Champions League

Jack Grealish, o elenco do Manchester City e aquele algo a mais que nem todo dinheiro do mundo pode comprar

Grealish ficou marcado pelas chances perdidas no Bernabéu, mas a culpa não é dele - embora seja um pouco também

Desde que Pep Guardiola foi contratado, o Manchester City gastou quase £ 1 bilhão em reforços, cerca de 10% desse total em Jack Grealish. Existem explicações (juro): transferências entre integrantes da mesma liga costumam ser mais caras; clubes ingleses precisam de um mínimo de jogadores formados no país; e ele era o craque do Aston Villa, relativamente saudável do ponto de vista financeiro. Seria injusto dizer que a eliminação na semifinal da Champions League nesta quarta-feira foi exclusivamente culpa de Grealish, mas se espera que um jogador de mais de £ 100 milhões não perca duas chances de matar um jogo tão importante como ele fez no Santiago Bernabéu nesta quarta-feira.

Injusto inclusive porque na hora, assim que Ferland Mendy cortou em cima da linha ou Thibaut Courtois fez uma defesa maravilhosa com a ponta dos pés, não parecia que aqueles gols fariam falta. O City havia ampliado a vantagem que construíra no Etihad Stadium com gol de Riyad Mahrez e estava no controle. O Real Madrid de tantas reviravoltas nesta Champions League parecia, finalmente, morto. Havia levado certo perigo, mas Vinícius Júnior não fazia grande jogo. Karim Benzema não fazia grande jogo. Nem aquele abafa final parecia estar no horizonte quando o cronômetro chegou aos 90 minutos.

Independentemente do quanto você acredita que resultados devam influenciar na análise, este jogo é um caso de estudo maravilhoso. Porque Rodrygo marcou aos 45 minutos do segundo tempo, depois marcou aos 46 minutos do segundo tempo, Benzema sofreu e converteu um pênalti na prorrogação, e de repente todos os jogadores do Manchester City são ruins, as alterações de Guardiola foram péssimas e surgiu um domínio do Real Madrid no final do tempo regulamentar que nunca existiu. Talvez seja uma tentativa de aplicar lógica a um acontecimento que tanto a desafia.

A discussão em torno do elenco do Manchester City é muito curiosa. Porque, vou repetir, desde que Guardiola chegou, £ 1 bilhão saiu da conta do xeique dos Emirados Árabes e caiu na conta de vários clubes europeus. Descontando as vendas, o saldo líquido foi de quase £ 600 milhões. Nesse mesmo período, de 2016 para cá, apenas o Manchester United tem um saldo negativo em transferências maior que o do City, ou seja, apenas o United investiu mais do que o City na liga mais rica do mundo – e, ó, dinheiro muito bem gasto, viu, senhor United.

É claro que dá para encontrar buracos no elenco do City. Houve muito interesse por Harry Kane no começo da temporada, mas o Tottenham não cedeu. Falta um centroavante goleador? Às vezes sim, mas muitos analistas táticos também dizem que o acúmulo de meias é crucial para gerar superioridade numérica no campo de ataque e criar as chances que esse centroavante teoricamente converteria. Sem Kane, preferiu não contratar ninguém e esperar, possivelmente, por Erling Haaland. São escolhas, e elas têm mesmo esse hábito meio desagradável de gerar consequências.

Durante todo o reinado de Guardiola é possível apontar para a falta de um lateral esquerdo porque o único contratado, Benjamin Mendy, preso por múltiplas acusações de estupro, raramente passou muito tempo em forma. Zinchenko quebra um galho por ali, mas isso é novamente uma escolha: por que não contratou outro lateral esquerdo? Angeliño, batendo um bolão pelo RB Leipzig, teve apenas 12 jogos quando voltou do PSV antes de ser despachado novamente. E nada disso importa na verdade porque João Cancelo foi um dos melhores jogadores da última temporada europeia como lateral esquerdo do Manchester City.

O City não tem um elenco recheado de estrelas. Por opção. A política, desde a chegada de Guardiola, foi apostar mais em jovens que já tinham certa experiência em alto nível. O técnico catalão também é muito particular em relação aos jogadores com que gosta de trabalhar. Ele e seus diretores tiveram carta branca para montar o elenco que quiseram. Não faltou dinheiro, nem para taxas de transferências, nem para salários. É o maior faturamento do mundo no momento segundo o último relatório da Deloitte. Todo mundo quer jogar na Premier League. Todo mundo quer jogar com Guardiola.

Se na derrota a fragilidade do elenco do clube que gastou £ 1 bilhão é uma justificativa válida, então todos os outros do mundo podem usá-la sempre que perderem. Como o Real Madrid, por exemplo, que terminou o jogo no Bernabéu com Dani Ceballos, Jesús Vallejo e Lucas Vázquez. O Manchester City, no cálculo geral, é o melhor time do mundo desde que contratou Guardiola, empilhando temporada de 100 pontos na Premier League, jogando um futebol fenomenal, e por melhor técnico que o catalão seja, ele não conseguiria isso sem um elenco qualificado.

Sem falar que, nessas condições, se o diagnóstico é que o elenco do Manchester City é frágil, pequeno ou ruim, ou incompleto, ou torto, das duas uma: ou Guardiola, que certamente tem muita influência em quem vai ser contratado, não sabe avaliar a qualidade de um jogador ou ele decidiu trabalhar na Inglaterra com um bando de cabeças de bagres de propósito, por um exercício acadêmico, uma experiência antropológica. É evidente que nenhuma dessas duas hipóteses é verdadeira.

A hipótese mais próxima da realidade? O Manchester City, com as melhores condições do futebol mundial, escolheu seguir um caminho com Pep Guardiola lá em 2016, e esse caminho tem prós e contras. Os prós geraram memórias espetaculares, especialmente no futebol inglês. Geraram, apesar das frustrações, a primeira decisão de Champions League da história do clube. E também houve momentos, mais frequentes na reta final das temporadas, em que os contras pesaram bastante.

Não existe garantia no futebol. Quer perguntar ao Paris Saint-Germain o que acontece quando você contrata vários craques? O próprio Liverpool, tido como um exemplo de melhor formação de time (e de fato é), quase perdeu uma temporada inteira porque não tinha banco de reservas para lidar com uma epidemia de lesões. Não dá para dizer que o Manchester City escolheu o caminho errado. Não dá também para dizer que não cometeu erros de avaliação, momento em que voltamos a Jack Grealish, que vinha de excepcionais temporadas pelo Aston Villa e realmente não teve um bom começo no Etihad Stadium.

Aquelas £ 100 milhões investidas em Grealish poderiam ter gerado uma profundidade maior de elenco ao City. Guardiola também não gosta de grupos muito grandes. Repetiu isso essa semanas. Mas não é culpa de Grealish, nem do elenco, que o City não enfrentará o Liverpool na final de Paris, porque, com esse elenco, incluindo Grealish, o City foi superior ao Real Madrid durante a maioria dos 180 minutos da semifinal da Champions League. Em campo, a história da eliminação foi a história das chances perdidas, desde as do Etihad Stadium até as de Grealish no Bernabéu.

Do ponto de vista tático, individual e financeiro, o City tem os recursos para vencer a Champions League, mas o mais difícil é lidar com o imponderável, a falta de lógica, a pressão mental do mata-mata mais importante do futebol europeu. É superar essa barreira psicológica pela primeira vez. O que não dá para comprar, o que demora para aprender, o que o City ainda não aprendeu a fazer, é como meter dois gols em dois minutos e reverter o curso da história, como o Real Madrid fez nesta quarta-feira, e havia feito nas quartas de final, e nas oitavas de final, e tantas e tantas vezes no passado.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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