Champions League

Dez anos atrás, Inzaghi decidiu, e o Milan teve a sua revanche contra o Liverpool

Por Bruno Bonsanti

Vingança é um prato que se come cru, ou frio, depende de quem diz o ditado, mas o Milan deve ter se deliciado com a final da Champions League de 2007. Apenas dois anos depois de Istambul, quando os italianos abriram 3 a 0 no primeiro tempo, levaram o empate no segundo e perderam o título europeu nos pênaltis, o adversário era novamente o Liverpool, e desta vez a taça não escapou, graças a um show de oportunismo de Pippo Inzaghi, autor dos dois gols da vitória por 2 a 1, em Atenas.

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O Milan não quis entrar no papo da vingança antes da partida. Todos os remanescentes recusaram-se a encará-la dessa maneira. E eram muitos: Dida, Nesta, Maldini, Gattuso, Pirlo, Seedorf e Kaká foram titulares nas duas finais. Os brasileiros Cafu e Serginho jogaram em Istambul, mas ficaram no banco de reservas na Grécia. “Não gosto de falar sobre vingar  a derrota do passado. Vamos jogar deixando para trás as memórias do passado. É uma história diferente”, afirmou o técnico Carlo Ancelotti, o mesmo de 2005, um dia antes do cotejo.

Mas era humanamente impossível que as lembranças de Istambul não estivessem vívidas na cabeça dos jogadores – e dos torcedores – do Milan. Uma derrota daquelas não se esquece tão rapidamente, se é que é possível esquecê-la. Basta pegar como exemplo o depoimento de Gattuso para o canal de TV do Milan, segundo o New York Times: “Na manhã depois de Istambul, eu não estava apresentável. Meus olhos estavam inchados. Eu não dormi muito. A amargura ficou. Perder uma final pode acontecer. Mas não daquele jeito”.

O Milan era levemente menos poderoso em 2007. Não contava mais com Shevchenko e Crespo no ataque, nem com tanta vitalidade de Cafu, dois anos mais velho, pela direita. O lateral brasileiro, em sua penúltima temporada como profissional, havia disputado apenas 28 partidas como titular antes da decisão de Atenas, da qual não participou um minuto sequer. Stam também já havia ido embora, deslocando Maldini para o centro da zaga, ao lado de Nesta. Os laterais foram Oddo e Jankulovski. Ambrosini compôs um meio-campo mais marcador, e Kaká foi adiantado para o ataque, ao lado de Inzaghi.

O Liverpool era levemente mais poderoso em 2007. Reina foi titular no lugar de Dudek. Mascherano fazia dupla de volantes com Xabi Alonso, liberando um mais maduro Steven Gerrard para encostar no centroavante Dirk Kuyt, ocupando o lugar de Milan Baros. Os extremos foram Jermaine Pennant – naquela época, ainda um promissor jogador inglês – e Boudewijn Zenden, em vez de Luis Garcia e Riise, de volta à lateral esquerda.

Na trajetória rumo à decisão, o Liverpool eliminou o atual campeão Barcelona, com direito a vitória por 2 a 1 no Camp Nou, atropelou o PSV e, na semifinal, venceu um nervoso duelo contra o Chelsea, nos pênaltis. O Milan precisou de um gol de Kaká na prorrogação da partida de volta para sair do 0 a 0 com o Celtic, derrotou o Bayern, em Munique, e passou o trator no Manchester United no San Siro. Duas campanhas de muito respeito, que apenas davam mais expectativa para a decisão de Atenas.

Tanto que milhares de torcedores foram à capital grega mesmo sem ingresso, o que causou uma bela confusão. A polícia local prendeu 97 pessoas por portarem ou venderem bilhetes falsos, que estavam custando mais de € 5 mil no mercado negro. A Uefa culpou os torcedores do Liverpool, muitos dos quais, segundo ela, compraram ingressos falsos em sites não-oficiais e entraram no estádio, até mesmo deixando de fora pessoas que haviam adquirido bilhetes legalmente. “Infelizmente, algumas pessoas que não deveriam estar lá conseguiram pular as barreiras e entraram no estádio. Por isso, tivemos superlotação no setor do Liverpool”, explicou o então chefe de comunicações da entidade europeia, William Gaillard. Segundo outros relatos, a fiscalização era fraquíssima e bastava mostrar algo parecido com um bilhete azul para passar pelas catracas.

Interlúdio para um caso curioso: no meio desse caos todo dos bilhetes, Pennant havia deixado “três ou quatro ingressos” para a família na bilheteria do Estádio Olímpico, mas eles não estavam lá quando seu tio apareceu para recolhê-los. O problema foi anunciado pelos alto-falantes, enquanto a partida estava rolando. “Eu ouvi e fiquei completamente estupefato. Eles esperavam que eu saísse de campo para resolver isso? Essa é uma parte incrível da história. Sai da prisão, assinei pelo Liverpool e joguei uma final de Champions League um ano depois”, contou, ao The Times, o jogador que foi preso por dirigir bêbado, em 2005, quando estava emprestado ao Birmingham.

Pennant teve a primeira chance. Tabelou com Kuyt e chutou cruzado, para boa defesa de Dida. Kaká respondeu com uma finalização de fora da área, sem problemas para Reina. Xabi Alonso, também de longe, mandou próximo à trave direita do goleiro brasileiro. O Liverpool chegou mais duas vezes com arremates longos, de Gerrard e Riise, mas quem abriu o placar foi o Milan: Pirlo cobrou falta direto para o gol, e Inzaghi apareceu no meio do caminho para desviar com o rosto. Foi seu sexto tento naquela Champions e apenas o décimo da temporada.

No segundo tempo, Gerrard perdeu uma chance de ouro de empatar. Entrou na área, após uma boa jogada individual, e ficou cara a cara com Dida. Mas bateu fraco, sem problemas para o brasileiro defender. O castigo veio em seguida: Kaká achou um lindo passe para Inzaghi, que driblou Reina e ampliou. O Liverpool ainda diminuiu, em cobrança de escanteio. Agger desviou, e Kuyt completou às redes. Mas já eram os 44 minutos do segundo tempo e não havia mais tempo para outra virada histórica.

“Havia o desejo de vencer este troféu novamente (como em 2003), o que poderíamos ter feito dois anos antes. Foi um grande sentimento e muita alegria e nos ajudou a esquecer aquele jogo ruim de dois anos antes. E merecíamos isso”, afirmou Pirlo.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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