Champions League

Dez anos e muitas frustrações depois, Pep Guardiola está de volta à final da Champions

As eliminações anteriores tiveram naturezas diversas, mas desta vez nada conseguiu se colocar entre Guardiola e o maior jogo da Europa

Villa dominou no semi-círculo do estádio de Wembley e, quase sem pensar, enviou um chute perfeito no ângulo de Edwin van der Sar. Cerca de 20 minutos depois, o Barcelona comemorava o seu quarto título europeu, o segundo em três anos. Aquela também foi a última vez que Pep Guardiola, no mínimo (bem no mínimo) o técnico mais importante deste século, disputou o maior jogo do futebol europeu. Isso mudará em 29 de maio no Estádio Atatürk de Istambul. Dez anos e muitas frustrações depois, ele está de volta à final da Champions League.

Um jejum tão grande causa estranhamento porque Guardiola é extremamente competente e sempre esteve em situação de pelo menos alcançar a decisão. Podemos excluir o seu ano sabático (claro) e a primeira temporada no Manchester City, ainda se adaptando a um futebol diferente e com um elenco desconjuntado. Em todos os outros sete anos, um pelo Barcelona, três pelo Bayern de Munique e pelo Manchester City, poderia ter chegado mais longe.

Ele não tinha a obrigação de disputar a final todas essas vezes – ou uma que fosse -, mas é curioso que não o tenha feito em todas elas. É que passar pelo mata-mata da Champions League é muito difícil e o processo, de maneira um pouco paradoxal quando pensamos em todo seu talento, não combina tanto com Guardiola, o maior viciado em controle do futebol mundial. Não há controle no mata-mata. É tiro, porrada e bomba, e por isso ele é tão fascinante.

Não basta apenas jogar bola muito bem. Precisa haver uma mistura de qualidade com as decisões certas na hora certa de jogadores e técnicos, de planejamento físico para chegar ao fim da temporada ainda com gás e preparo mental para lidar com a pressão. Precisa de sorte para que o árbitro não erre, para que não haja nenhuma lesão importante e, finalmente, para que a bola entre.

Ao longo desses dez anos, as eliminações dos times de Guardiola tiveram uma pitadinha de tudo isso. Ou melhor, a ausência de um pouco de tudo isso. Ele foi acusado de super-analisar o adversário e inventar demais nas escalações. Houve momentos em que isso realmente pesou. Em outros, nem tanto. Cometeu erros, como o próprio admite em relação às semifinais de 2013/14. Teve vezes em que seus jogadores pareceram cansados no fim da temporada. Houve atacante perdendo gol feito (em quase todas teve atacante perdendo gol feito), houve equívocos de arbitragem, houve partidas em que seu time simplesmente não estava à altura e muitas que misturaram mais de um desses fatores.

Contra o Paris Saint-Germain, o Manchester City teve o pacote completo. Ótimos jogadores, embora como um todo o elenco não esteja do nível que se espera de um super-clube (apesar de tudo que gastou nos últimos anos, mais que qualquer outro clube europeu); um treinador completamente confortável, no controle dos seus recursos; e um coletivo melhor que o do adversário, que ainda está com as pernas em dia e engrenou na hora certa. Conseguiu colocar essa superioridade em prática durante três dos quatro tempos do confronto, não foi punido pelo azar, não perdeu grandes chances em demasia, não cometeu erros gritantes na defesa e, se alguma coisa, deu sorte nos gols que marcou em Paris.

Quem foi afetado pelas variáveis acabou sendo o Paris Saint-Germain. Ele já partiu de uma posição de inferioridade por estar ainda no começo de um trabalho, com dificuldades até para conquistar o título francês, enquanto o City domina a Premier League. Não converteu seus breves momentos de domínio em mais do que um gol, teve a lesão de seu segundo jogador mais importante e Pochettino nem tem como saber ainda todas as possibilidades que o elenco lhe oferece – e parece que não são muitas.

Essas variáveis não são todas casuais ou aleatórias, o que é para dizer que o City não passou porque deu sorte, nem Guardiola foi eliminado nas outras vezes porque deu azar, mas elas impedem que um time atinja todo o seu potencial. Às vezes, não é necessário atingir o ápice, como o Bayern de Munique na temporada passada, para ser campeão. E, às vezes, você o atinge e não é bom o suficiente.

Em uma visão mais específica do que funcionou a favor de Guardiola desta vez, chamou a atenção ter terminado o segundo jogo com apenas 44% de posse de bola. Pode ser surpreendente tendo em conta o todo da carreira do catalão. Não esta temporada. A média na Premier League está em 61,2%, ainda alta, mas em queda nas últimas quatro temporadas – 66,4%, 64%, 62,6%. Está em linha com sua primeira campanha na Inglaterra (60,9%), quando os jogadores ainda estavam aprendendo as suas ideias e muitos deles não eram talhados para elas, tanto que houve uma debanda no mercado seguinte.

É apenas um número, claro, e a variação não é tão significativa no papel, mas confirma o que se vê em campo. O City não tem pudor em recuar as suas linhas quando necessário, em deixar a bola com o adversário de vez em quando. Não abre mão de atacar e buscar o gol. Não é uma retranca. Mas é uma adaptação a uma outra maneira de defender que não se baseia apenas em pressão. É uma outra maneira de controlar o jogo que não se baseia apenas em posse de bola.

Isso foi necessário por dois fatores, principalmente. A natureza de uma temporada tão estranha quanto essa, com jogos aglomerados, sem torcida, quase sem pré-temporada. E porque a pressão do City foi horrorosa ano passado – a polêmica escalação para enfrentar o Lyon refletiu justamente a preocupação em levar contra-ataques. Novos jogadores foram incorporados ao time, dois novos zagueiros, todos mais jovens, e a pressão seguiu horrorosa no começo desta temporada. Guardiola percebeu que era a hora de mudar um pouco.

A capacidade de defender dessa maneira com competência acabou sendo muito importante nesse duelo. O forte do Paris Saint-Germain é a transição rápida, mas por que o Manchester City, com vantagem no placar, daria essa transição ao adversário de graça? Em Paris, já havia conseguido moderar a pressão quando se viu em apuros na primeira meia hora. Estancou a sangria e virou o jogo. Nesta terça-feira, colocou a linha defensiva muitas vezes na intermediária, às vezes avançou, às vezes recuou, e soube matar o jogo no contra-ataque.

O City chegará à final da Champions League como favorito, contra Real Madrid ou Chelsea, e o mais assustador é que ainda parece um time no início de um ciclo, com muitos jogadores jovens, ainda sem um atacante titular e disposto a abrir mão de Raheem Sterling, outro dia um de seus melhores atacantes. Isso tudo é fruto de talvez o melhor trabalho de Guardiola. Sob circunstâncias difíceis, com bom material humano, mas não fenomenal, conseguiu trocar o pneu com o carro andando para emplacar mais uma sequência irresistível na Premier League, definir uma briga pelo título que parecia aberta a todo mundo e colocar o seu clube em sua primeira final de Champions.

Dizer que é sinal de amadurecimento é um pouco complicado porque implica que as eliminações anteriores foram erros de um jovem imprudente, e não é bem o caso. Houve erros, houve momentos em que o time não estava pronto, houve momentos em que as coisas simplesmente não deram certo. É sempre assim no futebol, mas, se você é tão bom quanto Guardiola, e sempre está em clubes com recursos vastos como ele, há um limite para quanto tempo pode ficar fora do maior jogo do futebol europeu. O exílio de Guardiola, enfim, terminou.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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