Champions League

Como Benfica x Dortmund revisita lembranças de infância e traz um retrato da globalização

Por Leandro Stein

Poucas torcidas europeias possuem uma reputação tão grande quanto as de Benfica e Borussia Dortmund. O duelo pelas oitavas de final da Liga dos Campeões também acontecerá nas arquibancadas. Basta ver as cenas que encarnados e aurinegros protagonizaram nos últimos anos – inclusive, fora de casa, com os portugueses abafando os torcedores do Bayern de Munique em plena Allianz Arena e os alemães proporcionando um momento único ao lado dos fãs do Liverpool em Anfield. Desta vez, será um contra o outro. E, por caminhos opostos, haverá aqueles que sentirão o impacto dentro de campo.

No fim das contas, o confronto que começa nesta terça traz um retrato da globalização. Raphaël Guerreiro nasceu na França e defende o Borussia Dortmund. Porém, filho de um imigrante português e de uma francesa, nunca escondeu seu coração benfiquista. Já Kostas Mitroglou nasceu na Grécia e é uma das referências ofensivas do Benfica. Mas, muito antes de chegar a Portugal, migrou na infância para a Alemanha e cresceu em uma cidade da Renânia do Norte-Vestfália, a apenas 70 quilômetros do Signal Iduna Park.

Guerreiro certamente sentirá uma emoção ímpar ao pisar no gramado do Estádio da Luz. Sua paixão nasceu graças ao pai, encarnado convicto. Seus irmãos seguiram caminhos distintos, um virando torcedor do Porto e outro, do Sporting. Mas justamente aquele que se tornou jogador de seleção fez a alegria do progenitor. Formado pelo Caen, o lateral/meio-campista estourou no Lorient e, sem nunca defender um clube português, nunca teve dúvidas em defender a Seleção das Quinas. Já nesta temporada, após o sucesso na Eurocopa, foi vendido ao Dortmund.

Mesmo na Alemanha, Guerreiro declarou sua torcida pelo Benfica. “Sim, fui sempre adepto do Benfica e espero um dia poder jogar lá também. Vamos ver como é que a minha carreira vai decorrer, mas, neste momento, não é o meu objetivo. Quero fazer uma grande carreira e no futuro pode ser que sim, mas por agora não é uma preocupação”, declarou, em outubro. Inclusive, será o seu primeiro jogo oficial por clubes na terra de seu pai. Quando o Dortmund visitou o Sporting na fase de grupos da Champions, o lusitano não entrou em campo em Lisboa, lesionado. Agora, tem a chance de justamente atuar na Luz.

Do outro lado, Mitroglou nunca se declarou torcedor do Borussia Dortmund. Nascido em Kavala, na Grécia, o atacante deixou seu país ainda na infância. Junto com a família, se mudou para a cidade de Neukirchen-Vluyn. E não é de se duvidar que tenha sido influenciado pelos grandes times que os aurinegros montaram na virada do século – seja torcendo por eles ou secando. Quando já militava em categorias de base, o Dortmund conquistou o título da Bundesliga em 2001/02, seu último antes da chegada de Jürgen Klopp. Timaço protagonizado por Amoroso, Koller, Rosicky, Metzelder, Reuter, Lehmann, Ricken, Dedê, entre outros.

Em uma região ocupada por clubes notáveis, no entanto, Mitroglou só viu o Dortmund como rival em campo. Ganhou sua primeira grande chance no Duisburg, onde passou quatro anos até se transferir à base do Borussia Mönchengladbach. Pelos Potros, chegou a atuar no time B, mas sem ganhar uma oportunidade no elenco principal. Até ser pinçado pelo Olympiacos, estourando a partir de 2007. Pela segunda vez voltará à Renânia do Norte-Vestfália para enfrentar um clube como profissional, depois de ter encarado o Schalke 04 pela Champions em 2012.

Histórias cruzadas que podem dizer pouco sobre o jogo em si, mas conseguem trazer um contexto muito maior. Demonstram o cenário de uma Europa na qual as fronteiras se diluíram. E também a representatividade de dois grandes clubes, que se fazem ainda maiores pela maneira como influenciam tanta gente. Guerreiro e Mitroglou provavelmente mergulharão nas lembranças de suas infâncias nos próximos dias.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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