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Em 1992, Dream Team arruinou o sonho da Samp e conquistou a primeira Champions do Barça

A lendária equipe treinada por Johan Cruyff venceu Vialli, Mancini, Cerezo e Pagliuca, em Wembley, na prorrogação

Quem acordou para o futebol nos últimos dez anos, e não deu uma checada na Wikipedia, pode pensar que o Barcelona sempre foi um time dominante no cenário europeu. Não é bem assim. O clube catalão inegavelmente sempre foi grande, mas não tinha muita sorte quando deixava as fronteiras da Espanha. Apenas duas de suas oito finais de Champions League aconteceram antes de 1992, quando, exatamente 25 anos atrás, finalmente saiu o primeiro título europeu pintado de azul-grená. E olha que ainda foi no mais puro sufoco.

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A primeira oportunidade de agarrar o troféu mais cobiçado da Europa e levá-lo para casa foi em 1961, quando o meia Luis Suárez comandava um ataque absurdo, com Kubala, Evaristo de Macedo, Czibor e Kocsis. Perdeu a final por 3 a 2 para o Benfica que, ainda sem Eusébio, dava início a uma década de ouro em que chegou a cinco decisões do torneio. A segunda chance saiu nos anos oitenta, mas a partida derradeira, no Ramón-Sánchez, na Espanha, terminou 0 a 0 e, na disputa de pênaltis, nenhum catalão conseguiu acertar o gol a 11 metros de distância. Foi vice do Steaua Bucareste do goleirão Helmuth Duckadam.

A terceira não poderia escapar e, para isso, o Barcelona precisava mudar sua história, como havia determinado Johan Cruyff, quatro anos antes, assim que assumiu o comando do time. Cruyff mexeu em tudo: assumiu controle total do departamento de futebol, implementou a filosofia do Futebol Total, que permeia as ações do clube até hoje em dia, e montou uma equipe espetacular, misturando talento estrangeiro – Koeman, Laudrup, Stoichkov e, mais para frente, Romário – com espanhol – Ferrer, Guardiola, Zubizarreta.

O impacto de Cruyff foi quase imediato. Sua primeira temporada como técnico no Camp Nou terminou com um título europeu. Em Berna, o Barcelona conquistou sua terceira Recopa Europeia contra a Sampdoria, por 2 a 0. Contra a mesma Sampdoria que enfrentaria, três anos depois, em Wembley. Na temporada seguinte, conquistaria a Copa do Rei. Na próxima, o primeiro título espanhol do tetracampeonato do Dream Team – quando Cruyff assumiu como treinador, o Barcelona havia vencido apenas dois títulos da liga espanhola em 28 anos.

No caminho para Wembley, os catalães lideraram o grupo semifinal que tinha Sparta Praga, Benfica e Dínamo de Kiev. A Sampdoria, por sua vez, superou Panathinaikos, Anderlecht e o atual campeão europeu Estrela Vermelha. Era também um período especial para o clube de Gênova, que surfou muito bem nos anos em que o futebol italiano dominou o mundo, com muito dinheiro, todos os craques e principais treinadores. Época em que o Milan dos holandeses e de Arrigo Sacchi foi bicampeão europeu, e que Napoli, de Maradona, Juventus e Internazionale conquistaram três títulos da Copa da Uefa seguidos.

A chegada da Sampdoria à final da Recopa e da Champions League não foi mero acaso. Foi resultado de um bom trabalho comandado pelo técnico Vujadin Boskov, que havia, entre outros feitos, levado o Real Madrid à final europeia de 1981 – derrota para o Liverpool. Assumiu a Samp em 1986, depois de passagens por Sporting Gijón e Ascoli, e apostou em talentos formados em casa, com destaque para a dupla Gianluca Vialli e Roberto Mancini, com o tempero estrangeiro de Toninho Cerezo. E colheu os frutos: ganhou duas vezes seguidas a Copa Itália, derrotando Torino e Napoli, e chegou, também duas vezes seguidas, na decisão da Recopa. Após perder para o Barcelona, ganhou do Anderlecht, com dois gols relâmpagos de Vialli na prorrogação.

Essa sequência já foi excepcional para um clube que passeava, sem grande destaque, entre a primeira e a segunda divisão desde que foi fundado, em 1946, e havia conquistado apenas um título – a Copa Itália de 1985 -, antes da contratação de Boskov. Quando começou o Italiano de 1990/91, ninguém apostou na Sampdoria. Os rivais eram o Milan de Sacchi, a Inter dos alemães, o Napoli de Maradona e uma Juventus que começava a se reconstruir. E a Sampdoria foi lá e venceu, com cinco pontos de vantagem para o segundo colocado – em um momento em que a vitória valia dois pontos – e apenas três derrotas em 34 jogos.

Ou seja, não se deixem enganar pela tradição ou pelo que atualmente é a Sampdoria, um clube médio da Itália. O time que o Barcelona enfrentou, em 1992, era realmente muito bom e fez um jogo duríssimo em Wembley. Koeman abriu os trabalhos com uma cobrança de falta perigosa, que Pagliuca espalmou. No outro lado, Lombardo exigiu uma grande defesa de Zubizarreta. Stoichkov levou muito perigo de cabeça, e Pagliuca trabalhou bem novamente.

Koeman comandava as ações do Barcelona, a partir da defesa, com seus lançamentos sempre precisos, e Salinas quase abriu o placar em uma grande jogada individual, em que venceu a marcação de três jogadores, passando a bola de um pé para o outro, e fez com que Pagliuca tivesse que fazer mais uma grande intervenção. Não seria a última do goleiro italiano, que brilhou em uma defesa dupla, primeiro em chute cruzado de Stoichkov, e depois, à queima-roupa, com Eusebio. Vialli desvencilhou-se de Koeman para interceptar cruzamento de Lombardo e, livre, mandou para fora.

Stoichkov disparou em contra-ataque, pela direita, e acertou o pé da trave. Em jogada parecida, Vialli também escapou e exigiu defesa de Zubizarreta. Logo na sequência, no mesmo setor do campo, Mancini deu um toque brilhante para deixar Vialli na cara do goleiro, mas a tentativa de encobri-lo passou rente à trave. Era incrível que o placar ainda não tivesse sido mexido. Mas era essa a realidade, a final da Copa dos Campeões de 1992 foi para a prorrogação.

Aos 7 minutos da segunda etapa do tempo extra, depois que a Sampdoria havia perdido uma oportunidade que poderia mudar a sua história, com uma cabeçada, em cobrança de escanteio, da entrada da pequena área, em que Zubizarreta havia saído mal do gol, Eusebio foi derrubado. Falta. Koeman na cobrança pela terceira vez. Stoichkov rolou a bola, Bakero parou-a, e o zagueiro holandês acertou um chute preciso, no canto de Pagliuca, que havia salvado a Sampdoria muitas vezes, mas nada poderia fazer, a não ser assistir ao começo da história gloriosa do Barcelona na Champions League.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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