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Cristiano x Tevez: a personalidade que subverte o herói ideal e torna o futebol mais real

O futebol é um jogo, claro, mas também é muito mais do que isso. Para quem se encanta com os detalhes, é uma narrativa fantástica. Porque cada partida em si pode ser uma boa história. Basta perceber que muitos dos elementos de um conto se repetem ao longo dos 90 minutos, escritos naturalmente por pernas e destinos cruzados. Há o herói, o objeto mágico, o clímax e tantos outros artifícios usados pelos contadores de histórias ao longo dos séculos. E, ainda bem, o futebol não é um mero filme de Sessão da Tarde. Muitos de seus protagonistas têm personalidades complexas, quase machadianas. O que dá ainda mais cor aos feitos de seus pés. Como Cristiano Ronaldo e Carlitos Tevez.

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Talvez o melhor caminho para se comparar aos heróis dos gramados está nos quadrinhos. Não sei vocês, mas eu nunca fui muito fã do Super-Homem. Todos os superpoderes possíveis, a capa vermelha exuberante e quase nada que o derrote. Insosso. Tanto que precisaram inventar uma pedra verde para finalmente terem um argumento de sua fraqueza. Prefiro o Homem-Aranha, e toda a humanidade que o circunda, o senso de humor. O Batman, com seu ar sombrio. Ou o Demolidor, a noção de justiça e os próprios conflitos de personalidade. Para ser herói, não é preciso ser bom moço sempre. De novo, como Cristiano Ronaldo e Tevez.

Em tempos nos quais as assessorias pasteurizam jogadores de futebol, especialmente os de fama mundial, a dupla possui personalidades latentes. Dá até para se questionar uma ou outra postura. Mas deixa pra lá. Nem vale a pena, diante de tudo o que jogam. Diante da face que mostram, raríssimo em tantos outros craques. As atitudes em campo não são orquestradas junto a ONG’s, mas claramente espontâneas por todas as emoções ao redor. E de jeitos diferentes. Cada qual com o seu pecado.

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Cristiano Ronaldo é o herói apolíneo. Seu futebol é medida estética que busca a perfeição, cada lance medido ao esquadro e ao compasso. A potência do chute, a velocidade das arrancadas, os saltos: tudo elevado à potência máxima. É o atleta ideal com uma capacidade física à frente de seu tempo. Mas o perfeccionismo, em si, não é perfeito. E o camisa 7 desliza no “pecado” da vaidade, do orgulho excessivo. Parecer incomodado com o gol de um companheiro, de fato, não é boa mídia para si. Mas quem pode apontar o dedo por querer ser o melhor em um esporte competitivo? Ele só expõe o que todos querem, de uma maneira que até pode ser exagerada, mas sem os rodopios das assessorias. A verdade que lateja em carne, que também o torna tão bom no que faz. Se CR7 chegou a um patamar tão alto, é por causa dessa vontade em querer ser o primeiro.

Já Tevez é o herói dionisíaco. Seu prazer não está exatamente na forma. Vive a realidade crua, por mais dura que seja, e não quer esquecê-la. Driblou o destino, driblou a própria imagem, driblou os preconceitos. O que não o torna menor do que os outros, pelo contrário. Sua alegria está no gol e na exaltação de suas origens. É a autenticidade que um futebol moderno cada vez mais quer esquecer. O argentino não precisa ostentar para “meter a mala”, ele espezinha pela própria maneira como relembra a cada lance o passado torto, de quem provavelmente estaria condenado à miséria. E o seu “pecado” está na ira como age, rasgando manuais. A cartilha do politicamente correto condena o jogador que provoca os rivais imitando uma galinha. Tevez o fez, duas vezes, e mesmo distante da torcida que o ama. Para ganhar ainda mais admiração dos seus companheiros de cancha no Forte Apache – que, na verdade, é toda a Argentina e todas as periferias do mundo transfiguradas em si.

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Cada qual a sua maneira, Cristiano Ronaldo e Tevez subvertem a imagem do herói no futebol. Você gostar de um e não gostar de outro é normal, do jogo. Afinal, Cristiano e Tevez caminham em linhas temporais diferentes. Enquanto um se aproxima do futuro do futebol e da imagem do esporte, outro se mantém apegado às raízes de um jogo que parece relegado a outrora. Ou mesmo que desaprove os dois: o que não dá para negar é a magia que eles trazem ao futebol. Por seus lances, mas também seus pecados, motivos de ódio ou de paixão. Pena que, na esterilização das marcas, os desvios sejam tão raros. Fica cada vez mais difícil notar a luxúria de um George Best, a ira de um Edmundo, os sete pecados capitais de um Adriano Imperador.

Durante algum tempo, Cristiano Ronaldo e Tevez dividiram o mesmo campo. Curiosamente, sob a insígnia do Red Devil do Manchester United. Conquistaram muitos títulos, mas com o português sem ser a máquina que se transformou hoje em dia, e o argentino como um coadjuvante de luxo. O reencontro acontece nesta terça, quando ambos os heróis medem suas forças nas semifinais da Liga dos Campeões. Para que só um conte a história até o fim, na decisão em Berlim. E a certeza é de que, na naturalidade e na habilidade de ambos, a narrativa fantástica já estará garantida. O futebol precisa de mais demônios, de menos querubins.

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Equipe Trivela

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