Champions League

Enquanto o Rangers realizou um tributo massivo a Elizabeth II, a torcida do Celtic mandou a coroa “às favas”

"Fuck the crown" era a mensagem da torcida do Celtic, horas antes de um imenso tributo realizado pelo Rangers à rainha em Ibrox

A Rainha Elizabeth II passa longe de ser uma unanimidade, mesmo no Reino Unido. E o falecimento da monarca serviu de pano de fundo a mais um episódio da rivalidade da Old Firm, mesmo com as torcidas separadas por quilômetros de distância na rodada da Champions League. Em Glasgow, o Rangers tratou a ocasião como uma grande solenidade. Homenageou Elizabeth II num suntuoso mosaico, respeitou impecavelmente o minuto de silêncio e até cantou o hino ‘God Save the Queen’ – passando por cima da recomendação da Uefa de não executá-lo. Já em Varsóvia, onde o Celtic atuou como visitante, os torcedores exibiram faixas mandando a família real “às favas” – em termos menos polidos, é claro.

Era de se imaginar que a torcida do Celtic se manifestasse contra Elizabeth II nesta quarta-feira, por conta do posicionamento político dos alviverdes. O clube não chegou a manifestar luto em suas redes sociais na última semana e a notícia de que a rodada do Campeonato Escocês seria adiada foi recebida com protestos por torcedores. Nas arquibancadas em Varsóvia, onde os Bhoys empataram por 1 a 1 com o Shakhtar Donetsk, os ultras da Green Brigade estenderam a mensagem em uma faixa. “Fuck the crown”, diziam, numa frase que não precisa de tradução para imaginar onde eles querem enfiar a coroa. Outra faixa dizia “Sinto muito por sua perda, Michael Fagan”, relembrando o homem que invadiu o quarto da rainha em 1982, com um pedaço de vidro na mão, sob a pretensão de cortar os pulsos diante da monarca.

Durante a transmissão da partida, a emissora BT Sport pediu “desculpas a quem tenha se ofendido” quando filmou a torcida do Celtic e, por tabela, a faixa. Além do mais, a Uefa optou por não realizar o minuto de silêncio no duelo na Polônia, ciente que muito provavelmente as vaias tomariam o estádio.

O Rangers teve uma postura bastante diferente desde o anúncio da morte de Elizabeth II – num clube que exibe a foto da rainha até nos vestiários. Os Teddy Bears decretaram luto e conseguiram o adiamento em um dia da partida contra o Napoli. O Estádio Ibrox, então, viu um enorme tributo para a monarca. Muitos torcedores se vestiram de preto. Quando os times entraram em campo, a bandeira do Reino Unido se formou através de um mosaico, com a silhueta de Elizabeth II ao centro. O minuto de silêncio foi assombrosamente respeitado, com os jogadores abraçados no centro do gramado. Logo depois, o hino ‘God Save the Queen’ foi entoado. Os Gers tinham requisitado que a canção fosse tocada, a Uefa vetou e mesmo assim ela ecoou em meio à homenagem.

Dentro de campo, porém, o Rangers não conseguiu cumprir sua missão contra o Napoli. Perdeu por 3 a 0, numa reestreia amarga em casa pela competição continental, no primeiro jogo de fase de grupos de Champions em Ibrox desde a falência dos Teddy Bears. As lembranças ficarão mesmo para a homenagem.

A família real britânica é um dos motivos que marcam a rivalidade entre Celtic e Rangers. Se a divisão entre católicos de origem irlandesa e protestantes costuma ser a mais usada para definir o sectarismo vigente entre as duas torcidas, nem todos nas torcidas pensem da mesma forma, o alinhamento também é uma forma de identidade – como visto, enfatizado pelas próprias administrações dos clubes. E a coroa acaba no centro do debate, entre o apego ao Reino Unido fomentado pelos Teddy Bears e a visão independente encampada pelos Bhoys. Obviamente, isso ia dar as caras nas arquibancadas neste contexto.

Vale lembrar que a Old Firm do primeiro turno do Campeonato Escocês aconteceu no final de semana anterior à morte de Elizabeth II, com a goleada do Celtic por 4 a 0. A realização do clássico neste momento demandaria um aparato de segurança ainda maior que o costumeiro. Protestos e homenagens, além do mais, não são exclusividade dos gigantes de Glasgow. Na última semana, a torcida do West Ham encabeçou o principal tributo a Elizabeth II na rodada da Conference League, ao cantar ‘God Save the Queen’ no minuto de silêncio no Estádio Olímpico de Londres. Em compensação, na Irlanda, a torcida do Shamrock Rovers cantou uma música pejorativa sobre a Rainha num caixão, que rendeu repúdio do próprio clube e da federação irlandesa.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo