Champions League

Indicado por Cech, Mendy recobrou a segurança na meta do Chelsea e deu sua contribuição na classificação à final

Por mais de uma década, o Chelsea desfrutou do talento de um dos melhores goleiros da Europa. Ainda nos primeiros meses da bonança com Roman Abramovich, os Blues bateram na porta do Rennes e contrataram uma jovem promessa. Viram Petr Cech se transformar em lenda da Premier League, central ao sucesso desfrutado em Stamford Bridge, e desequilibrar também na conquista da Champions League em 2011/12. Muito tempo depois, quando faltava um arqueiro confiável aos londrinos, a história se repetiu. O próprio Cech já era dirigente no momento em que o Chelsea recorreu de novo ao Rennes e pinçou outro camisa 1. Édouard Mendy está distante da aura construída pelo tcheco, mas solucionou os problemas dos Blues e apareceu no momento mais importante da temporada até aqui. Foi um dos heróis na semifinal da Champions e ajuda a recolocar os ingleses na decisão depois de nove anos.

A ligação com o Rennes servia de prenúncio aos supersticiosos, mas Mendy dava motivos para que o Chelsea justificasse a aposta. O goleiro não é nenhum garoto, aos 28 anos na época da contratação, mas vivia uma trajetória meteórica. O senegalês começou num clube da terceira divisão francesa e, aos 22 anos, sua carreira parecia acabada quando se viu sem contrato. Abandonado pelo próprio empresário, recebia assistência do governo por estar desempregado, até ganhar um teste no Olympique de Marseille e assinar contrato com o time B. Aquela oportunidade foi sua salvação. Ganhando visibilidade, Mendy foi contratado pelo Stade de Reims em 2016 e virou protagonista na campanha que recolocou o tradicional clube na elite do Campeonato Francês. Depois de sua estreia na Ligue 1, deu um passo maior rumo ao Rennes. E uma temporada com os rubro-negros bastou para se confirmar como um talento, contribuindo na classificação inédita do clube à Champions League.

O Chelsea não pagou barato pelo negócio, desembolsando €24 milhões, três vezes mais que o gasto pelo Rennes um ano antes. Parecia muito a um goleiro de parca experiência na elite do futebol, mas se justificava pelas virtudes de Mendy evidenciadas na Ligue 1. O goleiro possui uma excelente envergadura, que o permite simplificar as ações e tomar conta de seu arco. Mais importante, tanto no Rennes quanto no Reims ele foi muito consistente, acumulando partidas sem sofrer gols e liderando sistemas defensivos seguros. E sua própria história de vida reforçava a seriedade no trabalho do dia a dia, de quem sabia o valor daquela chance, após beirar um fim de carreira precoce. Mendy chegava respaldado do Rennes e com a aprovação de Cech, o que dizia muito sobre a confiança dos Blues em seu potencial.

“Dei minha opinião sobre a contratação de Mendy porque queríamos adicionar ao nosso elenco um tipo diferente de goleiro. Temos Kepa e Willy Caballero, que sempre estavam prontos quando necessário, mas Kepa atravessava um momento difícil e decidimos contratar outro goleiro. Até aqui, Édouard vem sendo ótimo. Observei de 30 a 40 goleiros ao longo dos últimos meses, mas acompanhava Mendy desde antes e via a evolução dele a cada ano. Quando conversamos sobre o que queríamos de um goleiro, o que gostaríamos de agregar, o nome dele veio à minha mente. Lampard teve sua contribuição, assim como os observadores. Decidimos que ele era o goleiro que deveríamos contratar”, contou Cech, em novembro.

Cech foi avisado sobre o talento de Mendy por Christophe Lollichon, seu antigo treinador de goleiros no Chelsea. Desde então, o tcheco passou três anos e meio acompanhando o trabalho do senegalês, quando ele ainda estava no Reims: “Mendy tem qualidades para superar os momentos difíceis. Há muita pressão em vir ao Chelsea, mas quando você já enfrentou pressões diferentes em sua vida antes, como estar sem clube, você pode lidar muito melhor com a pressão do campo”.

Mendy via as portas abertas para assumir a titularidade no Chelsea. Kepa Arrizabalaga tinha chegado como o mais caro goleiro do mundo e o negócio parecia compreensível por seu destaque no Athletic Bilbao, mas nunca foi um arqueiro seguro o suficiente e seu próprio psicológico pareceu afetado com o tempo. Willy Caballero, em fim de carreira, precisou quebrar um galho, mas distante de resolver os problemas. Haveria pressão sobre Mendy, muito mais barato que Kepa, mas mais um gasto para a posição. Contudo, o senegalês não deu margens às dúvidas. Assumiu a posição com Frank Lampard e, mesmo que o Chelsea não fizesse grande campanha, passou cinco de seus primeiros seis jogos na Premier League sem sofrer gols. Era prova suficiente de que ele deveria mesmo ser o dono da posição.

“Minha sequência inicial ajudou na minha integração. Quando você começa bem em um novo clube, isso te dá confiança e ajuda você a se estabelecer rapidamente com os outros jogadores. Fica mais fácil para todos. Além disso, o treinamento me ajudou na adaptação. Aprendi muito com Hilário, James Russell e Petr Cech, estou notando meu progresso. Aprendi aspectos táticos, mas também mentais. Estou feliz por crescer e pela ajuda que eles me dão”, comentou Mendy, naquele início. Henrique Hilário, eterno reserva de Cech, hoje trabalha como treinador de goleiros do Chelsea. James Russell é seu assistente. Já Cech, mesmo no cargo de diretor técnico, continua participando das atividades – e apresentando um desempenho excepcional, tanto que foi inscrito na Premier League caso um surto de COVID-19 provocasse alguma emergência.

Sob as traves, Mendy não é um goleiro espalhafatoso. O senegalês sabe usar muito bem seu tamanho, sem precisar ser o mais ágil. Fecha o ângulo dos adversários, inclusive no mano a mano, e tem calma. Não acumula defesas espetaculares, mas garante uma firmeza importante aos companheiros. Além do mais, costuma sair bem em cruzamentos. Não é perfeito e às vezes concede mais rebotes que o devido, assim como não está na primeira prateleira entre os arqueiros que jogam com os pés. Mas, com ele, o Chelsea parecia uma equipe menos suscetível. E se o goleiro já era um dos destaques na temporada, sem culpa na derrocada que culminou na demissão de Lampard, virou uma barreira a mais no bem armado sistema defensivo de Tuchel.

Das 28 aparições na Premier League, em 16 Mendy não sofreu gols. A única goleada aconteceu nos surpreendentes 5 a 2 do West Brom, uma partida atípica em que sofreu pela forma como sua equipe estava exposta. Tuchel, aliás, tem conseguido trabalhar bem com seus dois goleiros. Não nega que Mendy é o dono da posição e o titular absoluto, mas consegue dar novas oportunidades a Kepa e a recobrar um pouco de sua confiança. O espanhol dificilmente retomará a posição no curto prazo, mas é importante tê-lo pronto se a necessidade chegar. Por sua forma, contudo, o senegalês não concede muitas brechas.

Em toda a Champions, Mendy sofreu apenas três gols. Dois deles aconteceram nos mata-matas, na volta contra o Porto e na ida contra o Real Madrid. Nesta quarta, viveu sua atuação mais decisiva. Tudo bem que o Chelsea foi amplamente superior e os merengues mal finalizaram no segundo tempo. Mas, se a situação se abriu, há méritos do goleiro por suas intervenções no primeiro tempo. Foram quatro defesas, duas delas mais seguras, outras duas mais difíceis. O duelo particular foi travado com Benzema. Quando o atacante arriscou de fora da área e mirou o cantinho, Mendy voou para salvar com a ponta dos dedos. Já depois, se esticou todo para espalmar uma cabeçada venenosa, que tentou encobri-lo. Impediu o empate e deu calma para os Blues cumprirem a missão.

É mais curioso ainda que a classificação contra o Real Madrid tenha acontecido com Courtois do outro lado. O belga era a aposta do Chelsea em longo prazo e acabou encerrando a passagem de Cech na meta do clube. Viveu bons momentos, mas nem sempre se manteve no topo e, quando saiu ao Real Madrid, após uma ótima Copa do Mundo, não se colocava necessariamente como uma unanimidade. Mas era um arqueiro de grife que os Blues perderam. Embora Courtois tenha trabalhado bastante nesta noite e garantido a sobrevida de seu time, Mendy mostrou como ele não necessariamente faz falta em Stamford Bridge.

Mendy talvez não seja goleiro para figurar entre os melhores do mundo. Até por ser pouco exigido, não aparece tanto e nem protagoniza um espetáculo particular. Ainda assim, é um jogador para manter a segurança dos Blues por alguns anos. Se antes Kepa causava uma compreensível preocupação, o senegalês indica que a meta não será um entrave para se resolver nas próximas janelas de transferências. Uma boa campanha assim na Champions League assevera a sua qualidade e abre as portas para construir seu nome em Stamford Bridge. Quem sabe, para seguir os passos daquele outro goleiro descoberto no Rennes, que serve de exemplo e de conselheiro ao atual camisa 16.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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