proposta dos parisienses, com desejo de atuar um dia em sua cidade. Mas a oportunidade veio antes, através da Champions, e certamente ele teve uma motivação a mais no Parc des Princes.

Talvez a comemoração tenha guardado ainda uma lembrança de Ahmed, pai de Mahrez, que faleceu quando o garoto tinha 15 anos. O eletricista argelino também foi jogador e atuou por equipes amadoras enquanto morava nos arredores de Paris. Não teve a chance de entrar em campo no Parc des Princes, mas certamente se orgulharia de ver o filho brilhando por lá.  A morte de Ahmed foi um marco para Riyad levar a carreira mais a sério, depois de ser recusado em bases de clubes profissionais por ser franzino. Num jogo tão marcante, o camisa 26 exibiu toda a sua energia para sair com a virada e, parte essencial num coletivo forte, anotou um gol para nunca mais se esquecer.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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