Champions League

Gerard Moreno lutou, fez o Villarreal melhor e, mesmo com a derrota, sai ainda maior como ídolo do clube

Gerard Moreno foi para o sacrifício e mostrou que, com ele em campo, o Villarreal consegue ser um time bem melhor

Gerard Moreno não precisaria fazer muita coisa a mais com a camisa do Villarreal para disputar o posto de maior ídolo da história do clube. O centroavante é o maior artilheiro do Submarino Amarelo em todos os tempos, com 95 gols, e também foi o grande protagonista no primeiro título da agremiação, a Liga Europa de 2020/21. O camisa 7, porém, sabe que o futuro do time de Unai Emery pode ser ainda mais brilhante. É um dos principais responsáveis por fazer o Estádio de La Cerámica ambicionar novos feitos. E, mesmo que o sonho da Champions League tenha ruído em 45 minutos frustrantes para os espanhóis, Moreno se despede da campanha como herói da epopeia. Impressionou a forma como o artilheiro liderou a equipe em vários momentos dos mata-matas, sobretudo pelo sacrifício diante do Liverpool. Mesmo com a coxa lesionada, o atacante deu outra cara ao time. A reviravolta só seria esboçada com a participação do astro, que não aguentaria tanto enquanto tudo desabava.

Aos 30 anos, Gerard Moreno nunca tinha disputado a Champions League em sua carreira. A trajetória desenvolvida entre Villarreal, Mallorca e Espanyol não garantiu oportunidades anteriores no maior torneio da Europa. Quando o atacante viveu sua primeira passagem pelo Estádio de La Cerámica, ainda jovem, o Submarino Amarelo acabava de retornar da segunda divisão. Depois, quando o camisa 7 voltou em 2018/19, viu seus gols no Campeonato Espanhol levarem o time à Liga Europa. Isso até que o torneio secundário da Uefa servisse exatamente como um trampolim – tanto ao goleador quanto ao clube.

Moreno foi o melhor atacante espanhol da última temporada. Empilhou gols em La Liga, mas seria mesmo decisivo na Liga Europa, com sete tentos e quatro assistências na campanha – tudo isso apenas nos mata-matas. O centroavante balançou as redes na decisão e também converteu seu pênalti na disputa final contra o Manchester United. Num time sem tantos medalhões, o camisa 7 se colocou realmente como estrela. Disputou a Eurocopa, seguiu muito bem cotado em seu país e teve a oportunidade de finalmente jogar a Champions pela primeira vez. Não desperdiçaria a chance.

A temporada de Gerard Moreno em 2021/22 não é tão boa quanto a anterior. E nisso pesa a falta de sequência, com diferentes lesões que custaram seu ritmo com o Villarreal. Durante a fase de grupos da Champions, o camisa 7 disputou apenas três partidas. Ainda assim, comandou a goleada sobre o Young Boys fora de casa, na primeira vitória de um Submarino Amarelo pressionado por dois tropeços nas duas primeiras rodadas. Já no duelo decisivo diante da Atalanta, o triunfo por 3 a 2 teria contribuição do atacante com uma assistência. As ambições se tornariam maiores durante os mata-matas.

Lesionado, Gerard Moreno não enfrentou a Juventus na ida das oitavas de final. Em compensação, foi o cara que mudou completamente o time na vitória por 3 a 0 em Turim. Os 16 minutos em que o camisa 7 esteve em campo foram justamente aqueles nos quais saíram os três tentos, depois de 74 minutos duros aos espanhóis. Moreno contribuiu ao fazer de pênalti, mas ainda mais decisiva seria sua influência no funcionamento da equipe. Era como se os movimentos ofensivos do Submarino Amarelo dependessem da presença do artilheiro.

Contra o Bayern, na ida, Gerard Moreno incomodou bastante os poderosos adversários no Estádio de La Cerámica. O gol não teria participação direta do camisa 7, mas a boa apresentação ofensiva de seu time teria. Uma pena que seu tento não tenha saído, carimbando a trave. Já na volta, que a bola não chegasse ao centroavante na Allianz Arena, ele se movimentou bastante para buscá-la. Representou um respiro ao Submarino Amarelo em vários momentos e, por fim, permitiu o lampejo que concedeu o empate da classificação. O passe na medida para Samuel Chukwueze saiu exatamente dos pés do artilheiro. Resolvia de outras formas.

Nas semifinais, vieram os embates contra o Liverpool. E a importância de Gerard Moreno seria primeiro sentida por sua ausência em Anfield. O Submarino Amarelo mal conseguiu atacar na Inglaterra. Faltava o recurso de jogar a bola na frente para o centroavante brigar e dar um pouco de lucidez às ideias ofensivas do time. Lesionado, o camisa 7 fez muita falta a uma equipe completamente dominada pelos Reds. Assim, era evidente que sua entrada no Estádio de La Cerámica seria imprescindível. Fo o que aconteceu, mesmo que o artilheiro precisasse usar uma bandagem na coxa para segurar a barra.

Como ocorreu naqueles 16 minutos contra a Juventus, Gerard Moreno representou um toque de mágica para o Villarreal durante o primeiro tempo em La Cerámica. O atacante não precisava acertar todas as jogadas, não precisava martelar contra a meta de Alisson. Muito mais valiosa era a sua presença e sua inteligência. O camisa 7 se movimentava não apenas para pressionar a saída de bola do Liverpool, mas também para bagunçar o posicionamento da linha de zaga. Puxava para os lados, voltava para buscar, prendia melhor a bola e acionava seus companheiros. Seus principais lances, inclusive, aconteceram mais recuado – quando dava ótimos passes no início das construções. Não participou diretamente do gol, mas estava lá iniciando as jogadas.

A preocupação com Moreno, todavia, não era apenas dos zagueiros do Liverpool. O atacante ainda demandava cuidados por sua lesão na coxa e, com o passar dos minutos, ficava claro que ele não teria condições para aguentar os 90 minutos. Na volta para o segundo tempo, o Liverpool era outra equipe e o Villarreal não conseguia mais acionar seu centroavante. Quando os dois gols de empate saíram, e o Submarino Amarelo parecia batido, chegou a hora de dar um descanso ao camisa 7. Não dava para exigir mais nada, por aquilo que entregou e pela forma como se entregou.

Não se nega que a eliminação se torna amarga ao Villarreal. O Submarino Amarelo esboçou um milagre e viu tudo aquilo se esfarelar em questão de minutos. Se a semifinal de 2006 acaba lembrada pelo pênalti de Juan Román Riquelme, um lamento dos torcedores nessa semifinal de 2022 é sobre a condição física de Gerard Moreno. Não dá para dizer que os espanhóis passariam com a mera presença de seu artilheiro. Porém, é possível que os 180 minutos se desenrolassem de maneira diferente se o centroavante estivesse sempre presente. Fica apenas a suposição, com o fato concreto do que ele produziu em tão pouco tempo em campo.

Gerard Moreno tem várias virtudes como atacante. Possui presença de área, finaliza muito bem, é frio diante do goleiro. Seu maior mérito, ainda assim, é a inteligência exibida constantemente na percepção dos espaços. É um cara que auxilia muito o coletivo, mesmo que se destaque individualmente. É a face de um Submarino Amarelo que não dependeu de figurões para chegar tão longe, mas de bom entendimento e estratégia. O entendimento e a estratégia da equipe de Unai Emery foram melhores quando o camisa 7 esteve presente para potencializá-los. Moreno consegue sair ainda maior desta Champions do que já tinha feito na Liga Europa.

Gerard Moreno tem um bom tempo em alto nível pela frente. Basta ver como outros centroavantes veteranos têm se dado bem em grandes clubes europeus. O próprio amadurecimento do jogo do camisa 7 é relativamente recente e sua curva de desempenho parece em ascensão. Todavia, os 30 anos de idade talvez sejam uma contraindicação para que siga a times mais badalados. Melhor ao Villarreal. Caso propostas vantajosas não aconteçam, é bem capaz que Moreno se firme por mais tempo como uma lenda do clube. O empenho em campo escancara seu comprometimento com a camisa e a relação especial que sustenta em La Cerámica. Sua história no futebol pode ser maior não por vestir outras camisas, mas por engrandecer ainda mais o Submarino Amarelo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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